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sábado, 30 de maio de 2026

Megachirella: O ancestral mais antigo dos lagartos e serpentes

 

Megachirella
Intervalo temporal: Triássico Médio
240 Ma
Classificação científicae
Reino:Animalia
Filo:Chordata
Classe:Reptilia
Superordem:Lepidosauria
Gênero:Megachirella
Renesto and Posenato, 2003
Espécie-tipo
Megachirella wachtleri
Renesto & Posenato, 2003

Megachirella é um gênero extinto de Lepidosauria, possivelmente um escamado que viveu há cerca de 240 milhões de anos, durante o Triássico Médio, e contém apenas uma espécie conhecida, Megachirella wachtleri. É conhecida a partir de um esqueleto parcial descoberto nas Dolomitas, no norte da Itália, e foi descrita em 2003.

Descrição

Reconstrução do crânio em visão dorsal

Megachirella é conhecida exclusivamente por um esqueleto parcial, preservado em sua integridade anatômica. A descoberta inclui um crânio quase completo, a metade anterior do corpo e parte das patas dianteiras. O crânio, embora desprovido da parte frontal do focinho, é bastante robusto e grande; o pescoço é moderadamente alongado e as patas dianteiras são grandes e fortes. As dimensões não ultrapassam 15 cm de comprimento, e a aparência é semelhante à de um lagarto de patas fortes.

Classificação

Restauração

Megachirella foi descoberta na Formação Dont, na área de Bragas, no Tirol do Sul, e descrita em 2003. Na época, foi classificada como membro de Lepidosauromorpha, o clado de répteis que inclui lagartos, serpentes, tuataras e seus parentes extintos mais próximos. Em particular, os fósseis mostram algumas semelhanças, principalmente no crânio, com algumas formas primitivas, como os Eolacertilia. Uma análise filogenética em 2013 confirmou que se tratava de um Lepidosauromorpha intimamente relacionado ao grupo coroa Lepidosauria.[1]

Um estudo de 2018, liderado por Tiago R. Simões da Universidade de Alberta no Canadá, descobriu que o Megachirella era um escamado, tornando-se o membro mais antigo conhecido da ordem Squamata, a ordem que inclui lagartos, serpentes e anfisbenas (lagartos-vermes). O estudo foi conduzido por meio de tomografia computadorizada de raios X de microfoco de alta resolução (micro-CT) no espécime fóssil de Megachirella para coletar dados detalhados sobre sua anatomia. Esses dados foram então comparados com um conjunto de dados filogenéticos que combinava os dados morfológicos e moleculares de 129 táxons de répteis extintos e existentes. A comparação revelou que o Megachirella possuía certas características exclusivas dos escamados. O estudo também descobriu que as lagartixas são os escamados do grupo coroa mais antigo, e não os Iguania.[2][3] No entanto, um estudo de 2021 descobriu que o gênero é um Lepidosauria de posição incerta, em uma politomia com Squamata e Rhynchocephalia.[4]

Paleobiologia

Apesar de ter sido encontrado em depósitos marinhos, o fóssil de Megachirella não mostra nenhuma adaptação à vida aquática. Pelo contrário, características como as fortes patas dianteiras, o formato das garras, o carpo bem ossificado e as costelas ocas levam a crer que este animal era bem adaptado a um estilo de vida terrestre. O espécime foi provavelmente transportado para um ambiente costeiro raso devido a fortes tempestades após a sua morte.[5]

