AS MENINAS DO SION
" Colégio Nossa Senhora de Sion, plenitude dos anos dourados, precisamente 1953. Exclusivamente feminino, regime de semi-internato, latim e francês desde o 2° ano primário, ênfase nos valores morais e religiosos.
Em vias de concluir o curso ginasial, 24 raparigas compunham uma turma homogênea, às voltas com grandes mudanças externas - rock'n'roll, feminismo, nouvelle vague - e ferrenha rigidez disciplinar interna. Que tinha lá seu lado cômico...
Eram três os uniformes do colégio: O uniforme 'diário', diferenciando as séries pela alteração da cor na porta-cruz e no cinto, complementado por sapatos pretos de design exclusivo, nos moldes das botinhas das antepassadas, e uma boina à la Claudette Colbert. O uniforme de 'rigor', usado em assembléias gerais, desfiles cívicos na rua XV e nas procissões, que substituía a cruz de osso pela de madre-pérola e um torçal colorido enlaçando a cintura; era distinto e belíssimo. O terceiro uniforme era o de 'ginástica'.
Duas vezes por semana, no início da manhã, acontecia o "holocausto". Não que os exercícios e o entusiástico voleibol fossem extenuantes. E que o processo de permuta de uniformes ocorrendo na própria sala de aulas, em cinco minutos, com as alunas silentes sentadas em suas cadeiras e proibidas de se entreolharem, se convertia em teste de agilidade e presteza. Sob o olhar fiscalizador da Mestra de Classe, ávida por flagrar um deslize, havia que fazer a troca sem que um milímetro da pele desnuda ficasse à mostra.
Retrato fidedigno da época, o uniforme de 'ginástica' era uma balofa vestimenta de algodão xadrez azul e branco, crivada de botões, gola chemise, amplíssimas mangas e não menos farto calção franzido que, quando esticado, visitava os calcanhares.
Elástico nos punhos, barra e cintura, completamente aquele primor de mau-gosto, fornecido pelo colégio e confeccionado segundo manequim o mínimo duas vezes maior que o da infeliz usuária.
Se facilitava os movimentos, ocultava qualquer forma anatômica. Aquele macaquinho de antanho, trisavô dos atuais, livrava de suas garras somente cabeça, pés e mãos. Todavia, mais tenebroso que ele era o ritual para vestí-lo: Um tal de colocar primeiro uma perna sob a saia, depois outra, remover a blusa "pero no mucho" enquanto se vestia as mangas que levava à exaustão. E lá iam as moçoilas ao pátio, em respeitoso silêncio e fila indiana, fortuitamente protegidas do flagrante de olhos externos pelos altos muros do colégio.
Mas, numa certa manhã, esse consolo caiu por terra. Entre o levantar e abaixar de braços que o exercício impunha, eis que surgiram no topo de um dos muros, amigos, flertes e namorados que, às gargalhadas, foram testemunhas oculares do extremado recato das meninas de Sion.
Ah, se ao menos avaliassem o trabalho... "
(Autora: Alzeli Bassetti, escritora / Extraído de: Trezentas Histórias de Curitiba)
(Foto ilustrativa: pinterest)
Paulo Grani
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