Lyguaru (Tupinambá) Do Espirito Santo Nascido a 13 de agosto de 1900 (segunda-feira) Falecido a 29 de julho de 1985 (segunda-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil, com a idade de 84 anos Enterrado a 30 de julho de 1985 (terça-feira) - Cemitério Municipal de Curitiba, Paraná, Brasil Contador
Lyguaru Tupinambá: O Peixe que Nadou Contra a Corrente do Tempo
Há nomes que carregam em si a geografia de um povo, a memória de rios e a suavidade de origens esquecidas. Lyguaru, na língua tupi-guarani, significa “peixe pequeno de água doce”. Pequeno não pela grandeza que deixou, mas pela modéstia com que atravessou o século XX. Nascido em 13 de agosto de 1900, numa segunda-feira ensolarada em Tibagi, no interior do Paraná, Lyguaru Tupinambá do Espírito Santo viu a luz do mundo no alvorecer de um Brasil que deixava o Império para trás e buscava, entre tropeços e esperanças, seu caminho republicano. Sua vida não foi marcada por grandiosos palcos ou manchetes ufanistas, mas pela força silenciosa de quem educou, amou, perdeu, recomeçou e, acima de tudo, manteve a dignidade como bússola.
Raízes e Primeiros Anos: A Sombra e a Luz
Lyguaru foi filho de Joaquim Floriano do Espírito Santo e Julianna Grein. Joaquim, nascido em 1866, era homem de fibra, raízes fincadas na terra paranaense. Julianna, nascida em 1877, carregava no sobrenome a herança europeia que se misturava à paisagem sulista. Juntos, ergueram uma família onde os nomes dos filhos respiravam identidade indígena: Lyguaru, Kannitar (Ubirajara), Moacyr (Aymoré), e o pequeno José (Manoel Tarajahy). Essa escolha não era acaso; era um gesto de reconhecimento, um tributo à terra que os acolhia.
Mas o destino reservou cedo o peso da perda. Em 6 de julho de 1905, com apenas quatro anos, Lyguaru viu partir seu irmãozinho José, levado por uma bronquite que, na época, não encontrava remédio à altura da dor. Dois anos depois, em 21 de julho de 1907, a casa de Tibagi foi partida ao meio: Joaquim Floriano foi assassinado. Lyguaru tinha apenas seis anos e meio. A violência ceifou o pai, mas não a memória que ele plantou. Julianna, viúva jovem, assumiu sozinha a criação dos filhos, sustentando a família com a firmeza de quem sabe que o luto não pode ser sinônimo de abandono. Anos depois, em 16 de setembro de 1907, nasceria Justa Zoé Taques, meia-irmã de Lyguaru, fruto de uma relação anterior de Joaquim com Izaura Taques. Os laços de sangue, mesmo os marcados pela complexidade, permaneceram vivos.
Irmãos: Laços de Sangue, Perdas e Memórias
A família do Espírito Santo era um microcosmo de resistência. Iracema, a mais velha, nascida em 1893, acompanhou Lyguaru por oito décadas, partindo no mesmo ano que ele, em 1985. Jacy Grein, nascida em 1896, casou-se em 1912 com Gastão Pereira Marques, mas a vida lhe foi breve: faleceu em 24 de abril de 1917, aos 21 anos, deixando uma ferida que o tempo não apagou, apenas cicatrizou. Kannitar, que adotou o nome de Ubirajara, casou-se em 1918 com Nair Silva e viveu até 1994, testemunha silenciosa de quase um século. Moacyr, o Aymoré, nasceu em 1903, casou-se em 1925 com Rosa Gomes de Sá, viveu amores, desquites e divórcios, mas também chegou aos 87 anos. Cada irmão carregou um fragmento da história familiar, e Lyguaru, no centro dessa teia, aprendeu cedo que a vida é feita de partidas e permanências.
A Formação do Educador e a Promessa Quebrada
Aos 17 anos, em 1918, Lyguaru formou-se professor normalista pela Escola Normal de Curitiba. Era o início de uma vocação que marcaria mais de duas décadas de sua vida. Lecionou no Grupo Escolar Presidente Xavier da Silva, na capital paranaense, onde moldou mentes, corrigiu cadernos, ensinou a ler o mundo além dos livros e, sobretudo, cultivou a crença de que a educação é o alicerce de qualquer nação.
