quarta-feira, 6 de setembro de 2023

78 ANOS DE MONTESE: BATALHA FOI SANGRENTA E TEVE ATÉ SNIPER DERRUBADO POR BRASILEIRO

 78 ANOS DE MONTESE: BATALHA FOI SANGRENTA E TEVE ATÉ SNIPER DERRUBADO POR BRASILEIRO


Montese 1Dia 14 de abril de 1945. Desde 21 de fevereiro, quando caiu Monte Castelo, os brasileiros vinham avançando em terras italianas. O Comando Aliado dera ordem da Ofensiva de Primavera para espantar de vez os alemães do Norte da Itália. O primeiro dia da operação era justamente esse dia, 14 de abril e os brasileiros ficariam com a missão de capturar Montese.

O pedido, segundo o Oficial de Ligação S3 da FEB, Adhemar Rivermar de Almeida, foi um pedido do próprio comandante da FEB, General Mascarenhas de Moraes, que se adiantou ao comando da 10ª Divisão de Montanha e pediu a missão ao general Mark Clarck, do V Exército. Atendendo ao pedido, as tropas brasileiras foram postas nas proximidades da cidadela com traços medievais.

Segundo o tenente alemão, Heinrich Boucsen, da 232ª Divisão de Infantaria, ali ficaram as peças de artilharia e carros de combate por alguns meses. O ataque brasileiro à Montese já era esperado na véspera, no dia 13, quando dois observadores brasileiros teriam sido mortos por snipers alemães, perto do cemitério da cidade. Um partigiani, da Resistência teria conseguido escapar. As informações estão no livro pró-alemão do escritor William Waack.

Vai começar

Montese 3A missão do primeiro dia era tomar a linha Casone – Il Cerro – Possessione – Cota 745. A movimentação brasileira começou às 10h15. Pela direita, partindo de Sassomolare, brasileiros da 6ª Companhia do 2º/1º Regimento de Infantaria tomaram Possessione. Creda e Pavarento, ao lado de Montese também caíram frente aos Pracinhas. Os alemães reagiram com três quartos de sua artilharia na região, conforme conta o historiador Dennison de Oliveira no documentário V de Vitória (em fase de edição).

Às 13h30 o ataque principal à cidade foi iniciado. A artilharia derrubou mais de 800 das 1.121 casas existentes na localidade, conforme dados da historiadora Carmen Lúcia Rigoni. O 3º e o 1º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria atacaram primeiro, assim que o fogo de artilharia cessou. Em Serreto, tanques americanos deram suporte aos infantes. A Artilharia entrou em ação de novo para calar a resistência alemã. Quando o relógio marcou 15h15 Serreto estava em posse dos brasileiros.

Em uma missão ao lado dos brasileiros, os americanos se batiam em Monte Buffone, que era mais alto que o Serreto. Os brasileiros começaram a levar tiros de Buffone também e não avançaram mais naquele lado do combate.  Desviando caminho e se aproveitando dos avanços iniciais da parte da manhã pelos lados de Possessione, entraram em Montese os brasileiros. Foram pegos 107 prisioneiros entre grande número de mortos inimigos. Ao final da jornada seriam contados 453 nazistas presos, entre eles o comandante em Montese. O número de mortos do inimigo se desconhece e quanto aos feridos não há dados.

E se eles voltarem?

Montese 4O medo dos Aliados era que os alemães tentassem um contra-ataque, como já ocorrera em outras ocasiões. Por isso o avanço foi interrompido e o General Mascarenhas no livro “A FEB pelo seu comandante” dá a entender que como os objetivos haviam sido atingidos parcialmente, pensavam em parar por ali mesmo, mas que os oficiais do 11º Regimento de Infantaria queriam continuar. Por isso, no dia 15 para Monte Buffone e dali não arredaram pé, expulsando os alemães e completando a missão que antes era dos americanos.

Porém, os tedescos se reorganizaram e em Montello e cota 758 resistiram aos brasileiros, que tentavam entrar cada vez mais nas linhas deles. Nas palavras de Mascarenhas de Moraes, na obra já citada, as defesas pareciam cada vez mais cerradas. Para rompê-las os brasileiros despejaram só no dia 15, 9.600 tiros de artilharia nos alemães. As baixas brasileiras já estavam altas, em torno de 130, entre mortos e feridos. Por isso o 11º Regimento de Infantaria começou a ser substituído de noite por batalhões do 6º Regimento de Infantaria. As posições brasileiras iam da cota 753 até a cota 913.

