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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Luísa Margarida Portugal de Barros: A Condessa de Barral e Pedra Branca, Preceptora das Princesas do Brasil

 

Luísa
Condessa de Barral
Dados pessoais
Nascimento13 de abril de 1816
Santo Amaro,
Bahia, Reino do Brasil
Morte14 de janeiro de 1891 (74 anos)
Paris, França
Nome completo
Luísa Margarida de Barros Portugal
CônjugeEugênio de Barral, 4.º Marquês de Monferrato
Descendência
Horace Dominique
PaiDomingos, Visconde de Pedra Branca
MãeMaria do Carmo Gouveia Portugal
ReligiãoCatolicismo

Luísa Margarida Portugal de Barros (Santo Amaro da Purificação, 13 de abril de 1816Paris, 14 de janeiro de 1891), foi uma nobre brasileira, notável preceptora das princesas D. Isabel e D. Leopoldina do Brasil, e uma das mais vivazes figuras femininas brasileiras do século XIX e também da corte do rei Luís Filipe I da França.[1] Na França, era por casamento, Condessa de Barral, e no Brasil, Condessa de Pedra Branca.

Biografia

Família

Luisa com os pais, logo após a morte do irmão, Domingos (personificado no busto à esquerda).

Luísa era a segunda filha do baiano Domingos Borges de Barros, o visconde de Pedra Branca, estadista do primeiro reinado, e de sua esposa Maria do Carmo Gouveia Portugal, descendente de tradicionais famílias portuguesas.

A segunda filha do visconde de Pedra Branca, e seu irmão Domingos (com pouco mais de um ano de diferença), receberam todo o tratamento das crianças da elite do recôncavo baiano, crescendo cercados de mimos e atenção.

Formação

Desde cedo, vivia com a família entre o Brasil e a França. Seu pai, Visconde de Pedra Branca, deu aos dois filhos uma educação esmerada, assim como a dele, ainda cedo iniciaram o aprendizado tendo como primeira professora, a mãe, Maria do Carmo. Com cartilhas de alfabetização e de religião, seus primeiros ensinamentos vieram acompanhados de valores e de princípios éticos, como a benevolência e o gosto pelo belo, aprendiam as orações cristãs, tabuada, os artigos, preposições e verbos. Também cresceram cercados dos muitos livros da enorme biblioteca de seu pai, cujo incentivo permitiu aos irmãos evoluírem rapidamente no aprendizado passando para a ambos os filhos tal herança cultural.[2]

Retrato da Condessa Luísa de Barral na juventude.

Em fevereiro de 1825 na cidade de Paris, Luísa perde seu irmão que se encontrava com a saúde frágil, Alguns anos mais tarde ela também perderia sua mãe. A dor do luto abateu a família. Com a morte do filho varão, Luísa passou a concentrar as atenções do pai, bem como as expectativas da família.

Foi uma criança precoce de inteligência, herdou do pai a cultura e a firmeza de caráter. Sempre chamou atenção nos lugares em que frequentava por meio de sua erudição. Adquiriu vários conhecimentos: falava e escrevia fluentemente as principais línguas, escrevia com desenvoltura, ampliou sua vasta cultura por meio das diversas viagens na companhia dos pais.[3]

Outra característica marcante em Luísa e que é apontada por biógrafos, era sua personalidade forte e seu viés de humor. Ora belicosa, seu humor ácido é constantemente demonstrado em cartas e salientado pelos que conviviam mais estreitamente com ela. A escrita em seus diários também expõe uma Luísa extremamente feminina, educada, culta e politizada que carregava consigo a fórmula para obter sucesso aonde quer que fosse. Ousada também, em defender o abolicionismo, pensava em dinheiro de forma moderna.

Casamento

Aos doze anos seu casamento foi acordado entre seu pai e o amigo deputado Miguel Calmon du Pin e Almeida, que nessa época já estava com 32 anos. Quando Luísa atingiu 19 anos, chega o momento de concretizar o antigo acordo das núpcias. No entanto, Luísa resolve reivindicar o direito de escolher por si o próprio destino.[4] afirmando que a união não condizia com sua vontade. Seu pai convencido tratou de encontrar meios para desfazer o contrato de casamento pré-estabelecido com o deputado.

Luísa então desposou Eugênio de Barral, conde de Barral, parente distante de Alexandre de Beauharnais, Visconde de Beauharnais, primeiro marido de Josefina de Beauharnais, a famosa esposa de Napoleão Bonaparte. Isso fazia dele primo em 5º grau da segunda Imperatriz do Brasil e esposa de D. Pedro I, D. Amélia de Leuchtenberg, e passou a viver na corte do rei Luís Filipe I. Não demorou muito para que seu pai gostasse demasiado do genro.