Mas sua inteligência inquieta não se limitou à sala de aula. Em 1921, Lyguaru graduou-se em primeiro lugar na primeira turma de Agronomia da Universidade do Paraná. Era o orgulho de uma geração que via na ciência o caminho para o progresso. A universidade prometia ao primeiro colocado uma viagem à Europa, prêmio que simbolizava reconhecimento e abertura para o mundo. Contudo, a promessa nunca se concretizou. Razões políticas, típicas de uma época em que o saber muitas vezes esbarrava em interesses de gabinetes, frustraram o sonho. Em vez de amargura, Lyguaru escolheu a reconstrução. Abriu mão da carreira de engenheiro agrônomo e voltou-se para a contabilidade, ofício que exerceria com a mesma precisão e ética que aplicara ao magistério. Números, para ele, não eram frios; eram a linguagem da ordem, da responsabilidade e do sustento de uma família que crescia.
O Amor e a Família: Casamento com Alzira, os Filhos e a Construção de um Lar
Em 23 de maio de 1925, uma sábado de outono em Curitiba, Lyguaru uniu sua vida à de Alzira Langer Rodrigues, nascida em 1902. O casamento não foi apenas um ato civil; foi a fundação de um universo particular. Juntos, ergueram um lar onde o respeito, a disciplina e o afeto eram pilares inegociáveis. Em 1º de março de 1926, nasceu Neusa Maria Rodrigues do Espírito Santo, a primogênita, que em 1941 casaria com Luiz Lafayette de Almeida Pinto, dando continuidade à árvore genealógica. Depois vieram Gil Fernando, Clóvis, Renato Celso e Liguarú José. Cinco filhos, cinco caminhos, cinco motivos para sorrir, preocupar-se e celebrar.
A vida familiar não foi isenta de luto. Em 23 de julho de 1928, Julianna Grein partiu, deixando órfão o filho que já era pai. Em 1932 e 1935, faleceram, respectivamente, suas avós paterna e materna. Lyguaru carregava no peito a memória de gerações, mas não se deixou paralisar por ela. Continuou lecionando, trabalhando como contador, acompanhando o crescimento dos filhos, celebrando casamentos, aniversários e conquistas cotidianas. Quando, em 10 de agosto de 1976, Alzira faleceu, após 51 anos de companheirismo, o mundo de Lyguaru perdeu seu eixo. Mas ele seguiu. Não por teimosia, mas por amor aos filhos que ainda precisavam de um pai, e por respeito à mulher que lhe ensinara que a vida, mesmo quando dói, merece ser vivida com honra.
Os Últimos Anos e o Legado: Viuvez, Despedida e a Eternidade na Memória
Lyguaru viveu nove anos após a partida de Alzira. Nove anos de silêncio habitado, de visitas dos filhos e netos, de memórias revisitadas, de contabilidade em dia e de coração em paz. Em 29 de julho de 1985, numa segunda-feira, aos 84 anos, ele deixou o corpo físico em Curitiba. No dia seguinte, 30 de julho, foi sepultado no Cemitério Municipal de Curitiba, onde repousa ao lado de tantos que, como ele, escreveram a história do Paraná com letras miúdas, porém indeléveis.
Sua vida atravessou a Primeira Guerra Mundial, a Semana de Arte Moderna, a Revolução de 1930, a industrialização do sul do Brasil, o golpe de 1964, a redemocratização. Viu o mundo mudar de forma irreconhecível, mas manteve-se fiel aos princípios que aprendeu na mesa de casa, nos corredores da escola e nos livros que folheava com reverência. Não buscou fama. Não colecionou títulos além do necessário. Cultivou a presença. E é nisso que reside sua verdadeira grandeza.
Conclusão: O Peixe que Atravessou Gerações
Lyguaru Tupinambá do Espírito Santo foi, como seu nome indica, um peixe de águas doces: adaptável, silencioso, essencial. Não precisou de rios caudalosos para nadar; bastou-lhe a correnteza do cotidiano. Foi filho de uma época de transição, pai de uma geração que viu o Brasil se transformar, avô de nomes que carregam seu legado sem nem sempre saber a profundidade da raiz que os sustenta.
Sua história não está em monumentos de bronze, mas nas cartas que escreveu, nas contas que equilibraram orçamentos familiares, nas lições que ficaram gravadas na mente de seus alunos, nos olhos de seus filhos ao lembrarem do pai, e no sobrenome que ecoa como testemunho de uma vida bem vivida. Lyguaru partiu em 1985, mas seu nome continua a respirar. Porque quem educa, ama e resiste não morre. Apenas muda de margem. E do outro lado, certamente, segue nadando.