O flanco nordeste estava um pouco desprotegido porque os americanos não tinham avançado o necessário. A maior resistência alemã estava nas cotas 888 e 927, de onde não saíram antes da noite de 16 de abril, quando recuaram.

Montese estava revirada, com tiros para todo lado e morteiros explodindo em ruas e prédios, no meio dos escombros. “Um verdadeiro inferno”, escreveu Mascarenhas de Moraes. Reorganizar as linhas brasileiras era um desafio, pois a cada quadra as bombas caíam mais perto.

O 1º Regimento de Infantaria, no dia 16, entrou no lugar da 10ª Divisão de Montanha em Famaticcia e com isso os brasileiros e americanos resolveram o problema do flanco descoberto no Nordeste. O cerco estava fechado.

O começo do fim

Quando amanheceu o dia 17, o dispositivo brasileiro foi reajustado e no terceiro dia de batalha os alemães foram sendo expulsos de Montese de vez, rumo a Zocca. Os Engenheiros do 9º Batalhão e os homens do Esquadrão de Reconhecimento da FEB foram para a cidade, era hora de capturá-la por completo.

Batalhões do 11º Regimento de Infantaria foram junto, tiveram que verificar casa por casa, rua por rua aonde estavam os alemães. Campos minados eram muitos e tiveram que ser limpos ainda com morteiros inimigos caindo ao redor. Segundo Mascarenhas, somente o maciço de Montese recebeu mais tiros da Artilharia inimiga que o restante da frente do IV Corpo de Exército todo e olhe que o IV Corpo era formado por outras quatro divisões.

Dennison de Oliveira, na entrevista já citada, atribui esse grande número de fogos inimigos à uma leitura errada do Comando Alemão, que achou que Montese era o ataque principal, quando na verdade eram os americanos que estavam encarregados de ações principais, nas montanhas ao lado. Por isso a FEB teve bem mais dificuldades que os americanos, porque os nazistas destacaram mais tropas e mais artilharia para o setor brasileiro.

O fato é que só em Montese foram disparados 21.200 tiros de artilharia brasileiros. As baixas por unidade foram as seguintes, segundo Agostinho José Rodrigues, no livro “O Paraná na FEB”: o 11º Regimento de Infantaria teve 12 mortos, 224 feridos e sete extraviados; o 6º Regimento de Infantaria teve 14 mortos, 131 feridos e três extraviados e o 1º Regimento de Infantaria teve oito mortos e 22 feridos. Outras unidades juntas tiveram cinco feridos. O total geral de Montese foi de 426 baixas brasileiras.

Quem esteve lá conta que…

Montese 5Joel Silveira, correspondente de guerra, entrou na cidade no dia 17, com a batalha ainda acontecendo e diz que não dava para andar descoberto, pois corria-se o risco de ser alvejado por balas e estilhaços.

Heinrich Boucsen fala que muitos colegas alemães ficaram feridos em frente à cripta de Montese por conta dos bombardeios brasileiros. Ele fala ainda que os homens que ficaram para trás eram as tropas de proteção deles e que conseguiram salvar bastante material antes que os brasileiros chegassem. Mesmo assim, mais de 450 deles foram pegos vivos, fora outras dezenas de mortos, enterrados do lado de fora do cemitério de Montese.

Os autores italianos do livro “Dolore e libertá: fotografie della linea gótica”, Aniceto Antilopi e Adelfo Cecchelli mostram dados de Montese antes da guerra e de como a população civil sofreu. Contam que todos saíram das casas e tinham que escolher ir para o lado dos aliados ou dos alemães, não podendo voltar até a conquista da cidade. Para completar, os alemães tinham levado o que puderam de suprimentos já escassos que eles possuíam. No local em que hoje é a biblioteca de Montese, os alemães montaram uma feirinha de produtos roubados para venderem entre si. (falaremos mais desse caso em outra ocasião). Talvez por isso tenham sido enterrados do lado de fora do cemitério.

