Pico Marumbi: Quando a Montanha Acendeu o Céu do Paraná
Pico Marumbi: Quando a Montanha Acendeu o Céu do Paraná
No coração da Serra do Mar paranaense, onde a mata atlântica abraça picos centenários e neblinas eternas, ergue-se o majestoso Pico Marumbi. Com seus 1.547 metros de altitude, ele não é apenas um desafio geográfico, mas um guardião de histórias que misturam coragem, aventura e um toque de humor histórico.
A Primeira Conquista: 21 de Agosto de 1879
Muito antes dos trilhos da ferrovia Paranaguá–Cortiba cortarem a serra, quatro homens decidiram que o Marumbi não poderia permanecer intocado. Em 21 de agosto de 1879, Joaquim Olympio de Miranda, Bento Manoel de Leão, Antônio Silva e Antônio Messias escreveram seu nome na história ao realizar a primeira escalada registrada do pico.
Naquela época, subir o Marumbi era mais do que um feito esportivo: era uma afirmação de espírito explorador. Sem equipamentos modernos, sem mapas detalhados, apenas com determinação e conhecimento empírico da mata, esses pioneiros abriram caminho entre rochas, raízes e neblina para alcançar o cume. O registro dessa conquista ecoou entre as comunidades locais como símbolo de bravura e conexão com a natureza selvagem do Paraná.
O Fogaréu de 1902: Quando o Marumbi "Entrou em Erupção"
Vinte e três anos depois, em maio de 1902, um novo grupo de aventureiros partiu de Morretes com um objetivo claro: escalar o Marumbi e deixar uma marca inesquecível de sua passagem. E deixaram — literalmente.
Após alcançarem o cume com sucesso, os intrépidos "marumbinistas", em um gesto típico da época para comprovar façanhas, decidiram atear fogo à vegetação seca no topo da montanha. O que eles não previram foi a dimensão do efeito causado.
O fogaréu, visível a quilômetros de distância, iluminou o céu noturno e despertou pânico nas cidades de Paranaguá, Antonina e Morretes. Moradores, ao avistarem as chamas dançando no horizonte da serra, acreditaram estar testemunhando algo extraordinário e aterrador: a erupção de um vulcão.
Em Paranaguá, a comoção foi tanta que a população chegou a entoar o Te Deum, hino de ação de graças tradicionalmente cantado em momentos de grande alívio ou milagre, acreditando que haviam escapado de uma catástrofe natural.
A Verdade Vem à Tona: Entre Risos e Esclarecimentos
A confusão só foi desfeita quando se descobriu que o "vulcão" era, na verdade, o resultado do entusiasmo exagerado de um grupo de escaladores. O chefe da expedição, constrangido com o alvoroço causado, viu-se obrigado a publicar uma nota de esclarecimento no jornal A República, assumindo a responsabilidade pelo "causo" e pedindo desculpas pelo susto provocado nas comunidades.
Essa história, que hoje soa quase como uma lenda urbana do século XIX, foi preservada graças à memória de Olympio Trombini, um dos participantes da expedição de 1902. Décadas depois, seu neto, Italo Trombini, compartilhou o relato ao repórter e pesquisador Henrique Schmidlin, o "Vitamina", em 1979 — ano do centenário da primeira escalada.
Schmidlin teve a oportunidade de apreciar uma fotografia histórica da expedição, na qual estava inscrita a seguinte mensagem: "Foi esta expedição, que em maio de 1902, deitou fogo à macega, na serra do Marumbi, o que ocasionou o povo a supor um vulcão, e Paranaguá a entoar a canção TE DEUM, por esse motivo".
O Legado do Marumbi: Entre a História e a Preservação
Hoje, o Pico Marumbi é um dos destinos mais cobiçados pelos amantes do montanhismo no Paraná. Integrante do Parque Estadual do Marumbi, criado em 1990, o pico oferece trilhas desafiadoras, vistas de tirar o fôlego e uma rica biodiversidade que merece respeito e cuidado.
As histórias de 1879 e 1902 nos lembram que a montanha sempre foi mais do que um desafio físico: é um palco de encontros humanos, de superação, de erros e aprendizados. O episódio do "vulcão" de 1902, em particular, nos ensina sobre a importância da responsabilidade ambiental — algo que, naquela época, ainda não fazia parte do vocabulário dos aventureiros, mas que hoje é essencial para quem visita áreas protegidas.
Reflexão Final: A Montanha que Une Gerações
O Pico Marumbi continua lá, imponente, testemunha silenciosa de mais de um século de histórias. Dos pioneiros de 1879 aos escaladores contemporâneos, cada passo dado em sua direção carrega um pouco do espírito daqueles que ousaram subir primeiro.
Que ao contemplarmos suas encostas cobertas de verde, lembremos não apenas da beleza cênica, mas também das narrativas humanas que a tornam única. E que, ao invés de fogo, deixemos apenas pegadas de respeito, admiração e gratidão por esse gigante paranaense que, uma vez, quase convenceu o mundo de que o Paraná tinha vulcões.
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