segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Aparece em primeiro plano o traçado da linha férrea que segue para a cidade de Morretes e Paranaguá. Ao centro se destaca a Igreja Nossa Senhora da Boa Esperança no atual município de Pinhais. No canto inferior esquerdo aparece a vila dos ferroviários

 Aparece em primeiro plano o traçado da linha férrea que segue para a cidade de Morretes e Paranaguá. Ao centro se destaca a Igreja Nossa Senhora da Boa Esperança no atual município de Pinhais. No canto inferior esquerdo aparece a vila dos ferroviários


Edificio onde funcionou o Palacio do Governo na Rua Barao do Rio Branco. Na porta principal aparece uma pessoa sentada e na calcada frente a porta duas pessoas fardadas, atual Museu da Imagem e do Som [MIS]

 Edificio onde funcionou o Palacio do Governo na Rua Barao do Rio Branco. Na porta principal aparece uma pessoa sentada e na calcada frente a porta duas pessoas fardadas, atual Museu da Imagem e do Som [MIS]


1913 Encontro do "Moto Club Ponta Grossa". Veem-se três automóveis e nove motos antigos, bicicletas motorizadas com seus pilotos e acompanhantes. Ao centro, barris de cerveja. Entre outros, aparecem [da dta. p/ esq.]: Paulo Lange [o 5º] e Ricardo Kossatz [o 7º]

 1913 Encontro do "Moto Club Ponta Grossa". Veem-se três automóveis e nove motos antigos, bicicletas motorizadas com seus pilotos e acompanhantes. Ao centro, barris de cerveja. Entre outros, aparecem [da dta. p/ esq.]: Paulo Lange [o 5º] e Ricardo Kossatz [o 7º]


praca Garibaldi,ao centro antigo quiosque da Sociedade Garibaldi, ao fundo uma casa de Dona Ema ... e a sede da Sociedade Garibaldi

 praca Garibaldi,ao centro antigo quiosque da Sociedade Garibaldi, ao fundo uma casa de Dona Ema ... e a sede da Sociedade Garibaldi


Hoje está tudo mudado. Mas a praia charme do Estado era Matinhos, a namoradinha do Paraná. O quente da temporada era no mês de julho, onde a " polacada" fugia do frio e da geada. Caiobá era um desastre.

 Hoje está tudo mudado.
Mas a praia charme do Estado era Matinhos, a namoradinha do Paraná. O quente da temporada era no mês de julho, onde a " polacada" fugia do frio e da geada.
Caiobá era um desastre.
Histórias de Curitiba - Férias de curitibano