A Cia O tenente José Góes Xavier de Andrade, da 7ª Companhia do 6º Regimento de Infantaria, que saiu do Depósito de Pessoal para assumir o um grupo de combate em Montese, disse que seus homens, após o combate, sentaram-se como uma família e começaram a tirar sarro um do outro sobre os feitos na batalha. Um correu ligeiro, outro se desviou de balas… Góes Andrade escreveu isso no livro “Depoimento dos Oficiais da Reserva sobre a FEB”.

Três pequenas histórias de Montese

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Mário Müller, já depois da guerra, como sargento

O Cabo Mário Müller, de Curitiba, Paraná é o autor de um dos mais conhecidos causos de guerra, imortalizados nas palavras dos correspondentes Rubem Braga e Joel Silveira. Na limpeza da cidade, buscando os últimos focos de resistência, ele escutou alguém falando alemão em um porão. Pediu silêncio para os colegas que o acompanhavam. Em alemão teria dito que saíssem porque os brasileiros já tinham partido. Quando o grupo saiu, deram de cara com os homens de Müller e se entregaram. Na versão de Agostinho José Rodrigues, ele apenas falou em alemão para o grupo de sete tedescos se render e eles viram que estavam cercados e se entregaram.

Engenheiro faz prisioneiros! Isso foi o que mostrou o tenente Edson Giordano Medeiros. Ele era da Engenharia, limpava campos minados quando machucou a mão e ainda assim continuou. Lá pelo fim da tarde veio o tenente com um monte de prisioneiros, segundo Agostinho José Rodruiges em “Terceiro Batalhão, o Lapa Azul”, eram dezenas.  Na foto registrada aparecem cinco prisioneiros. Junto dele o mesmo Cabo Mário Müller. Agostinho, que também era tenente, bricou com o colega dizendo que fazer prisioneiros era papel da infantaria, “dos pés-de-poeira”. Edson respondeu:

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Tenente Edson na Itália-Ser macho não é privilégio de infante! – e seguiu seu caminho dando risada. Mário riu também, sem descuidar dos prisioneiros.

Em outro ponto, Manoel Antônio Fernandes, de Guarapuava, Paraná, estava com seus comandantes de Seção em uma garagem quando foram encurralados por um sniper. Segundo ele, um alemão cercar dez brasileiros era um desaforo, um vexame. Os tiros vinham de uma janela mais alta do outro lado da rua. Então, o soldado subiu no telhado das ruínas da casa em que se encontravam. Fez a mira com cuidado e o pessoal lá de baixo fez o atirador se mexer. Nessa hora ele acertou o alemão. “O podre coitado tombou na arma. E o pessoal saiu de lá”, disse ele contando para Agostinho José Rodrigues e outros oficiais o acontecido. Estava sem jeito em fazê-lo, pois, para ele era só uma missão.

O elogiaram bastante e disseram que ele era muito valente. “Valente nada. Aqui não tem valente. Todos procuram salvar sua pele. Se não mata, morre! (…) No front não tem macho”, disse já meio nervoso com os elogios, não queria exageros.

Depois de Montese, no final do mês, a FEB venceria a guerra na Itália, cercando toda uma divisão alemã. Mas, essa é outra história…

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Foto de Edson (soldado da direita) com os prisioneiros alemães

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AS ASAS NAZISTAS NO PARANÁ

 

AS ASAS NAZISTAS NO PARANÁ

nazismo Paraná

Reunião do Partido Nazista em Curitiba na década de 30. Crédito: Reprodução/Arquivo Público Estadual

A vida de Werner Hoffmann fora do Brasil é um livro em branco. Pouco se sabe sobre sua trajetória antes de chegar ao Paraná. Mas em pouco tempo de estadia nos territórios paranaenses, ele já se tornava uma figura emblemática, enérgica, controversa e polêmica, sobretudo nos meios germânicos. Nascido na Alemanha, em 21 de abril de 1909, ele chegou ao Brasil em 1932, com 23 anos de idade.

Inicialmente aparentava que teria uma vida normal. Arranjou emprego na loja “Casa Favorita”, em Curitiba. Não tardou, contudo, para que a sede e a fome pelo poder o cativassem. Passou a ser já no ano seguinte funcionário do Consulado Alemão de Curitiba. No mesmo ano, o jovem Werner assumiu ser um seguidor de Adolf Hitler e encabeçou a criação do Círculo Paranaense do Partido Nazista.

