quinta-feira, 16 de abril de 2026

CURITIBA (1905) Préstito desfilando ao som da Banda Militar, pela antiga Estrada do Portão, hoje Avenida República Argentina, a fim de participarem da inauguração da Sociedade Internacional da Água Verde no dia 1.º de janeiro de 1905. Ao fundo, o espaço, onde mais tarde seria a Praça do Japão.

 CURITIBA (1905) Préstito desfilando ao som da Banda Militar, pela antiga Estrada do Portão, hoje Avenida República Argentina, a fim de participarem da inauguração da Sociedade Internacional da Água Verde no dia 1.º de janeiro de 1905. Ao fundo, o espaço, onde mais tarde seria a Praça do Japão.


Uma lembrança do Estúdio Fotográfico dos Irmãos Weiss, que existia ao lado do Passeio Público, quando ele ainda era novidade. ANO 1890.

 Uma lembrança do Estúdio Fotográfico dos Irmãos Weiss, que existia ao lado do Passeio Público, quando ele ainda era novidade. ANO 1890.


UM TRIBUTO À MEMÓRIA DE MARIANO DE LIMA

 UM TRIBUTO À MEMÓRIA DE MARIANO DE LIMA

Instalações onde funcionou o Instituto Paranaense, mais tarde Escola Normal. Em uma de suas salas, funcionou a Escola de Desenho e Pintura desde sua fundação em 22/07/1886 até 30/06/1889.
Nesta rara foto de 1882, o predinho recém-inaugurado como Escola Carvalho, foi o primeiro edificio escolar projetado para atender a instrução primária de Curitiba, para onde a Escola de Desenho e Pintura foi transferida em 1889, sita à Rua Aquidaban nº 92 (atual Emiliano Perneta),
Nesta foto de 1891, na fachada, logo abaixo do nome Escola Carvalho, agora "Escola de Artes e Indústrias do Paraná", a escola Idealizada por Mariano Lima.
Nesta foto, um flagrante de quando a instituição foi chamada Escola de Belas Artes e Indústrias do Paraná.
Nesta foto de 1903, o edifício da Escola de Aprendizes Artífices do Paraná, tão sonhada por Mariano, agora edificada pelo governo, na rua Pedro Ivo, frente praça Carlos Gomes.
Edifício da Escola de Aprendizes Artífices do Paraná, em 1912.