Férias de curitibano
Gilberto Felipe Daher

Hoje está tudo mudado.
Mas a praia charme do Estado era Matinhos, a namoradinha do Paraná. O quente da temporada era no mês de julho, onde a " polacada" fugia do frio e da geada.
Caiobá era um desastre.
Meia duzia de casas e um paredão de pedra na Praia Mansa dava o nome de praia dos mortos vivos.
Ali no começo da Alameda Cabral, ao lado do Bar Stuart, partiam os confortáveis ônibus "Pulmann" da Sulamericana.
Tinham o nr. 01, nr. 02 e o nr. 03.
Conheciam-se os motoristas pelo nome . Na realidade, eles eram verdadeiros heróis.
Seus Fe-nemês, com caixa sêca e sem hidráulica, deslizavam pelos paralelepipidos da Estrada da Graciosa, levando consigo a alegria de muitos curitibanos que iam passar suas férias na alegre Matinhos.
No alto da serra, uma parada para a mijadinha.
Como não existiam lanchonetes sofisticadas, a parada era uma barraca improvisada que vendia caldo de cana e possuia uma nascente ao lado.
Mas as mães não se descuidavam.
Como a viagem durava quase seis horas em média, levávamos famosos ovos cozidos, com frango assado, bolo de fubá e outras iguarias.
Os motoristas tinham que cronometrar o horário <la maré alta, pois parte do caminho era feito pelas areias, a partir tl.i Praia de Leste.
A chegada em Matinhos era uma festa em que só laltava banda de música.
Além dos veranistas, os ônibus transportavam provisões para as famílias airilibanas que já estavam por lá, l atas de leite ninho, garrafas de leite da colônia que eram compradas em Santa Felicidade e previamente fervido para aguentar a viagem, cai xas de galinhas vivas, entre outros. O ônibus também trazia notícias da cidade que eram divul gadas de boca a boca
A tanga não existia e a moçada contentava se cm aprei i.u as donzelas com seus elegantes maiôs que cobriam tudo, () maior sucesso foi quando uma moça de São Paulo apareceu por lá com um maiô de duas peças Matinhos vi
rou celebridade.
A paquera dos curitibanos na praia era feita de uma forma bem diferente, na rêde de voley do seu Anônio, um pontagrossense apaixonado pelo esporte.
Mas o voley era secundário naquelas alturas do campeonato, principalmente quando se faziam equipes mistas.
Grande parte das famílias de muitos curitibanos foi concebida naquela rêde, dentre os quais Milton e Janete, Maria de Lurdes e Manoel, Elizabeth e Pingo, Marcos e Tânia e muito mais.
Algumas características de Matinhos eram marcantes.
Carros existiam muito poucos.
Somente aqueles que conseguiam descer a Serra da Graciosa.
Para subir eram outros quinhentos.
Luz só tinha duas vezes por dia, das 09, às 11 h. e das 18 às 2 horas.
Os roteiros eram quase sagrados. O footting na pracinha só começava após as beatas terminarem suas novenas na lgraja da Praça.
As moças passeavam ao meio da Rua Principal e os rapazes ficavam encostados nas paredes das casas.
Diariamente funcionava o
boliche e o restaurante do Lafite, bem no local que hoje está o parque de diversões.
Ali era o pon-to-quente da temporada.
Existia uma radiola Hi-Fi, onde suas válvulas brilhavam mais do que noite de céu estralado e uma máquina de fazer pipoca. O assoalho era bem encerado para receber os pés-de-valsa que lá chegavam todas as noites, para dançar ao som de Ray-Coniff, Lucio Gatica, Roberto Yanês.
Muitas mocinhas tinham de mentir para os pais, para não perder nem um pouco do baile do Lafite.
Mas o respeito se fazia presente. O salão era mais iluminado do que um estádio de futebol à noite em dia de clássico.
As moças tomavam Crush e os rapazes Cuba-Libre de preferência. A distância era regulamentada pela distância de dois palmos.
Os gorrinhos de lã e o cachecol eram acessórios importantes do vestuário.
E a noite fluia animando a todos.
Porém, como na história da Cinderela, à meia-noite os corações se separavam e seguiam rapidamente para as suas casas.
Quem passasse deste horário só chegava em casa com a ajuda de uma lanterninha a pilha que à noite comumunte se carregava no bolso.
A Companhia Força e Luz do Paraná era implacável: desligava os geradores termo-elétricos e com eles o sonho de mais uma noite maravilhosa dos curitibanos em Matinhos.

Gilberto Felipe Daher é engenheiro.

Histórias de Curitiba - O Campinho da "Veia"

 

Histórias de Curitiba - O Campinho da "Veia"