Depois de muito tempo casada e com dificuldades de engravidar o casal tem o filho único, Horace Dominique, o qual contrairia matrimônio com Maria Francisca de Paranaguá, filha do 2.° marquês de Paranaguá.

Vida na corte

Com o seu casamento, ela se tornou amiga pessoal e dama de companhia de D. Francisca de Bragança, a princesa de Joinville, irmã de D. Pedro II. Quando a madrasta do imperador, D. Amélia de Leuchtenberg, recusou a tarefa de ser preceptora de suas duas filhas, D. Francisca indicou Luísa Margarida Portugal de Barros ao imperador.

Após uma longa negociação e a certificação de seus direitos e poderes, Luísa aceitou o posto. Momentaneamente distanciada do marido, Eugênio, e acompanhada de seu filho, transferiu-se para o Rio de Janeiro.

A condessa passou a residir em uma casa alugada, uma vez que, por ter uma família, não poderia se contentar com um apartamento no Palácio de São Cristóvão. Foi, também, nomeada dama de companhia de D. Teresa Cristina em setembro de 1855, apesar de que a verdadeira companheira da imperatriz fosse Josefina da Fonseca Costa.

Luísa Margarida tratou logo de estabelecer sua autoridade no palácio, um local em que o poder era muito disputado, e por isso causou a fúria de muitos dos funcionários mais interesseiros. Possuía personalidade exuberante, ar assertivo, inteligência, era também além de muito bela física, bastante católica. Dotada de cultura sólida e amiga de intelectuais e celebridades da época, como Franz Liszt e o conde de Gobineau, a condessa servia de intermediária entre o imperador e muitos intelectuais, com os quais D. Pedro II trocou vasta correspondência.

Não há provas conclusivas sobre o boato de um possível caso entre ela e o imperador Dom Pedro II tenha de fato acontecido. As poucas correspondências remanescentes entre eles levam à dúvida de que se houve algum sentimento entre ambos, tenha sido meramente platônico. Afinal, apesar de moderna, Luísa Margarida demonstrava ser uma católica rígida.

O que se sabe é que D. Pedro II teria mantido romances com outras mulheres, como a condessa de Villeneuve, a madame de La Tour e Eponina Otaviano. As duas primeiras inclusive amigas pessoais da condessa.[5]

A Condessa como preceptora das princesas Isabel e Leopoldina, ofereceu as suas pupilas os melhores mestres de que dispunha o Império e não perdia uma oportunidade de lançar uma lição que viesse enriquecer a bagagem cultural das mesmas.[6]

Em 1865, um ano após o casamento das princesas ela entende que terminou seu trabalho como preceptora e retorna a França, reabre seu salão literário e restabelece o convívio com a elite cultural parisiense.

Com a morte do conde de Barral, em 1868, a Condessa fica viúva e tomando as rédeas das decisões, retoma os ideais abolicionistas do seu pai. Por cláusula testamentária, concedeu alforria a muitos cativos. Realizou os desejos do pai, alforriando as mães de seis filhos. No ano anterior, já declarara livres os nascituros de todas escravas em seu engenho, antecipando a realização do principal objetivo da Lei Rio Branco, conhecida como Lei do Ventre Livre, promulgada três anos depois.

Muito antes de começar no país, em 1880, o movimento popular em prol da abolição, Luísa já havia libertado todos os escravos que ainda estavam em seus engenhos. É tida também como uma das responsáveis por influenciar ideais abolicionistas na formação da Princesa Imperial D. Isabel.

Últimos anos

D. Isabel exilada com seus filhos em Voiron na residência da Condessa de Barral, 1890.

O relacionamento de amizade com a família imperial perdurou mesmo após o duro golpe da queda da Monarquia em 1889, complacente com a dor da família, Luísa une-se a eles no exílio e os convida para uma temporada em sua residência em Voiron.

A Condessa trocava com frequência cartas com o imperador D. Pedro II e também sua filha D. Isabel lhe enviando conselhos, encomendas e muitas orientações educativas para instrução dos filhos.

Os imperadores encontraram-se com a amiga nas duas viagens que empreenderam à Europa, em 1870 e 1887, e nos últimos meses de vida, quando, viúvo e exilado, o imperador D. Pedro II visitou algumas vezes sua residência, em Cannes.

A condessa de Barral viria a falecer poucos meses antes do imperador.

A condessa já em idade avançada.