O aumento populacional, a remodelação urbana e o crescimento industrial começavam a inserir Curitiba no modelo de modernização proposto pelo discurso político dos últimos anos do século 19. Influências modernizantes vindas do Velho Continente se faziam sentir nesse período, também na sede da Província, especialmente no que diz respeito à disciplinarização e educação para o trabalho entre as camadas pobres e imigrantes.
Foi nessas condições, pois, que começou a se delinear em Curitiba o projeto de implantação de uma escola de desenho e pintura que, mais tarde, passaria também a englobar o ensino de ofícios. Em tal contexto, rendeu frutos a insistência do Presidente da Província, Visconde de Taunay, para que Mariano de Lima permanecesse na cidade. Taunay incentivou vários amigos a encomendarem retratos e, a pedido dele, o pintor foi apresentado à sociedade curitibana. No dia 01/06/1885, Mariano de Lima foi admitido como sócio no Clube Curitibano, o que marcou seu ingresso no convívio da sociedade.
Ao mesmo tempo em que trabalhava como pintor retratista e instalador de pára-raios e campainhas, Mariano de Lima deu início às suas atividades como professor de artes na cidade. Lecionava pintura e desenho em um anexo do hotel em que residia e, também, em casas de família.
Foi somente em 1886, porém, sob a administração do Dr. Joaquim de Almeida Faria Sobrinho, que começou a se concretizar o projeto de criação de uma escola de artes e ofícios em Curitiba. No dia 22 de julho daquele ano tiveram início, numa das salas do Instituto Paranaense, as aulas de desenho e pintura.
O início das aulas de desenho e pintura na escola de Mariano de Lima foi divulgado por dois jornais da cidade. Na edição de 19/07/1886 do “Dezenove de Dezembro”, da seguinte forma: "Havendo resolvido demorar-se por mais algum tempo nesta capital o Sr. Antonio Mariano de Lima deliberou consagrar três dias de cada semana ao ensino gratuito de desenho às pessoas que se quizerem dedicar a essa arte. Para esse fim, o Ex. Sr. Dr. vice-presidente da província facultou-lhe graciosamente os salões do Instituto Paranaense, onde S. S. dará suas lições á noite, em dias alternados, sendo duas as pessoas do sexo masculino, e uma a do feminino. Entra no plano do Sr. Lima, o ensino também de pintura aos alumnos que se distinguirem e forem premiados no estudo de desenho. Julgamo-nos dispensados de encarecer as vantagens que resultam do estudo do desenho e pintura, - rainha das artes. Nossos parabéns ao Sr. Lima pelo benefício que vae proporcionar á juventude." (Jornal Dezenove de Dezembro, 19 julho1886).
A proposta de ensino de artes nesta capital parece ter sido bem recebida, em especial por representar a primeira iniciativa do gênero e, também, uma oportunidade para todos aqueles que pretendessem se iniciar no estudo do desenho e da pintura, uma vez que as aulas eram gratuitas. Também a “Gazeta Paranaense”, órgão do Partido Conservador, anunciou o início das aulas da escola: "O Sr. Mariano de Lima tendo de ficar ainda entre nós por algum tempo, resolveo abrir uma aula gratuita para o ensinamento de desenho e pintura, que funcionará á noite no Instituto Paranaense. É immenso o serviço que o distincto e intelligente Sr. Mariano de Lima pretende prestar, descubrindo talvez entre a nossa mocidade, alguns gênios com vocação especial para as bellas artes. Nós em nome da mocidade agradecemos tão generoso procedimento, e fazemos votos para que os sacrifícios do Sr. Mariano sejão coroados de excellentes resultados como é de esperar." (Gazeta Paranaense, 20 julho 1886).
É perceptível o apoio dado desde o início pela imprensa local ao projeto de criação de uma escola de desenho. Esse apoio parece ter sido fundamental para a escola, uma vez que a procura pelas matrículas foi intensa desde os primeiros dias, como é possível perceber pelos números do primeiro relatório apresentado por Mariano de Lima à Presidência da Província, no início de 1887.
A escola, então, iniciou suas atividades em 1886, tão somente com as aulas de desenho e pintura, numa das salas do Instituto Paranaense.
No ano seguinte (1887), a escola registrou o movimento de alunos: Matriculados 74 alunos e 45 alunas, divididos em quatro faixas etárias: - alunos de 10 a 12 anos > 29 Homens e 17 mulheres; - alunos de 13 a 15 anos > 25 Homens e 20 mulheres; - alunos de 16 a 20 anos > 11 Homens e 08 mulheres; - alunos de 21 a 60 anos > 09 Homens e 00 mulheres.
O relatório traz, ainda, a proposta de premiação de alunos a partir de concurso a ser realizado no mês de julho de 1887, com a entrega de medalhas aos participantes: "Prêmios: Existem 12 premios (medalhas) cuja distribuição aguardo para o mez de Julho proximo e que será feita áquelles alumnos e alumnas que mais se distinguirem, no trabalho de uma galeria de retratos dos professores do "Instituto Paranaense" e das pessoas que mais tenhão coadjuvado a escola, cujos trabalhos em tempo elles farão. Si bem que tal natureza de estudo não seja a mais louvável, e usada, e até é prejudicial, eu a adoptarei mais como gratidão aos coadjutores da escola, que por qualquer outro fim, como é de uso em identicas escolas."
Assim, por conta da grande procura pelas aulas, já no primeiro relatório Mariano de Lima passou a reivindicar instalações mais amplas para o desenvolvimento do trabalho. No documento, Mariano apresentou as razões pelas quais o espaço devia ser ampliado: "Pelo fato de ser demasiadamente pequeno o estabelecimento onde funcciona a escola, continuam os alunos divididos em turmas, para serem leccionados, systema que não convém, mas que essa circumstancia obriga a ser adoptado e que banirei, desde que ella desapareça".
No dia 17/02/1887, o Presidente da Província, em relatório apresentado à Assembléia Legislativa, dava mostras da sua aprovação à forma de funcionamento da Escola de Desenho e Pintura de Mariano de Lima. Segundo ele, a referida escola estava "[...] perfeitamente bem montada, com aceio e gosto: possue o material indispensável para uma aula de tal ordem. Funcciona em uma das salas do Instituto Paranaense. Já era tempo de cuidar-se do ensino das bellas artes, tão descurado entre nós; é de esperar que os esforços de tão distincto professor produzão resultados satisfactórios." Ele conclui o documento elogiando o professor e diretor da escola e agradecendo o mesmo pelo esforço de "[...] dotar esta capital de mais este melhoramento".
A Escola de Belas Artes e Indústrias, portanto, a partir da visão de seu fundador e colaboradores, tentava criar uma metodologia de ensino de artes e ofícios na cidade de Curitiba, segundo o modelo do que ocorria em outros países: "Temos andado muito distanciados do movimento progressivo que na maior parte dos paízes europeos, e mesmo na América, rapidamente se opera em todas as órbitas e gráos da educação popular. Não há muito que se principiou a proclamar entre nós a utilidade do desenho na escola primária: as vantagens inherentes ao aprendimento desta disciplina, não como arte meramente decorativa, mas como força accrescentada ao poder productivo do braço e da mentalidade humana, não passaram ainda do terreno revolto e accidentado do debate para a religião plácida e lisa dos factos averiguados e positivos. (Jornal A Arte, 04/03/1888).
Fundada inicialmente com o objetivo de promover o ensino de artes, a escola logo passaria a incluir a idéia da arte como fundamento do desenvolvimento econômico e industrial da província. A hipótese que se apresenta é a de que, apesar da vontade de promover o ensino de artes, Mariano de Lima conhecia as dificuldades de convencer o governo provincial da real necessidade de criar e manter uma instituição do gênero. Uma escola de ofícios, no entanto, não carecia de justificativas para sua criação e manutenção. A associação, portanto, entre a arte e a sua aplicação industrial, pode ter representado, para Mariano, a justificativa ideal para a manutenção da sua escola.
