quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

artão Postal de Curitiba, do início da primeira década de 1900, apresenta a Estação Ferroviária de Curitiba daqueles idos, postado em 17/01/1905, editado por Julio C. Langer, intitulado "Curityba - Paraná Brazil - Estação da Estrada de Ferro". Diante dela, um grande número de curitibanos presente aguardam um evento, provavelmente a chegada de alguma autoridade importante. Entremeio, nota-se diligências e os bondes puxados por mulas, época em que Curitiba tinha alguns carros contáveis nos dedos das mãos. (Foto: Acervo Fabio Pereira) Paulo Grani

 artão Postal de Curitiba, do início da primeira década de 1900, apresenta a Estação Ferroviária de Curitiba daqueles idos, postado em 17/01/1905, editado por Julio C. Langer, intitulado "Curityba - Paraná Brazil - Estação da Estrada de Ferro".  Diante dela, um grande número de curitibanos presente aguardam um evento, provavelmente a chegada de alguma autoridade importante. Entremeio, nota-se diligências e os bondes puxados por mulas, época em que Curitiba tinha alguns carros contáveis nos dedos das mãos.  (Foto: Acervo Fabio Pereira)  Paulo Grani 


A imagem inédita do alto, contempla a Região do BACACHERI e adjacências, e em destaque na AVENIDA ERASTO GAERTNER, o 20º (BIB) - Batalhão de Infantaria Blindado - Ano - 1989

 A imagem inédita do alto, contempla a Região do BACACHERI e adjacências, e em destaque na AVENIDA ERASTO GAERTNER, o 20º (BIB) - Batalhão de Infantaria Blindado - Ano - 1989


Uma linda vista da Praça Tiradentes, a partir da ainda Rua 1º de Março - (Rua Monsenhor Celso), em uma manhã gelada do ano de 1928.

 Uma linda vista da Praça Tiradentes, a partir da ainda Rua 1º de Março - (Rua Monsenhor Celso), em uma manhã gelada do ano de 1928.


A Rua XV de NOVEMBRO, tinha edificações espetaculares, como a da foto, e outras que se foram. A imagem é da década de 1910.

 A Rua XV de NOVEMBRO, tinha edificações espetaculares, como a da foto, e outras que se foram. A imagem é da década de 1910.


A linda imagem contempla a RUA PRESIDENTE FARIA, bem onde hoje esta a ESTAÇÃO CENTRAL, dos ÓNIBUS EXPRESSOS. A imagem é de 1952.

 A linda imagem contempla a RUA PRESIDENTE FARIA, bem onde hoje esta a ESTAÇÃO CENTRAL, dos ÓNIBUS EXPRESSOS. A imagem é de 1952.


Entre Telhados de Quatro Águas e Sonhos de Quatro Cantos: O Grupo Escolar de Jaguariaíva e a Invenção do Brasil nas Terras do Tibagi

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Jaguariaíva

Denominação atual: Colégio Estadual Rodrigues Alves

Endereço: Rua do Expedicionário, 134 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 14 de março de 1944

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente

Uso atual: Edifício escolar

Ginásio Estadual de Jaguariaíva - s/d Acervo:

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)

Entre Telhados de Quatro Águas e Sonhos de Quatro Cantos: O Grupo Escolar de Jaguariaíva e a Invenção do Brasil nas Terras do Tibagi

Na Rua do Expedicionário, 134, no coração de Jaguariaíva, ergue-se desde meados do século XX um paradoxo silencioso: um prédio que olha para o passado para projetar o futuro. Com suas linhas suaves de telhado de quatro águas, beirais generosos que protegem do sol forte dos Campos Gerais e janelas emolduradas com a modéstia solene do Neocolonial, o Colégio Estadual Rodrigues Alves não é apenas uma escola. É um manifesto arquitetônico. Um ato de fé num Brasil que, em 1944, buscava sua alma entre as cinzas da guerra mundial e os sonhos de uma nação que queria ser, finalmente, brasileira.