Werner levou uma vida dupla, aliando as atividades no Consulado e a direção do Partido Nazista, no período que vai de 1933 até final de 1938 e início de 39. Segundo o pesquisador e historiador Rafael Athaides, a maioria dos documentos da DOPS aponta que em 1939, ele teria saído definitivamente do Brasil pelo porto do Rio de Janeiro rumo à Alemanha. “Entretanto, uma nota da 5ª Região Militar, datada de 12 de dezembro de 1941, afirma que, após ser preso, Hoffmann teria despistado a polícia no início de 1939 e voltado a Curitiba para, logo em seguida, deixar a cidade e rumar à Argentina. Lá, Werner teria sido preso novamente, em julho de 1940, na cidade de Apóstoles, onde dirigia a Frente Alemã de Trabalho e administrava da usina elétrica local”, afirma Athaides.

Independente de qual foi o destino de Werner, a atividade desempenhada por ele deixou marcas e cicatrizes na sociedade. O seu protagonismo no meio alemão fez o Paraná ser o 5.º estado entre os maiores círculos nazistas no Brasil – atrás de Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. Além de Curitiba, o Partido chegou a possuir, pelo menos, nove ‘filiais’ formalmente estabelecidas no interior do Estado.

Essas filiais se estendiam por Ponta Grossa, Castro, Cruz Machado, Rio Negro, Londrina, Irati, Rolândia, Paranaguá e União da Vitória/Porto União (cidades fronteiriças que curiosamente dividiam um grupo local nazista, sediado na cidade catarinense, mas que se reportava às lideranças do Paraná).

AÇÃO BARULHENTA

Embora fossem poucos os filiados no Paraná (oficialmente por volta de 190), a ação dos militantes foi ‘barulhenta’, segundo Athaides. O número de filiados, de acordo com o pesquisador, não reflete o total de simpatizantes ao Nazismo, impossível de mensurar e questão polêmica dentro da historiografia.

 “Na tentativa de conquistar adeptos e de impor sua liderança, os nazistas se sentiram no direito de se portarem como administradores das entidades locais alemãs, mesmo que essas tivessem sua fundação no século XIX e carregassem toda uma tradição – alheia ao nazismo – de luta pela manutenção da cultura alemã no exterior”, explica o pesquisador e historiador.

Os jovens e empolgados nazistas tentaram passar por cima de toda essa tradição que data antes da existência do nazismo. Não só tentaram, como conseguiram. Para ter uma ideia, em meados da década de 1930, um Cônsul de carreira foi substituído por um ‘Cônsul nazificado’, depois de muita pressão dos militantes locais, conforme exemplifica Athaides.

Mas quem eram os apoiadores nazistas em terras paranaenses? Segundo o trabalho do pesquisador Rafael Athaides, que consta na obra “O Partido Nazista no Paraná 1933-1942”, a caracterização social dos militantes nazistas do estado pouco diverge em relação à dos militantes no plano nacional.

Os ingressados pertenciam a um grupo de alemães jovem (entre 25 e 35 anos), imigrantes de classe média e média/alta. “Observamos também que a geração de tais indivíduos teve alguma experiência relacionada à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pouco tendia a se desligar da pátria natal e da sua política”, afirma o historiador.

No Paraná, contudo, existiam alguns indivíduos já fixados no país e de alta posição econômica, especialmente na capital paranaense, que participavam ativamente do partido. Eram eles, inclusive que chegavam a sustentá-lo com as principais contribuições financeiras. Mais de 50% dos adeptos vivia na capital, palco das ações mais enérgicas do Partido. Werner Hoffman, em certa ocasião, escreveu aos seus líderes: “Curitiba deve merecer a atenção, pois é o ponto mais importante. É o Paraná que faz divisa entre o norte do país, que tem população luso-brasileira, e o sul, onde predomina o elemento teuto. Justamente por esse motivo aqui no Paraná sempre há estes atritos – brigas, desavenças entre nazistas e anti-nazistas – que se originaram em vista da ação necessária para a manutenção da ideia alemã” (ATHAIDES, Rafael. O Partido Nazista no Paraná. Maringá: EDUEM, 2011, p. 140).