Inicialmente, portanto, a criação da escola representava, para Mariano de Lima, uma oportunidade de fomentar os talentos artísticos que porventura existissem em Curitiba. Entretanto, fosse por necessidade de justificar a existência da escola ou, então, fosse parte de seu projeto original, já em 1888 (no relatório enviado ao governo provincial) Mariano demonstrava a intenção de transformar a então chamada Escola de Desenho e Pintura em um liceu artístico e industrial: "Com a proposta que fiz ao governo, e que foi immediatamente aceita, da criação de uma escola de dezenho e pintura, lancei as bases de um Lyceu Artístico e Industrial, como se vê nos livros de escrituração, cujos títulos impressos dizem o seguinte - Lyceu Artístico e Industrial, bases que me tenho empenhado seriamente, com amor de artista que é todo puro e próprio do seu trabalho, por sustentar afim de ver fundado o lyceu projectado. Não é mister mencionar as vantagens de um estabelecimento de tal ordem e lembro apenas os serviços do Lyceu de Artes e Offícios da Corte, fundado e dirigido pelo benemérito Commendador Bithencourt da Silva. Que o empenho em transformar-se a actual escola em um lyceu, deve ser feito por todos os paranaenses e por todos que ligão algum amor e interesse a esta terra, é cousa fora de dúvida. Neste empenho torna-se mister que a Assembléia Provincial me attenda nos pedidos que fizer, os quaes são sempre os mais módicos possível, ainda que o estado da província não convide a tal. Dêem-me os meios e eu transformarei a escola pouco a pouco em um lyceu artístico e industrial. (Jornal A Arte, 04/03/1888).
Assim, à primeira vista, dois projetos parecem concorrer dentro da instituição criada por Mariano de Lima: a 'escola de desenho e pintura' e o 'liceu industrial'. Tais projetos pareciam estar separados, como se formassem duas escolas distintas dentro da mesma instituição; entretanto, para Mariano de Lima eles possivelmente representavam apenas lineamentos de um projeto mais amplo, unificado, já que, segundo sua visão, não era possível dissociar as belas artes do ensino profissional
A 'Escola de Desenho e Pintura' permaneceu nos recintos do 'Instituto Paranaense' até o dia 30/06/1889, quando foi transferida para a antiga 'Escola Carvalho', na Rua do Aquidaban (atual Emiliano Perneta), a qual passou por algumas reformas para poder abrigá-la. No final daquele mesmo ano, às vésperas da Proclamação da República, a Escola de Desenho e Pintura passou a se chamar 'Escola de Artes e Indústrias', através de decreto.
A mudança de edifício para a rua Aquidaban, estava relacionada com a alteração dos propósitos de Mariano, pois a escola passou a ofertar também, as qualificações de liceu industrial, propósito almejado por Mariano de Lima desde o início do funcionamento da Escola de Desenho e Pintura.
Em 1°/06/1892 a Pinacoteca Paranaense foi anexada à escola por lei própria. Contando com uma coleção relativamente grande de quadros, a Pinacoteca já fazia parte do projeto de construção da 'Casa da Cultura', que viria a compor, em conjunto com a escola, um centro de estudos artísticos e profissionais, que contaria com locais para a realização de exposições e conferências, auditório, museu e biblioteca. Em relatório apresentado por Caetano Alberto Munhoz, secretário dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública, ao então governador do Estado, Francisco Xavier da Silva, já aparecia a intenção da construção do futuro edifício: "o seu digno Director projecta a construcção de um edifício apropriado do qual já possue a planta, o que será de toda conveniência levar-se avante." (MUNHOZ. Governo. Relatório 31/12/1893).
Sempre incansável, o mestre inscreveu várias obras de seus alunos, além de seu projeto, no concurso promovido pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, seletivo à Exposição de Chicago. A aprovação dessas obras no Rio, foi a primeira etapa, a partir da qual deveria enviar o material selecionado para os Estados Unidos. No intuito de divulgar a escola e a classificação para o concurso internacional, o mestre promoveu exposição do material que iria para o exterior. O público pode apreciar as plantas do Palácio da Cultura e as telas de Maria de Aguiar, Minervina Wanderley, Alberto Bardal, Paulo Freyer, Oscar Sabhte e Benedito Antonio dos Santos.
O projeto monumental foi agraciado em Chicago, com Medalha de Ouro. Dos seis trabalhos de artistas paranaenses enviados pela 'Escola de Artes Industrias', três foram premiados naquele evento dos Estados Unidos. O artista se utilizava da estratégia de veicular sua laureada proposta para encontrar a aceitação da comunidade e da imprensa com o objetivo de convencer o poder público à sua concretização. Ao receber o prêmio do exterior, teria um argumento convincente à objetivação do sonho. Mas o projeto não foi executado, e além disso, a participação da escola nessa exposição serviu como pretexto para uma campanha contra Mariano, que o desgostou profundamente e influiu na sua decisão de se transferir para Manaus.
A participação da escola na referida exposição foi, sem dúvida, um dos grandes desafios enfrentados por Mariano de Lima e seus alunos. As chamadas exposições internacionais fizeram parte de um momento em que as nações mais desenvolvidas mostravam ao mundo as suas realizações tecnológicas e industriais.
A participação da escola em uma exposição internacional era motivo de orgulho; afinal, eventos do gênero representavam a vitrine do progresso e da modernidade das nações. A presença equivalia a uma poderosa afirmação de existência (da instituição e de seu país de origem) dentro daquele mundo civilizado, responsável pelo progresso tecnológico, científico e artístico.
A Escola de Artes e Indústrias do Paraná foi, no entanto, a única a representar o Brasil naquele evento, em um momento em que o ensino artístico e de ofícios estava entrando em evidência em uma exposição internacional.
Para a participação do Paraná na referida exposição foi formada uma comissão para enviar os trabalhos a serem expostos. No dia 1°/03/1893 o ministro das Indústrias e Obras Públicas informava, por intermédio do governador do Estado, que a comissão deveria enviar diretamente para Chicago as obras e objetos destinados àquela exposição.
A participação da Escola de Artes e Indústrias foi o ápice na luta do Prof. Mariano de Lima para provar a necessidade de se manter uma instituição como a sua em Curitiba, assim como para defender a ampliação da mesma. E, nesse aspecto, ele demonstrou empenho, sendo o Estado do Paraná o único no Brasil que se fez representar com uma escola do gênero.
O jornal A República, pela pena de Leôncio Correia, dava mostras de seu apreço pela participação da escola naquele evento: "A estas horas, talvez, que, ao cadenciar melancólico das vagas do oceano, levão elles, modestos embora, para fulgurar no certamen extraordinário que os Estados Unidos da América do Norte abrem á fecundidade do trabalho humano. Ainda bem, que ao lado dos productos da nossa terra, pode palpitar, nossa também, uma alma ennastrecida dos louros da Arte, dessa Arte, sempre serena e sempre vencedora, e que, á feição do filho do velho Próspero, sabe levantar as tempestades e acalmar os furacões. Os quadros, os trabalhos de architectura e de esculptura que lá vão ser expostos, não levam com certeza, nem a monotonia pesada dos mestres de alta escola, de óculos azuis e longos bigodes, nem a correção fina e delicada, subtil e doce dos eternos apaixonados, dos parnasianos que emprestam sons ás cores, dos torturados pela nostalgia do Ignoto, que tem na Arte o seu consolo e o seu desespero, todo estrépido da vida e todo o aniquilamento da morte, mas levam nos seus próprios erros, a insubmissão selvagem e gloriosa da alma americana, tumultuosa como um oceano, pura como um luar de primavera, recta e justa como a própria morte." (Jornal A República, 15/03/1893).
