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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Chashma Ayub: A Fonte Sagrada e o Mausoléu Histórico de Bucara

 

Chashma Ayub
Mausoléu Chashmah-Ayyub • Chashmai Ayyub
Informações gerais
Tipomausoléu e museu
Construçãoc.século XII
PromotorArslano Cã; Tamerlão
Religiãoislão
Geografia
PaísUsbequistão
CidadeBucara
Coordenadas39° 46′ 42″ N, 64° 24′ 09″ L
Localização em mapa dinâmico

Chashma Ayub (em usbeque: Chashmai Ayyub), também chamado Mausoléu Chashmah-Ayyub é um monumento situado em Bucara, Usbequistão, onde supostamente está sepultado o profeta (Ayub no Alcorão). O seu nome significa "Fonte de Jó" ou "Poço de Jó" e está relacionado com uma lenda segundo a qual o profeta teria visitado o local onde vários séculos depois seria fundada a cidade de Bucara, numa altura de grande seca e, batendo com o seu cajado no chão, fez brotar uma nascente cuja água ainda hoje muitos acreditam ter poderes curativos.[1] Desde 2008 que o mausoléu é candidato a Património Mundial da UNESCO.[2]

Situa-se no centro dum antigo cemitério,[2] a algumas centenas de metros do Mausoléu Samânida e junto ao moderno Complexo Memorial Al-Bukhari. Continua a ser um local de peregrinação, apesar de nele funcionar o Museu do Abastecimento de Água, no qual é apresentada a história do abastecimento de água em Bucara, desde os tempos do emirado em que aguadeiros vendiam peles de animais cheios de água livre de vermes, até aos ambiciosos projetos soviéticos dos canais Amu-Bucara e Bucara-Samarcanda.[1]

História e arquitetura

Segundo algumas fontes, cuja fiabilidade é questionável, a cidade de Bucara teria crescido em redor do local sagrado do poço de Jó e este poderá ter contribuído para o surgimento da comunidade judaica da cidade (os judeus bukharan).[3] É quase certo que o profeta Jó não esteja sepultado em Chashma Ayub. Na realidade há vários locais que alegadamente são o túmulo de Jó. No Usbequistão, além do Chashma Ayub de Bucara existem mais dois mausoléus de Jó, um deles também chamado Chashma Ayub, situado na aldeia de Khayriabad, no distrito de Vobkent.[4] No entanto, o Chashma Ayub de Bucara tem alguns túmulos de santos muçulmanos. O mais antigo e mais reverenciado é o de Hajji Hafiz Gujori, um teólogo que se notabilizou no estudos de hádices, autor de vários tratados históricos, que ali teria sido sepultado em 1022.[5]

O edifício foi originalmente construído no século XII, durante o reinado do cã caracânida Arslano Cã (r. 1102–1129).[1] Há uma inscrição que atesta uma reconstrução no Ano da Hégira 605 (1208 ou 1209 no calendário gregoriano).[2] No entanto o que existe atualmente resulta principalmente das reconstruções de Tamerlão (r. 1370–1405) e seguintes.[1]

O edifício, de aspeto muito austero, assemelha-se a uma fortaleza.[1] A planta é retangular, orientada na direção leste-oeste, e é composto por quatro câmaras,[6] cada uma delas coberta com uma cúpula, construídas em épocas e estilos diferentes. A cúpula mais antiga foi erigida por Tamerlão sobre o túmulo e é cónica, de estilo corásmio, o que é muito incomum na Transoxiana. Essa forma incomum deve-se possivelmente a ter sido projetada por um arquiteto da Corásmia, capturado por Tamerlão na sua campanha de 1379 contra Gurganje, que se terá inspirado nas tendas dos nómadas da Corásmia. Por baixo da cúpula cónica exterior há outra cúpula interior mais recente,[1] com muqarnas,[6] pelo que vista do interior ela é muito semelhante às outras cúpulas que foram adicionadas no século XVI.[1]

Ao lado da câmara coberta pela cúpula cónica encontra-se o poço. Ali encontra-se uma inscrição esculpida em terracota que assinala a construção em 1379, mas provavelmente ela veio duma estrutura mais antiga.[6] Na fachada oriental há vestígios dum antigo pishtaq (portal monumental de estilo persa), que era ladeado por torres, o que indica que antigamente houve ali um alto ivã.[6] A documentação da candidatura a Património Mundial destaca o atual portal do mausoléu, do tipo tradicional, constituído por dois pilares, que formam um nicho com uma semiabóbada.[2]

Referências

  1.  MacLeod, Calum; Mayhew, Bradley (2017), Uzbekistan – The Golden Road to Samarkand, ISBN 978-962-217-837-3 (em inglês) 8.ª ed. , Hong Kong: Odyssey Books & Maps, p. 264
  2.  Chashma-Ayub Mausoleum. UNESCO World Heritage Centre - Tentative Lists (whc.unesco.org). Em inglês ; em francês. Páginas visitadas em 18 de dezembro de 2020.
  3. «Chasma Ayub» (em inglês). uzbek-travel.com. Consultado em 18 de dezembro de 2020
  4. «Chashma-Ayub Mausoleum» (em inglês). www.marcopolo.uz. Consultado em 18 de dezembro de 2020
  5. «Chashmah-Ayyub Mausoleum» (em inglês). www.centralasia-travel.com. Consultado em 18 de dezembro de 2020
  6.  «Chashmai Ayyub». archnet.org (em inglês). ArchNet: Islamic Architecture Community. Consultado em 18 de dezembro de 2020

Chashma Ayub: A Fonte Sagrada e o Mausoléu Histórico de Bucara

Introdução
Chashma Ayub — também conhecido como Mausoléu Chashmah-Ayyub — é um dos monumentos mais singulares e carregados de simbolismo da cidade de Bucara, no Usbequistão. Seu nome significa literalmente “Fonte de Jó” ou “Poço de Jó”, uma referência direta à lenda que deu origem à sua santidade e à sua identidade ao longo dos séculos. Situado em uma região marcada por uma longa história religiosa, cultural e arquitetônica, o local reúne tradição espiritual, patrimônio histórico e até mesmo uma função educativa moderna, mantendo-se vivo e relevante até os dias de hoje. Desde 2008, ele faz parte da lista de candidatos a Patrimônio Mundial da UNESCO.

