domingo, 12 de abril de 2026

O CADERNO DE DONA SILVEIRINHA

 O CADERNO DE DONA SILVEIRINHA



" Dona Silveirinha era pensionista no Colégio Sion. Ministrava, também, aulas de piano para asa alunas que desejassem. Sua figura alta e magra, com os cabelos arranjados em coque, os óculos de aro de metal. Era por demais conhecida de todas nós por ser quem "cuidava" do estudo dirigido nas salas.

O nosso horário de estudo era após o almoço, logo depois do recreio e fazíamos os nossos deveres em sala, supervisionadas por essa criatura de olhar hostil, que portava um temível caderno, onde anotava o nome das faltosas. Esses nomes eram repassados à nossa mestra de classe que tomava as providências necessárias.

Éramos adolescentes e dona Silveirinha não tinha complacência com ninguém. Não sorria. Sentava na escrivaninha e ficava vigiando, ávida por qualquer gesto ou conversa inoportuna e, zás! Lá ia o nome para o caderno!

Esse horário era sempre pesado: após o almoço, depois do recreio, a sala em silêncio... Muitas vezes a temível senhora dava um rápido cochilo...

Certa vez, algumas de nossas colegas estavam já no limite, não poderiam levar mais nenhuma anotação no caderno de dona Silveirinha. Mas ela permanecia vigilante e não perdoava ninguém.

Uma das colegas, corajosa, aguardou o momento para agir. Numa dessas tardes quentes, quando o silêncio caia sobre a sala, esta aluna levantou e, pé ante pé, foi até a escrivaninha onde dona Silveirinha tirava a sua "pestana". Todas nós ficamos apavoradas com a ousadia. Ninguém respirava de medo.

No momento em que a nossa amiga retirou o "famoso caderno" e o surrupiou, nós todas ficamos arrepiadas. Feito isso, voltou a seu lugar se esgueirando da mesma maneira que foi, e deu um jeito de sumir com o bendito caderno. (Até hoje não sei o que fez dele). Isso se passou em segundos.

Quando dona Silveirinha abriu os olhos, percebeu de imediato a falta do aludido caderno. Primeiro, olhou para verificar se não havia caído no chão; depois, certificou-se da falta e ficou possessa.

Quando nossa mestra, Mère Aida, veio assumir a sala, foi colocada a parda ocorrência. Usou de psicologia, perguntou, reperguntou, tentou chamar-nos à verdade e, nada! Todas as alunas impassíveis, não sabiam de coisa alguma.

Naquele dia não tivemos o recreio das quinze horas. Não adiantou. Todas mudas, caladas. Mais castigo, sem recreio durante dias. Passavam deveres para fazer nesse horário. Conversas com a nossa Superiora. De nada valeram... Nos mostrávamos mais unidas do que nunca. Apelaram até para os nossos brios sionenses, nada conseguiram.

Passaram-se os dias e o jeito foi deixar o episódio (sem solução) cair no esquecimento.
Mas valeu! Foi a salvação de muitas colegas, porém, a pobre dona Silveirinha nunca mais cochilou na sala ! "

(Autora: Maria do Rocio Sofiatti Biscaia, é advogada / Extraído de: Trezentas Histórias de Curitiba)

(Foto ilustrativa: Pinterest)

Paulo Grani 

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