Além da medalha de ouro concedida para o projeto do novo edifício, a escola teve todos os seus trabalhos aceitos pela comissão organizadora da exposição. O sucesso da escola na exposição fez com que Mariano de Lima sonhasse com futuras participações da sua escola em eventos semelhantes: "[...] Actualmente já trabalhamos para representar o Estado condignamente na Exposição de 1900 a realizar-se em Pariz. (...) Também esperamos levar a effeito a projectada "Exposição de Bellas Artes e Indústrias do Paraná, visto que nas obras a fazer no edifício da Escola já entrará o plano de grandes salões apropriados. Antes d'isto, porém, havemos de fazer uma de cincoenta trabalhos dos vários cursos, no Rio de Janeiro, em Maio de 1896." (Relatório da Escola de Artes e Industrias, em 11/10/1895).
Tais projetos, entretanto, não viriam a se concretizar. Mariano enfrentaria ainda alguns obstáculos na tentativa de implementar a ampliação da escola, através da concretização do projeto da Casa da Cultura. Entretanto, naquele momento, parecia que começava a se consolidar seu projeto definitivo.
Em janeiro de 1895 já se encontravam em funcionamento os cursos de Desenho Artístico, Artes Plásticas, Arquitetura, Escultura, Pintura e Música, na parte de ensino de artes, assim como aqueles voltados para o aperfeiçoamento das “artes industriais”, como os de Marcenaria, Ferraria, Carpintaria e Decoração de Casas. Os alunos do curso musical, criado em 23/03/1893 e iniciado em 17 de julho do mesmo ano, depois de aprovados em leitura e caligrafia musical, passavam para o Grêmio Musical Carlos Gomes, na qualidade de sócios, devido a um acordo recíproco entre os dois estabelecimentos. Da mesma forma, Mariano de Lima informava que os métodos adotados pela escola eram os mesmos da Escola Nacional de Belas Artes e do Instituto Nacional de Música, ambos no Rio de Janeiro, não apenas por serem os mais adiantados da época, mas também para estar em conformidade com o programa daquelas instituições.
Assim, os alunos mais adiantados da Escola de Artes e Indústrias poderiam aperfeiçoar seus estudos no Rio de Janeiro e, desta forma, concorrer a bolsas de estudo oferecidas pelo governo federal, para estudar em escolas e liceus artísticos na Europa.
Além do ensino artístico e industrial, a Escola de Artes e Indústrias contava também com as cadeiras de Geografia, História, Francês e, posteriormente, Alemão, no curso extraordinário. A escola projetada por Mariano de Lima, assim, dava mostras de estar caminhando em direção ao seu objetivo, qual fosse, o de se tornar um importante veículo na formação de artistas e trabalhadores qualificados em Curitiba. Como se pode perceber, a oferta de cursos ultrapassava o ensino de artes e ofícios, objetivando a formação mais completa daqueles que freqüentavam a instituição.
Quase uma década havia transcorrido desde a inauguração da pequena escola chamada 'aula de desenho e pintura'. Aos poucos se delineava o sonho de construção de uma instituição modelar, não só para o ensino de artes e ofícios, mas também para a celebração das artes e da modernidade na ainda pequena capital do Estado.
Em 1º/10/1896, o governador do Estado, José Pereira Santos Andrade, mencionou a construção do novo edifício da escola, em mensagem enviada ao Congresso Legislativo: "Acham-se bastante adiantadas as obras do elegante edifício destinado á Escola de Artes e Indústrias do Paraná. Será conveniente que voteis o necessário crédito para a sua conclusão, sem prejuízo da subvenção que até agora tem sido destinada a tão útil instituição. A vossa ilustração exime-me de encarecer a utilidade dessa Escola."
Mesmo contando com o apoio do próprio governador, pode-se imaginar as dificuldades que a escola continuava a enfrentar no que diz respeito à aquisição de verbas, tanto para a construção do novo edifício quanto para a manutenção dos trabalhos, uma vez que a construção do edifício ainda não havia sido concluída depois de três anos da aprovação do projeto.
No ano seguinte, 1897, a escola mudou novamente de denominação, passando a chamar-se 'Escola de Belas Artes e Indústrias do Paraná', possivelmente como parte do projeto que pretendia transplantá-la da antiga sede na 'Escola Carvalho' para o novo prédio, já em construção na praça Carlos Gomes.
Em 1893, ano da vitória da Escola de Artes e Indústrias do Paraná na Exposição Universal de Colúmbia, tiveram início as críticas de Paulo Ildefonso d' Assunção à pessoa de Mariano de Lima e à sua escola. Quais teriam sido as razões para o embate entre Mariano de Lima e seu ex-aluno e colaborador não aparecem claramente nos insultos publicados por ele no jornal “A República”, naquele mesmo ano. Entretanto, algumas hipóteses podem ser elaboradas para explicar tal conflito.
Em 22/10/1894, foi inaugurado oficialmente o Conservatório de Belas Artes, instituição fundada por Paulo Ildefonso. No entanto, essa escola já havia sido criada dois anos antes, em 1892. Desta forma, no ano da participação da Escola de Artes e Indústrias na exposição de Chicago, a existência de outra escola de artes em Curitiba já era, de per se, um fato, que pode explicar a reação de Paulo Ildefonso d'Assunção à vitória internacional da escola rival da sua.
O Conservatório de Belas Artes iniciou suas atividades oferecendo os cursos de Música, Artes Plásticas e Literatura. Foi subvencionada com boa soma de verbas do estado, no ano de sua inauguração e subsequentes. Teve 41 alunos matriculados no início. Desta forma, aquele que uma vez havia sido colaborador de Mariano de Lima tornava-se seu rival nos negócios. Competindo com uma instituição em funcionamento já há sete anos, Paulo Ildefonso lançou mão de uma estratégia de enfraquecimento da escola rival a partir de ataques pessoais a Mariano de Lima e críticas aos resultados obtidos pela escola.
O relacionamento entre Mariano de Lima e Paulo d' Assunção teve início quando este iniciou seus estudos artísticos na Aula de Desenho e Pintura de Mariano. Tendo ido ao Rio de Janeiro com o objetivo de cursar escultura no Liceu de Artes e Ofícios, correspondeu-se com o antigo professor (Mariano) durante toda o período de permanência naquela cidade. Ao retornar, no entanto, não aceitou mais colaborar com o antigo mestre, uma vez que pretendia abrir sua própria instituição de ensino de artes. O relacionamento entre Mariano de Lima e Paulo d'Assunção, portanto, tinha sido muito próximo. O conflito de interesses, no entanto, iria minar a antiga amizade entre os dois homens.
Paulo Ildefonso d' Assunção teve uma carreira meteórica no campo das artes plásticas. Foi nomeado para o cargo de professor de desenho do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro enquanto ainda era aluno daquela instituição, cargo que ocupou até 1890. No ano de 1889 recebeu o diploma de Bacharel em Arqueologia e História das Artes. No ano seguinte retornou a Curitiba, onde foi nomeado professor de escultura e desenho da Escola de Artes e Indústrias do Paraná, quando voltou a colaborar com o antigo professor, recebendo elogios do próprio Mariano. Tal fato nos leva a crer que Mariano de Lima mantinha grande consideração por Paulo d' Assunção. Entretanto, depois de um curto período junto ao ex-professor, Paulo Ildefonso começou a projetar a própria escola e, por conta disso, iniciou uma campanha difamatória contra o amigo.
Devido ao projeto de criação do Conservatório de Belas Artes, Paulo Ildefonso aproveitou a participação da Escola de Artes e Indústrias na Exposição Universal de Chicago para acirrar a disputa entre ele e seu antigo professor.
Porém, mesmo com a ampliação das atividades da escola de Mariano, esta continuava a enfrentar problemas financeiros que, aliados às constantes críticas vindas da parte de Paulo d'Assunção, culminaram com o pedido de demissão de Mariano de Lima do cargo de diretor:
"Pedido de demissão. Ao Dr. Governador do Estado, em 31/01/1896. Apezar da amargura que nos transpassa a alma, e com todo socego que vimos pedir exoneração dos cargos de director e professor d'este Estabelecimento, para qual fomos nomeados pelo Dr. Joaquim d'Almeida Faria Sobrinho, então Presidente da ex-Província, a 22 de Julho de 1886, e que até hoje exercemos gratuitamente. O fundamento de nosso pedido é o de havermos acabado de convencer-nos de que, apezar de nossas minuciosas explicações em relatórios e tantos outros milhares de documentos, não podemos conseguir ser comprehendido em nossos intuitos em relação ao mesmo Estabelecimento. Ora, não podendo ser comprehendido, como acima dissemos, nem nós nem os nossos illustres companheiros, como nós, professores e também gratuitos é claro que a lucta, há tantos annos travada, continua e continuará cada vez mais renhida, porque os recursos pecuniários cada vez mais caminham em desproporção aquém e bem distanciados dos progressos moraes, intelectuaes, e materiaes que aqui se tem realisado. A Escola acha-se com um débito interno de perto de trinta contos de réis, e um externo, já hoje, approximadamente a nove contos, devidamente provados, isto porém não impede de entregar-mos o Estabelecimento como está, ao Governo, porque é para o Paraná que o temos feito (devendo-se porém exceptuar os trabalhos dos alumnos, que, além de pertencerem aos mesmos, constituirão sempre a prova dos esforços e progressos reaes que no Estabelecimento se tem alcançado desde a data de sua fundação), pois temos plena fé em que os credores esperarão que, com o nosso trabalho particular, que agora há de ser muito mais productivo, visto que a elle exclusivamente nos dedicaremos, possamos fazer o respectivo pagamento. Se pedimos nossa exoneração é porque temos certeza de que nos desculpareis, attendendo á circumstancia de que em grande parte conheceis as nossas imperiosas dificuldades. Assim, ao entregar em vossas mãos uma filha cujo amor tanto nos tem custado, agradecemos da parte mais recôndita de nosso coração os serviços que á sua causa tendes dispensado. Pedindo-vos perdão de quaesquer faltas, sempre involuntárias, esperamos anciosos a exoneração solicitada. Saúde e Fraternidade - A. Mariano de Lima.".
No entanto, o pedido de demissão não foi aceito pelo governador do Estado, uma vez que Mariano de Lima se manteve à frente da instituição por mais seis anos. E, apesar da luta constante pela obtenção de recursos, a escola receberia em pouco tempo do governo, ao menos o reconhecimento da sua importância educacional e artística para o Paraná.
Entretanto, apesar das críticas e comparações, o problema mais grave e sempre presente era o da falta de verbas. As dificuldades para a manutenção da escola chegaram a situações críticas, como a vez em que Mariano de Lima teve que negociar diretamente com a Empresa de Iluminação Pública de José Hauer e Filhos as dívidas da escola, o que deixa claro que a subvenção dada pelo estado não era suficiente para o custeio das despesas.
A tristeza de Mariano de Lima frente às dificuldades, porém, não o impedia de continuar insistindo para o desenvolvimento da escola. Prova disto é a recusa dele ao convite feito por um Juiz Federal de Minas Gerais, para que fosse se estabelecer em Belo Horizonte e ali fundar uma escola semelhante à de Belas Artes e Indústrias.
No ano de 1902, Mariano de Lima finalmente deixou a cidade, a família e a escola que tanto lutara para construir. A decepção pela falta de apoio ao seu projeto de ensino artístico-profissional fica evidente no desabafo quando de sua partida: "Nada mais desejo dessa terra onde só recebi ingratidões".
Após inúmeros convites recusados para se estabelecer em outras cidades do país, Mariano de Lima aceitou o convite de conterrâneos para se estabelecer em Manaus.
A sua decepção frente à oposição oferecida pelo antigo aluno e ex-amigo pode ter sido mais forte pelo fato de que as duas instituições - a Escola de Artes e Indústrias e o Conservatório de Belas Artes teriam alcançado objetivos mais elevados se tivessem conjugado seus esforços ao invés de competirem entre si pelo ensino de artes.
Com a saída de Mariano de Lima de Curitiba, a Escola de Belas Artes e Indústrias passou a ser dirigida por sua esposa, mais conhecida como Dª Mariquinha. A sede da escola foi transferida para o número 595 da Rua Comendador Araújo. Assim, o crescimento que a escola chegara a conhecer, bem como a projeção do que poderia vir a ser a partir da concretização do projeto da Casa da Cultura, se desfez completamente.
A partir da saída de Mariano de Lima, e sob a direção de Dª Mariquinha, a escola começou, lentamente, a deixar de lado algumas das propostas de seu criador. A escola que antes recebia alunos de ambos os sexos e diferentes categorias sociais passou a privilegiar a oferta de ensino de artes para moças. Alfredo Andersen, amigo e entusiasta do projeto de Mariano de Lima, continuou a colaborar com a escola após a saída de seu fundador, lecionando desenho e pintura no curso noturno para operários, de 1909 a 1917. Neste ano, por questões financeiras, a escola cancelou o atendimento do período noturno, direcionado para a clientela masculina.
Dessa forma, em 1917, a escola mudou novamente a sua denominação, passou a ser “Escola Profissional Feminina”, alterando definitivamente a proposta de ensino imaginada por Mariano de Lima. Alfredo Andersen continuou a exercer a função de professor da escola até 1935, ano da sua morte. Com a aposentadoria de D. Mariquinha, em 1933, ele havia passado, inclusive, a ocupar a função de diretor da instituição. Neste mesmo ano a sede da escola foi novamente transferida, desta vez para a Av. República Argentina, transferência esta que influenciou na alteração do seu nome para Escola Profissional República Argentina. Passou, então sua responsabilidade à Secretaria de Estado da Educação.
A popularidade de Paulo Ildefonso d' Assunção, aliado ao seu fácil trânsito entre os meios políticos e econômicos da capital paranaense, fizeram dele o homem ideal para assumir a direção da Escola de Aprendizes Artífices, tendo sido nomeado para o cargo pelo governo do Estado. Assim, o projeto defendido com unhas e dentes por Mariano de Lima ao longo de toda a sua permanência em Curitiba, concretizou-se, finalmente, pelas mãos de seu maior adversário.
Por outro lado, o Conservatório de Belas Artes, de Paulo D'Assunção, como já foi visto, iniciou suas atividades voltado para o ensino de artes a uma camada seleta de moças da sociedade. O caráter elitista, que havia sido motivo de comparações entre as duas instituições, começou a mudar com o alargamento de suas funções para abarcar também o ensino de ofícios a operários, atividade criticada por Paulo Ildefonso na escola de Mariano.
Enquanto o projeto de Paulo d' Assunção se ampliava, abarcando as propostas que faziam parte do projeto inicial de Mariano de Lima, a Escola de Belas Artes e Indústrias recuava, voltando ao ponto de atender somente a moças, no aprendizado de artes e ofícios, longe do propósito inicial de dar formação profissional ao contingente trabalhador da cidade. O projeto educacional de Paulo d' Assunção, assim, acabaria se direcionando para a criação, em 1909, da Escola de Aprendizes Artífices.
Em 16/01/1917, Paulo Ildefonso d'Assunção, inaugura oficialmente a 'Escola de Aprendizes Artífices do Paraná', um belo edifício sito à Praça Carlos Gomes, oferecendo em sua fase inicial, os cursos de alfaiataria, marcenaria e sapataria. Ao final do primeiro ano foram organizadas, também, as oficinas de serralheiro mecânico e seleiro tapeceiro. A escolha para implantação das oficinas atendeu às orientações do Decreto de criação das escolas de aprendizes artífices, que preconizava, as oficinas deveriam atender às necessidades das indústrias locais. Além das oficinas descritas, Paulo Ildefonso manteve as de pintura decorativa e escultura ornamental, sob sua responsabilidade e ônus.
Ironicamente, a escola ocupou o mesmo prédio em que ele havia instalado o Conservatório de Belas Artes alugado pelo governo estadual e colocado à disposição do governo federal. O número total de alunos matriculados no momento da inauguração era de 45, chegando, ao final do primeiro ano, a 219.
(Extraído e adaptado de: acervodigital.ufpr.br / Tese de Luciana Wolff Apolloni Santana)
Paulo Grani

