Páginas

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Tordo-comum (Turdus philomelos): Biologia, Ecologia e Significado Cultural de um Cantor Europeu

 

Turdus philomelos
Duração: 3 minutos e 31 segundos.
Classificação científicaedit
Reino:Animalia
Filo:Chordata
Classe:Aves
Ordem:Passeriformes
Família:Turdidae
Gênero:Turdus
Espécies:
T. philomelos
Nome binomial
Turdus philomelos
Brehm, 1831
Distribution     Área de verão     Durante todo o ano     Área de inverno     Introduzido
Sinónimos
  • Turdus musicus[2]

tordo-comumtordo-músico ou tordo-pinto (nome científicoTurdus philomelos) é uma ave pertencente ao género Turdus.[3][4] Ocorre naturalmente na EuropaNorte de ÁfricaMédio Oriente e Sibéria,[5] e foi introduzida na Austrália e Nova Zelândia durante a segunda metade do século XIX.[6] Dependendo da latitude, pode ser residente, migratória ou parcialmente migratória, possuindo três subespécies geralmente aceitas.[5]

O tordo-comum é omnívoro, consumindo uma grande variedade de invertebradosbagas e drupas,[3][5] tendo o hábito de usar uma pedra como uma bigorna para partir a casca dos caracóis.[7] Ambos os sexos possuem a parte superior da cabeça e do corpo castanha, contrastando com a parte inferior do corpo de cor creme ou couro com malhas negras. Os machos possuem um vasto repertório de vocalizações, que incluem distintivas frases musicais repetidas.[3][5] Esta espécie nidifica em florestas, jardins e parques, construindo ninhos em forma de taça com ervas e lama em árvores e arbustos.[3][5]

Apesar de se encontrar em declínio na Europa, possui uma grande área de distribuição geográfica e uma grande população global, pelo que não se considera que se encontre globalmente ameaçada.[8] Existem numerosas referências literárias e culturais ao tordo-comum, frequentemente relacionadas com o canto melodioso dos machos.

Taxonomia

Adulto de T. p. philomelosMannheimAlemanha.

O tordo-comum foi descrito em 1831 pelo ornitólogo alemão Christian Ludwig Brehm como Turdus philomelos.[9] O nome genérico, Turdus, é uma palavra em latim, que significa 'tordo', enquanto o nome específico, philomelos, se refere ao mito de Filomela, a princesa ateniense que foi transformada num rouxinol,[10][11] cujo nome deriva do grego antigo Φιλο (philo-), que significa 'amante', e μέλος (melos), que significa 'canção'.[10]

O tordo-comum tem três subespécies aceites: a subespécie nominal T. p. philomelos, descrita pela primeira vez por Brehm em 1831, que está presente na maioria da área de distribuição geográfica da espécie na Eurásia; a T. p. hebridensis, descrita pelo ornitólogo britânico William Eagle Clarke em 1913, uma subespécie essencialmente residente encontrada nas Hébridas Exteriores e na ilha de Skye, na Escócia; e a T. p. clarkei, descrita pelo zoólogo alemão Ernst Hartert em 1909 e batizada em honra de William Eagle Clarke, uma subespécie parcialmente migratória que se reproduz no resto da Grã-Bretanha, na Irlanda, na França, na Bélgica e nos Países Baixos, e inverna no sul da França e na Península Ibérica, e foi introduzida na Austrália e na Nova Zelândia. Esta última hibridiza com a subespécie nominal na Europa Central e com a T. p. hebridensis nas Hébridas Interiores e na Escócia ocidental, e nessas áreas as aves apresentam características intermédias.[5] Foram descritas outras subespécies, como a T. p. nataliae da Sibéria pelo ornitólogo russo Sergei Buturlin em 1929, mas não são amplamente aceites.[5]

Um estudo molecular recente indica que os parentes mais próximos do tordo-comum são a tordoveia (Turdus viscivorus) e o Turdus mupinensis. Estas três espécies divergiram da linhagem das aves do género Turdus antes destas se terem diversificado e espalhado pelo mundo, e como tal são parentes mais afastados de outras espécies europeias do género Turdus como o melro-preto (Turdus merula).[12]

Características

Macho adulto cantando, Países Baixos.

A subespécie nominal T. p. philomelos tem 20–23 cm de comprimento,[5] uma envergadura de 33-36 cm[13] e um peso de 50-107 g.[5] Ambos os sexos são similares, com a parte superior da cabeça e do corpo castanha, contrastando com a parte inferior do corpo de cor creme ou couro com malhas negras, mais pálida na barriga. A parte inferior das asas é amarela, o bico é amarelado e as patas são cor-de-rosa. O tom das partes inferiores vai ficando progressivamente mais pálido de ocidente para oriente ao longo da sua área de reprodução, da Suécia à Sibéria. Os juvenis são semelhantes aos adultos, mas possuem listas cor-de-laranja ou couro nas costas e coberteiras nas asas.[5] A subespécie T. p. hebridensis é a mais escura das subespécies, com a parte superior do corpo castanha-escura, uropígio acinzentado, partes inferiores cor de couro com malhas negras e flancos acinzentados.[5] A subespécie T. p. clarkei exibe um tom de castanho mais vivo que a subespécie nominal na parte superior do corpo, uropígio tingido de verde-azeitona e partes inferiores amarelas com malhas negras.[5]

Na Europa, a espécie de tordo mais similar ao tordo-comum é o tordo-ruivo (Turdus iliacus), mas essa espécie possui uma lista supraciliar branca, flancos vermelhos e a parte inferior das asas vermelha, enquanto a tordoveia (Turdus viscivorus) é bastante maior e possui os cantos da cauda brancos. Já o Turdus mupinensis da Ásia, embora muito similar em termos de plumagem, tem marcas negras na cara e vive fora da sua área de distribuição geográfica.[5]

O tordo-comum possui várias vocalizações, incluindo um curto e agudo tsip, substituído durante a migração por um ténue e alto seep, semelhante ao chamado do tordo-ruivo mas mais curto, e um chook-chook de alarme, que se torna progressivamente mais curto e estridente com o aumento do perigo. O canto do macho consiste numa sonora sequência de frases musicais repetidas duas a quatro vezes, filip filip filip codidio codidio quitquiquit tittit tittit tereret tereret tereret, intercalada com notas dissonantes e imitações de vocalizações de outras espécies de aves. É dado a partir de árvores, telhados ou outros poleiros elevados,[5] a qualquer hora do dia,[13] normalmente entre fevereiro e junho para a subespécie T. p. hebridensis, e entre novembro e julho para as restantes subespécies.[5] Cada macho pode ter um repertório de mais de 100 frases,[10][14] muitas das quais copiadas dos seus progenitores e de aves vizinhas. As suas imitações podem incluir o som de objetos feitos pelo homem como telefones,[15] e vocalizações de aves exóticas em cativeiro, como a marreca-piadeira (Dendrocygna viduata).[5] Relativamente ao seu peso, o tordo-comum possui das vocalizações mais barulhentas de entre as aves.[16]

Habitat e migração

Habitat

Adulto, Alemanha.

Tipicamente, o tordo-comum nidifica em florestas com bastante vegetação rasteira e zonas abertas próximas, e na Europa Ocidental usa também jardins e parques. Reproduz-se até à linha das árvores, podendo ser encontrado até aos 2 200 m na Suíça. A subespécie T. p. hebridensis nidifica em terreno mais aberto, incluindo charnecas, e a subespécie nominal está restrita ao limite das densas florestas de coníferas a oriente da sua área de distribuição geográfica.[5] Em áreas intensamente cultivadas onde as práticas agrícolas parecem ter tornado o terreno inadequado para o efeito, os jardins são um importante local de nidificação. Em um estudo inglês, apenas 3,5% dos ninhos foram encontrados em terrenos agrícolas enquanto 71,5% foram encontrados em jardins, apesar destes últimos corresponderem a apenas 2% da área total. Os restantes 25% dos ninhos foram encontrados em zonas florestais (correspondentes a 1% da área total).[17]

O habitat de inverno é similar ao usado para a nidificação, embora as terras altas e outros locais expostos sejam evitados;[7] no entanto, a subespécie T. p. hebridensis frequenta a costa durante o inverno.[5]

Migração

Um adulto em voo, KentInglaterra.