O Campinho da "Veia"
Jorge Eduardo Mosquera

Quando Mauro Ramos de Oliveira repetiu no Chile o gesto de Bellini, e ergueu a "Jules Rimet"para o planeta reverenciar o escrete canarinho, bicampeão mundial naquele 1962, o melhor futebol do mundo era jogado num terreno baldio, na Rua Dr. Faivre, lá belas bandas do Cículo Militar, entre a casa dos Pirilima e a residência de um militar (militar não mora, reside). Era lá que a pi-azada do bairro exercitava sua arte com requinte, e por lá passaram pelo menos tres gerações de craques.
Craques injustiçados, diga-se, pois apenas o Gil seguiu carreira e chegou a reserva do goleiro Rogério, no time juvenil do Coritiba.
Nosso Maracanã tinha seu campo de jogo espremido entre dois muros (o do major era coberto de cacos de vidro), o que nos permitia e recurso da finta com tabelinha.
Lateral, só quando a bola caía no terreno do vizinho.
Atrás do gol da Dr. Faivre havia um imenso matagal, onde se recolhia munição de mamona para as sangrentas batalhas de es-tilinge.
Mas o gol mais famoso -como o de entrada do Couto Pereira, e do Ginásio, na antiga Baixada, ou o da concha acústica, na Vila Capanema - era do outro lado.
Atrás dele ficava a casa de dona Ana (na General Carneiro, quase junto do Hospital de Clínicas); uma germânica afável nas horas vagas, mas de prusiana irritação quando havia jogo.
Musa forçada, foi ela a madrinha do nosso estádio.
"Campinho da Véia", tascou o Ronald num dia qualquer de muitos anos atrás (seriam mais de 30?). É engraçado.
Em toda cidade brasileira há um terreno baldio e atrás de todo terreno baldio mora uma velhinha simpática cuja tortura diária é ouvir inocentes palavrões e ter a vidraça quebrada por um torpedo desferido por um candidato a Jair da Rosa Pinto.
Sua doce vingança é apoderar-se da redonda e, com a faca de destrinchar frango, deixá-la em frangalhos.
No "Campinho da Véia"era assim, mas nossa convivência tomou como cúmplices de uma relação de amor e ódio.
Nosso ódio por causa da bola que vez por outra visitava sua casa sem ser convidada. O amor recíproco, nos (raros) momentos de trégua:
- "Bom diá, dona Ana, como vai a senhora?"
- "Bom dia, meu filho. Dê lembranças à sua mãe".
E justiça seja feita: dona Ana nunca levou seus lamentos às vizinhas, mães daqueles craques de joelhos ralados. Hávia entre nós um acordo tácito de resolvermos nossas pendengas sem envolver pessoas alheias ao nosso universo.
Já marmanjos de barba na cara, primeiro emprego, cigarro Hollywood, Cuba Libre e boati-nhas de diretório acadêmico, mantínhamos as peladas aos sábados, como um compromisso histórico de nunca abrirmos mão de nossa referência.
Estávamos a caminho da idade adulta, dona Ana envelhecia com altivez, havia outras coisas a descobrir.
Mas o "Campinho da Véia", cada vez menor debaixo de nossos pés, era
nossa ligação com o passado.
Nosso inimigo instalou-se ao lado da casa de dona Ana, na forma de uma faculdade de economia. O militar vendeu sua casa e , pouco tempo depois, o dono do terreno onde havíamos erguido
o "Campinho"negociou-o com a tal faculdade, sem resistir.
Aliás, quem será esse latifundiário que por anos incontáveis nos permitiu ser Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho?
Dona Ana morreu faz tempo, livrou-se de nós e muitos choramos a ida de nossa algoz, que foi sem se despedir. O "Cam-pinho da Véia" é hoje o estacionamento da faculdade e nada ali provoca o não-iniciado viajar no tempo e lembrar nosso cotidiano exercício de correr atrás da bola e marcar um gol de placa, expirando com força para imitar o grito da torcida inexistente. Há fotos e alguns encontros esporádicos para recordarmos o "Campinho da Véia". Mas na verdade ele está onde sempre esteve - suas ondulações, buracos, touceiras de capim, as traves e a bola imortal o que já era, pois ali repousa à nossa espera, em qualquer tempo, nossa verdadeira matéria de sonhos.

Jorge Eduardo Mosquera é jornalista.

Um dia, descendo a Vicente Machado, levei um grande susto. Estavam demolindo o antigo Colégio Belmiro César. Um filme passou em minha memória, o que aumentou a revolta e mágoa diante do que estava acontecendo.

 Um dia, descendo a Vicente Machado, levei um grande susto.
Estavam demolindo o antigo Colégio Belmiro César.
Um filme passou em minha memória, o que aumentou a revolta e mágoa diante do que estava acontecendo.
Histórias de Curitiba - O Belmiro César