O Círculo Paranaense do Partido Nazista funcionou abertamente no Estado entre 1933 e 1938.

CLUBES DEPREDADOS, SALVO-CONDUTO E CORRESPONDÊNCIAS CENSURADAS: A PERSEGUIÇÃO FOI IMPLACÁVEL

 

CLUBES DEPREDADOS, SALVO-CONDUTO E CORRESPONDÊNCIAS CENSURADAS: A PERSEGUIÇÃO FOI IMPLACÁVEL

protesto no Rio

Rio de Janeiro em 1943. Protestos contra o nazismo eram comuns depois da declaração de guerra. No Paraná as perseguições aumentaram

Durante a 2ª Guerra Mundial, os imigrantes alemães, italianos e japoneses e seus descendentes não poderiam sequer frequentar determinadas regiões de Curitiba, como as proximidades do terminal ferroviário. Todos aqueles que representavam os inimigos na Europa e Ásia passaram a ser inimigos do governo e de parte da sociedade paranaense e brasileira. Para se deslocarem dentro do país era necessário requerer um salvo-conduto. Suas correspondências foram censuradas e as estradas que davam acesso a Santa Catarina e São Paulo foram alvos de uma intensa vigilância.

“O ser humano cria seus oponentes. E durante a guerra esses oponentes no Paraná foram os imigrantes”, destaca o professor de História da Universidade Tuiuti, Osvaldo Siqueira.

Muitos imigrantes que possuíam casas no litoral paranaense, além de não poderem viajar, tiveram suas residências confiscadas e transformadas em postos do Exército. Só foram devolvidas muito tempo depois do fim do conflito. “Os imigrantes foram vigiados e mapeados, o Estado visava manter o controle de todas as atividades dos imigrantes”, afirma a historiadora Solange de Lima.

Ela ressalta ainda que várias portarias foram publicadas pela chefatura de polícia do Paraná a fim de evitar um possível levante de imigrantes do Eixo no estado. Esses documentos recomendavam a vigilância dos alemães, italianos e japoneses pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), para evitar atividades consideradas nocivas ao país.

Clubes depredados, escolas fechadas e campos de concentração

Em Curitiba, alguns clubes pertencentes aos estrangeiros foram ocupados, como é o caso do Clube Concórdia que foi entregue à Cruz Vermelha e seus móveis ao Clube Atlético Paranaense, o Clube Rio Branco foi entregue ao Tiro de Guerra n.19. Diversas associações de etnias que “formavam” o Eixo foram ocupadas. Antes dessa intervenção, muitos clubes foram alvo de ataques populares, como o Clube Italiano Garibaldi. O consulado do Japão na capital do estado  do Paraná – inaugurado em 1938 – foi fechado em 1942 por determinação do Estado.

A alegação do Dops era de que as atividades exercidas nos clubes eram prejudiciais aos interesses nacionais. No Clube Concórdia, que reunia descendentes alemães, 2.893 livros foram apreendidos até 1945.

A Chefatura de Polícia do Estado do Paraná promulgou em 20/03/1942 a Portaria nº 90, que tratava sobre as intervenções nos clubes e sociedades das comunidades italianas e alemãs. Em Curitiba, ficou decidido que: o Clube Concórdia passou a ser da Cruz Vermelha, filial do Paraná. A Sociedade Giuseppe Garibaldi ficou à disposição da Liga de Defesa Nacional, do Centro de Cultura Feminino e da Academia Paranaense de Letras. O prédio da Sociedade Rio Branco passou para o 19° Tiro de Guerra.

“Essa ação tomada em Curitiba feriu as comunidades alemãs e italianas; naquele momento, muito mais que o valor financeiro dos bens e móveis desses clubes, foram colocadas em xeque as questões culturais e as tradições que esses imigrantes vinham mantendo havia muitas gerações. Esses clubes foram repassados a instituições nacionais de auxílio às questões da Mobilização Econômica, como a Cruz Vermelha, Centro Paranaense de Cultura Feminina, etc”, afirma Marcio Pereira.

 Até escolas de origem estrangeira foram fechadas e o ensino em idiomas que não fosse o português estava proibido. O cônsul alemão em Curitiba, Walter Zimmermann, e os funcionários do Consulado foram deportados para a Alemanha.