Filantropia

Alguns meses após o nascimento de seu filho, uma terrível epidemia de cólera em 1855 assolou a Bahia, com o cólera contabilizando centenas de vítimas. Em muitos casos os pais acabavam sucumbindo da doença, deixando suas crianças totalmente desprotegidas, a mercê da sorte. Aconselhada a resguardar-se com seu bebê no engenho, pois a epidemia atingia os campos em menor escala. Deparando-se com o estado de precariedade e medo dos órfãos imediatamente optou por ficar e socorrê-los. Estabeleceu uma forma de angariar donativos com outras senhoras da sociedade e fixou lugar para montar um abrigo a fim de receber as crianças desvalidas.[7]

As cartas

Na década de 1940, o conde de Barral, seu neto, doou ao Museu Imperial de Petrópolis as cartas trocadas entre sua avó, o imperador e demais membros da família imperial brasileira.

Galeria

Luísa Margarida Portugal de Barros, Condessa Viúva de Barral
A Condessa, com seu filho Horace Dominique de Montferrat-Barral
Luísa Margarida Portugal de Barros, Condessa de Pedra Branca, Condessa de Barral e Marquesa de Montferrat

Bibliografia

  • Wanderley Pinho, 1970, Salões e Damas do Segundo Reinado, São Paulo: Martins, cap. XI, "A Condessa de Barral", p. 195-228.
  • Paulo Rezzutti, 2019, D. Pedro II - A história não contada: O último imperador do Novo Mundo revelado por cartas e documentos inéditos, São Paulo: Leya
  • Mary Del Priore, 2008, Condessa de Barral, a paixão do imperador, Rio de Janeiro: Objetiva.
  • Alcindo Sodré, 1956, Abrindo um cofre, Rio de Janeiro: Livros de Portugal.

Referências

  1. «Dom Pedro II ( RJ, 2/12/1825 – Paris, 5/12/1891), um entusiasta da fotografia». https://brasilianafotografica.bn.gov.br. 2 dezembro de 2016. Cópia arquivada em 2 de dezembro de 2016
  2. Del Priore, Mary (2008). Condessa de Barral, a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva.
  3. PINHO, Wanderley (1959). Salões e Damas do Segundo Reinado. 3ª edição. São Paulo: Martins Editora
  4. PINHO, Wanderley (1959). Salões e Damas do Segundo Reinado. 3ª edição. São Paulo: Martins Editora. p. 184
  5. REZZUTTI, Paulo (2019). D. Pedro II – A história não contada: O último imperador do Novo Mundo revelado por cartas e documentos inéditos. [S.l.]: Leya
  6. SODRÉ, Alcindo (1956). Abrindo um cofre. Rio de Janeiro: Livros de Portugal
  7. «Salvador – Casa da Providência | ipatrimônio». 5 de julho de 2019. Consultado em 19 de maio de 2023

Luísa Margarida Portugal de Barros: A Condessa de Barral e Pedra Branca, Preceptora das Princesas do Brasil

Luísa Margarida Portugal de Barros, conhecida na história como Condessa de Barral e Condessa de Pedra Branca, foi uma das figuras femininas mais brilhantes, influentes e modernas do século XIX no Brasil e na Europa. Nascida em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em 13 de abril de 1816 e falecida em Paris, França, em 14 de janeiro de 1891, sua trajetória atravessa mundos: a elite baiana, a corte francesa e o coração da Corte Imperial brasileira, onde exerceu papel decisivo na educação das futuras gerações da monarquia.

Família e Formação: Raízes e Cultura

Luísa Margarida era filha do estadista e nobre Domingos Borges de Barros, o Visconde de Pedra Branca, figura importante do Primeiro Reinado, e de Maria do Carmo Gouveia Portugal, descendente de antigas famílias da nobreza portuguesa. Era a segunda filha do casal e cresceu ao lado do irmão Domingos, com quem compartilhou os primeiros anos de vida cercada de conforto, educação esmerada e contato com a alta cultura.
Desde muito jovem, sua vida transcorreu entre o Brasil e a França, acompanhando as viagens e a carreira do pai. A formação de Luísa começou em casa: sob a orientação da mãe, aprendeu a ler, escrever, noções de religião, matemática e as regras do bom convívio. Tinha ainda à disposição a vasta biblioteca do pai, que estimulou sua curiosidade e desenvolvimento intelectual.
Em 1825, quando tinha apenas nove anos, perdeu o irmão em Paris, vítima de saúde frágil; anos depois, também faleceu sua mãe. A partir de então, tornou-se o centro das atenções e das esperanças do Visconde de Pedra Branca. Demonstrou ser uma criança precoce: falava e escrevia fluentemente vários idiomas, tinha escrita elegante e uma personalidade marcante — forte, determinada, com senso de humor afiado e inteligência aguçada, características que acompanhariam sua vida inteira.