O Belmiro César
Vinicius Coelho

Um dia, descendo a Vicente Machado, levei um grande susto.
Estavam demolindo o antigo Colégio Belmiro César.
Um filme passou em minha memória, o que aumentou a revolta e mágoa diante do que estava acontecendo.
Uma empresa comprava imóvel e para evitar o tombamento colocava o prédio abaixo, mesmo sem aproveitar o terreno, o que até hoje ainda não aconteceu.
Peguei os jornais do dia, da semana e nenhum falou sobre o acontecimento.
Que tristeza, que falta de memória.
O Belmiro César teve importância fundamental na formação de gente da maior repre-sentatividade da Sociedade Paranaense.
Por ali passaram figuras como Jayme Canet, Geroldo Hau-er, Raul, Renato, Vladimir e ítalo Trombini, David e Berek Kriger, Luiz Affonso Camargo, Salomão Soifer, Tato Taborda, desembargadores Abrahão Miguel e Negi Calixto e mais uma lista infindável de grandes figuras.
Sua origem era a Escola Americana, fundada por missionárias dos EUA. Com a transferência de miss Ida Kholb para o Mackenzie, em São Paulo, o professor Luiz César adquiriu o Colégio e fundou o Belmiro na década de 30.
Excelente educador, tinha na família uma sustentação de estrutura, onde dona Maria o auxiliava e os filhos Marlus, Henrique (desembargador e hoje Corregedor da Justiça do Paraná), Cleuza e Milce figuravam no "Firme, Forte, Franco e Fiel"com presença marcante.
Tinha professores de alto gabarito na época, como o Scheil (matemática), Arthur Borges de Macedo (ciências), Bento Mossu-runga (música), Guido Viaro (desenho) que era o professor de melhor pontaria com um apagador, Ivete Durski (português) por quem me descobri apaixonado, mas verifiquei que toda classe era apaixonada por ela e "rompi"em dois dias, miss Sophia (inglês), Vidal Vanhoni (história), mais tarde deputado e secretário de Educação.
Gente de melhor qualidade, não esquecendo do professor Mon-drone, que dava educação Física e ficava com pena dos alunos às 6 da manhã com um frio de 2 graus e acabava abrandando a aula.
Um dia, um incidente aconteceu.
Incidente diplomático.
Dois filhos de Mr. Charles Fulton, um inglês que dava aulas em Curitiba, estudavam lá. E o Valmor Coelho, gênio da nossa turma e hoje um consagrado advogado, tomou conta de um recreio numa discussão com o mais velho dos Fulton.
Os dois não admitiam que eram brasileiros.
Nasceram aqui, mas foram registrados no consulado e portanto eram ingleses.
Valmor, mais nacionalista do que nunca, argumentava com sua verborragia vasta e sua inteligência incomum:
- "Vocês são brasileiros".
- "Não.
Somos ingleses".
A torcida era grande, o apoio ao Valmor era total. Só seii que acabaram dando uma gravata no empertigado britânico, que vendo o final da guerra, vencido pela força física e não entendendo a força verbal, ainda assim teve sua saída.
- "Vocês são, ou não são brasileiros?"...
- "Yes, sir".

Vinicius Coelho é jornalista.

Sigo pela Rua das Flores, em direção ao "Correio Velho". Na esquina, duas crianças cantam música sertaneja, acompanhadas de violão descorado. Esganiçam as vozes para emitar dupla famosa.

 Sigo pela Rua das Flores, em direção ao "Correio Velho".
Na esquina, duas crianças cantam música sertaneja, acompanhadas de violão descorado.
Esganiçam as vozes para emitar dupla famosa.
Histórias de Curitiba - Primeiros acordes


Primeiros acordes
Gabriel Kalinovski Filho

Sigo pela Rua das Flores, em direção ao "Correio Velho".
Na esquina, duas crianças cantam música sertaneja, acompanhadas de violão descorado.
Esganiçam as vozes para emitar dupla famosa.
Pessoas ao redor, admirando e às vezes até se emo-cioonando.
Após um quiosque, deparo com um cego tocando gaita. É uma velha sanfona com o fole remendado.
Teclas amarelecidas, mas o som ainda agradável.
Embevecido, executa a imortal "La Comparsita". Ele tem ouvintes habituais que lhe sugerem esta ou aquela composição.
Adiante, pessoas ao redor de um tipo original: chapéu, violão, folha de pessegueiro na boca a produzir sons fininhos...pé sobre pedal de geringonça que imita bateria, pandeiro e o "show"de graça para quem quiser.
Musicalidade à flor da pele, num repertório variado, aprendido de ouvido.
Na ladeira da Monsenhor Celso, um casal de deficientes canta; exageram na altura e en-rubecem para atingir as notas aguda: "Eu fiquei no Porto de Paranaguá". Depois, chamam "O Menino da Porteira". Dois clássicos populares.
Também ali curiosos fazem roda, na ponta dos pés.
Tem platéia para todos os gêneros e ritmos.
Sendo num banco da praça Santos Andrade, olho e chafariz, as flores, e no fundo majestoso Teatro Guaíra.
Recordo: estava em fase da construção quando aqui veio a Orquestra Sinfônica Brasileira, regida por Eleazar de Carvalho. O povo lotou aquelas dependências, sentando nos degraus de concreto empoeirados, entre tijolos, armações e tábuas.
Espetáculo i-nesquecível.
No programa: "Os Prelúdios", poema sinfônico de Franz Listz e um concerto para piano do mesmo autor. A solista era Joci Carvalho, mulher do maestro.
O grande público presente mal respirava, devido ao forte cheiro de cal, cimento, tijolos e materiais diversos.
Transcorria 1954.
Marcou aquela apresentação, a "bronca" que o regente deu num casal de retardatários.
Após rememorar o passado, fui ao Passeio Público.
As arapongas pareciam empostar a voz, tal o alarido que faziam.
Ninguém ao redor dos seus viveiros.
Seria desagrado pelo martelar incessante que elas emitem? Recordei Carlos Gomes: intercalou o canto dessa ave na 'Alvorada"da ópera "O Escravo", conseguindo um efeito original.
Somente ao ouvir o bi-gornear dessas aves me ocorreu que esse trecho fez parte do programa apresentado naquela noite, no então, inacabado Guaíra. Lá se vão trinta e oito anos...