O tordo-comum nidifica desde a Europa Ocidental (exceto na maioria da Península Ibérica e no sul da Itália e da Grécia) até à Sibéria, quase até ao lago Baikal, atingindo a latitude 75º N na Noruega mas apenas 60° N na Sibéria, e foi introduzido na Austrália e Nova Zelândia. As aves da EscandináviaEuropa Oriental e Rússia invernam mais a sul, ao redor do Mediterrâneo, no Norte de África e no Médio Oriente, mas apenas algumas das aves da zona mais temperada a ocidente da zona de distribuição geográfica abandonam as suas zonas de nidificação.[5] Ao contrário dos mais nómadas tordo-zornal (Turdus pilaris) e tordo-ruivo (Turdus iliacus), o tordo-comum tende a regressar regularmente aos mesmos locais para invernar.[7]

Normalmente esta espécie não é gregária, mas várias aves podem repousar em conjunto durante o inverno ou associar-se livremente em grupos dispersos em locais de alimentação apropriados, por vezes com outros turdídeos como o melro-preto (Turdus merula), o tordo-zornal (Turdus pilaris), o tordo-ruivo (Turdus iliacus) e o Turdus ruficollis.[5]

Durante a migração viaja sobretudo de noite e em bandos soltos, com um voo forte e direto, emitindo frequentemente chamados para manter o contacto. O tordo-comum é uma ave migratória que se movimenta numa frente larga, o que significa que as rotas de migração das aves não afunilam nas zonas de travessia mais curta do mar, como os estreitos de Gibraltar e do Bósforo, mas cruzam todo o Mediterrâneo.[5] A migração pode começar a partir de agosto nas zonas mais setentrionais e orientais da sua zona de nidificação, mas a maioria das aves, com distâncias menores a percorrer, ruma a sul entre setembro e meados de dezembro. No entanto, condições atmosféricas adversas podem forçar movimentações adicionais. O regresso às zonas de nidificação varia entre meados de fevereiro (ao redor do Mediterrâneo) e maio (norte da Suécia e Sibéria central).[5]

Como seria de esperar para uma espécie migratória tão amplamente distribuída, já foi observada fora da sua área de distribuição habitual na Eurásia, como na Gronelândia, em várias ilhas atlânticas e na África Ocidental.[5]

Comportamento

Alimentação

Duração: 49 segundos.
Partindo a casca de um caracol

O tordo-comum é omnívoro, consumindo uma grande variedade de invertebrados, especialmente minhocas e caracóis, assim como bagas e drupas. Tal como o seu parente, o melro-preto (Turdus merula), caça principalmente com a visão, corre aos trancos e barrancos enquanto caça em terreno aberto, e revira folhas em decomposição de forma barulhenta e demonstrativa em busca de alimento.[5] Os caracóis são particularmente importantes quando a seca ou condições atmosféricas adversas tornam outros tipos de alimento difíceis de encontrar. O tordo-comum usa frequentemente pedras como uma bigorna para partir a casca dos caracóis antes de extrair o seu corpo mole e invariavelmente esfregá-lo no chão antes do consumir.[7] Aves jovens inicialmente agitam objetos e brincam com eles até aprenderem a usar pedras como instrumentos para partir a casca dos caracóis.[18]

A espécie de caracol Cepaea nemoralis é regularmente consumida pelo tordo-comum, e foi sugerido que os padrões polimórficos da sua casca são uma resposta evolutiva para reduzir a predação por parte desta espécie;[19] no entanto, o tordo-comum pode não ter sido a única força de seleção envolvida.[20]

Tal como outros melros e tordos, esta espécie regurgita pequenas bolas contendo as sementes após a partes moles terem sido digeridas.[21]

Reprodução

Ninho com três ovos, BretanhaFrança.

O tordo-comum é uma espécie territorial monogâmica, e nas áreas em que é migratório os machos reestabelecem o seu território nos locais de nidificação logo que regressam. Em zonas mais temperadas algumas aves são residentes, com os machos a permanecer no seu território durante o inverno, cantando intermitentemente, enquanto as fêmeas podem estabelecer um território separado até à formação dos pares no início da primavera.[7] A parada nupcial incluí o canto e algumas exibições de corte por parte do macho, que se aproxima da fêmea com a cauda aberta e achatada no chão, e a cabeça inclinada para trás com o bico aberto.[13]

A fêmea constrói sozinha o ninho em forma de taça com lama e ervas secas,[5][22] geralmente forrado com radículas e erva coladas com saliva,[13] num arbusto, árvore, trepadeira ou, no caso da subespécie T. p. hebridensis, no chão.[5] O macho canta por perto enquanto a fêmea constrói o ninho, mas não participa na construção.[13] Cada postura possui habitualmente quatro ou cinco ovos brilhantes de cor azul, salpicados com pequenas manchas negras ou roxas.[5][13] Os ovos têm um tamanho médio de 2,7 x 2,0 cm e um peso médio de 6,0 g, dos quais 6% correspondem à casca.[10] A incubação é feita unicamente pela fêmea e dura geralmente de 10 a 17 dias.[5] As crias recém-eclodidas são altriciais, necessitando de 12 a 15 dias (em média 14,0) para abandonar o ninho,[10][13] com ambos os progenitores a participar na sua alimentação.[13][22] As crias são sobretudo alimentadas com minhocas, lesmas, caracóis e larvas de insetos,[5] embora fruta também possa fazer parte da dieta, sobretudo quando tempo seco limita a disponibilidade de minhocas.[22]

Cria de T. p. philomelosNova Zelândia.

As crias não sabem voar quando abandonam o ninho, rastejando/saltando para fora deste e batendo as asas até chegar ao solo, e procurando cobertura na vegetação próxima. Se o ninho for perturbado, podem abandoná-lo nove dias apenas após a eclosão, uma importante adaptação contra eventuais predadores.[22] Os progenitores continuam a alimentar e a proteger os juvenis durante mais duas ou três semanas após estes abandonarem o ninho.[13][22] Se a fêmea começar a construir outro ninho, o macho alimentará os juvenis sozinho.[22] Durante esse período eles aprendem a escolher os seus alimentos, e uma semana após abandonarem o ninho já são capazes de voar. Ao fim de três semanas os juvenis são independentes,[22] atingindo o estado adulto ao fim de ano de vida.[10]

A época de nidificação é longa, estendendo-se de março a agosto, normalmente com duas ou três ninhadas num ano,[22] apesar de apenas uma poder ser criada no norte da zona de distribuição geográfica.[5] O mesmo ninho pode ser utilizado para várias ninhadas.[22] A perda de ovos durante a incubação e a taxa de mortalidade entre as crias são consideráveis, pelo que apenas são produzidos juvenis em um terço das ninhadas.[22] A taxa de sobrevivência entre os juvenis é de 46,3% durante o primeiro ano de vida e de 56,3% para os adultos.[10] Embora haja registos de indivíduos com mais de 13 anos de idade,[23] a esperança média de vida de um tordo-comum adulto é de 3 anos.[10]

Ameaças naturais

Predadores

Os principais predadores dos adultos desta espécie são o gato doméstico (Felis silvestris catus), o mocho-galego (Athene noctua) e o gavião-da-europa (Accipiter nisus), e a pega-rabilonga (Pica pica), o gaio-comum (Garrulus glandarius) e o esquilo-cinzento (Sciurus carolinensis) caçam tanto os seus ovos como as crias.[24][25]

Parasitas

Um adulto procurando alimento, Reino Unido.