Referências

  1. Renesto, Silvio; Bernardi, Massimo (23 julho 2013). «Redescription and phylogenetic relationships of Megachirella wachtleri Renesto et Posenato, 2003 (Reptilia, Diapsida)». Paläontologische Zeitschrift88 (2): 197–210. ISSN 1867-6812doi:10.1007/s12542-013-0194-0
  2. Simōes, Tiago R.; Caldwell, Michael W.; Talanda, Mateusz; Bernardi, Massimo; Palci, Alessandro; Vernygora, Oksana; Bernardini, Federico; Mancini, Lucia; Nydam, Randall L. (30 maio 2018). «The origin of squamates revealed by a Middle Triassic lizard from the Italian Alps». Nature557 (7707): 706–709. Bibcode:2018Natur.557..706SPMID 29849156doi:10.1038/s41586-018-0093-3
  3. Weisberger, Mindy (30 maio 2018). «This 240-Million-Year-Old Reptile Is the 'Mother of All Lizards'»Live SciencePurch Group. Consultado em 2 junho 2018
  4. Ford, David P.; Evans, Susan E.; Choiniere, Jonah N.; Fernandez, Vincent; Benson, Roger B. J. (25 de agosto de 2021). «A reassessment of the enigmatic diapsid Paliguana whitei and the early history of Lepidosauromorpha»Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences (em inglês). 288 (1957). ISSN 0962-8452PMC 8385343Acessível livrementePMID 34428965doi:10.1098/rspb.2021.1084
  5. Renesto, Silvio; Posenato, Renato (30 novembro 2003). «A new lepidosauromorph reptile from the Middle Triassic of the Dolomites (Northern Italy)». Italian Journal of Paleontology and Stratigraphy109 (3): 463–474. ISSN 2039-4942doi:10.13130/2039-4942/5517

Megachirella: O ancestral mais antigo dos lagartos e serpentes

Megachirella é um gênero extinto de répteis da superordem Lepidosauria, que viveu há cerca de 240–242 milhões de anos, durante o período Triássico Médio (estágio Anísico), na região que hoje corresponde ao norte da Itália. Contém apenas uma espécie conhecida: Megachirella wachtleri, descrita cientificamente em 2003, e considerada um dos fósseis mais importantes para compreender a origem e evolução dos escamados — o grupo que inclui todos os lagartos, serpentes e anfisbenas atuais.

📍 Descoberta e Material Fóssil

O fóssil foi encontrado em 1999 por Michael Wachtler, na localidade de Prà della Vacca / Kühwiesenkopf, nas Dolomitas de Braies, província de Bolzano (Tirol do Sul), dentro da Formação Dont — uma unidade geológica formada por rochas de origem marinha rasas. O nome Megachirella vem do grego: mega (grande) + cheiros (mão), referência às suas patas dianteiras robustas; o nome da espécie wachtleri homenageia o seu descobridor.
O material preservado é um esqueleto parcial, articulado e muito bem conservado, em uma placa de rocha de cerca de 16 × 12 cm e 720 g. Inclui:
  • Crânio quase completo (falta apenas a ponta do focinho)
  • Coluna cervical e metade anterior do corpo
  • Costelas, vértebras e parte da cintura peitoral
  • Ambas as patas dianteiras, inteiras e bem preservadas
  • Parte das vértebras dorsais e elementos das patas traseiras
É o fóssil mais completo conhecido de répteis lepidossauros do Triássico, o que permitiu análises detalhadas de anatomia e evolução.

🦎 Descrição Anatômica

  • Tamanho: Comprimento total estimado em 12–15 cm, um animal pequeno, semelhante a um lagarto atual, mas com proporções únicas.
  • Crânio: Robusto, relativamente grande em relação ao corpo, formato triangular visto de cima. Possui aberturas temporais características dos lepidossauros, ossos do cérebro com estrutura especializada e dentes pequenos, cônicos e ligeiramente curvados, indicando dieta de pequenos invertebrados (insetos, aranhas, vermes).
  • Pescoço: Moderadamente comprido e flexível.
  • Membros: Patas dianteiras grandes, fortes e bem ossificadas; ossos do carpo completos e firmes; garras curvas e afiadas, adaptadas para agarrar e escalar. Costelas com estrutura oca, que tornava o corpo leve mas resistente.
  • Corpo: Formato alongado, cauda não preservada mas provavelmente longa, como em parentes próximos.
Aparência geral: parecia um pequeno lagarto ágil, de patas fortes e corpo leve, adaptado para vida ativa em terra firme.

🧬 Classificação Evolutiva: Debates e Reviravoltas

A posição taxonômica de Megachirella mudou completamente com o avanço das técnicas de estudo:

🔹 2003 – Classificação inicial

Quando descrito por Renesto e Posenato, foi considerado um Lepidosauromorpha basal — um parente próximo do grupo que daria origem aos lepidossauros modernos, mas ainda não um membro do grupo coroa. Tinha semelhanças com formas primitivas como Eolacertilia, mas faltavam dados para definição exata.