- Nascido a 13 de agosto de 1900 (segunda-feira)
- Falecido a 29 de julho de 1985 (segunda-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil, com a idade de 84 anos
- Enterrado a 30 de julho de 1985 (terça-feira) - Cemitério Municipal de Curitiba, Paraná, Brasil
- Contador
Pais
Joaquim Floriano do Espirito Santo 1866-1907
Julianna Grein 1877-1928
Casamento(s) e filho(s)
- Casado a 23 de maio de 1925 (sábado), Curitiba, Paraná, Brasil, com Alzira Langer Rodrigues 1902- tiveram
Irmãos
Iracema do Espirito Santo 1893-1985
Jacy Grein do Espirito Santo 1896-1917
Kannitar (Ubirajara) Do Espirito Santo 1898-1994
Lyguaru (Tupinambá) Do Espirito Santo 1900-1985
Moacyr (Aymoré) do Espirito Santo 1903-1990
José (Manoel Tarajahy) do Espirito Santo 1904-1905
Meios irmãos e meias irmãs
Pelo lado de Joaquim Floriano do Espirito Santo 1866-1907 |
|
| (esconder) |
Acontecimentos
| 13 de agosto de 1900 : | Nascimento |
| --- : | Nascimento - Tibagi, Paraná, Brasil |
| --- : | Fact 1 Seu nome, Lyguaru, tem o significado tupi-guarani de "peixe pequeno de água doce" |
| --- : | Fact 2 Cursou a Escola Normal de Curitiba, formando-se professor normalista em 1918. Iniciou o Magistério no Grupo Escolar Presidente Xavier da Silva, na Capital do Estado, onde lecionou por mais de duas décadas. |
| --- : | Fact 3 Graduou-se em primeiro lugar na primeira turma de Agronomia na Universidade do Paraná em 1921. O prêmio prometido ao primeiro lugar da turma era uma viagem à Europa, que nunca lhe concederam por motivos políticos e, aliado a esse fato, abriu mão de exercer a profissão de engenheiro agrônomo. |
| 23 de maio de 1925 : | Casamento (com Alzira Langer Rodrigues) - Curitiba, Paraná, Brasil Cônjuge: Alzira Rodrigues do Espírito Santo |
| 29 de julho de 1985 : | Morte - Curitiba, Paraná, Brasil |
| 30 de julho de 1985 : | Enterro - Cemitério Municipal de Curitiba, Paraná, Brasil |
Fontes
- Pessoa: Árvore Genealógica do FamilySearch - <p><p>Liguarú Espírito Santo<br />Gênero: Masculino<br />Nascimento: Tibagi, Tibaji, Paraná, Brasil<br />Nascimento: Tibagi, Paraná, Brasil<br />Nascimento: 13 de ago de 1900 - Tibagi<br />Casamento: Cônjuge: Alzira Langer Rodrigues - 23 de maio de 1925 - Curitiba, Paraná, Brasil<br />Morte: Curitiba, Paraná, Brasil<br />Morte: 29 de jul de 1985 - Curitiba, Paraná, Brasil<br />Enterro: 30 de jul de 1985 - Curitiba, Paraná, Brasil<br />Pais: Joaquim Floriano do Espirito Santo, Juliana do Espirito Santo (nascida Grein)<br />Esposa: Alzira Espírito Santo (nascida Langer Rodrigues)<br />Filhos: Neusa Maria d'Almeida Pinto (nascida do Espírito Santo), Gil Fernando Espírito Santo, Clóvis do Espírito Santo, Liguarú José do Espírito Santo<br />Irmãos: Iracema do Espirito Santo, Jacy Pereira Marques (nascida do Espirito Santo), Kannitar Ubirajara do Espirito Santo, Moacyr Aymoré do Espírito Santo, José (Tarajahy) do Espirito Santo, Nelson do Espirito Santo</p></p> - Record - 40001:1593559:
Árvore genealógica (até aos avós)
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190013 ago.
Nascimento
190313 fev.
2 anos
Nascimento de um irmão
19047 ago.
3 anos
Nascimento de um irmão
19056 jul.
4 anos
Morte de um irmão
190721 jul.
6 anos
Morte do pai
Enterro a 21 de julho de 1907 (Cemitério de Tibagy, Paraná, Brasil - Em 1967 seus ossos foram transladados pata o Cemitério em Curitiba, Paraná, Brasil)
Notas
Cause: Assassinado
190716 set.
7 anos
Nascimento de uma meia-irmã
191028 dez.
10 anos
Morte do avô materno
191218 set.
12 anos
Casamento de uma irmã
191724 abr.
16 anos
Morte de uma irmã
191818 maio
17 anos
Casamento de um irmão
192523 maio
24 anos
Casamento
19259 jun.
24 anos
Casamento de um irmão
Notas
Desquite em 19 de Setembro de 1.950 - Divórcio em 03 de Julho de 1.980 (Tudo em Curitiba, Paraná. Brasil).
19261 mar.
25 anos
Nascimento de uma filha
192823 jul.
27 anos
Morte da mãe
193218 maio
31 anos
Morte da avó paterna
193519 set.
35 anos
Morte da avó materna
19416 set.
41 anos
Casamento de uma filha
197610 ago.
75 anos
Morte do cônjuge
198529 jul.
84 anos
Morte
198530 jul.
84 anos
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