Tal como acontece com outros pássaros, os parasitas são comuns nesta espécie, incluindo endoparasitas como o nemátodo Splendidofilaria (Avifilaria) mavis, cujo nome específico deriva do tordo-comum,[26] os tremátodos Echinostoma revolutum e Plagiorchis multiglandularis[27] e o acantocéfalo Plagiorhynchus (Prosthorhynchus) cylindraceus. Um estudo russo mostra que todos os tordos-zornais (Turdus pilaris), tordos-ruivos (Turdus iliacus) e tordos-comuns testados possuíam hematozoários, particularmente dos géneros Haemoproteus e Trypanosoma.[28] Um estudo soviético revelou ainda que é frequente os tordos-comuns estarem infestados com carraças do género Ixodes, que podem transmitir vírus e bactérias patogénicas incluindo a encefalite transmitida por carraças em zonas florestais da Europa Central e Oriental e da Rússia,[29] e mais amplamente por bactérias do género Borrelia.[30] Algumas espécies do género Borrelia podem transmitir a doença de Lyme, e aves que passam muito do seu tempo em busca de alimento no solo, como o tordo-comum, podem servir de reservatório para a doença.[31] As larvas da espécie de insecto díptero Fannia nidica estão associadas aos ninhos de tordos.[32]

Ocasionalmente, esta espécie é alvo de parasitismo de ninhada por parte de cucos como o cuco-canoro (Cuculus canorus), mas isso não é significativo pois o tordo-comum é capaz de reconhecer os ovos não miméticos dessa espécie parasita.[33] No entanto, o tordo-comum não demonstra perante os cucos adultos a mesma agressividade que o seu parente, o melro-preto (Turdus merula).[34] Um estudo neozelandês revelou que os tordos-comuns introduzidos durante a década de 1860 na Nova Zelândia, onde não os cucos não ocorrem, continuam a rejeitar os seus ovos não miméticos.[35]

Estado de conservação

Adulto de T. p. philomelos alimentando as suas crias, Nova Zelândia.

O tordo-comum tem uma área de distribuição geográfica estimada de 5,8 milhões de km², e possui uma população global estimada de 81,1–216 milhões de indivíduos, incluindo mais de 20–36 milhões de pares na Europa.[8] Existem evidências de que as populações do paleártico ocidental registam uma tendência moderadamente decrescente desde a década de 1980.[8] No entanto, não se considera que a espécie se encontre em declínio segundo os critérios definidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Por esses motivos, foi avaliada como Pouco preocupante na Lista Vermelha da IUCN de 2012,[8] e não tem estatuto especial ao abrigo da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), que regula o comércio internacional de espécimes de plantas e animais selvagens.[36] No entanto, registaram-se declínios locais acentuados (>50%) no Reino Unido e nos Países Baixos, pelo que nesses países o seu estado de conservação está avaliado como Vermelho (nível elevado de preocupação).[7][37] Em Portugal, a população residente está classificada como Quase ameaçada, enquanto a população visitante está classificada como Pouco preocupante.[4]

O declínio ocorreu especialmente em zonas agrícolas (73% desde meados da década de 1970), possivelmente devido a mudanças nas políticas agrárias durante as últimas décadas.[38] As razões precisas para o declínio são desconhecidas, mas podem estar relacionadas com a remoção de sebes, a mudança de sementeiras da primavera para o outono e o aumento do uso de pesticidas, que poderão ter provocando a diminuição do número de locais para os ninhos e da disponibilidade de alimento.[39] Nos jardins, o uso de veneno para controlar as lesmas e os caracóis pode representar uma ameaça,[25] e em zonas urbanas alguns tordos-comuns são atropelados enquanto usam a superfície dura das estradas para partir a casca dos caracóis.[40]

Espécie introduzida

Adulto de T. p. philomelosRepública Checa.

O tordo-comum foi introduzido na Austrália em Melbourne em 1863[6] por motivos puramente sentimentais,[10] mas não se expandiu muito para além dos locais onde foi originalmente libertado, permanecendo limitado às zonas urbanas de Melbourne[41][42] e Geelong.[41] Na Nova Zelândia, foi igualmente introduzido por motivos puramente sentimentais[10] entre 1865 e 1867,[6] tendo-se expandido a todo o país, incluindo as ilhas ChathamKermadec e Auckland.[43] Parece existir um efeito prejudicial limitado em algumas espécies de invertebrados devido à predação por parte de espécies de aves introduzidas,[44] e o tordo-comum também provoca danos à indústria frutícola.[42] Sendo uma espécie introduzida, não é legalmente protegida nesse país, podendo ser abatida em qualquer altura.[45]

Caça

Na União Europeia, a caça ao tordo-comum é regulamentada pela Diretiva 79/409/CEE do Conselho, de 2 de abril de 1979, relativa à conservação das aves selvagens,[46][47] sendo permitida em diversos países incluindo a França,[46] a Espanha[48] e Portugal.[49] Em França, o Office National de la Chasse et de la Faune Sauvage (Gabinete Oficial da Caça e da Fauna Selvagem) estima que entre 1998 e 1999 tenham sido abatidas cerca de 4 538 000 tordos de todas as espécies em todo o país.[46] O tordo-comum pode ser caçado a tiro ou capturado vivo com uma varinha enviscada (pequeno ramo revestido com cola) para servir de chamariz. Este último método, utilizado nos departamentos dos Alpes da Alta ProvençaAlpes MarítimosBocas do RódanoVar e Vaucluse, é regulamentado por decreto ministerial e sujeito a autorização por parte da prefeitura.[46] Na Espanha, esta espécie é normalmente capturada durante a migração, frequentemente usando um método conhecido localmente como parany, que consiste numa teia de galhos revestidos com cola montada numa árvore, para a qual as aves são atraídas usando chamarizes. Em 9 de dezembro de 2004, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou o estado espanhol por permitir a caça aos tordos com parany na Comunidade Valenciana, por considerar que esse método de captura não é seletivo e pode causar o desaparecimento local de alguma espécie de ave, e que como tal desrespeita os artigos 8(1) e 9(1)a da Diretiva 79/409/CEE do Conselho.[48][50] Em Portugal, entre 2009 e 2011 terá sido a espécie cinegética mais caçada, com mais de dois milhões de aves abatidas, segundo dados da Autoridade Florestal Nacional.[51] Esta ave é uma das espécies que mais receitas geram em Portugal, atraindo 105 000 caçadores, incluindo estrangeiros, sendo que 75% dos caçadores portugueses praticam a sua caça. Em 2010, a Federação Portuguesa de Caçadores anunciou que iria iniciar um estudo tendente a descobrir a causa do desaparecimento desta ave em Portugal. Após serem caçados, cada ave é vendida nos restaurantes a valores entre 2,5 e 3,5 .[52] Ainda assim, acredita-se que a caça não tenha sido um fator importante no declínio desta espécie em algumas partes da sua zona de distribuição geográfica.[38]

Na cultura e na literatura

Na cultura

Porta de acesso ao relvado do The Hawthorns, com o emblema do West Bromwich Albion FC.

Na heráldica, o tordo-comum é muitas vezes usado como símbolo pelos amantes da música devido ao seu amplo reportório musical, e também pode representar a concórdia.[53] Esta espécie já surgiu ainda representada em selos postais de países como a Bélgica, a Irlanda, a Nova Zelândia, o Reino Unido e a Rússia.[54] O tordo-comum é o emblema do West Bromwich Albion Football Club, tendo sido escolhido porque o pub em que a equipa costumava trocar de roupa para os jogos mantinha um numa gaiola como animal de estimação. Essa é igualmente a origem da antiga alcunha do clube, The Throstles ("Os Tordos").[55]

Turdus philomelos num selo da Rússia.