Canhão 20 mm / 85 GAM-BO1: O Renascimento da Artilharia Leve Naval Britânica

 

20 mm / 85 GAM-BO1


Descrição

Este é o canhão Oerlikon KAA usado em uma montagem controlada manualmente construída pela BMARC (British Manufacture and Research Company) sob a designação A41 / 820. Instalado em muitos navios de guerra britânicos após a Guerra das Malvinas, estimulou um interesse renovado por metralhadoras leves.

"Este canhão é essencialmente equivalente ao canhão de 20 mm Oerlikon da Segunda Guerra Mundial , com uma velocidade de cano mais alta" - Norman Friedman em "The Naval Institute Guide to World Naval Weapon Systems 1991/92".

Características da arma

DesignaçãoCanhão: Oerlikon 20 mm / 85 KAA
Montagem: GAM-BO1
Classe de navio usada emNavios de guerra britânicos modernos
exportados para muitos países
Data de DesignN / D
Data em serviçocerca de 1985
Peso da arma203 libras (92 kg) sem munição
401 libras. (182 kg) com cinto redondo de 200
Comprimento da arma oaN / D
Comprimento do Furo55,1 pol. (1.400 m)
Comprimento do rifleN / D
GroovesN / D
TerrasN / D
TorçãoN / D
Volume da CâmaraN / D
Taxa de tiroCíclico: 900 - 1000 rodadas por minuto

Munição

ModeloFixo
Peso da Rodada CompletaN / D
Tipos e pesos de projéteisHE-I - 0,264 libras. (0,120 kg)
Bursting ChargeN / D
Comprimento do projétilN / A
Comprimento da volta completa: 8,0 pol. (20,3 cm)
Carga PropelenteN / D
Cartucho20 x 128 mm (o tamanho do cartucho é, na verdade, 128,7 mm)
Velocidade do focinho3.440 fps (1.050 mps)
Pressão no trabalhoN / D
Vida Aproximada do BarrilN / D
Armazenamento de munições por arma
(na montagem)
200 rodadas

Alcance

Alcance dos projéteis HE
ElevaçãoAlcance
Eficaz - Superfície2.200 jardas (2.000 m)
Máximo7.450 jardas (6.800 m)
Eficaz - Aeronave1.650 jardas (1.500 m)