Gabriel Kalinovski Filho faz parte de um grupo de escritores amadores.

Tem chuva para tudo que é gosto, e não poucas, aliás, causam desgosto. Tem a chuva-chuva, essa comum que molha tudo o que fica embaixo sem a devida proteção. Histórias de Curitiba - Chuva de chocolate

 Tem chuva para tudo que é gosto, e não poucas, aliás, causam desgosto.
Tem a chuva-chuva, essa comum que molha tudo o que fica embaixo sem a devida proteção.
Histórias de Curitiba - Chuva de chocolate


Chuva de chocolate
Inez Regina Klas

Tem chuva para tudo que é gosto, e não poucas, aliás, causam desgosto.
Tem a chuva-chuva, essa comum que molha tudo o que fica embaixo sem a devida proteção.
Tem a chuva de pedra, que pode causar estragos enormes nas plantações, dói nos cocorutos descobertos e, dependendo do tamanho, até amassa capôs de carros e quebra telhas.
Tem a chuva de cântaros - cântaros? - e de canivetes, que não corta e nem fere mas é a ideal para alagar aquelas ruas de bueiros abandonados pela Prefeitura.
De todas essas chuvas tem em tudo que é lugar, num mais noutros menos, mas tem. Só em Curitiba, porém já teve um tipo de chuva muito especial: chuva chocolate.
Foi entre os anos 50 e 60, anos de minha infância. Já naquela época, Curitiba era reconhecida como cidade-laboratório do Brasil, com uma população conservadora, mas exigente.
Por isso mesmo, inúmeros lançamentos de produtos eram primeiro testados aqui, antes de ganharem os mercados de outras cidades brasileiras.
Se reprovados pelos curitibanos, esses novos produtos ou eram alterados ou iam para o lixo.
A Kibon estava lançando por aquela época um novo piruli-to de chocolate (cá entre nós, uma delícia), os chicletes de hortelã e o chocolate "Bamba". E escolheu, é claro, Curitiba para os testes.
O mais curioso é que se tratava literalmente de "lançamentos". Como a cidade ainda era pequena e pacata, a Kibon alugava um avião teco-teco que sobrevoava o centro e principais bairros despejando quilos e mais quilos de guloseimas.
Era marcado o dia (geralmente um domingo) e a hora para a distribuição, colocavam cartazes pela cidade e à criançada restava contar nervosamente nos dedos os dias que faltavam para a chuva de chocolate.
Meu avô morava no centro, na Augusto Stellfeld, então uma ruazinha arborizada, tranqüila e estreita. Éramos seis netos, mas nossa inquietação valia por milhares, quando, após o almoço em família, íamos para a rua, o-Ihos fixos no céu à espreita do primeiro teco-teco. À hora programada, o ronco do motor anunciava a presença próxima do pequeno avião.
Então, como num sonho, lá vinha aquela chuva de doces.
Uma vez lançados os doces, era aquela debanda geral, um corre-corre pelas ruas, gritaria de "achei mais um", risos de incontida satisfação.
Nesta hora não existiam diferenças de vizinhos nem rixas infantis.
Formava-se um grupo homogêneo na disputa aos doces, verdadeiras expedições de caça aos tesouros retidos nas copas de árvores, nos telhados. Não sobrava um.
Depois da "limpa", suor escorrendo, a gurizada sentava no meio fio para contar a aquisição e descobrir o campeão do dia.
Hoje, lembrando essa inusitada chuva de guloseimas de 30 e poucos anos atrás, não resisto à exclamação fácil: "bons tempos aqueles!". Menos pela comilança dos doces, e mais, muito mais pela alegria de correr atrás deles.