Idioma proibido e moradias saqueadas

Talvez a proibição do idioma natal foi para os imigrantes a maior represália. Era o medo psicológico de ser perseguido pelo Dops aliado à proibição de ser quem realmente era. Mais que isso: era emudecer todos aqueles estrangeiros e seus descendentes que construíam suas vidas em território brasileiro. “As escolas estrangeiras foram fechadas sem nenhuma perspectiva de mudanças ou de substituição por escolas de ensino em português. “A língua foi a grande válvula de escape para as complicadas justificativas policiais de apreensão, prisões e violência contra imigrantes”, completa Pereira.

As famílias japonesas que moravam no litoral do estado tiveram suas casas saqueadas e até incendiadas. A acusação era de que faziam sinais com lampiões para submarinos japoneses. Os bens deixados em Paranaguá, Antonina e Morretes jamais foram devolvidos aos imigrantes orientais. A recomendação em datas cívicas era de que toda população hasteasse a bandeira brasileira.

A delegacia de Antonina, em 25 de setembro de 1942, retirou 85 migrantes da cidade, sendo 53 japoneses, 10 alemães e 22 italianos. Do litoral, o “trem dos evacuados” partiu para Curitiba. Na maior parte, os japoneses que não encontraram lugar para morar foram levados para a Granja Canguiri. As famílias que foram para o Canguiri viviam em galpões rurais, que já haviam sido ocupados por cavalos e bois anteriormente. Foi ali que esses japoneses viveram a partir de 1942 até o fim da guerra, em 1945. Não há informações de tortura física, entretanto permaneceram confinados nesse local que ficou conhecido como “campo de concentração”. Os adultos foram obrigados a trabalhar na produção agrícola e as crianças foram separadas de seus pais e levadas para a Escola Agrícola Militar de Castro.

PARANÁ: NA ÉPOCA DA II GUERRA ERA PROIBIDO COMEMORAR ANIVERSÁRIOS

 

PARANÁ: NA ÉPOCA DA II GUERRA ERA PROIBIDO COMEMORAR ANIVERSÁRIOS

Paradas Militares Curitiba 1944

Parada Militar em Curitiba em 1944. Foto: Acervo Curitiba Antiga

Em 28/01/1942, a Portaria nº 30, elaborada pela Chefatura de Polícia do Paraná, preconizava restrições aos estrangeiros em caráter geral.

A referida portaria constitui em uma das maiores interferências no cotidiano dos imigrantes e descendentes daqueles que tinham origem nos países do Eixo – Itália, Alemanha e Japão.

Até mesmo festas de aniversários com reunião de familiares estavam restritas.

Era a ditadura de Getúlio Vargas mostrando cada vez mais suas caras.

Na capital paranaense, a portaria foi divulgada em todos os jornais, tendo como principais proibições:

  1.  Mudar de residência sem devida autorização;
  2.  Portar armas de fogo, obrigando a devolverem mesmo as que possuíssem registro legal;
  3. Comercializar armas, munições e materiais explosivos;
  4. Viajar sem salvo-conduto fornecido pela DOPS;
  5. Reunir-se mesmo para comemorar festas particulares, como aniversários ou bailes;
  6. Discutir ou falar sobre o contexto internacional;
  7.  Realizar viagem aérea sem licença especial da DOPS;
  8.  O uso do idioma nas conversações em locais públicos;
  9.  Distribuição de quaisquer escritos nos idiomas do Eixo;
  10. Cantar ou tocar hinos e músicas de nações eixistas;
  11.  Fazer saudações peculiares aos partidos políticos;
  12. A exibição em local acessível de retratos de membros de governo das três nações do Eixo.

AUTORIDADES BRASILEIRAS PARTICIPAVAM DAS FESTAS NAZISTAS NO PARANÁ

 

AUTORIDADES BRASILEIRAS PARTICIPAVAM DAS FESTAS NAZISTAS NO PARANÁ

Circulo Nazista Curitiba

Encontro do Círculo do Parido Nazista em Curitiba. Crédito: Reprodução/Arquivo Público do Paraná.

 

Antes de o Partido Nazista ser legalmente fechado, por meio de decreto do governo Vargas em 1938, as autoridades do governo participavam das festas promovidas pelos representantes do Círculo do Partido Nazista. Nessa época, o governo ainda fazia jogo duplo: mantinha relações com Alemanha e também Estados Unidos. A regra, até então, era não desagradar ninguém. A situação não foi diferente no território paranaense.