Os tordos vêm sendo capturados a fim de servir como complemento à dieta há pelo menos 12 000 anos,[56] e atualmente entram na composição de uma especialidade da cozinha portuguesa da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, a 'Fritada dos passarinheiros'.[57][58] Uma das mais antigas referências a essa prática pode ser encontrada na Odisseia de Homero: "Qual, entrando pombas ou tordos num vergel, da moita em rede caem de estendidas asas, triste poleiro e cama; assim, por ordem elas em laços, curto esperneando. Cessam de palpitar estranguladas."[59] Pelo menos desde o século XIX o tordo-comum vem também sendo capturado vivo por forma a ser mantido em gaiolas como animal de estimação por causa do seu canto melodioso.[60] Tal como a caça, não existem existências concretas de que a captura de aves para a avicultura tenha um impacto significativo nas populações selvagens.[5]

Uma canção infantil alemã intitulada Ein Vogel wollte Hochzeit machen (lit. Uma ave queria casar-se) conta a história do casamento entre um melro-preto e um tordo,[61] e dada a sua proximidade ao homem existem numerosas referências ao tordo-comum em ditados populares portugueses, tais como: "Quando o teu vizinho matar um porco, mata tu também nem que seja um tordo."[62] e "Cair que nem tordos." (os tordos voam em bandos durante a época da migração, pelo que os caçadores facilmente matam vários com apenas um tiro de caçadeira).[63]

Turdus philomelos numa nota de 10 LTT.
Turdus philomelos in Nederlandsche Vogelen (1770)

Na literatura

O distinto canto do tordo-comum, com frases melódicas repetidas duas ou mais vezes, é descrito pelo poeta britânico Robert Browning no seu poema Home Thoughts, from Abroad:

"That's the wise thrush; he sings each song twice over,
Lest you should think he never could recapture
The first fine careless rapture!"[64]

O canto do tordo-comum também inspirou o poeta britânico Thomas Hardy, que fala em Darkling Thrush do seu "canto vespertino de coração cheio/de alegria ilimitada",[65] mas o poeta britânico Ted Hughes concentrou-se na sua destreza como caçador no seu poema Thrushes: "Nada além de saltar e/apunhalar/e um segundo devorador".[66] O poeta galês Edward Thomas escreveu 15 poemas sobre melros ou tordos, incluindo The Thrush:

"I hear the thrush, and I see
Him alone at the end of the lane
Near the bare poplar's tip,
Singing continuously."[38]

Em The Tables Turned, o poeta romântico William Wordsworth faz referência ao tordo-comum, escrevendo:

"Hark, how blithe the throstle sings
And he is no mean preacher
Come forth into the light of things
Let Nature be your teacher."[67]

O poeta e dramaturgo T. S. Eliot usa o tordo como metafora para os desvios e más decisões da vida no início do primeiro dos Quatro Quartetos:

"Shall we follow? Quick, said the bird, find them, find them,

Round the corner. Through the first gate,
Into our first world, shall we follow
The deception of the thrush? Into our first world."

Na saga Jogos Vorazes, o tordo é utilizado como símbolo da liberdade pela população de Panem - país fictício da trama.