🔹 2013 – Primeira confirmação

Análise filogenética detalhada confirmou: é sim um Lepidosauria, muito próximo da origem do grupo que divide em dois ramos: Squamata (escamados) e Rhynchocephalia (tuataras e parentes extintos).

🔹 2018 – Descoberta revolucionária 🚀

Liderado por Tiago R. Simões (Universidade de Alberta, Canadá), equipe usou tomografia computadorizada de raios X de alta resolução (micro-CT) para estudar cada osso internamente, revelando estruturas invisíveis antes.
Comparou esses dados anatômicos com informações morfológicas e moleculares de 129 espécies, vivas e extintas. Resultado surpreendente:
Megachirella wachtleri é o escamado mais antigo já conhecido, com 75 milhões de anos mais velho que qualquer fóssil anterior de lagarto.
✅ Mostra características exclusivas dos Squamata: estrutura da mandíbula, formato do osso do cérebro, tipo de clavícula e detalhes dos membros.
✅ Redefiniu a árvore evolutiva: as lagartixas são o grupo mais antigo dos escamados atuais — não os iguanas, como se pensava antes.
Esse estudo foi capa da revista Nature, pois mudou toda a linha do tempo da evolução dos répteis: a origem dos lagartos não aconteceu no Jurássico, mas sim bem antes, no Triássico, logo após aExtinção do Permiano-Triássico.

🔹 2021 – Nova avaliação

Um trabalho posterior reanalisou os dados e concluiu: a posição exata ainda tem incertezas. Megachirella seria um Lepidosauria de posição incerta, numa divisão evolutiva (politomia) junto aos dois ramos principais: Squamata e Rhynchocephalia. Ou seja: está na base da família, muito próximo da separação dos dois grupos, podendo ser considerado tanto como o primeiro escamado conhecido quanto como um parente muito próximo do ancestral comum de todos os lepidossauros atuais.
Hoje, consenso científico: é o fóssil mais antigo e completo que documenta a transição dos répteis primitivos para os verdadeiros lagartos, sendo considerado o elo perdido entre os grupos ancestrais e todos os escamados que existem hoje.

🌍 Paleobiologia e Ambiente

Um detalhe curioso: o fóssil foi encontrado em rochas formadas em ambiente marinho, mas o animal não tinha nenhuma adaptação à vida na água:
❌ Sem nadadeiras, sem ossos leves ou achatados, sem estrutura para respirar embaixo d’água.
✅ Sim: patas fortes, garras para escalar, ossos firmes, costelas leves — tudo indica vida totalmente terrestre, em terra firme, provavelmente em encostas, matas ou ambientes rochosos próximos ao mar.
Como foi parar no depósito marinho?
Após morrer, o cadáver foi levado por fortes tempestades ou enchentes para uma região costeira rasa, onde foi rapidamente coberto por sedimentos e preservado — o que explica estar junto a fósseis de plantas e animais marinhos, mas pertencer a um réptil terrestre.
Alimentação: dentes pequenos e afiados indicam que se alimentava de pequenos insetos, aracnídeos, vermes e outros invertebrados que capturava com agilidade.
Estilo de vida: ágil, provavelmente diurno, capaz de correr e escalar rochas ou vegetação — semelhante aos pequenos lagartos que vemos hoje, mas com características ainda mais primitivas.

📌 Importância Científica

  1. Recua a origem dos escamados em 75 milhões de anos, provando que o grupo surgiu logo após a maior extinção da história da Terra, se diversificando rapidamente no Triássico.
  2. Mostra a evolução gradual: as características dos lagartos não apareceram de uma vez, mas foram adquiridas pouco a pouco, como mostra a anatomia de Megachirella.
  3. Une dados morfológicos e moleculares: pela primeira vez, fósseis e análises de DNA de espécies atuais concordaram sobre a ordem da evolução.
  4. Ajuda a entender como os répteis sobreviveram e se diversificaram após a crise ecológica do fim do Permiano, que matou 90% das espécies do planeta.

Em resumo: Megachirella wachtleri é muito mais que um fóssil antigo — é o "avô" de todos os lagartos, serpentes e anfisbenas que conhecemos, e o fóssil que nos mostrou quando e como surgiu esse grupo tão bem-sucedido de répteis.

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