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sábado, 18 de julho de 2026

OS RESTOS DO VELEIRO KESTREL

 OS RESTOS DO VELEIRO KESTREL

Atual - Os destroços encontrados ao lado do Canal 5, em Santos.

Cp. - Cartão Postal do início do século 20 mostrando o sinistro com o veleiro Caldbeck, em Praia Grande. A Ponta do Itaipú, como se vê, está do lado esquerdo da praia, no lugar certo em se tratando da Praia Grande. Foto de José Marques Pereira.

Calixto - Analisando o quadro de Calixto, vê-se claramente na paisagem a topografia característica da Baía de Santos, com a cadeia de morros do Japui/Xixová e a Ponta de Itaipú à direita da praia. Também é possível notar duas elevações mais próximas da areia. Certamente as ilhas Urubuqueçaba, no primeiro plano, e Porchat, logo depois.

Kestrel O veleiro Kestrel, em desenho publicado na Inglaterra.
Os destroços encontrados ao lado do Canal 5, em Santos.
Cartão Postal do início do século 20 mostrando o sinistro com o veleiro Caldbeck, em Praia Grande. A Ponta do Itaipú, como se vê, está do lado esquerdo da praia, no lugar certo em se tratando da Praia Grande. Foto de José Marques Pereira.
Kestrel O veleiro Kestrel, em desenho publicado na Inglaterra.



Restos de um "misterioso navio", aparecem enterrados na praia do Boqueirão, próximo do Canal 5, em Santos. Os restos mostram fragmentos do que um dia foi uma nau construída em madeira. As ações dos movimentos das marés combinado com fatores atmosféricos que precipitaram chuvas torrenciais e consequentes ressacas, retiraram areias que o cobriam a mais de um século.

Entre devaneios e afirmações precipitadas da mídia, ficou a pergunta que não quer calar: Afinal de contas, os restos encontrados na praia do Boqueirão são de qual embarcação? Glória, Nanny, Kestrel, Elitel Fritz, Madonna Della Costa? Ou nenhuma dessas?
Quem responde acertadamente à pergunta é Sérgio Willians dos Reis, do blog "Memória Santista", conforme veremos:
" A identidade do navio parece ser a do veleiro inglês “Kestrel”, que encalhara nas areias da praia do Boqueirão no final de uma tarde tempestuosa em 11/02/1895. Aliás, uma história muito mal contada, pois o navio estava sem sua tripulação e comando. A bordo apenas três homens inexperientes: um cozinheiro, o despenseiro e um marinheiro grumete, sem traquejo algum na lida do mar. O restante da tripulação, incluindo o capitão, o contramestre e o piloto, estava em terra. Isso sem falar que o rebocador “Rápido”, da Praticagem, conseguiu chegar a tempo de oferecer socorro, que foi recusado, conforme consta nos jornais da época.
Uma inusitada descoberta - Resolvi começar pelo suspeito principal, o inglês Kestrel. Pesquisei jornais da época, em arelatos de outras pesquisas e nos registros de navios em sites internacionais. Porém, foi em busca de imagens da embarcação que acabei me deparando a uma situação, diríamos interessante. Não sei por qual motivo, mas eu lembrava de ter visto um quadro de Benedicto Calixto que retratava um veleiro encalhado nas praias de Santos. Obviamente não se tratava do Glória (outro suspeito do canal 5), uma vez que ele era um pequeno vapor. O que havia visto era, de fato, um veleiro. Após um ligeiro trabalho de busca na internet, encontrei o que lembrava ter testemunhado. No entanto, o título do tal quadro era “O Encalhe do Veleiro Caldbeck em Praia Grande”.
O inusitado da situação era que o referido site (o famoso Novo Milênio, do genial Carlos Pimentel Mendes) demonstrava duas obras de Calixto com o mesmo título, catalogadas como sendo o do encalhe do veleiro inglês “Caldbeck” ou “Caldebeck”. No entanto, havia algo gritante para os meus olhos naqueles desenhos: a topografia.
Quem conhece a Praia Grande, sabe que, olhando na direção do Oceano Atlântico, o único acidente geográfico local é a formação da Ponta de Itaipú, à esquerda. Olhando para o lado oposto, à direita, a vista é de quilômetros de faixa de areia (daí a alcunha “Grande”). Em um dos quadros de Calixto, a cena está correta. O barco está com a proa voltada para o espectador (na direção do Itaipú) e a popa voltada para o quase infinito trecho de praia.
Ocorre que no segundo quadro, o acidente geográfico está à direita da imagem, com o adendo de alguns detalhes a serem observados. Primeiro: a Ponta do Itaipú está muito adentro do mar, o que só ocorre se relacionada à sua posição na Baía de Santos. Segundo: Calixto não iria fazer um desenho “espelhado”, ou seja, na direção oposta. Terceiro: Há claramente uma formação que se assemelha a uma ilha na imagem, no primeiro plano da extrema direita. Certamente é a Ilha Urubuqueçaba. Uma segunda formação mais à frente me remete à Ilha Porchat. Ademais, os veleiros retratados nos dois quadros não se assemelham perfeitamente e uma das obras retrata vários mastros partidos na areia. Tá certo que Calixto poderia ter produzido os quadros em momentos diferentes, mas não acredito nessa hipótese. Para consolidar a afirmação, ainda achei um velho cartão postal que retratou fotograficamente o encalhe do “Caldebeck”.
Pimenta no caldo misterioso - Entusiasmado com a constatação, a partir dos pressupostos geográficos, posso afirmar que em algum momento os catalogadores das obras de Calixto se enganaram ao afirmarem ser o veleiro “Caldebeck” o retratado no quadro que mostra os mastros partidos na areia. Para mim, certamente se trata do famoso “Kestrel”, não só por suas dimensões (o Nanny era muito maior pelos desenhos que tive acesso) , mas por seu posicionamento na areia, alinhado aos relatos sobre o encalhe descritos na imprensa da época (1895). E vale lembrar que ainda nem sonhavam construir o canal 5 (na verdade, o engenheiro Saturnino de Brito já sonhava, sim, com isso, mas o canal estava apenas no papel).
De uma forma ou de outra, ofereço a partir destes estudos e deste artigo, que a imagem que reputo como sendo a do veleiro inglês “Kestrel”, aqui publicada, componha o imaginário santista acerca dos misteriosos destroços que atiçam a fantasia dos passantes da praia do Boqueirão."
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Corroborando a análise feita pelo blogueiro Sergio Willians Reis, digo que, analisando-se os destroços existentes na pintura de Benedicto Calixto, percebe-se que o navio mantém dois de seus três mastros praticamente intactos, com os quatro paus de vela de cada um desses mastros, também intactos. Já, o terceiro mastro, mostra-se pela metade, o que indica ter-se quebrado ao meio.
Agora trago à análise, também, a imagem publicada na Inglaterra de um desenho intitulado "Bark Kestrel", a qual mostra o veleiro Kestrel de perfil, onde podemos apreciar a estrutura integral de seu velame.
Não sei dizer o nome das velas e nem importa; o que percebo é que, comparando-se a estrutura deste conjunto de mastros e paus de velas com o conjunto dos pintados por Calixto no naufrágio, vê-se que os paus caídos na areia completam exatamente o conjunto dos mastros e paus de vela existentes no desenho "Bark Kestrel ".

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