Ver também

Referências

  1. BirdLife International (2018). «Turdus philomelos»Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas2018: e.T22708822A132076619. doi:10.2305/IUCN.UK.2018-2.RLTS.T22708822A132076619.enAcessível livremente. Consultado em 12 de novembro de 2021
  2. Gould, John (1837). The Birds of Europe2. [S.l.]: R. and J. E. Taylor. Plate 78. doi:10.5962/bhl.title.65989Acessível livremente
  3.  Gooders, John; Harris, Alan (il.); Fernandes, Álvaro Augusto (trad.) (1994). Guia de Campo das Aves de Portugal e da Europa. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 352. ISBN 972-42-1057-X
  4.  «Fichas de caracterização das espécies: Turdus philomelos» (PDF)Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade. Consultado em 30 de abril de 2012. Arquivado do original (pdf) em 11 de outubro de 2010
  5.  Clement. [S.l.: s.n.] Em falta ou vazio |título= (ajuda), Peter; Hathway, Ren; Wilczur, Jan
  6.  Williams, G.R. (1953). «The dispersal from New Zealand and Australia of some introduced European passerines». Oxford: Blackwell Science. Ibis (em inglês). 95 (4): 676-692. ISSN 0019-1019
  7.  Snow, David; Perrins, Christopher M. (ed.) (1998). The Birds of the Western Palearctic concise edition (em inglês). 2. Oxford: Oxford University Press. p. 1225–1228. ISBN 0-19-854099-X
  8.  «Turdus philomelos - BirdLife Species Factsheet» (em inglês). BirdLife International. Consultado em 20 de maio de 2013Cópia arquivada em 13 de outubro de 2012
  9. Brehm, Christian (1831). Handbuch der Naturgeschichte aller Vogel Deutschlands (em alemão). Ilmenau: Voigt. p. 382
  10.  «Song Thrush Turdus philomelos (CL Brehm, 1831)»BirdFacts (em inglês). British Trust for Ornithology. Consultado em 20 de maio de 2013Cópia arquivada em 1 de abril de 2013
  11. Nims, John Frederick (1981). The Harper Anthology of Poetry (em inglês). Nova Iorque: Harper and Row. ISBN 0-06-044846-6
  12. Voelker, G.; Rohwer, S.; Bowie, R.C.; Outlaw, D.C. (fevereiro de 2007). «Molecular systematics of a speciose, cosmopolitan songbird genus: Defining the limits of, and relationships among, the Turdus thrushes». Orlando: Academic Press. Molecular Phylogenetics and Evolution (em inglês). 42 (2): 422-434. ISSN 1055-7903PMID 16971142doi:10.1016/j.ympev.2006.07.016
  13.  Didier Collin (19 de junho de 2000). «Grive musicienne» (em francês). Oiseaux.net. Consultado em 20 de maio de 2013Cópia arquivada em 24 de janeiro de 2013
  14. Devoogd, Timothy J.; Krebs, John R.; Healy, Susan D.; Purvis, Andy (1993). «Relations between Song Repertoire Size and the Volume of Brain Nuclei Related to Song: Comparative Evolutionary Analyses amongst Oscine Birds». Londres: The Royal Society. Proceedings: Biological Sciences (em inglês). 254 (1340): 75-82. ISSN 1471-2954PMID 8290611doi:10.1098/rspb.1993.0129
  15. Slater, Peter J.B. (1983). «The Buzby phenomenon: Thrushes and telephones». Londres: Association for the Study of Animal Behaviour/Animal Behavior Society. Animal Behavior (em inglês). 31 (1): 308-309. ISSN 1095-8282doi:10.1016/S0003-3472(83)80204-8
  16. Brackenbury, J.H. (1979). «Power capabilities of the avian sound-producing system» (pdf). Londres: The Company of Biologists. Journal of Experimental Biology (em inglês). 78 (1): 163-166. ISSN 0022-0949
  17. Mason, Christopher F. (fevereiro de 1998). «Habitats of the Song Thrush Turdus philomelos in a largely arable landscape». Londres: The Zoological Society of London. Journal of Zoology (em inglês). 244 (1): 89-93. ISSN 1469-7998doi:10.1111/j.1469-7998.1998.tb00010.x
  18. Henty, C. J. (1986). «Development of snail-smashing by song thrushes». Londres: Witherby & Co. British Birds (em inglês). 79: 277-281. ISSN 0007-0335
  19. Goodhart, C. B. (maio de 1958). «Thrush Predation on the Snail Cepaea hortensis». Cambridge: British Ecological Society. Journal of Animal Ecology (em inglês). 27 (1): 47-57. ISSN 0021-8790doi:10.2307/2173
  20. Owen, Denis F.; Bengtson, Sven-Axel (1972). «Polymorphism in the Land Snail Cepaea Hortensis in Iceland». Copenhaga: Ejnar Munksgaard. Oikos (em inglês). 23 (2): 218-225. ISSN 1600-0706doi:10.2307/3543409
  21. Burnie, David; Chadwick, Peter (fot.); Taylor, Kim (fot.); Soares, Maria Adozinda de Oliveira (trad.) (1990). Enciclopédia Visual. Aves. Lisboa: Editorial Verbo. p. 42. ISBN 972-22-1102-1
  22.  «Song Thrush: Breeding» (em inglês). The Royal Society for the Protection of Birds. Consultado em 16 de abril de 2012Cópia arquivada em 1 de fevereiro de 2012
  23. «Song Thrush: Threats» (em inglês). The Royal Society for the Protection of Birds. Consultado em 16 de abril de 2012Cópia arquivada em 1 de fevereiro de 2012
  24. Roy Brown (julho de 2006). «A Review of the impact of Mammalian Predators on Farm Songbird Population Dynamics» (PDF) (em inglês). Songbird Survival. Consultado em 27 de janeiro de 2008. Arquivado do original (pdf) em 2 de julho de 2007
  25.  «Song thrush – Turdus philomelos» (em inglês). The Royal Horticultural Society/The Wildlife Trusts. Consultado em 16 de abril de 2012. Arquivado do original em 20 de maio de 2013
  26. Martil, S. Cano; Caballero, E.J. López; del Valle Portilla, María T. (2000). «Estudio con microscopia electrónica de barrido de adultos de Splendidofilaria (Avifilaria) Mavis (Leiper, 1909) Anderson, 1961». Havana: Universidad de la Habana. Biología (em espanhol). 14 (1): 73-80. ISSN 0864-3490
  27. Borgsteede, F.H.M.; Okulewicz, A.; Okulewicz, J. (janeiro de 2000). «A study of the helminth fauna of birds belonging to the Passeriformes in the Netherlands». Varsóvia: Instytut Parazytologii PAN. Acta Parasitologica (em inglês). 25 (1): 14-21. ISSN 1230-2821
  28. Palinauskas, Vaidas; Markovets, Mikhail Yu; Kosarev, Vladislav V.; Efremov, Vladislav D.; Sokolov Leonid V.; Valkiûnas, Gediminas (2005). «Occurrence of avian haematozoa in Ekaterinburg and Irkutsk districts of Russia» (pdf). Vilnius: Lietuvos Mokslų akademija. Ekologija (em inglês). 4: 8-12. OCLC 259369430
  29. Yu. V. Fedorov (julho de 1968). «Further observations on the significance of wild birds as hosts of Ixodes ticks in the Tomsk focus of tick-borne encephalitis (traduzido do russo para o inglês)» (pdf)Pentagon Reports, nº 0916176 (em inglês). Department of the Army. Consultado em 27 de janeiro de 2008Cópia arquivada (PDF) em 25 de fevereiro de 2009
  30. Kipp, Susanne; Goedecke, Andreas; Dorn, Wolfram; Wilske, Bettina; Fingerle, Volker (22 de maio de 2006). «Role of birds in Thuringia, Germany, in the natural cycle of Borrelia burgdorferi sensu lato, the Lyme disease spirochaete». Jena, Alemanha: Urban & Fischer. International Journal of Medical Microbiology (em inglês). 296 (1): 125-128. ISSN 1438-4221PMID 16530003doi:10.1016/j.ijmm.2006.01.001
  31. Comstedt, Pär; Bergström, Sven: Olsen, Björn; Garpmo, Ulf; Marjavaara, Lisette; Mejlon, Hans; Barbour, Alan G.; Bunikis, Jonas (julho de 2006). «Migratory Passerine Birds as Reservoirs of Lyme Borreliosis in Europe» (pdf). Atlanta: National Center for Infectious Diseases/Centers for Desease Control and Prevention. Emerging Infectious Diseases (em inglês). 12 (7): 1087-1094. ISSN 1080-6040
  32. Emden, F.I. van (1954). Handbooks for the identification of British insects. Diptera cyclorrhapha: calyptrata (em inglês). 10 Pt 4a. Londres: Royal Entomological Society
  33. Davies, Nick B. (março de 2002). «Cuckoo tricks with eggs and chicks». Londres: Witherby & Co. British Birds (em inglês). 95 (3): 101–115. ISSN 0007-0335
  34. Grim, Tomáŝ; Honza, Marcel (2001). «Differences in behaviour of closely related thrushes (Turdus philomelos and T. merula) to experimental parasitism by the common cuckoo Cuculus canorus» (PDF). Bratislava: Slovenská Akadémia Vied. Biologia (em inglês). 56 (5): 549-556. ISSN 0006-3088. Consultado em 27 de maio de 2019. Arquivado do original (pdf) em 9 de agosto de 2017
  35. Hale, Katrina; Briskie, James V. (março de 2007). «Response of introduced European birds in New Zealand to experimental brood parasitism» (PDF). Oxford: Blackwell Science. Journal of Avian Biology (em inglês). 38 (2): 198-204. ISSN 1600-048Xdoi:10.1111/j.2007.0908-8857.03734.x. Consultado em 17 de abril de 2012. Arquivado do original (pdf) em 13 de janeiro de 2012
  36. «Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora: Appendices I, II and III» (em inglês). CITES. 22 de dezembro de 2011. Consultado em 17 de abril de 2012Cópia arquivada em 15 de abril de 2012
  37. S.R. Baillie; J.H. Marchant; D.I. Leech; A.C. Joys; D.G. Noble; C. Barimore; I.S. Downie; M.J. Grantham; K. Risely; R.A. Robinson (10 de janeiro de 2010). «Breeding Birds in the Wider Countryside: their conservation status 2009 - Song Thrush» (em inglês). British Trust for Ornithology. Consultado em 17 de abril de 2012
  38.  Cocker. [S.l.: s.n.] Em falta ou vazio |título= (ajuda), Mark; Mabey, Richard
  39. «Song Thrush (Turdus philomelosSpecies Action Plan (em inglês). UK Biodiversity Action Plan. Consultado em 11 de março de 2008Cópia arquivada em 3 de março de 2011
  40. Erritzoe, J.; Mazgajski T.D.; Rejt, L. (2003). «Bird casualties on European roads — a review» (pdf). Varsóvia: Smithsonian Institution/National Science Foundation. Acta Ornithologica (em inglês). 38 (2): 77-93. ISSN 0001-6454
  41.  «Introduced Birds»Birds in Backyards (em inglês). Australian Museum/Birds Australia. Consultado em 16 de janeiro de 2012Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2012
  42.  «Song thrush (Turdus philomelos (em inglês). Department of Agriculture and Food of Western Australia. Consultado em 17 de abril de 2012Cópia arquivada em 17 de fevereiro de 2012
  43. Heather. [S.l.: s.n.] Em falta ou vazio |título= (ajuda), B.; Robertson, H.
  44. «The State of New Zealand's Environment» (em inglês). Ministry for the Environment. 1997. Consultado em 13 de março de 2008. Arquivado do original (pdf) em 14 de março de 2008 Cap. 9, p. 66-72
  45. The State of New Zealand’s Environmentop. cit., Cap. 9, p. 142
  46.  Roux, Denis (5 de novembro de 2010). «La grive musicienne» (em francês). Office National de la Chasse et de la Faune Sauvage. Consultado em 30 de abril de 2012Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2012
  47. «Diretiva do Conselho, de 2 de abril de 1979, relativa à conservação das aves selvagens (79/409/CEE)» (pdf). EUR-Lex.europa.eu. 2 de setembro de 1997. Consultado em 30 de abril de 2012
  48.  «El Tribunal de la UE condena a España por permitir la caza con 'parany' en la Comunidad Valenciana» (em espanhol). Lukor.com. 9 de dezembro de 2004. Consultado em 30 de abril de 2012Cópia arquivada em 27 de setembro de 2011
  49. «Decreto-Lei nº 201/2005» (pdf). Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Diário da República. 1ª Série-A (226): 6648-6690. 24 de novembro de 2005. Consultado em 16 de janeiro de 2012
  50. «Processo C‑79/03 - Comissão das Comunidades Europeias contra Reino de Espanha - Sumário do acórdão». EUR-Lex. 9 de dezembro de 2004. Consultado em 30 de abril de 2012
  51. Sónia Balasteiro (21 de abril de 2012). «Animais caçados sem controlo». Sol.sapo.pt. Consultado em 4 de maio de 2012
  52. José Bento Amaro (1 de junho de 2012). «Caçadores querem saber por que há cada vez menos tordos». Público.clix.pt. Consultado em 4 de maio de 2012
  53. «Throstle, Thrush»Heraldry Symbolism Library (em inglês). Armorial Gold Heraldry Services. Consultado em 30 de abril de 2012Cópia arquivada em 1 de maio de 2012
  54. «Bird stamps»Theme Birds on Stamps (em inglês). Kjell Scharning. Consultado em 30 de abril de 2012Cópia arquivada em 1 de maio de 2012
  55. McOwan, Gavin (2002). The Essential History of West Bromwich Albion (em inglês). Londres: Headline. p. 15. ISBN 0-7553-1146-9
  56. Bocheñski, Z.; Tomek, T. (30 de junho de 2004). «Bird remains from a rock-shelter in Krucza Skala (Central Poland)» (pdf)Bird remains from a rock-shelter in Krucza Skala (Central Poland) (em inglês). 47 (1-2): 27-47
  57. «Tordos fritos ou Fritada dos passarinheiros». Diário de Notícias.pt. Consultado em 1 de maio de 2012. Arquivado do original em 20 de maio de 2013
  58. «7 Maravilhas da Gastronomia: Os pratos a concurso». Público.pt. 7 de abril de 2011. Consultado em 1 de maio de 2012Cópia arquivada em 14 de abril de 2011
  59. Homero; Odorico Mendes, Manuel (trad.) (1928). Odisseia. Livro XXII. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro
  60. Dyson, C.E. (1889). Bird-Keeping. A Practical Guide for the Management of Singing and Cage Birds (em inglês). Londres: Frederick Warne & Co. p. 51
  61. «Ein Vogel wollte Hochzeit machen» (em alemão e inglês). Mama Lisa's World. Consultado em 30 de abril de 2012Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2011
  62. «O porco no rifoneiro português»Provérbios. Folclore de Portugal. Consultado em 1 de maio de 2012Cópia arquivada em 25 de março de 2013
  63. Sandra Ferreira. «Cair Que Nem Tordos»Força de Expressão. Rádio M80. Consultado em 1 de maio de 2012
  64. Robert Browning. «Home Thoughts, from Abroad» (em inglês). Englishverse.com. Consultado em 26 de janeiro de 2008Cópia arquivada em 16 de janeiro de 2008
  65. A.E. Stallings. «The Darkling Thrush: A Centennial Appreciation» (em inglês). Alsop. Consultado em 11 de março de 2008. Arquivado do original em 19 de março de 2008
  66. Ted Hughes. «Thrushes» (em inglês). Poetry Connection.net. Consultado em 11 de março de 2008Cópia arquivada em 14 de novembro de 2007
  67. William Wordsworth. «The Tables Turned» (em inglês). Bartleby.com. Consultado em 29 de janeiro de 2008Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2008