Casamento: Rompendo Acordos e Escolhendo seu Caminho

Aos 12 anos, seu pai assinou um acordo de casamento com o deputado Miguel Calmon du Pin e Almeida, então com 32 anos. Mas, ao completar 19 anos e chegar a hora de oficializar a união, Luísa exerceu uma atitude incomum para a época: recusou o compromisso e reivindicou o direito de escolher seu próprio destino. O Visconde, convencido da decisão da filha, conseguiu anular o contrato.
Pouco depois, desposou Eugênio de Barral, Conde de Barral, parente distante da família de Josefina de Beauharnais — primeira esposa de Napoleão Bonaparte — e, por isso, primo em quinto grau da imperatriz brasileira D. Amélia de Leuchtenberg. O casamento a levou diretamente para a corte do rei Luís Filipe I da França, onde passou a viver e se integrar à alta sociedade parisiense. O casal teve apenas um filho, Horace Dominique de Barral, que mais tarde se casaria com Maria Francisca de Paranaguá, filha do Marquês de Paranaguá.

Vida na Corte Imperial: Preceptora das Princesas

Foi na França que Luísa construiu uma sólida amizade com D. Francisca de Bragança, irmã do imperador D. Pedro II. Quando a madrasta do imperador, D. Amélia, recusou o cargo de educadora das filhas de D. Pedro II — as princesas D. Isabel e D. Leopoldina —, foi D. Francisca quem indicou a Condessa de Barral. Após longas negociações e garantias de autonomia, Luísa aceitou o convite e mudou-se com o filho para o Rio de Janeiro.
Residiu em casa própria, pois não queria abrir mão da vida familiar para morar no Palácio de São Cristóvão, e ainda acumulou o posto de dama de companhia da imperatriz D. Teresa Cristina. Inteligente, culta e com personalidade forte, logo conquistou espaço: tornou-se interlocutora entre o imperador e intelectuais da época, como o compositor Franz Liszt e o escritor Conde de Gobineau.
Muitas vezes alvo de fofocas e intrigas da corte, jamais houve provas conclusivas de um romance com D. Pedro II; as correspondências preservadas sugerem, no máximo, uma relação de respeito, confiança e afinidade intelectual, compatível com sua fé católica rigorosa.
Como preceptora das princesas, sua missão foi fundamental: trouxe os melhores professores disponíveis no Império, ampliou a visão cultural das alunas e, principalmente, semeou em D. Isabel ideais de justiça e igualdade. Em 1865, após o casamento das princesas, deu por encerrada sua tarefa e retornou à França, onde reabriu seu famoso salão literário.

Abolicionismo e Filantropia: Uma Mulher à Frente de seu Tempo

Ao ficar viúva, em 1868, Luísa retomou com força os ideais do pai e assumiu posição de destaque na luta pela liberdade dos escravizados:
  • Já em 1869, antecipou o que viria a ser a Lei do Ventre Livre (de 1871), declarando livres todos os filhos de escravas nascidos em suas propriedades;
  • Libertou dezenas de cativos, incluindo as mães de seis crianças, conforme o desejo do Visconde de Pedra Branca;
  • Antes mesmo do início do movimento abolicionista popular, em 1880, já havia concedido alforria a todos os trabalhadores escravizados de seus engenhos.
Sua influência sobre a Princesa Isabel foi decisiva para que a futura regente abraçasse a causa e assinasse, anos depois, a Lei Áurea, em 1888.
Sua solidariedade ficou ainda evidente durante a epidemia de cólera que atingiu a Bahia em 1855. Aconselhada a se afastar da região com o filho pequeno, ela optou por ficar, organizou campanhas de arrecadação e fundou um abrigo para acolher as crianças órfãs deixadas pela doença.

Últimos Anos e Legado

Mesmo após a Proclamação da República, em 1889, e o exílio da Família Imperial, a amizade permaneceu. Luísa recebeu D. Pedro II, D. Teresa Cristina e D. Isabel em sua casa em Voiron, na França, e manteve uma intensa troca de cartas até o fim da vida. Faleceu em Paris em 14 de janeiro de 1891, poucos meses antes da morte do próprio imperador.
Seu legado permanece vivo graças às cartas que ela trocou com a Corte Imperial — doadas por seu neto ao Museu Imperial de Petrópolis na década de 1940 — e aos estudos que revelam sua importância: ela foi educadora, abolicionista, filantropa e uma das poucas mulheres de sua época que conseguiu exercer influência política e social com autonomia e voz própria.

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