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quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Madraça Tillakori: A “Obra Dourada” do Reguistão

 

Madraça Tillakori
Madraça Tilya-Kori • Madraça Tilla Kari
Informações gerais
TipoMadraça
Construção1646-1660
PromotorYalangtush Bakhodur
ReligiãoIslão sunita
Património Mundial
Ano2001 [♦]
Referência603 en fr es
Geografia
PaísUsbequistão
CidadeSamarcanda
Conjunto monumentalReguistão
Coordenadas39° 39′ 18″ N, 66° 58′ 35″ L
Localização em mapa dinâmico
Notas:
[♦] ^ Parte do sítio do Património Mundial "Samarcanda – cruzamento de culturas"

A Madraça Tillakori (em usbeque: Tillakori madrasasi), também chamada ou grafada Madraça Tilya-Kori[1] e Madraça Tilla Kari,[2] é uma madraça (escola islâmica) do século XVII no centro histórico de Samarcanda, um sítio classificado como Património Mundial pela UNESCO no Usbequistão.[3] É o monumento mais novo do conjunto monumental do Reguistão, o antigo coração da cidade, que é formado pelas madraças Ulugue Begue, Cher-Dor e Tillakori.[4]

História

Quando o edifício foi finalizado, em 1660, a Madraça Ulugue Begue, o primeiro monumento do conjunto do Reguistão, já existia há 230 anos. O seu nome significa "obra dourada" ou "coberta de ouro", uma referência ao estilo de pintura kundal usado na sala de oração, que é profusamente decorada com relevos dourados. Tal como a vizinha Madraça Cher-Dor, foi mandada construir por Yalangtush Bakhodur (Yalangtush bi Alchin[1] ou Alchin Yalantush Bahadur),[2] o governador de Samarcanda a mando do soberano jânida do Canato de Bucara Imã Culi Cã (r. 1611–1650).[5] As obras começaram em 1646, dez anos depois da conclusão da Madraça Cher-Dor. Devido à morte de Yalangtush em 1555–1556, a construção parou em 1660 sem chegar a ser completamente concluída até ao século XX, quando a cúpula exterior da sala de oração foi completada durante as obras de restauro realizadas durante o período soviético.[1]

Antes da madraça ser construída, no local existia o caravançarai Mirzoi, que fazia parte dum complexo construído no século XIV por Tumã-Aca, uma das consortes de Tamerlão.[2] Em meados do século XVII a cidade assistia a um declínio do sua atividade comercial, pelo que aparentemente o caravançarai era dispensável.[1] Embora inicialmente tivesse sido construído para ser um seminário teológico, o edifício tornou-se rapidamente a mesquita congregacional da cidade, devido à sua ampla sala de oração e ao péssimo estado da Mesquita de Bibi Hanim (a maior de Samarcanda, construída em 1399–1404), e à demolição da Mesquita Alikeh Kukeltash (construída em 1440).[2]

No início do século XIX, a parte superior do portal principal foi destruída por um forte sismo. Os estragos foram reparados durante o reinado do emir Haidar (r. 1800–1826), à exceção da decoração de mosaicos.[6] A madraça foi alvo de várias campanhas de restauro nas décadas de 1920, 1930 e 1950, dirigidas por especialistas soviéticos. Durante essas obras, a cúpula da mesquita foi completada e os minaretes e ivãs foram completamente reconstruídos. O interior foi restaurado na década de 1970. Não obstante, as fundações ainda estão ameaçadas por infiltrações do lençol freático. Isso, juntamente com as variações extremas de temperatura, tem feito com que grandes superfícies de pinturas decorativas e revestimentos de azulejos se descascassem. O estatuto de Património Mundial tem assegurado que o estado de conservação do monumento seja vigiado, mas os financiamentos têm sido insuficientes para as obras de restauro e manutenção que são necessárias.[2]

Arquitetura

Interior da mesquita

A madraça foi concebida para ser a maior e mais ornamentada estutura do Reguistão. A fachada com 120 metros de comprimento marca o lado norte da praça, aliviando a simetria opressiva desta com a colocação da cúpula principal (da mesquita) fora do eixo. A composição é reforçada pelo uso de minaretes ou guldastas (torres robustas semelhantes a minaretes) com cúpulas nas esquinas, em harmonia com o caráter e escala do quadrado da praça.[1]