1944: O Ano em que o Brasil Decidiu se Lembrar de Si Mesmo

Enquanto tanques soviéticos avançavam sobre Berlim e os Aliados desembarcavam na Normandia, no interior do Paraná, engenheiros e arquitetos da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhavam algo aparentemente singelo: o projeto do Grupo Escolar de Jaguariaíva, datado de 14 de março de 1944. Mas naquele traço a lápis sobre papel vegetal residia uma revolução silenciosa.
O Brasil vivia sob o Estado Novo de Getúlio Vargas — regime autoritário, sim, mas também época de intensa construção de identidade nacional. Enquanto o mundo se dilacerava em ideologias importadas, o governo brasileiro lançava um desafio ousado: criar um estilo próprio. Surgia então o Neocolonial — não como cópia nostálgica das construções luso-brasileiras do século XVIII, mas como reinvenção poética de um passado idealizado. Telhados inclinados evocando as fazendas do açúcar nordestino; paredes caiadas em tons de ocre e branco que dialogavam com a terra vermelha dos Campos Gerais; portais simples mas proporcionais que lembravam as igrejas de Aleijadinho — tudo isso sintetizado numa linguagem moderna, funcional, democrática.
Escolher o Neocolonial para uma escola em Jaguariaíva não era acaso. Era mensagem cifrada: aqui se ensina não apenas a ler e escrever, mas a pertencer. Num município formado por italianos que falavam talian, poloneses que rezavam em latim rústico, ucranianos que guardavam cantos da Galícia e brasileiros mestiços das matas de araucária, a arquitetura tornava-se instrumento de unidade. O telhado de quatro águas abrigava, sob uma mesma forma, todas as origens — fundindo-as numa nova identidade: a do cidadão paranaense, do brasileiro.

A Tipologia em "U": O Pátio como Coração da Comunidade Escolar

O projeto padronizado do Departamento de Edificações adotava a tipologia em "U" — três alas dispostas em forma de ferradura aberta para o nascente. Essa geometria não era mero capricho estético. Era pedagogia materializada.
O pátio interno, protegido dos ventos fortes que sopram das serras, transformava-se no verdadeiro centro vital da escola: ali as crianças corriam nos recreios sob a sombra de uma figueira plantada no primeiro dia de aula; ali os alunos do Ginásio formavam fileiras para o hasteamento da bandeira, entoando o Hino Nacional com vozes quebradas pela puberdade; ali, nas tardes de primavera, professores reuniam turmas para aulas ao ar livre, explicando botânica com as flores silvestres que brotavam entre as pedras.
As alas laterais abrigavam as salas de aula — sempre com janelas voltadas para o pátio, permitindo que o professor vigiasse o recreio com um olhar rápido. A ala central, mais elevada, destinava-se à administração e à biblioteca — pequeno templo de livros que, para muitos jovens jaguariaivenses, representava a primeira janela para o mundo além do roçado. Na extremidade oposta à entrada, quase sempre havia um pequeno coreto ou palanque — palco de festas juninas, formaturas emocionadas e comemorações do Dia da Raça, quando se exaltava a miscigenação como virtude nacional.

Rodrigues Alves: Por Que um Presidente do Café Batizou uma Escola do Erva-Mate?

Curiosamente, o Grupo Escolar nasceu sem nome próprio — apenas "Grupo Escolar de Jaguariaíva", denominação funcional típica da época. Mas nos anos seguintes, ao ser elevado à categoria de Ginásio Estadual, recebeu o patrono Francisco de Paula Rodrigues Alves — presidente do Brasil entre 1902 e 1906, cujo legado parecia distante da realidade serrana do Paraná.
A escolha, porém, era profundamente simbólica. Rodrigues Alves fora o estadista que, com mão de ferro e visão sanitária, transformara o Rio de Janeiro numa capital moderna — saneando mangues, construindo avenidas, combatendo epidemias. Era o símbolo do progresso ordenado, da civilização imposta à natureza indócil. Para Jaguariaíva — cidade que, nas décadas de 1940 e 1950, lutava para superar o estigma de "terra de madeireiros e monjoleiros" — homenagear Rodrigues Alves significava declarar ambição: queríamos também ser modernos, higiênicos, civilizados. A escola que levava seu nome tornava-se promessa de que, daquelas salas de aula, sairiam os engenheiros que pavimentariam as estradas, os médicos que erradicariam doenças, os professores que levariam a luz do saber aos rincões mais remotos dos Campos Gerais.