Dados de montagem / torre

DesignaçãoGAM-BO1
PesoCerca de 1.000 libras. (454 kg)
Elevação-10 / +55 graus
Taxa de ElevaçãoElevação manual, apenas
Trem360 graus
Taxa de tremTreinamento manual, apenas
Recuo da armaN / D

Imagens Adicionais

Fontes

"The Naval Institute Guide to World Naval Weapon Systems 1991/92" por Norman Friedman
"Jane's Ammunition Handbook: Nona edição 2000-2001" editado por Terry J. Gander e Charles Q. Cutshaw
"Rapid Fire" por Anthony G. Williams
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Oerlikon Contraves AG Imprensa
da Marinha Real Press Releases

Histórico da página

21 de junho de 2008 - Benchmark
01 de fevereiro de 2014 - Adicionada fotografia de HMS Invincible
20 de dezembro de 2015 - link da Royal Navy atualizado
07 de setembro de 2016 - Convertido para o formato HTML 5


Canhão 20 mm / 85 GAM-BO1: O Renascimento da Artilharia Leve Naval Britânica

Introdução

O canhão 20 mm / 85 GAM-BO1 representa um capítulo fascinante na evolução da artilharia naval moderna, emergindo das lições aprendidas durante a Guerra das Malvinas em 1982. Este sistema de armas, essencialmente uma versão modernizada do lendário canhão Oerlikon da Segunda Guerra Mundial, foi desenvolvido para atender às necessidades urgentes da Marinha Real Britânica por sistemas de defesa de ponto confiáveis e eficazes contra ameaças aéreas e de superfície.
Instalado em numerosos navios de guerra britânicos após o conflito do Atlântico Sul, o GAM-BO1 estimulou um interesse renovado em metralhadoras leves navais, demonstrando que mesmo em uma era de mísseis sofisticados e sistemas de armas guiadas, há um lugar vital para armas convencionais de tiro rápido, simples e confiáveis.

Contexto Histórico: As Lições das Malvinas

A Guerra das Malvinas e a Necessidade de Defesa de Ponto

A Guerra das Malvinas (abril-junho de 1982) expôs vulnerabilidades críticas na defesa antiaérea de curto alcance da Marinha Real Britânica. Durante o conflito, navios britânicos enfrentaram ataques aéreos argentinos intensos e coordenados, revelando lacunas significativas na capacidade de defesa de ponto contra aeronaves de ataque e mísseis antinavio.
Embora sistemas como o Sea Wolf e o Sea Dart fossem eficazes em suas faixas de operação designadas, havia uma necessidade clara de armas de último recurso - sistemas que pudessem engajar ameaças que penetravam as defesas de médio e longo alcance. O canhão de 20 mm GAM-BO1 emergiu como uma solução prática e imediata para esta lacuna crítica.

O Renascimento da Artilharia Convencional

Curiosamente, o conflito das Malvinas demonstrou que, apesar dos avanços extraordinários em tecnologia de mísseis e sistemas de armas guiadas, havia um papel vital e contínuo para artilharia convencional de tiro rápido. As lições aprendidas incluíram:
  • Custo-benefício: Mísseis são caros; munição de canhão é relativamente econômica
  • Capacidade de engajamento múltiplo: Um canhão pode disparar centenas de rounds contra múltiplos alvos
  • Simplicidade e confiabilidade: Sistemas mecânicos simples falham menos que sistemas eletrônicos complexos
  • Reação rápida: Contra ameaças de curto alcance e alta velocidade, o tempo de reação é crítico

Desenvolvimento e Design

A Herança Oerlikon

O canhão GAM-BO1 é baseado no Oerlikon KAA, que por sua vez deriva do famoso canhão Oerlikon de 20 mm da Segunda Guerra Mundial. Como observou Norman Friedman em "The Naval Institute Guide to World Naval Weapon Systems 1991/92":
"Este canhão é essencialmente equivalente ao canhão de 20 mm Oerlikon da Segunda Guerra Mundial, com uma velocidade de cano mais alta."
Esta afirmação captura a essência do design do GAM-BO1: pegar um conceito comprovado em combate - o Oerlikon 20 mm que serviu com distinção em virtualmente todas as marinhas Aliadas durante a WWII - e modernizá-lo com melhorias de performance, particularmente no que diz respeito à velocidade inicial do projétil.

A BMARC e a Montagem A41/820

A British Manufacture and Research Company (BMARC) foi contratada para desenvolver e produzir a montagem do canhão sob a designação A41/820. A BMARC, com sua rica história na produção de armas automáticas, aplicou sua expertise para criar uma montagem que combinasse simplicidade operacional com eficácia de combate.
A designação GAM-BO1 refere-se especificamente à montagem completa do sistema, enquanto o canhão em si é designado como Oerlikon 20 mm / 85 KAA. O "85" refere-se ao comprimento do cano em calibres (85 x 20 mm = 1.700 mm ou aproximadamente 1,7 metros).

Características de Design da Montagem

Uma característica distintiva - e potencialmente problemática - da montagem GAM-BO1 é que os munhões (pontos de pivô para elevação) não se ajustam à altura do atirador. Isto significa que o artilheiro precisa ser literalmente amarrado à montagem para evitar cair ao atirar, mesmo em elevações modestas. Esta característica, mencionada em fotografias do HMS Invincible, reflete as prioridades de design da época:
  • Simplicidade: Menos partes móveis significam menos manutenção e maior confiabilidade
  • Peso reduzido: Mecanismos de ajuste de altura adicionariam peso significativo
  • Custo: Cada característica adicional aumenta o custo de produção
  • Velocidade de implantação: A necessidade de colocar estas armas em serviço rapidamente após as Malvinas pode ter levado a compromissos no design ergonômico
Embora esta característica seja desconfortável para o artilheiro, ela não impede a eficácia operacional da arma, particularmente em situações de combate onde a sobrevivência do navio é prioritária.