Tordo-comum (Turdus philomelos): Biologia, Ecologia e Significado Cultural de um Cantor Europeu

Introdução

O tordo-comum (Turdus philomelos), também conhecido como tordo-músico ou tordo-pinto, é uma ave passeriforme da família Turdidae, amplamente distribuída pela Europa, Norte de África, Médio Oriente e Sibéria. Reconhecido pelo seu canto melodioso e complexo, composto por frases musicais repetidas distintivamente, o tordo-comum tornou-se um símbolo cultural da natureza europeia, inspirando poetas, músicos e naturalistas ao longo dos séculos.
Introduzido na Austrália e Nova Zelândia durante a segunda metade do século XIX por motivos sentimentais, a espécie adaptou-se com sucesso a novos ambientes, embora com impactos ecológicos variados. Dependendo da latitude, pode ser residente, migratória ou parcialmente migratória, exibindo notável plasticidade comportamental e ecológica. Apesar de registar declínios populacionais em algumas regiões da Europa, a espécie mantém uma vasta área de distribuição e população global significativa, sendo classificada como "Pouco Preocupante" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Taxonomia e Histórico Nomenclatural

O tordo-comum foi descrito cientificamente em 1831 pelo ornitólogo alemão Christian Ludwig Brehm, que lhe atribuiu o nome binomial Turdus philomelos. O género Turdus deriva do latim para "tordo", enquanto o epíteto específico philomelos referencia o mito grego de Filomela, princesa ateniense transformada em rouxinol. O nome combina os termos gregos philo ("amante") e melos ("canção"), aludindo poeticamente à qualidade vocal da espécie.
Três subespécies são geralmente aceites pela comunidade ornitológica:
  • T. p. philomelos: Subespécie nominal, descrita por Brehm em 1831, distribuída pela maior parte da Eurásia.
  • T. p. hebridensis: Descrita por William Eagle Clarke em 1913, residente nas Hébridas Exteriores e na ilha de Skye, Escócia. Caracteriza-se por plumagem mais escura e uropígio acinzentado.
  • T. p. clarkei: Descrita por Ernst Hartert em 1909 e nomeada em homenagem a Clarke, parcialmente migratória, reproduz-se na Grã-Bretanha, Irlanda, França, Bélgica e Países Baixos, inverna no sul da França e Península Ibérica, e foi introduzida na Austrália e Nova Zelândia.
Estas subespécies hibridizam nas zonas de contacto: clarkei com a nominal na Europa Central e com hebridensis nas Hébridas Interiores e Escócia ocidental, produzindo indivíduos com características intermédias. Outras formas, como T. p. nataliae da Sibéria, foram propostas mas não ganharam aceitação generalizada.
Estudos moleculares recentes indicam que os parentes mais próximos do tordo-comum são a tordoveia (Turdus viscivorus) e o Turdus mupinensis asiático. Estas três espécies divergiram da linhagem principal do género antes da radiação global dos Turdus, posicionando-as como ramos basais relativamente a outras espécies europeias como o melro-preto (Turdus merula).

Características Morfológicas e Variação Geográfica

A subespécie nominal mede entre 20 e 23 cm de comprimento, com envergadura de 33 a 36 cm e peso variando de 50 a 107 g. Ambos os sexos apresentam plumagem semelhante: partes superiores castanhas, contrastando com o peito e ventre de cor creme ou acastanhada, salpicados de manchas negras em forma de malha. A parte inferior das asas exibe tonalidade amarelada distintiva, o bico é amarelado e as patas, cor-de-rosa.
Existe um gradiente cromático ao longo da área de reprodução: as populações orientais, da Suécia à Sibéria, apresentam partes inferiores progressivamente mais pálidas. Os juvenis assemelham-se aos adultos, mas exibem listas alaranjadas ou acastanhadas nas costas e coberteiras das asas, que se desvanecem com a muda para a plumagem adulta.
As subespécies diferem em detalhes de coloração:
  • T. p. hebridensis: A mais escura, com dorso castanho-escuro, uropígio acinzentado e flancos cinzentos.
  • T. p. clarkei: Apresenta castanho mais vivo nas partes superiores, uropígio com tom verde-azeitona e partes inferiores amareladas com manchas negras mais contrastantes.
Na Europa, a espécie mais semelhante é o tordo-ruivo (Turdus iliacus), distinguível pela lista supraciliar branca, flancos avermelhados e subalar vermelha. A tordoveia é consideravelmente maior e possui cantos da cauda brancos. O Turdus mupinensis asiático, embora morfologicamente próximo, habita fora da área de distribuição do tordo-comum e exibe marcas faciais negras distintivas.

Vocalizações e Canto

O repertório vocal do tordo-comum é um dos mais elaborados entre as aves europeias. Os chamamentos incluem um tsip curto e agudo, substituído durante a migração por um seep ténue e prolongado, e um chook-chook de alarme que se torna progressivamente mais estridente com o aumento da percepção de perigo.
O canto do macho consiste numa sequência sonora de frases musicais distintas, repetidas duas a quatro vezes antes de transitar para a próxima: filip filip filip codidio codidio quitquiquit tittit tittit tereret tereret. Estas frases são intercaladas com notas dissonantes e imitações impressionantes de vocalizações de outras espécies, incluindo sons antropogénicos como telefones e chamamentos de aves exóticas em cativeiro.
Cada macho pode dominar um repertório superior a 100 frases, muitas aprendidas dos progenitores e de vizinhos territoriais. O canto é emitido a partir de poleiros elevados — árvores, telhados, postes — a qualquer hora do dia, embora com maior intensidade ao amanhecer e entardecer. A época de canto estende-se de fevereiro a junho para hebridensis e de novembro a julho para as demais subespécies.
Relativamente ao peso corporal, o tordo-comum produz uma das vocalizações mais potentes entre as aves, com projeção que ultrapassa a vegetação densa dos seus habitats florestais.

Distribuição Geográfica e Preferências de Habitat

A área de reprodução estende-se desde a Europa Ocidental (excluindo a maior parte da Península Ibérica e sul da Itália e Grécia) até à Sibéria central, alcançando o lago Baikal. A espécie ocorre desde o nível do mar até 2.200 m de altitude nos Alpes suíços, demonstrando notável tolerância altitudinal.
Os habitats de nidificação preferenciais incluem florestas com sub-bosque denso e clareiras adjacentes. Na Europa Ocidental, adaptou-se com sucesso a ambientes antropizados, utilizando jardins, parques e zonas periurbanas para reprodução. Estudos no Reino Unido revelaram que, embora os jardins representem apenas 2% da superfície territorial, albergaram 71,5% dos ninhos monitorizados, enquanto terrenos agrícolas (mais extensos) contribuíram com apenas 3,5%.
A subespécie hebridensis nidifica em habitats mais abertos, incluindo charnecas e zonas costeiras. A subespécie nominal, na extremidade oriental da distribuição, associa-se preferencialmente a florestas de coníferas densas.
Durante o inverno, a espécie ocupa habitats semelhantes aos de reprodução, embora evite áreas expostas e de alta altitude. Hebridensis frequenta zonas costeiras durante a estação fria, aproveitando recursos alimentares marinhos e de estuário.