As paredes exteriores são ricamente decoradas com azulejos policromáticos com padrões geométricos. Em cada um dos lados do portal tem grandes nichos ogivais (quatro no rés de chão e quatro no piso superior), o que constitui uma mudança significativa em relação às fachadas de madraças anteriores, que são praticamente lisas nas partes laterais do portal. Outras diferenças tipológicas da Tillakori em relação às outras madraças do Reguistão são o portal ser mais recuado, não ter minaretes ou guldastas na parte traseira, a menor altura das guldastas da fachada principal, as quais são encimadas por pequenas cúpulas, o que não acontece nas outras madraças, e uma maior relação entre áreas construídas e áreas abertas (o pátio tem menores dimensões relativas). A tipologia da Madraça Tillakori é semelhante à das madraças de Bucara construídas nos séculos XVI e XVII.[2]

Cúpula da mesquita vista do interior

O edifício é um híbrido de mesquita congregacional e madraça, pois não tem os darskhans (salas de aula situadas nas esquinas) caraterísticos presentes em quase todas as grandes madraças da Ásia Central. Em vez disso, a ala ocidental tem uma grande sala de oração flanqueada por câmaras adjacentes com amplo espaço para instrução e culto. Quando o tempo o permitia, as aulas podem ter tido lugar no enorme pátio ou à sombra dos três ivãs[1] com pishtaqs elevados virados para o pátio. Em volta deste há numerosas hujras (celas de habitação de estudantes),[2] que são precedidas por vestíbulos e ocupam apenas um piso, e não dois como acontece nas outras madraças do Reguistão.[1]

A mesquita tem um grande cúpula ao centro e é ligada a galerias laterais abobadadas por arcadas. A cúpula assenta num tambor cilíndrico alto que se encontra acima de duas camadas octogonais em terraço que são suportadas por um alto pedestal retangular que forma a sala de orações principal. O azul monocromático da cúpula contrasta com a policromia do tambor, que é decorado com faixas de caligrafia. O espaço interior tem um teto plano, no qual é criado um efeito de cúpula por trompe-l'oeil intrincadamente trabalhado, composto de arcos cegos que suportam três camadas de anéis com muqarnas. A sala central é ricamente decorada com relevos dourados (kundal) e ornamentada com incrustações de mosaico vidrado (kashi, por ser originário de Caxã [Kashan]) e estuque inciso. No interior dominam tons azuis e dourados. Os intrincados motivos multicoloridos e dourados do mirabe de mármore são exemplos magníficos do famoso artesanato da região de Mawara'u'n-nahr (nome árabe da Transoxiana).[2]

Referências

  1.  «Tilya-Kori Madrasa, Samarkand, Uzbekistan» (em inglês). Asian Historical Architecture. www.orientalarchitecture.com. Consultado em 29 de maio de 2021
  2.  «Tilla Kari Madrasa». archnet.org (em inglês). ArchNet: Islamic Architecture Community. Consultado em 29 de maio de 2021
  3. Samarkand – Crossroad of Cultures. UNESCO World Heritage Centre - World Heritage List (whc.unesco.org). Em inglês ; em francês ; em espanhol. Páginas visitadas em 28 de maio de 2021.
  4. «Registan Square Restoration». archnet.org (em inglês). ArchNet: Islamic Architecture Community. Consultado em 29 de maio de 2021
  5. Ouzbékistan (em francês), Guias Petit Futé, 2012, pp. 210–211
  6. «Registan square» (em inglês). www.centralasia-travel.com. Consultado em 29 de maio de 2021

Bibliografia

A Madraça Tillakori: A “Obra Dourada” do Reguistão

A Madraça Tillakori — também conhecida pelas grafias Tilya-Kori ou Tilla Kari, que significam literalmente “obra dourada” ou “coberta de ouro” — é uma escola islâmica construída no século XVII, situada no centro histórico de Samarcanda, no Usbequistão. A cidade é reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, e essa madraça ocupa um lugar de destaque: é o monumento mais novo e o mais ricamente decorado do conjunto monumental do Reguistão, a antiga praça principal e coração cultural, religioso e comercial da cidade, ao lado das madraças Ulugue Begue e Cher-Dor.

História e Contexto de Construção

As obras da Madraça Tillakori tiveram início em 1646, cerca de dez anos após a conclusão da vizinha Madraça Cher-Dor. A iniciativa partiu de Yalangtush Bakhodur, governador de Samarcanda que atuava sob as ordens do soberano do Canato de Bucara, Imã Culi Cã, que governou de 1611 a 1650. A construção foi finalizada oficialmente em 1660, mas já havia um grande intervalo de tempo: quando ficou pronta, a Madraça Ulugue Begue — a primeira do conjunto — já existia há mais de 230 anos.
Curiosamente, o terreno onde foi erguida não estava vazio: ali funcionava o Caravançarai Mirzoi, uma pousada para mercadores e viajantes construída no século XIV por Tumã-Aca, uma das esposas do famoso conquistador Tamerlão. No século XVII, porém, a atividade comercial da região estava em declínio, e a estrutura já não atendia mais às necessidades da cidade, sendo substituída pelo novo projeto.
A construção enfrentou interrupções importantes: com a morte de Yalangtush Bakhodur por volta de 1655–1656, as obras pararam antes de ficarem totalmente concluídas. A cúpula externa da sala de oração, por exemplo, só foi finalizada séculos depois, durante as campanhas de restauro realizadas no período soviético.
Embora tenha sido idealizada originalmente como um seminário teológico, a Tillakori rapidamente ganhou uma função ainda mais importante: tornou-se a mesquita principal de Samarcanda. Isso aconteceu porque a maior casa de orações da cidade, a Mesquita de Bibi Hanim, já estava muito danificada, e a antiga Mesquita Alikeh Kukeltash havia sido demolida, deixando um vazio que a ampla e bem localizada Tillakori preencheu.