Inez Regina Klas é bacharel em direito. (Texto Final: Pedro Franco Cruz.)

Histórias de Curitiba - Lembranças de D. Flora

 

Histórias de Curitiba - Lembranças de D. Flora

Lembranças de D. Flora
Flora Munhoz da Rocha

Fugindo de Curitiba: Coisa divertida é ver carioca padecer de frio em Curitiba.
Penalizei-me com o drama de minha cozinheira Izabel, mulata de pouco pescoço mas muito feliz de busto.
Num final de outono trouxe-a comigo do Rio de Janeiro.
Veio resoluta com toda sua bagagem e até a filha pequena.
Crioula de morro, de escola de samba, decidida, cheia de animação.
De início enfrentou de bom grado a cidade diferente, o clima diferente.
Ainda resistiu algumas semanas abafando-se dentro de casacos, meias, mantas -roupas que desconhecia.Mas de repente foi murchando de dar dó.
Enregelou-se definitivamente com nossas sucessivas geadas e apoderou-se dela o terror de nunca mais se recuperar.
Em completa ausência de felicidade, mal completava seus pensamentos curtos:
- "Estou doente, estou com dor de frio. Não me mande mais na rua, fico gelada até no casco da cabeça.
Chega a sair o bafo da alma pela boca". Em vez de trabalhar ficava encorufada, os braços cruzados sobre o peito e arregalados olhos suplicantes. Não reconhecia mais a Izabel assim de rosto apagado suportando sua dor de frio.
Assaltada pela desesperada saudade do mormaço carioca se erguendo do asfalto e invadindo todas as janelas, só tinha uma prece:
- "Mande-me embora. Não aguento, preciso sentir calor".
Debalde eu mostrava o ar puríssimo, o azul do céu como já mais havia visto.
O pior é que estragou o cachorro, guardião da casa. A noite, enrolava o cão num cobertor e o escondia debaixo da cama dela.
Se a gente protestava, ela também:
- " E pecado deixar o bicho gelar lá fora".
Pobre Izabel.
Mandei-a de volta, sim.
Quis sabê-la vivendo de novo devolvida ao seu chão quentinho de Copacabana.
"Double" de Copeira:
Em 1653 quando o Presidente Getúlio Vargas visitou o Paraná, Bento era o Governador.
Foi determinado que a comitiva presidencial seria recebida em nossa casa para aperitivos, antes do banquete oficial.
O serviço de drinques e acompanhamentos foi meticulosamente determinado e, cumprida minha parte, nossa filha Daisy ficou a postos para supervisionar tudo, afim de evitar qualquer incorreção ou sanar algum imprevisto.
E o imprevisto aconteceu. Lá dentro a coisa se complicava.
Bateu tremedeira em nossa empregada.
Apavorou-se com a responsabilidade e começou a choramingar.
Getúlio crescia como um bi-cho-papão e no momento de servir sumiu de vez.
Por mais que a chamassem não aparecia.
O crepúsculo virava a noite e nada dos drinques aparecerem.
Eu ali por fora do acontecido não despregava os olhos da porta por onde deveriam surgir as bandejas.
Mas, "oh, espanto!" quando vejo despontar seguindo o garçom a minha própria filha Daisy, uniformizada de copeira sustentando a bandeja dos canapés.
Eu a via transformada.
Vestira roupa escura, avental rendado, sapato de verniz. O rosto livre do mais leve vestígio de maquiagem, o cabelo esticado em rabo de cavalo.
Seus dezoito anos enfrentavam a situação e prosseguia inclinando-se um pouco para frente ao apresentar sua bandeja.
Mas quando se acercou do pai e ficaram frente-a-frente ele se mostrou de tal maneira surpreendido que uma frase iniciada ficou abruptamente interrompida.
No final, quando nos dirigimos para os carros e a entrevi entregando os agasalhos, minha mão se ergueu em sua direção numa espécie de benção.
Mais tarde nós a veríamos na festa que se seguiu ao banquete, já no seu cintilante vestido branco.

Flora Munhoz da Rocha foi primeira-dama do estado do Paraná.