Vozes que Habitaram os Corredores: Memórias de Giz e Esperança

Imagine a cena: manhã de segunda-feira, 1950. O sino de ferro fundido — pendurado sob o beiral do telhado neocolonial — toca às sete horas. Crianças descalças ou de alpercatas surradas cruzam o portão de ferro forjado. Dentro, o cheiro característico de cera de assoalho e giz novo. Nas salas, quadros-negros de ardósia polida refletem a luz do sol que entra pelos janelões altos.
A professora normalista, formada no Instituto de Educação do Paraná, escreve na lousa com letra cursiva impecável: "O Brasil é uma República Federativa...". Meninos filhos de tropeiros repetem em coro, enquanto meninas netas de italianos do Vêneto copiam a frase em cadernos pautados com capa de papel pardo. No recreio, todos misturam-se: brincam de pega-pega sob a figueira, compartilham pedaços de polenta trazidos de casa com bolos de fubá das colegas brasileiras. Naquele pátio em forma de U, a miscigenação deixava de ser discurso oficial para tornar-se prática cotidiana — suor infantil, risadas compartilhadas, amizades que ignoravam fronteiras de origem.
Anos depois, na década de 1960, o Ginásio Estadual de Jaguariaíva — como aparece nas fotos sem data do acervo da SEAD — já formava jovens que seriam protagonistas do Paraná moderno: engenheiros que projetariam as hidrelétricas do Iguaçu, médicas que abririam consultórios em cidades antes desassistidas, professores que levariam adiante a missão iniciada por Izabel Branco décadas antes. Todos eles passaram por aquele corredor central, sob aquele telhado de quatro águas que parecia abraçar o céu dos Campos Gerais.

O Legado que Resiste: Entre Alterações e Memórias Preservadas

Hoje, como Colégio Estadual Rodrigues Alves, o edifício mantém sua estrutura essencial — raro exemplo de preservação entre os Grupos Escolares paranaenses que sucumbiram à demolição ou à descaracterização total. Algumas janelas talvez tenham sido substituídas; novas alas de concreto podem ter sido acrescentadas para atender à demanda crescente; o pátio original talvez hoje divida espaço com quadras esportivas modernas. Mas o núcleo neocolonial permanece — testemunha silenciosa de gerações.
No acervo da Coordenadoria do Patrimônio do Estado (SEAD), pasta dedicada a Jaguariaíva, repousam fotografias em preto e branco sem data: o Ginásio Estadual de Jaguariaíva sob um céu de nuvens altas típicas dos Campos Gerais; alunos em fila indiana diante da fachada principal; professores de paletó e gravata posando com a seriedade própria da época. Essas imagens não são apenas documentos históricos. São portais. Ao contemplá-las, ouvimos o tilintar do sino da escola; sentimos o cheiro de terra molhada após a chuva da serra; vemos nos olhos daquelas crianças o mesmo brilho de curiosidade que ilumina os rostos dos estudantes que hoje cruzam aquele mesmo portão.

Epílogo: A Lição que o Telhado Ensina

O Neocolonial caiu em desuso nas décadas seguintes — substituído pelo concretismo brutalista, depois pelo funcionalismo sem alma das construções contemporâneas. Mas o Grupo Escolar de Jaguariaíva resiste como lição viva: civilização não se constrói apenas com tecnologia e eficiência. Constrói-se com memória. Com a coragem de olhar para trás para entender quem somos — e assim projetar um futuro que não apague nossas raízes.
Naquele telhado de quatro águas, há uma metáfora perfeita para a educação que ali se praticou: quatro vertentes que convergem num mesmo ponto — a tradição indígena da terra, a herança europeia dos colonos, a força africana presente no sangue mestiço do Brasil profundo, e o sonho moderno de uma nação justa e culta. Todas escorrem, como águas pluviais, para um mesmo destino: o pátio central onde crianças de todas as origens aprendem que, apesar das diferenças, compartilham um mesmo chão — e um mesmo futuro.
E assim, sob o sol forte de Jaguariaíva, o Colégio Estadual Rodrigues Alves continua de pé. Não como monumento musealizado, mas como coração pulsante de uma comunidade que, desde 1944, entendeu que a verdadeira independência não se conquista com armas, mas com livros; que a verdadeira pátria não é um território traçado em mapas, mas um pátio escolar onde todas as crianças, sob um mesmo telhado, aprendem a sonhar juntas.

Sob a Sombra das Araucárias: Izabel Branco e o Sonho de Letras nas Terras de Jaguariaíva

 Denominação inicial: Grupo Escolar Izabel Branco

Denominação atual: Escola Municipal Izabel Branco

Endereço: R. Almeida Salim, 188.