Padrões Migratórios

O tordo-comum exibe estratégias migratórias variadas conforme a latitude. Populações da Escandinávia, Europa Oriental e Rússia realizam migrações regulares para o sul, inverando na bacia do Mediterrâneo, Norte de África e Médio Oriente. Populações de zonas mais temperadas, como a Europa Ocidental, tendem a ser residentes ou realizar movimentos parciais de curta distância.
Ao contrário de espécies mais nómadas como o tordo-zornal (Turdus pilaris) e o tordo-ruivo, o tordo-comum demonstra fidelidade a locais de invernada, regressando frequentemente às mesmas áreas ano após ano.
A migração ocorre predominantemente durante a noite, em bandos dispersos, com voo forte e direto. Os indivíduos mantêm contacto vocal através de chamamentos frequentes. A espécie migra numa "frente larga", cruzando o Mediterrâneo em múltiplos pontos ao invés de se concentrar em estreitos geográficos específicos.
O movimento outonal pode iniciar-se em agosto nas populações mais setentrionais e orientais, embora a maioria das aves desloque-se para sul entre setembro e meados de dezembro. O regresso às áreas de reprodução ocorre entre meados de fevereiro (Mediterrâneo) e maio (norte da Suécia e Sibéria central). Condições meteorológicas adversas podem desencadear movimentos irruptivos adicionais.
Registos ocasionais documentam a presença da espécie fora da sua área normal de distribuição, incluindo Gronelândia, ilhas atlânticas e África Ocidental, provavelmente resultantes de desvios migratórios ou dispersão juvenil.

Comportamento Alimentar e Ecologia Trófica

O tordo-comum é omnívoro, com dieta sazonalmente variável. Consome invertebrados — especialmente minhocas, caracóis e lesmas — durante a primavera e verão, complementando com bagas, drupas e frutos no outono e inverno.
A caça é realizada predominantemente por visão. A ave corre aos trancos em terreno aberto, revirando folhas e detritos com movimentos ruidosos para expor presas ocultas. Um comportamento distintivo é o uso de pedras como "bigornas" para partir as conchas de caracóis: o tordo segura a presa com o bico, bate-a repetidamente contra uma superfície dura até fracturar a concha, e depois extrai o corpo mole, frequentemente esfregando-o no solo antes de consumir.
Este comportamento instrumental é aprendido: juvenis inicialmente manipulam objetos de forma lúdica, desenvolvendo gradualmente a técnica através de observação e prática. A espécie de caracol Cepaea nemoralis, com suas conchas polimórficas, é consumida regularmente, sugerindo que a predação pelo tordo-comum pode ter exercido pressão seletiva sobre os padrões de coloração das conchas — embora outros fatores ecológicos também estejam envolvidos.
Após a ingestão de frutos, a espécie regurgita pequenas pelotas contendo sementes indigestas, contribuindo marginalmente para a dispersão vegetal, embora o esmagamento das sementes durante a alimentação limite este papel ecológico.

Reprodução e Ciclo de Vida

O tordo-comum é monogâmico e territorial. Em áreas migratórias, os machos regressam primeiro aos locais de nidificação e reestabelecem territórios através do canto. Em zonas temperadas, alguns machos residentes mantêm territórios durante o inverno, cantando intermitentemente, enquanto as fêmeas podem ocupar áreas adjacentes até à formação dos pares na primavera.
O ritual de corte inclui exibições do macho: aproxima-se da fêmea com a cauda aberta e achatada, cabeça inclinada para trás e bico entreaberto, emitindo vocalizações suaves.

Construção do Ninho e Postura

A fêmea constrói sozinha o ninho em forma de taça, utilizando lama, ervas secas e raízes finas, frequentemente cimentadas com saliva. O ninho é forrado internamente com material macio e posicionado em arbustos, árvores, trepadeiras ou, no caso de hebridensis, no solo. O macho permanece nas proximidades, cantando, mas não participa na construção.
Cada postura compreende habitualmente quatro ou cinco ovos de cor azul brilhante, salpicados de pequenas manchas negras ou roxas. As dimensões médias são 27 × 20 mm, com peso aproximado de 6,0 g, dos quais 6% correspondem à casca.

Incubação e Desenvolvimento dos Filhotes

A incubação é realizada exclusivamente pela fêmea, durando entre 10 e 17 dias (média de 14 dias). Os filhotes nascem altriciais — cegos, sem penas e totalmente dependentes — e permanecem no ninho por 12 a 15 dias (média de 14,0 dias). Ambos os progenitores participam na alimentação, fornecendo principalmente minhocas, lesmas, caracóis e larvas de insetos; frutos complementam a dieta em períodos de escassez de invertebrados.
Ao abandonar o ninho, os juvenis não dominam ainda o voo: rastejam ou saltam para o solo, buscando cobertura na vegetação próxima. Esta adaptação permite fuga rápida em caso de perturbação — filhotes podem deixar o ninho com apenas nove dias de vida se necessário.
Os progenitores continuam a alimentar e proteger os juvenis por mais duas a três semanas após a emancipação do ninho. Se a fêmea inicia uma nova postura, o macho assume sozinho os cuidados da ninhada anterior. Os juvenis tornam-se independentes aproximadamente três semanas após saírem do ninho e atingem a maturidade sexual e plumagem adulta aos 12 meses de idade.

Sucesso Reprodutivo e Longevidade

A época de nidificação estende-se de março a agosto, permitindo habitualmente duas ou três ninhadas anuais, embora apenas uma seja comum nas extremidades setentrionais da distribuição. O mesmo ninho pode ser reutilizado para múltiplas posturas.
A perda de ovos durante a incubação e a mortalidade juvenil são elevadas: apenas cerca de um terço das ninhadas produz juvenis que atingem a independência. A taxa de sobrevivência no primeiro ano de vida é de aproximadamente 46,3%, aumentando para 56,3% em adultos. Embora existam registos de indivíduos com mais de 13 anos, a esperança média de vida de um adulto é de cerca de três anos.

Predadores, Parasitas e Interações Ecológicas

Predação

Os principais predadores de adultos incluem o gato-doméstico (Felis silvestris catus), o mocho-galego (Athene noctua) e o gavião-da-europa (Accipiter nisus). Ovos e filhotes são vulneráveis à predação por pega-rabilonga (Pica pica), gaio-comum (Garrulus glandarius) e esquilo-cinzento (Sciurus carolinensis), especialmente em habitats fragmentados ou periurbanos.

Parasitas e Doenças

Como muitas aves silvestres, o tordo-comum alberga diversos parasitas. Endoparasitas incluem o nemátodo Splendidofilaria (Avifilaria) mavis (cujo epíteto específico deriva do nome comum da ave), tremátodos como Echinostoma revolutum e Plagiorchis multiglandularis, e acantocéfalos como Plagiorhynchus cylindraceus.
Estudos documentaram a presença generalizada de hematozoários, particularmente dos géneros Haemoproteus e Trypanosoma, em populações testadas. Carrapatos do género Ixodes são frequentemente encontrados, representando vetores potenciais de patógenos como o vírus da encefalite transmitida por carrapatos e bactérias do género Borrelia, algumas das quais causam a doença de Lyme. Aves que forrageiam no solo, como o tordo-comum, podem funcionar como reservatórios para estas zoonoses.
Larvas da mosca díptera Fannia nidica associam-se a ninhos de túrdidos, alimentando-se de detritos orgânicos.

Parasitismo de Ninhada

O tordo-comum é ocasionalmente alvo de parasitismo de ninhada pelo cuco-canoro (Cuculus canorus), embora com baixa frequência. A espécie demonstra capacidade de reconhecer e rejeitar ovos não miméticos do parasita. Curiosamente, populações introduzidas na Nova Zelândia — onde cucos não ocorrem — mantêm esta capacidade de reconhecimento, sugerindo que a rejeição é um traço evolutivamente conservado e não dependente de pressão seletiva local contínua.

