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terça-feira, 14 de julho de 2026

O INVEJOSO QUE TERMINOU ENFORCADO

 O INVEJOSO QUE TERMINOU ENFORCADO



"Embora Paranaguá não tenha sido palco dessa tragédia, entanto, abrigou, por alguns dias, as três vítimas que, felizes, gozaram das delícias de nossa terra de 150 anos atrás; sem jamais supor que, deixando nossas plagas, horas depois, seriam sacrificadas ignominiosamente...

Estávamos em o ano de 1862, vindo de Montevidéu, aqui chegou, aos 19 de agosto, o brigue inglês "Wintorp"; veleiro bem equipado para 260 toneladas, a fim de carregar madeiras para o Rio da Prata. Vinha consignado diretamente ao Sr. Manoel Antonio Guimarães.

Ancorou ele no porto do Alemão, na Cotinga, onde ficou alguns dias. Sua tripulação compunha-se de oito homens, comandados pelo capitão inglês, Mister Lípari, mais o piloto Mister Ev Jones, e a esposa do comandante, Misses Ema, inglesa muito jovem e bela. Onze pessoas ao todo.

O comandante Lípari, já um tanto maduro, gostando bastante de beber, pouco ligava à esposa; deixando-a entregue aos cuidados do jovem piloto Mister Jones. Ancorado na Cotinga, à espera de poder entrar no rio Itiberê, o veleiro inglês dava folga aos tripulantes. O comandante passava as horas no seu camarote, com a botija de "genebra" ao lado.

O piloto, como era de se esperar, acompanhava a jovem Ema, esposa do comandante, nos passeios pela mataria da Cotinga. A marinhagem, nessas horas de folga, também se divertia, no convés, contando anedotas e... criticando, com malícia, os tais passeios pela mataria da Cotinga... e nisso ficava.

Dias depois, o brigue mercante entrava nas águas do rio Itiberê, ancorando para o carregamento. Assim passaram mais alguns dias, pois o trabalho manual dos operários era demorado.

À noite, enquanto o comandante curtia a "carraspana" no seu camarote, os dois jovens, Ema e Jones, aproveitavam o luar para dar os seus passeios pelas silenciosas ruas de nossa Paranaguá, enlevados pelo amor que nascera entre ambos; não se importando com a claridade mortiça dos lampiões, nem com alguns notívagos que de vez em quando, surgiam para testemunhar esse amor clandestino de dois jovens ingleses...

Entre a tripulação havia um tal Lessandro Petrane, austríaco, carpinteiro de bordo. Toda a tripulação sabia desse escandaloso idílio. Mas, para que se incomodar, se o próprio comandante nada via de mal nessa intimidade do piloto com sua esposa ?!...

Quem, porém, não se conformava com o caso era o carpinteiro Petrane que louco de paixão e roído de ciúmes pela bela Ema, e ainda de ódio pelo piloto e pelo comandante, havia jurado a si mesmo e aos marujos, dar cabo deles na primeira oportunidade.

Aos 5 de setembro, o brigue foi despachado e, no dia seguinte, zarpou bem cedo, caminho da Barra e rumo ao Rio da Prata, com velas a todo o pano.

A noite chegou por fim. Já bem tarde; quando apenas três homens cuidavam do leme e do velame e os demais dormiam, Lessandro Petrane, às escondidas, penetrou no camarote do capitão Lípari que dormia profundamente e, com a machadinha de bordo, desfechou um golpe mortal sobre a cabeça do inditoso comandante. ..

Depois, foi ao camarote do piloto e também, a facadas, matou os dois amantes que juntos dormiam... E, para completar a sua monstruosidade, saciou os seus instintos sexuais no corpo já sem vida da infeliz mulher. .. Três crimes consumados e um ato hediondo...

Lessandro, ainda possesso, voltou ao camarote do comandante e pegou duas pistolas, com as quais, ameaçou aos três marinheiros de serviço e mais dois que vinham chegando. Contudo, foi pegado de surpresa pelos outros dois que conseguiram tirar-lhe as armas e algemá-lo.

O veleiro, com a falta do comandante e do piloto, ficou a vagar sem rumo certo em pleno oceano. Horas depois, nas alturas da costa de Santa Catarina, esses marujos encontraram, por sorte, uma barca nacional, por nome "Ligeira", que vinha do Sul para o Rio de Janeiro. Contando eles ao comandante o monstruoso crime, o capitão cedeu o seu contra-mestre, Sabino Gonçalves, que levou o "Wintorp" até ao porto do Rio Grande.

Lá chegados, entregaram, esses arrasados tripulantes, o execrável assassino ao cônsul inglês. Recolhido à cadeia pública, foi, daí a dias, embarcado no vapor "Brasil", com destino ao Rio de Janeiro. Durante a viagem deu o que fazer.

Certa noite, no porão do navio, conseguiu livrar-se das algemas (não se soube como) e começou a gritar, dizendo que o navio fazia água. Um marinheiro desceu ao porão para verificar o acidente e foi agredido pelo assassino, que pretendia escapar, lançando-se ao mar. Felizmente outros marujos acudiram à luta travada e conseguiram subjugá-lo, amarrando-o de tal forma que não mais pudesse escapar.

Chegando ao Rio de Janeiro, foi imediatamente enviado para a Inglaterra, juntamente com as sete testemunhas para relatar o hediondo crime premeditado em Paranaguá e posto em prática em alto mar.

O criminoso tudo confessou. Condenado pelo Tribunal Marítimo de Londres, foi enforcado no dia 30/12/1862, às 8 horas da manhã na praça em frente à prisão de Winchester.

Os jornais da época, comentando os três assssinatos e o monstruoso crime, qualificaram de "torpeza sem precedente, realizada entre um homem sem alma e um corpo sem vida; um crime sem nome'!... "

(Extraído do livro Paranaguá na História e na Tradição, de Manoel Viana / Foto ilustrativa da web)

Paulo Grani 

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