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização

Data: 1910

Estrutura: padronizado

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1912

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Izabel Branco em 1922 Fonte: ALBUM do Paraná. 1º volume. 2ª edição. Curityba, 1927

Sob a Sombra das Araucárias: Izabel Branco e o Sonho de Letras nas Terras de Jaguariaíva

Na Rua Almeida Salim, 188, em Jaguariaíva — cidade que respira entre os Campos Gerais e a Serra do Mar paranaense — ergue-se, desde 1912, um silêncio eloquente de tijolos e memórias: a Escola Municipal Izabel Branco. Mas não foi sempre assim. Há mais de um século, quando o trem da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande cortava pela primeira vez os vales do Tibagi e o cheiro de erva-mate verde impregnava o ar das secas, aquele terreno viu nascer algo revolucionário para uma cidade de fronteira: um templo dedicado não a santos ou coronéis, mas às crianças — e ao sagrado direito de aprender.

Jaguariaíva em 1910: O Alvorecer de uma Cidade que Acreditava no Futuro

No início do século XX, Jaguariaíva pulsava com a energia crua do progresso. Fundada oficialmente em 1880, a cidade tornara-se entreposto vital para a extração da erva-mate — o "ouro verde" que enriquecia fazendeiros e sustentava milhares de monjoleiros e tropeiros. Colonos italianos, poloneses, ucranianos e alemães chegavam em levas constantes, erguendo casas de madeira, capelas de taipa e roçados nas encostas férteis. Mas entre o burburinho dos armazéns e o ranger das carroças carregadas de folhas verdes, pairava uma ausência gritante: onde estariam as escolas para os filhos desses trabalhadores?
A resposta veio da capital. Em 1910, a Secretaria de Obras Públicas e Colonização do Paraná — órgão visionário que entendia colonização não apenas como distribuição de terras, mas como plantio de civilização — desenhou o projeto do Grupo Escolar Izabel Branco. Não era um capricho arquitetônico. Era um ato político. Num Brasil ainda marcado pelo analfabetismo de massas e pela exclusão educacional, o Paraná apostava numa ideia audaciosa: levar a escola pública, laica e gratuita até os rincões mais distantes, como Jaguariaíva, então distrito de Ponta Grossa.

Izabel Branco: A Mulher por Trás do Nome — Um Retrato em Tons de Coragem

Quem foi Izabel Branco? Os documentos oficiais calam-se sobre seus traços físicos, mas a escolha de seu nome para batizar a instituição revela sua estatura moral. Naquele tempo, raríssimas eram as mulheres homenageadas em espaços públicos — especialmente em cidades do interior. Izabel não era filha de coronel nem esposa de governador. Era, quase certamente, uma professora. Uma daquelas mulheres que, com salário irrisório e vocação inabalável, enfrentava estradas de lama, preconceitos e solidão para ensinar o abc a meninos descalços e meninas que, sem ela, jamais aprenderiam a assinar o próprio nome.
Imaginemo-la: jovem ou já madura, vestido simples, maleta de couro surrado carregando cartilhas e cadernos pautados. Talvez tenha lecionado numa sala cedida por um comerciante antes mesmo do prédio existir. Talvez tenha morrido cedo — vítima da tuberculose que assolava professores confinados em salas mal ventiladas — deixando como legado não fortuna, mas centenas de crianças que aprenderam a ler graças a suas mãos firmes corrigindo letras trêmulas. Ao batizar a escola com seu nome em 1912, Jaguariaíva prestava uma homenagem rara para a época: reconhecia que a verdadeira força de uma nação não está nos generais ou nos fazendeiros, mas nas professoras anônimas que, com giz e paciência, constroem cidadãos.