Localização e Contexto Atual

O monumento fica no centro de um antigo cemitério histórico, a poucas centenas de metros do famoso Mausoléu Samânida e próximo ao moderno Complexo Memorial Al-Bukhari. Essa localização o insere em uma área de grande concentração de patrimônio arquitetônico e religioso de Bucara.
Mesmo sendo um espaço de fé e peregrinação, ele cumpre também uma função cultural: em parte de suas instalações funciona o Museu do Abastecimento de Água. O espaço conta a evolução do acesso à água na cidade — desde a época do Emirado, quando aguadeiros percorriam as ruas vendendo água armazenada em peles de animais e tratada para ficar livre de impurezas, até os grandes projetos de engenharia da era soviética, como os canais Amu-Bucara e Bucara-Samarcanda, que transformaram o abastecimento da região.

A Lenda e a Tradição Religiosa

A história mais conhecida sobre o local remete ao profeta — chamado de Ayub na tradição islâmica e mencionado tanto na Bíblia quanto no Alcorão. Segundo a lenda, durante uma forte seca que assolou a região, o profeta teria passado pelo território onde, séculos depois, seria fundada Bucara. Diante da necessidade de água, ele bateu seu cajado no solo e, de imediato, fez brotar uma nascente cristalina.
Até hoje, muitos peregrinos acreditam que a água desse poço possui propriedades curativas e purificadoras, vindo ali para beber ou levar um pouco dessa água consigo.

Realidade histórica dos sepultamentos

Do ponto de vista histórico, é quase certo que o profeta Jó não esteja sepultado em Chashma Ayub. De fato, existem vários locais em diferentes países que alegam abrigar seu túmulo. No próprio Usbequistão, há mais dois mausoléus com essa mesma identificação, um deles também chamado Chashma Ayub, na aldeia de Khayriabad.
Mesmo assim, o monumento guarda túmulos de figuras respeitadas da fé islâmica. O mais antigo e reverenciado é o de Hajji Hafiz Gujori, um importante teólogo, especialista no estudo dos hádices (relatos dos ensinamentos e feitos do profeta Maomé) e autor de obras históricas, que ali foi sepultado em 1022 d.C. Algumas fontes sugerem ainda que a cidade de Bucara pode ter crescido ao redor desse ponto sagrado, e que ele também teve papel na formação da antiga comunidade judaica local, conhecida como judeus bukaranos — embora essa hipótese ainda seja debatida entre estudiosos.

História da Construção

A origem do edifício remonta ao século XII, durante o reinado do governante caracânida Arslano Cã (que governou entre 1102 e 1129). Uma inscrição encontrada no local confirma que ele passou por uma grande reconstrução em 1208 ou 1209 (ano 605 da Hégira).
No entanto, a estrutura que vemos hoje é resultado principalmente das obras realizadas no final do século XIV e início do XV, durante o governo de Tamerlão e seus sucessores. Ele reutilizou e transformou o antigo santuário, dando-lhe características arquitetônicas que o tornam único na região.

Arquitetura e Características

Chashma Ayub tem uma aparência austera e imponente, lembrando mais uma fortaleza do que um mausoléu tradicional. Sua planta é retangular, orientada de leste a oeste, e dividida em quatro câmaras, cada uma coberta por uma cúpula construída em períodos e estilos diferentes.
  • A cúpula principal: A mais antiga e marcante é a cúpula sobre o túmulo, erigida por ordem de Tamerlão. Ela tem formato cônico, de estilo corásmio — algo muito raro na região da Transoxiana. Acredita-se que tenha sido projetada por um arquiteto capturado por Tamerlão durante sua campanha militar de 1379 contra a cidade de Gurganje, na Corásmia, e que se inspirou no formato das tendas usadas pelos povos nômades daquela região. Por dentro, abaixo dessa cobertura externa, há uma cúpula mais recente, decorada com elementos de muqarnas (estruturas em forma de abóbadas ornamentadas), que a torna visualmente semelhante às demais cúpulas do conjunto, construídas no século XVI.
  • O poço: Fica ao lado da câmara principal. Uma inscrição em terracota, datada de 1379, marca o local, embora provavelmente tenha sido reaproveitada de uma construção anterior.
  • Entradas e fachadas: Na fachada leste ainda são visíveis vestígios de um antigo pishtaq — um portal monumental típico da arquitetura persa — ladeado por torres, o que revela que originalmente o conjunto contava com um amplo salão de entrada chamado ivã. O portal atual é mais simples e tradicional, formado por dois pilares que criam um nicho com uma semiabóbada.

Importância e Legado

Chashma Ayub representa muito mais do que um simples túmulo ou fonte de água: ele é um ponto de encontro entre lenda e história, fé e cultura. Ao longo de quase mil anos, resistiu a guerras, mudanças de governantes e transformações sociais, mantendo seu significado para peregrinos e para a população local.
Como candidato a Patrimônio Mundial, ele também simboliza a riqueza do patrimônio arquitetônico e espiritual da Ásia Central, mostrando como um mesmo espaço pode preservar tradições antigas e, ao mesmo tempo, contar a história do desenvolvimento e da vida cotidiana de uma cidade.

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