BONS IDOS TEMPOS DA PRAÇA TIRADENTES
Desde muito antes de 1640, a região de Curitiba e seu entorno era conhecida como "Campos de Quereytiba" e foi por volta de 1650 que os mineradores vicentinos vieram para o local onde hoje é a Praça Tiradentes.
De acordo com textos da época, em 1654 os moradores já haviam construído no local uma capela de taipa que homenageava Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e, na sua frente, eles deixaram um espaço aberto, de chão batido, que chamavam "Largo da Capela". Em volta dele, os habitantes começaram a construir pequenas casas, também de taipa e cobertas de palha.
A povoação cresceu, se desenvolveu e as construções foram sendo substituídas aos poucos por edificações mais sólidas, construídas com paredes de pedra e barro, cobertas com telhas de barro, surgindo também alguns poucos sobrados e, a região antes chamada de "Campos de Quereytiba", agora, sob influência do nome da Capela, recebe o nome de "Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais".
Com o crescimento, o entorno do largo tornou-se o local predileto de frequência diária dos moradores do vilarejo, inclusive à noitinha, sob a bruxuleante luz dos lampiões que haviam em algumas paredes das casas ao seu redor, acesos com óleo de baleia.
Concomitantemente, a população envidou esforços e, no lugar da capela, construiu uma nova Igreja, concluída em 1721, agora em pedra e barro, chamada "Matriz", e o espaço frontal passou a ser chamado "Largo da Matriz" e tornou-se o centro catalisador das atividades comerciais, de serviços, políticas e religiosas da cidade, sendo o comércio o principal agente da expansão populacional ocorrida.
Naquele espaço ocorriam, também, as mais diversas manifestações cívicas e apresentações diversas, sobretudo, as musicais que aconteciam aos sábados e domingos, que propiciavam o encontro descompromissado das pessoas para um bate-papo, ou aos jovens para um flerte.
Também, a Matriz continuou sendo um dos motivos de frequência ao local, com suas missas diárias e que eram frequentadas por grande parte dos habitantes que era católica. A Matriz foi demolida entre os anos de 1875 e 1880, para que finalmente fosse edificada a atual Catedral, cujos trabalhos ocorreram entre 1876 e 1893.
Em 1854, o pátio do Largo da Matriz, recebeu as instalações do famoso Circo Olímpico, montado por uma companhia italiana dirigida por Ângelo Onofre, cujo espetáculo estreou no domingo, dia 05/04 daquele ano.
Em 1858, o médico alemão Robert Ave-Lallemant, em passagem por Curitiba, deixou registros de suas impressões, descrevendo o fluxo de pessoas na praça durante os festejos do dia da Virgem Maria, 8 de setembro: "A praça da Igreja esteve particularmente interessante nesse dia. Precisamente se celebrava a missa com música; a igreja estava cheia de gente, de modo que apenas se podia olhar para dentro. Parece ter chegado muita gente dos arredores. A multidão que estava na praça verde da igreja, na maioria em cavalos ricamente ajaezados, dava uma boa impressão, [...]".
Com a visita de D. Pedro II à Curitiba em 1880, o Largo da Matriz passou a se chamar Largo Dom Pedro II. Somente em 1889, com a Proclamação da República, o Largo com seus 9.206m2, passa a se chamar oficialmente Praça Tiradentes.
Com a chegada de novos imigrantes à Capital, o local teve aumento considerável no trânsito de pedestres e, também, de carroças, como escreveu Nestor Victor, em 1913: "Com o levantar do dia, as ruas mais comerciais de Curitiba, a rua Fechada (agora José Bonifácio), o antigo pateo do Largo da Matriz (agora praça Tiradentes), a rua do Riachuelo, os arredores do mercado, a rua Quinze de Novembro e trechos da rua Aquidaban, atulhavam-se de carroças para o transporte de cargas, veículos esses de vários feitios, mas maior parte deles reproduzindo o tipo russo, de dois eixos e quatro rodas, tirados por seis a oito cavalos, dotados geralmente de tolda em arco, ou então outros aproximando-se do tipo polonês, de quatro rodas, tirados por dois a quatro cavalos."
Também havia o serviço de entrega chamado "Expresso”, cujos meios de transporte oferecidos incluíam serviços com “carrinho de mão, a cavallo, a pé, carrocinha ou bicycleta e ainda carros especiais para mudanças, até para fora da cidade, no horário das 6 as 11 da noite durante a estação calmosa e até as 10, durante a invernosa”, como constou num periódico da cidade. As "carroças para mudanças e viagens" ficavam estacionadas em diversos pontos da praça, à espera de clientes. Após o aparecimento dos automóveis e bondes elétricos, continuou existindo esse transporte de tração manual e animal, a partir da praça, por um bom tempo.
Diante da concorrida frequência da população ao local e com o intuito de melhorar o Largo da Matriz, fez-se necessária uma reforma daquele espaço para melhor receber a população e para demonstrar que a cidade poderia se igualar aos grandes centros civilizados, pois o projeto executado em meados do século 19 pelo Coronel Pereira Gomes, já mostrava-se ultrapassado e carecia de atualização, ele havia colocado passeios retos que terminavam em um núcleo central e tinha plantado árvores em corredores formando alamedas.
Em 1912, atendendo à todas as funções que a praça cumpria à época, Cândido de Abreu elaborou um ótimo projeto de reforma da praça criando ajardinamento, áreas de saneamento, acrescentou dois repuxos, um deles foram colocados peixes de várias espécies. Também construiu um belo coreto para melhor visualização das bandas, corais, recitais e pronunciamentos. Por fim, alterou as vias de contorno para ali instalar os cabos e os trilhos dos bondes elétricos.
Com a chegada do século 20, aos poucos o casario colonial no entorno da Praça Tiradentes foi posto abaixo e uma série de sobrados e edifícios com dois ou três pavimentos materializaram uma nova paisagem.
(Fontes: períódicos.ufmg.br / curitiba.pr.gov.br / Jornal Dezenove de Dezembro / Casa da Memória / biblioteca.ibge.gov.br)
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