A Arquitetura como Esperança Materializada: O Estilo Eclético e o Bloco Único

O projeto de 1910 revelava sabedoria prática. Enquanto outros Grupos Escolares do Paraná adotavam a tipologia em "U" — majestosa, mas cara —, Jaguariaíva recebeu um bloco único: funcional, econômico, mas não menos digno. A linguagem eclética, marca da época, mesclava elementos neoclássicos (molduras de janelas, simetria rigorosa) com toques art nouveau nas grades de ferro forjado — um diálogo entre tradição e modernidade que espelhava o próprio momento histórico do Brasil: ainda preso às estruturas do Império, mas ansioso por ingressar no século XX com elegância e civilidade.
As paredes grossas de alvenaria protegiam do frio úmido da serra; os janelões altos garantiam luz natural generosa — essencial numa época sem eletricidade confiável; o pé-direito elevado permitia a circulação do ar fresco dos Campos Gerais. Nada era supérfluo. Cada detalhe respondia a uma necessidade: criar um ambiente onde o corpo estivesse confortável para que a mente pudesse voar. Na fachada principal, quase certamente havia uma placa de mármore com os dizeres "GRUPO ESCOLAR IZABEL BRANCO" — letras serifadas que proclamavam, com modéstia solene, que ali começava o futuro de Jaguariaíva.

1912: O Dia em que as Crianças Entraram Pela Primeira Vez

Não há registro do discurso inaugural. Mas podemos imaginar: autoridades locais de paletó e gravata sob o sol de verão; mães de vestidos estampados segurando as mãos de filhos com roupas remendadas mas limpas; o diretor — talvez o primeiro professor homem da cidade — com a chave de ferro pesada na mão. Ao abrir as portas, não se abria apenas um prédio. Abria-se um universo.
Dentro, salas com carteiras duplas de madeira escura, quadro-negro de ardósia polida, mapa do Brasil pendurado com orgulho. No pátio de terra batida, uma mangueira oferecia sombra nos recreios. E ali, entre 1912 e 1922, centenas de crianças — filhas de tropeiros, netas de imigrantes italianos que chegaram fugindo da miséria do Vêneto, bisnetas de índios Kaingang que sobreviveram à colonização — aprenderam juntas a soletrar "Pátria", a somar colunas de números, a cantar o Hino Nacional com vozes desafinadas mas sinceras.
A foto de 1922, registrada no lendário Álbum do Paraná (Curitiba, 1927), captura esse momento de plenitude. O prédio, já consolidado na paisagem urbana, exibe sua fachada eclética com orgulho discreto. Ao redor, não há asfalto — apenas terra e algumas árvores nativas. Mas nas janelas, vêem-se rostos de crianças espiando a câmera com curiosidade. São elas o verdadeiro tesouro da imagem: meninos que um dia seriam engenheiros das estradas que ligariam Jaguariaíva ao litoral; meninas que se tornariam professoras como Izabel Branco, perpetuando a corrente do saber.

O Legado Vivo: Da República à Atualidade

Ao longo do século XX, o Grupo Escolar Izabel Branco testemunhou transformações profundas: a chegada da energia elétrica, o fim do ensino isolado por sexo, a incorporação de Jaguariaíva como município autônomo em 1947, a urbanização acelerada da Rua Almeida Salim. O prédio sofreu alterações — novas pinturas, adaptações para atender às normas modernas, talvez a adição de um refeitório ou biblioteca. Mas sua alma permanece intacta.
Hoje, como Escola Municipal Izabel Branco, continua cumprindo a mesma missão de 1912: acolher crianças e transformá-las em cidadãos. Os netos e bisnetos daqueles primeiros alunos talvez passem diariamente por suas portas sem saber que pisam no mesmo chão onde seus antepassados deram os primeiros passos rumo à dignidade pela educação. Mas as paredes lembram. Cada risco de giz apagado, cada carteira riscada por gerações de estudantes, cada quadro-negro que já foi lousa de ardósia e hoje é tela digital — tudo isso compõe uma história viva.

Epílogo: A Professora que Nunca Morreu

Izabel Branco, a mulher, talvez tenha partido há mais de um século. Seu rosto não está em retratos oficiais; sua biografia não ocupa páginas de livros. Mas Izabel Branco, o símbolo, vive — respira a cada manhã quando o sino toca e crianças de todas as origens cruzam o portão da escola que leva seu nome.
Num tempo em que se discute tanto o valor da educação, a história desse Grupo Escolar nos lembra uma verdade elementar: civilizações não se constroem com palácios ou estádios, mas com salas de aula onde uma professora anônima corrige, com paciência infinita, a letra torta de uma criança pobre. Jaguariaíva poderia ter homenageado um político ou um fazendeiro rico. Escolheu homenagear uma professora. E nessa escolha reside sua grandeza.
Sob a sombra das araucárias que ainda resistem nos arredores da cidade, o prédio da Rua Almeida Salim, 188, permanece de pé — não como monumento museológico, mas como coração pulsante de uma comunidade que, desde 1912, entendeu que o maior patrimônio de um povo não é a terra que cultiva, mas o saber que semeia. E assim, Izabel Branco — professora, heroína silenciosa, mãe simbólica de gerações — continua ensinando. Sem nunca ter deixado a sala de aula.