Desafios e Preservação ao Longo dos Séculos

A estrutura resistiu a inúmeras adversidades. No início do século XIX, um forte terremoto destruiu a parte superior do portal principal; os reparos foram feitos durante o reinado do emir Haidar, mas a decoração em mosaico não pôde ser totalmente recuperada.
No século XX, a madraça passou por várias etapas de restauração:
  • Nas décadas de 1920, 1930 e 1950, especialistas soviéticos reconstruíram os minaretes, os salões em arco e finalizaram a cúpula da mesquita;
  • Na década de 1970, todo o interior foi recuperado.
Ainda assim, a conservação continua sendo um desafio. As fundações sofrem com a infiltração de água do lençol freático, e as mudanças bruscas de temperatura fazem com que camadas de tinta e azulejos se desprendam. A classificação como Patrimônio Mundial garante o acompanhamento técnico, mas a falta de recursos financeiros suficientes ainda impede intervenções mais profundas e duradouras.

Arquitetura: Uma Estrutura Híbrida e Inovadora

A Madraça Tillakori foi projetada para ser a maior e mais ornamentada construção do Reguistão. Com 120 metros de extensão, sua fachada ocupa todo o lado norte da praça. Diferente das outras duas madraças do conjunto, ela tem uma disposição assimétrica: a cúpula principal da mesquita não fica alinhada ao centro da praça, o que cria um equilíbrio visual mais leve e evita uma sensação de rigidez excessiva.

Características Externas

  • Torres e nichos: Nos cantos da fachada, erguem-se torres robustas chamadas guldastas, com pequenas cúpulas no topo — detalhe que não existe nas outras madraças da região. Ao lado do portal principal, há grandes nichos em forma de arco, dispostos em dois andares, o que diferencia essa construção das anteriores, cujas laterais eram quase lisas.
  • Decoração externa: Toda a superfície é revestida por azulejos coloridos com padrões geométricos, florais e inscrições caligráficas, seguindo a tradição islâmica de não representar seres vivos.

Espaços Internos

A maior particularidade da Tillakori é ser uma estrutura híbrida: ela combina funções de escola e de mesquita, sem ter as salas de aula nos cantos (darskhana) que são comuns em outras madraças da Ásia Central. Em vez disso, sua organização é pensada para abrigar tanto o ensino quanto a prática religiosa:
  • Pátio e acomodações: O pátio central é menor do que os das outras madraças do Reguistão, e ao seu redor ficam as hujras — pequenos quartos onde moravam os estudantes. Aqui, elas ocupam apenas um andar, enquanto nas outras são distribuídas em dois.
  • Ala da mesquita: No lado oeste do edifício, encontra-se o espaço mais imponente: uma grande sala de oração coberta por uma cúpula elevada, apoiada sobre uma base octogonal. Por fora, a cúpula é toda revestida de azulejo azul intenso; por dentro, cria-se um efeito visual impressionante com arcos decorados e elementos em forma de estalactites (muqarnas).

O Interior: A “Obra Dourada”

É dentro da mesquita que o nome Tillakori ganha todo o seu sentido. A decoração segue a técnica chamada kundal, que consiste em aplicar finas camadas de folha de ouro sobre relevos trabalhados em gesso e madeira. O resultado é um ambiente luxuoso, onde predominam os tons de azul profundo e o brilho do dourado.
Os detalhes são minuciosos: mosaicos de vidro colorido trazidos da cidade de Caxã, no Irã, cobrem as paredes; o nicho de oração (mihrab) é esculpido em mármore e decorado com desenhos geométricos e caligrafia; e todo o teto é trabalhado para criar a ilusão de uma cúpula ainda mais ampla, graças à técnica de trompe-l'oeil.

Hoje, a Madraça Tillakori continua sendo uma das atrações mais visitadas de Samarcanda, representando não apenas o auge da arte arquitetônica do século XVII, mas também a riqueza cultural e religiosa que marcou a história da Ásia Central.

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