Segundo a obra de Rafael Athaides, autor do livro O Partido Nazista no Paraná, diversos eventos contavam com os líderes do governo prestigiando os membros do Partido Nazista. Um exemplo eram as passeatas promovidas pelos adeptos nazistas no estado. Inclusive, cediam a banda militar oficial para tocar hinos de guerra alemães – inclusive em festejos maiores, como a Semana Alemã que era promovida em Curitiba.

Uma carta de Guilherme Willy Roettger, que era chefe nazista em Irati (na região centro-sul do Paraná), endereçada aos membros do Partido Nazista na Alemanha revela um desses episódios. Ele narra como “excepcional sucesso” a recepção em Ponta Grossa. “Os ‘camaradas’ vivem em tão bom acordo com os militares que o Comandante do Regimento em todas as oportunidades põe à disposição do grupo a banda militar”.

Roettger escreve de forma irônica ainda que a banda militar brasileira, “de negros, mulatos e brancos, tudo misturado, marcham em frente de uma bandeira com a cruz suástica”. Mesmo que não concordassem os ideais nazistas, o jogo duplo do governo Vargas mexia com a vida de todos os brasileiros, que chegavam ao cúmulo de saudar um símbolo de um governo totalitário que deixava rastros de perseguição, mortes e tortura Europa afora.

O PRACINHA QUE FOI GOVERNADOR DO PARANÁ

 

O PRACINHA QUE FOI GOVERNADOR DO PARANÁ

Durante 21 dias, Agostinho José Rodrigues assumiu o posto mais alto do governo paranaense. Ele, que era presidente da Assembleia Legislativa, substituiu o governador Ney Braga de 15 de setembro a 06 de outubro de 1963. O que pouca gente sabe atualmente é que o político curitibano nascido em 1915 havia encarado duas décadas antes os horrores da guerra mais sangrenta que o mundo assistiu.

Deputado estadual e federal em várias legislaturas, ele exerceu a presidência da Comissão da Segurança Nacional da Câmara dos Deputados. Após participar do teatro de operações em terras italianas, Rodrigues entrou no mundo político. E foi nessa área que construiu sua vida.

Chegou a fundar a Guarda Civil, foi ainda Secretário de Estado da Segurança Pública. Membro do Centro de Letras do Paraná e do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Mas nunca esqueceu a experiência adquirida pelas batalhas. Chegou a escrever um dos livros mais importantes sobre a participação das forças paranaenses na Segunda Guerra Mundial, chamado “O Paraná na FEB” e ainda o “Terceiro Batalhão — O Lapa Azul”, “Pé de trincheira”, “Segundo Pelotão, Oitava Companhia” e  “35 anos Depois da Guerra”.

Nesta última obra, Agostinho percorreu a Itália e relembrou os momentos que passou, revendo pessoas conhecidas da época da guerra. Agostinho chegou ao posto de tenente e serviu nas fileiras da FEB em dois batalhões. Ele viu na literatura uma maneira de eternizar a participação paranaense e brasileira nos campos bélicos da Segunda Grande Guerra.

            Filho de Manuel Rodrigues e de Ana Claudina Rodrigues, Agostinho começou a ingressar na vida militar em 1942 após passar pelo curso de aperfeiçoamento de sargentos. Na Segunda Guerra Mundial ocupou o posto de comandante de um pelotão de fuzileiros do 11.º Regimento de Infantaria (11.º RI). Participou dos combates de Monte Castello e Montese, bem como da ofensiva final no vale do Pó, e foi promovido a primeiro-tenente por bravura.

Como era militar de carreira, em 1947 liderou o movimento que organizou a 5.ª Companhia de Polícia do Exército (PE). Agostinho chegou a ser comandante da PE até 1950. O espírito de liderança parecia estar impregnado em Agostinho. No mesmo ano que abandonou o comando da Polícia do Exército, ele organizou a 5.ª Companhia do quartel-general da 5.ª Região Militar (5.ª RM), sediada em Curitiba. Comandou essa companhia até o ano seguinte, quando se tornou diretor da Guarda Civil do Paraná, função que exerceria até 1955.