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Sengés

Denominação atual: Colégio Estadual Professor Erasmo Braga

Endereço: Rua Paraná, 285 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secção Tecnica

Data: 1935

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 11 de março de 1939

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar de Sengés - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 144

O Templo do Saber nas Terras do Tibagi: A História do Grupo Escolar de Sengés e o Sonho Republicano de Educar o Sertão Paranaense

Nas encostas verdejantes da Serra do Mar paranaense, onde o rio Tibagi serpenteia entre vales profundos e o trem da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande apitava anunciando a civilização que avançava rumo ao sertão, ergueu-se em 1939 um monumento silencioso à esperança: o Grupo Escolar de Sengés. Não era apenas um prédio de alvenaria e telhas — era uma promessa. A promessa de que, mesmo nas fronteiras agrícolas do Paraná, onde madeireiros e colonos italianos, poloneses e ucranianos desbravavam a mata virgem, a República brasileira depositaria sua fé mais nobre: a educação como instrumento de redenção nacional.

O Contexto: Sengés em Marcha para a Civilização

Fundada oficialmente em 1918 como distrito de Jaguariaíva, Sengés vivia nos anos 1930 um momento de transformação vertiginosa. A ferrovia, concluída na década anterior, transformara o povoado num entreposto estratégico para o transporte de madeira, erva-mate e produtos agrícolas rumo ao litoral. Colonos europeus chegavam em levas constantes, erguendo capelas de madeira, plantando trigo em terra vermelha e sonhando com uma vida melhor para os filhos. Mas faltava-lhes o alicerce invisível de toda civilização duradoura: a escola pública, laica, gratuita e obrigatória — ideal republicano que, desde a década de 1920, ganhava corpo no Paraná sob a liderança de educadores visionários como José Francisco de Paula Ramos e, posteriormente, na Era Vargas, com a consolidação do modelo dos Grupos Escolares.
Os Grupos Escolares não eram meras escolas primárias. Eram instituições-modelo, concebidas para abrigar múltiplas séries sob um mesmo teto, com salas amplas, pátios ventilados, sanitários adequados e, simbolicamente, uma arquitetura que transmitisse solenidade e dignidade ao ato de aprender. No Paraná, entre 1930 e 1945, dezenas dessas edificações surgiram como faróis de modernidade em cidades interioranas — e Sengés, com seu crescimento acelerado, merecia seu templo do saber.

A Arquitetura como Declaração de Princípios: O Projeto da Secção Técnica

Em 1935, a Secção Técnica da Diretoria do Patrimônio do Estado — braço executivo responsável pela padronização da infraestrutura pública paranaense — desenhou o projeto do Grupo Escolar de Sengés. Não era obra de um arquiteto estrela, mas fruto de um programa racional e democrático: a padronização como instrumento de eficiência e equidade. Todos os municípios, independentemente de seu tamanho ou riqueza, receberiam edificações escolares com qualidade mínima garantida — um ato revolucionário de justiça social disfarçado de burocracia técnica.
A tipologia em "U", escolhida para Sengés, não era casual. O traçado aberto em três alas criava um pátio interno protegido — espaço sagrado para recreios, cerimônias cívicas e o primeiro contato das crianças com a noção de comunidade escolar. As salas, dispostas simetricamente, recebiam luz natural generosa por janelões amplos; os corredores largos permitiam a circulação ordenada de dezenas de alunos; a estrutura em alvenaria garantia durabilidade contra as intempéries do clima serrano.
E sobre tudo isso pairava a elegância discreta do Art Déco — linguagem arquitetônica que, nos anos 1930, simbolizava modernidade sem ruptura radical com o passado. Nas linhas geométricas dos frisos, nos vãos ritmados das janelas, na simplicidade majestosa da fachada principal, lia-se uma mensagem subliminar: aqui se cultiva o novo, mas com respeito à tradição; aqui se prepara o futuro, mas sem desprezar as raízes. O Art Déco, nesse contexto provinciano, não era luxo — era dignidade materializada em concreto e reboco.