Estado de Conservação e Ameaças Antrópicas

Situação Global e Regional

A área de distribuição estimada do tordo-comum abrange aproximadamente 5,8 milhões de km², com população global avaliada entre 81,1 e 216 milhões de indivíduos, incluindo 20–36 milhões de pares na Europa. Apesar de evidências de declínio moderado no Paleártico Ocidental desde a década de 1980, a espécie não preenche critérios para categorias de ameaça segundo a IUCN, sendo classificada como "Pouco Preocupante" desde 2012.
Contudo, declínios acentuados (>50%) foram registados no Reino Unido e nos Países Baixos, levando à classificação como "Vermelho" (elevada preocupação) nas listas nacionais de conservação. Em Portugal, a população residente é avaliada como "Quase Ameaçada", enquanto a população invernante mantém estatuto de "Pouco Preocupante".

Fatores de Declínio

O declínio observado em zonas agrícolas — estimado em 73% desde meados da década de 1970 — está provavelmente associado a mudanças nas práticas agrícolas: remoção de sebes, transição de sementeiras de primavera para outono, e aumento do uso de pesticidas. Estes fatores reduzem a disponibilidade de locais de nidificação adequados e diminuem a abundância de invertebrados, base alimentar crítica durante a reprodução.
Em jardins urbanos, o uso de moluscicidas para controlo de lesmas e caracóis pode representar risco de intoxicação secundária. Em áreas urbanas, alguns indivíduos são atropelados ao utilizar superfícies pavimentadas como "bigornas" para partir conchas de caracóis.

Populações Introduzidas

Austrália

O tordo-comum foi introduzido em Melbourne em 1863 por motivos sentimentais, mas não se expandiu significativamente além dos locais de libertação original. Permanece restrito a áreas urbanas de Melbourne e Geelong, sem estabelecimento em habitats naturais extensivos.

Nova Zelândia

Introduzido entre 1865 e 1867, também por motivos sentimentais, a espécie adaptou-se com sucesso e expandiu-se por todo o país, incluindo as ilhas Chatham, Kermadec e Auckland. Embora cause impactos limitados sobre invertebrados nativos através da predação, representa preocupação para a indústria frutícola devido ao consumo de bagas e frutos cultivados.
Como espécie introduzida, não goza de proteção legal na Nova Zelândia e pode ser abatida sem restrições.

Caça e Uso Humano

Na União Europeia, a caça ao tordo-comum é regulamentada pela Diretiva 2009/147/CE (anteriormente 79/409/CEE) relativa à conservação das aves selvagens. A prática é permitida em diversos países, incluindo França, Espanha e Portugal, sob regimes de licenciamento e quotas específicas.
Em França, estima-se que cerca de 4,5 milhões de túrdidos de todas as espécies tenham sido abatidos anualmente no final da década de 1990. Métodos de captura incluem tiro e uso de varinhas enviscadas para captura viva, esta última regulamentada por decreto ministerial em departamentos específicos do sul de França.
Em Espanha, o método tradicional parany — rede de galhos com cola montada em árvores, utilizando chamarizes — foi objeto de controvérsia legal. Em 2004, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou a sua utilização na Comunidade Valenciana por não ser seletivo e poder comprometer populações locais de aves.
Em Portugal, o tordo-comum figura entre as espécies cinegéticas mais caçadas, com mais de dois milhões de indivíduos abatidos entre 2009 e 2011. A atividade gera receitas significativas, atraindo caçadores nacionais e internacionais. Após a caça, as aves são comercializadas em restaurantes por valores entre 2,5 e 3,5 euros por unidade.
Apesar da intensidade da caça em certas regiões, não existem evidências conclusivas de que esta prática seja o fator determinante nos declínios populacionais observados; alterações de habitat e disponibilidade alimentar parecem exercer influência mais significativa.

Significado Cultural e Literário

Na Cultura Popular

O canto distintivo do tordo-comum inspirou a sua associação simbólica com a música e a harmonia. Na heráldica, a ave representa frequentemente os amantes da música e a concórdia. Foi retratada em selos postais de Bélgica, Irlanda, Nova Zelândia, Reino Unido e Rússia.
O tordo-comum é o emblema do West Bromwich Albion Football Club, escolhido porque o pub onde a equipa se reunia mantinha um espécime em gaiola como mascote. Daí deriva a antiga alcunha do clube, "The Throstles" ("Os Tordos").
A captura de tordos para consumo alimentar remonta a pelo menos 12.000 anos. Em Portugal, a espécie integra a "Fritada dos Passarinheiros", especialidade gastronómica de Trás-os-Montes e Alto Douro. Referências clássicas, como na Odisseia de Homero, documentam práticas de caça a túrdidos na antiguidade.
Desde o século XIX, o tordo-comum é também mantido em cativeiro como ave de canto, valorizado pela complexidade e beleza do seu repertório vocal. Não há evidências de que esta prática tenha impacto significativo nas populações selvagens.
Ditados populares portugueses refletem a familiaridade com a espécie: "Quando o teu vizinho matar um porco, mata tu também nem que seja um tordo" (sugerindo oportunidade e adaptação) e "Cair que nem tordos" (referindo-se à facilidade de abater múltiplos indivíduos em voo migratório).

Na Literatura

O canto repetitivo e melodioso do tordo-comum inspirou numerosos poetas britânicos:
Robert Browning, em Home Thoughts, from Abroad, celebra a prudência musical da ave:
"That's the wise thrush; he sings each song twice over,
Lest you should think he never could recapture
The first fine careless rapture!"
Thomas Hardy, em The Darkling Thrush, descreve o canto como expressão de "alegria ilimitada" num cenário invernal sombrio. Ted Hughes, em Thrushes, foca na destreza predatória: "Nothing but bounce and stab / and a ravening second".
O poeta galês Edward Thomas dedicou múltiplos poemas a túrdidos, incluindo The Thrush, onde evoca a persistência do canto:
"I hear the thrush, and I see / Him alone at the end of the lane / Near the bare poplar's tip, / Singing continuously."
William Wordsworth, em The Tables Turned, convida o leitor a aprender com a natureza através do canto do tordo:
"Hark, how blithe the throstle sings / And he is no mean preacher / Come forth into the light of things / Let Nature be your teacher."
T. S. Eliot utiliza o tordo como metáfora de ilusão e escolha em Burnt Norton, primeiro dos Quatro Quartetos:
"Shall we follow? Quick, said the bird, find them, find them, / Round the corner. Through the first gate, / Into our first world, shall we follow / The deception of the thrush? Into our first world."
Na cultura contemporânea, o tordo inspira símbolos de resistência e liberdade, como na saga Jogos Vorazes, onde o "tordo" (mockingjay) representa a esperança e a rebelião contra a opressão.

Conclusão

O tordo-comum (Turdus philomelos) encarna a interseção entre ecologia, comportamento complexo e significado cultural. O seu canto elaborado, a plasticidade migratória, a adaptação a habitats antropizados e o comportamento instrumental único no uso de "bigornas" para caracóis destacam-no como um dos túrdidos mais notáveis da fauna paleártica.
Apesar dos desafios impostos por mudanças agrícolas, urbanização e pressão cinegética, a espécie mantém resiliência populacional em grande parte da sua área de distribuição. As populações introduzidas na Nova Zelândia demonstram capacidade de estabelecimento em novos ecossistemas, embora com implicações ecológicas que exigem monitorização.
Culturalmente, o tordo-comum transcende a biologia: é musa poética, símbolo heráldico, recurso gastronómico e elemento de identidade local. A sua presença na literatura, na música e no imaginário popular reflete a profunda conexão humana com a natureza vocalizada.
Preservar o tordo-comum significa proteger não apenas uma espécie, mas um património natural e cultural que continua a inspirar, educar e encantar. Através da conservação de habitats diversificados, práticas agrícolas sustentáveis e monitorização científica, podemos assegurar que o canto do tordo-músico continue a ecoar pelas florestas, jardins e vales da Eurásia — e além — para as gerações futuras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário