Escola Estadual Olivio Belích - s/d
Acervo: Escola Estadual Olivio Belích
Entre Formas e Futuros: O Grupo Escolar Antônio Tupy Pinheiro — Onde Porto Amazonas Aprendeu a Sonhar em Linhas Retas
Na Rua João Pessoa, nº 376, no coração do Centro de Porto Amazonas, ergue-se um edifício cuja forma em "U" abraça mais do que pátios e salas de aula: abraça a memória de um tempo em que um município recém-nascido decidiu que sua independência política só seria completa quando suas crianças aprendessem a ler o mundo com olhos livres. Inaugurado em 19 de novembro de 1956, o Grupo Escolar Antônio Tupy Pinheiro — hoje Escola Estadual Olivio Belích — é muito mais do que concreto e tijolo: é um manifesto arquitetônico da modernidade que o Paraná dos anos 1950 quis imprimir sobre a terra vermelha dos Campos Gerais.
Porto Amazonas em 1947: O Berço de uma Autonomia
Para compreender a magnitude daquela escola, é preciso voltar ao outono de 1947. Em 10 de outubro daquele ano, pela Lei nº 02, Porto Amazonas emancipava-se de Palmeira e tornava-se município autônomo www.portoamazonas.pr.gov.br
. Nascia assim uma comunidade que, desde o século XVIII, vivia à margem do rio Iguaçu — primeiro como Porto de Caiacanga, ponto estratégico na navegação fluvial; depois como povoado de colonos que desbravavam as matas em busca de terras férteis atlasparanatradicional.wordpress.com
. Mas autonomia política sem educação era autonomia incompleta. Um município novo precisava formar seus cidadãos, alfabetizar suas crianças, preparar seus jovens para governar a si mesmos. E assim, mal findara a década de 1940, os olhos de Porto Amazonas voltaram-se para Curitiba — onde um engenheiro visionário assumira o governo do estado com um plano ousado: transformar o Paraná em celeiro não apenas de soja e trigo, mas de conhecimento.
Bento Munhoz da Rocha Neto e a Revolução das Escolas: 1951-1955
Em 31 de janeiro de 1951, Bento Munhoz da Rocha Neto — nascido em Paranaguá, formado engenheiro pela Universidade do Paraná — assumia o governo estadual com um diagnóstico cruel: milhares de crianças do interior estavam fora da escola; os prédios existentes eram precários; o analfabetismo assombrava as zonas rurais . Sua resposta foi monumental. Entre 1951 e 1955, seu governo desencadeou a maior campanha de construção de grupos escolares na história do Paraná . Não se tratava apenas de erguer paredes — tratava-se de erguer símbolos. Cada escola construída no interior era uma declaração: "Este lugar pertence ao Brasil moderno. Estas crianças merecem o futuro." Foi nesse contexto que nasceu o projeto do Grupo Escolar de Porto Amazonas. Embora inaugurado em novembro de 1956 — já sob o governo seguinte —, seu planejamento, recursos e concepção arquitetônica datam do período munhozista (1951-1955), quando o estado investiu maciçamente na educação como pilar da modernização . A Arquitetura como Profecia: O Modernismo que Abraçava o Futuro
O que torna esta escola única é sua linguagem arquitetônica: o Modernismo em estado puro. Enquanto as primeiras escolas paranaenses do século XX erguiam-se em estilos ecléticos ou neoclássicos — com colunas, frontões e ornamentos que remetiam à Europa —, os grupos escolares da década de 1950 adotaram a estética racionalista que varria o mundo: volumes geométricos limpos, ausência de decoração supérflua, grandes vãos envidraçados que convidavam a luz a penetrar as salas de aula . A tipologia em "U" não era casual. Essa configuração criava um pátio interno protegido — espaço de convivência, recreio e formação cívica — enquanto os blocos laterais abrigavam salas de aula, gabinetes e áreas administrativas. Era uma arquitetura funcional, sim, mas também profundamente simbólica: o "U" aberto para o futuro, como braços que acolhem as crianças e as conduzem rumo ao saber.
Imagine a cena em 1956: crianças de pés descalços, filhas de colonos poloneses, ucranianos e caboclos que trabalhavam nas roças de erva-mate e pinho, cruzando o portão de uma escola de linhas retas e concreto aparente. Ali não havia estátuas de santos nem brasões coloniais — havia modernidade. E naquele contraste entre a rusticidade do cotidiano e a elegância racional do edifício, residia uma mensagem silenciosa porém poderosa: "Vocês não são menos. Vocês pertencem ao amanhã."
Os Homens por Trás dos Nomes: Entre Memórias Esmaecidas e Legados Vivos
Quem foram Antônio Tupy Pinheiro e Olivio Belích — os homens cujos nomes atravessaram décadas para batizar esta escola?
Os registros são fragmentários, como tantas memórias do interior paranaense. Antonio Tupy Pinheiro aparece em documentos da época como inspetor do ensino — figura técnica que, com "esclarecida competência", dirigia os serviços educacionais do estado www.textoecontextoeditora.com.br
. Seu nome, de sonoridade indígena tupi-guarani combinada com tradição europeia, reflete a própria identidade paranaense: mestiçagem de culturas, fusão de mundos. Já Olivio Belích — grafado às vezes como Olívio Belich — guarda raízes profundas em Porto Amazonas. Registros genealógicos indicam um Olivio Belich nascido em 6 de março de 1920, justamente neste município, filho de uma terra que ainda lutava por se afirmar ancestors.familysearch.org
. Casou-se em 1941 com Zué de Oliveira Ribas — família tradicional da região — e dedicou sua vida ao magistério ou à política local, a ponto de merecer, décadas depois, que a escola municipal recebesse seu nome como tributo definitivo. A mudança de denominação — de Antônio Tupy Pinheiro para Olivio Belích — reflete um fenômeno comum na história educacional brasileira: enquanto os nomes estaduais homenageavam burocratas e políticos de Curitiba, os nomes municipais celebravam os seus: professores que ensinaram gerações, vereadores que lutaram por recursos, cidadãos que doaram terras para a construção da escola. Foi a comunidade de Porto Amazonas reivindicando sua própria história.
O Silêncio Entre as Paredes: O Que os Documentos Não Contam
Os arquivos oficiais registram datas, decretos, metragens. Mas não registram:
— O cheiro do giz novo na primeira aula de 1956;
— O ranger das carteiras de madeira quando uma menina tímida se sentava pela primeira vez numa escola de verdade;
— O orgulho do pai analfabeto ao ver o filho soletrar "Paraná" na lousa;
— O professor que, após o expediente, ficava até o anoitecer ensinando adultos a assinar o próprio nome;
— As crianças correndo pelo pátio em "U" durante o recreio, seus risos ecoando entre as paredes modernistas que pareciam dizer: "Este é o vosso lugar. Este é o vosso tempo."
Essas memórias vivem nos relatos dos antigos alunos — hoje idosos que caminham pelas ruas de Porto Amazonas e, ao passar diante da escola, ainda sentem o peso daquela mochila de pano cru, ainda ouvem o apito do recreio, ainda veem, nos olhos dos netos que ali estudam, o mesmo brilho que tiveram ao descobrir que as letras formavam palavras, e as palavras formavam mundos.
Epílogo: A Escola que Não Envelhece
Hoje, como Escola Estadual Olivio Belích, o edifício mantém sua estrutura original — embora com alterações necessárias ao longo dos anos . Suas paredes modernistas testemunharam ditaduras e redemocratizações, modas passageiras e crises econômicas, mas permaneceram de pé — assim como permaneceu de pé a convicção que as ergueu: a de que educação é o único caminho que não se fecha, a única herança que não se gasta, o único investimento que sempre rende. Porto Amazonas completou 77 anos em 2024 www.gazetadepalmeira.com.br
. Sete décadas e meia de história. E em cada uma dessas décadas, crianças passaram por aquele portão em forma de "U" — não apenas para aprender a tabuada ou a gramática, mas para aprender que pertencem a algo maior: a uma comunidade, a um estado, a uma nação que, apesar de todas as dificuldades, sempre acreditou que o futuro se constrói uma carteira de escola de cada vez. A arquitetura modernista ensina que a beleza está na função, na honestidade dos materiais, na clareza das formas. E talvez não haja forma mais bela, mais honesta, mais funcional do que esta: um edifício erguido para que crianças pobres de um município pequeno pudessem, por algumas horas por dia, sonhar sem limites. Sonhar em linhas retas. Sonhar em futuro.