11 de Março de 1939: O Dia em que Sengés Ganhou Alma Cívica

Na manhã de sábado, 11 de março de 1939, sob um céu de verão ameno típico do outono serrano, autoridades municipais, professores de chapéu e vestidos engomados, pais orgulhosos e crianças de pés descalços ou sapatos remendados reuniram-se diante da nova edificação na Rua Paraná, 285. Bandeiras do Brasil e do Paraná tremulavam ao vento. Havia discursos — certamente sobre o dever patriótico da instrução, sobre a missão civilizadora da escola, sobre o orgulho de pertencer a um estado que investia no futuro.
Mas o verdadeiro significado daquele momento não estava nos pronunciamentos oficiais. Estava nos olhos arregalados das crianças que pela primeira vez pisavam num espaço construído só para elas — não uma sala cedida na casa do coronel, não um galpão adaptado, mas um edifício onde o único propósito era aprender a ler, escrever, contar, conhecer a pátria e sonhar além do roçado. Ali, meninos filhos de lenhadores e meninas netas de imigrantes italianos sentaram-se lado a lado nos mesmos bancos escolares, sob o mesmo teto republicano que proclamava: todos são iguais perante o saber.

Além das Paredes: A Vida que Pulsa na Memória Escolar

Ao longo das décadas, aqueles corredores em forma de U testemunharam rituais sagrados da infância brasileira: o primeiro "a, e, i, o, u" rabiscado com grafite grosso; o nervosismo antes da recitação do Hino Nacional; o cheiro de giz e cera de assoalho; o tilintar do sino marcando o recreio; o orgulho contido ao receber o diploma de conclusão do curso primário — documento que, para muitas famílias, representava a primeira conquista educacional em séculos de analfabetismo ancestral.
Professores como o próprio Erasmo Braga — cujo nome, anos mais tarde, honraria a instituição — moldaram gerações ali. Homens e mulheres que, muitas vezes com formação modesta mas com vocação inabalável, transformaram a cartilha em portal para mundos distantes, a tabuada em ferramenta de emancipação econômica, a lição de história em semente de cidadania. Eram os verdadeiros heróis anônimos da epopeia civilizatória paranaense.

Do Grupo Escolar ao Colégio Estadual: A Continuidade de uma Missão

Com o tempo, a denominação mudou — de Grupo Escolar de Sengés para Colégio Estadual Professor Erasmo Braga —, assim como a estrutura educacional brasileira se transformou. O prédio sofreu alterações, adaptações, modernizações necessárias. Mas sua essência permanece: edificação existente, viva, pulsante com o ritmo diário de novas gerações que cruzam seus portões.
Hoje, sob a guarda simbólica do acervo da Coordenadoria do Patrimônio do Estado (SEAD), pasta 144, a memória fotográfica do Grupo Escolar de Sengés — imagens sem data, sem assinatura, mas carregadas de alma — resiste como testemunho material de um projeto de nação. Não o Brasil das capitais cosmopolitas, mas o Brasil profundo, do interior que acreditou na escola como caminho para a dignidade.

Epílogo: O Legado Silencioso das Paredes

Quando caminhamos hoje pela Rua Paraná, 285, em Sengés, e contemplamos a edificação com suas alterações ao longo do tempo, vemos mais que tijolos e concreto. Vemos a materialização de um sonho coletivo: o sonho de que toda criança, mesmo nascida nas margens do Tibagi, longe dos centros de poder, merece um espaço digno para descobrir o mundo. Vemos a coragem de uma época que, apesar das crises políticas e econômicas dos anos 1930, investiu no futuro com a certeza de que educação não é gasto — é semente.
O Grupo Escolar de Sengés nunca foi um monumento grandioso. Nunca apareceu em cartões-postais nem recebeu homenagens internacionais. Mas, para milhares de sengenses que aprenderam ali suas primeiras letras, ele foi — e continua sendo — o lugar onde o mundo começou. O portal onde o sertão encontrou a civilização não como imposição externa, mas como direito conquistado. E nisso reside sua verdadeira grandeza: não na beleza estética do Art Déco, mas na beleza ética de um compromisso republicano cumprido — tijolo por tijolo, aluno por aluno, geração por geração.