Especificações Técnicas Detalhadas

O Canhão Oerlikon KAA

Dimensões e Peso:
  • Calibre: 20 mm (0,79 polegadas)
  • Comprimento do cano: 55,1 polegadas (1.400 mm)
  • Comprimento em calibres: 85 calibres (daí a designação 20 mm / 85)
  • Peso do canhão: 203 libras (92 kg) sem munição
  • Peso com cinta de 200 rounds: 401 libras (182 kg)
O cano longo de 85 calibres é significativamente maior que os canhões Oerlikon da WWII (que tipicamente tinham 60-70 calibres), permitindo que os gases propelentes atuem no projétil por mais tempo, resultando em maior velocidade inicial.
Mecanismo de Operação:
O Oerlikon KAA utiliza um sistema de operação por recuo avançado (advanced primer ignition ou API), no qual o cartucho é disparado enquanto o ferrolho ainda está se movendo para frente. Este sistema engenhoso oferece várias vantagens:
  1. Redução do recuo percebido: Parte da energia do recuo é usada para parar e reverter o movimento do ferrolho
  2. Maior cadência de tiro: O ciclo de operação é mais rápido
  3. Simplicidade: Menos peças móveis complexas comparado a sistemas operados a gás
Cadência de Tiro:
  • Cíclica: 900-1.000 rounds por minuto
Esta cadência de tiro elevada é essencial para engajar alvos aéreos em movimento rápido. A 1.000 rounds por minuto, o canhão dispara aproximadamente 16-17 rounds por segundo, criando uma densa "parede de chumbo" através da qual a aeronave inimiga deve passar.

Sistema de Munição

Cartucho 20 x 128 mm:
O GAM-BO1 utiliza o cartucho 20 x 128 mm, embora o comprimento real do cartucho seja de 128,7 mm. Este cartucho é uma versão aprimorada dos cartuchos 20 mm usados na WWII, com carga propelente aumentada para aproveitar o cano mais longo.
Especificações da Munição:
  • Tipo: HE-I (High Explosive-Incendiary / Alto Explosivo-Incendiário)
  • Peso do projétil: 0,264 libras (0,120 kg / 120 gramas)
  • Comprimento do round completo: 8,0 polegadas (20,3 cm)
  • Carga explosiva: O projétil HE-I contém uma pequena carga explosiva que detona no impacto, combinada com composição incendiária que inicia incêndios
Vantagens da Munição HE-I:
  1. Efeito explosivo: Mesmo um hit direto causa dano significativo através da explosão
  2. Efeito incendiário: A composição incendiária pode iniciar incêndios em aeronaves ou embarcações
  3. Fragmentação: A explosão cria fragmentos que aumentam a área de dano
  4. Traçante: A maioria dos rounds HE-I inclui um componente traçante que permite ao atirador ver a trajetória dos projéteis e corrigir o tiro
Alimentação:
A munição é alimentada por cinta, com capacidade de 200 rounds na montagem. A alimentação por cinta oferece vantagens sobre os sistemas de carregador:
  • Maior capacidade de fogo sustentado
  • Menor tempo de recarga (trocar uma cinta é mais rápido que trocar múltiplos carregadores)
  • Menor probabilidade de falhas de alimentação
  • Flexibilidade para conectar cintas para fogo prolongado

Performance Balística

Velocidade Inicial (Muzzle Velocity):
  • 3.440 pés por segundo (1.050 metros por segundo)
Esta velocidade inicial excepcionalmente alta - significativamente superior aos aproximadamente 2.800 fps dos Oerlikon da WWII - proporciona várias vantagens:
  1. Trajetória mais plana: Menor queda do projétil em distâncias médias
  2. Tempo de voo reduzido: O projétil alcança o alvo mais rapidamente, crítico para alvos em movimento
  3. Maior energia no impacto: Energia cinética é proporcional ao quadrado da velocidade
  4. Melhor penetração: Útil contra alvos levemente blindados
Alcance:
  • Alcance Efetivo - Superfície: 2.200 jardas (2.000 metros)
  • Alcance Efetivo - Aeronave: 1.650 jardas (1.500 metros)
  • Alcance Máximo: 7.450 jardas (6.800 metros)
A diferença entre alcance efetivo contra superfície e aeronave reflete a natureza dos alvos:
  • Alvos de superfície são maiores, mais lentos, e mais fáceis de acertar a distâncias maiores
  • Aeronaves são menores, mais rápidas, e manobráveis, exigindo distâncias menores para hits consistentes
O alcance máximo de quase 7 km representa a distância que um projétil pode viajar quando disparado em ângulo elevado, embora a precisão nesta distância seja mínima.

A Montagem GAM-BO1

Características Estruturais

Peso e Dimensões:
  • Peso total da montagem: Aproximadamente 1.000 libras (454 kg)
  • Isto inclui o canhão, a montagem, e sistemas de pontaria básicos
Sistema de Elevação:
  • Faixa de elevação: -10° a +55°
  • Operação: Manual (apenas)
  • A elevação negativa de 10° permite engajar alvos de superfície muito próximos ou até mesmo alvos subaquáticos rasos (como periscópios de submarinos)
  • A elevação máxima de 55° é adequada para engajamento antiaéreo, embora limitada comparada a sistemas dedicados AA que podem elevar a 85-90°
Sistema de Rotação (Trem/Traverse):
  • Rotação: 360° completo
  • Operação: Manual (apenas)
  • A rotação completa permite engajar ameaças de qualquer direção sem reposicionar o navio
Limitações da Operação Manual:
A operação totalmente manual da montagem GAM-BO1 representa tanto uma vantagem quanto uma limitação:
Vantagens:
  • Independência de energia elétrica ou hidráulica
  • Funcionamento mesmo com falha de sistemas do navio
  • Simplicidade de manutenção
  • Menor custo
  • Menor peso
Limitações:
  • Velocidade de resposta limitada pela força e habilidade do artilheiro
  • Dificuldade em acompanhar alvos rápidos e manobráveis
  • Fadiga do artilheiro em engajamentos prolongados
  • Precisão dependente do treinamento e condição física do artilheiro

Ergonomia e Operação

Como mencionado anteriormente, uma característica notável - e desafiadora - da montagem GAM-BO1 é que os munhões não se ajustam à altura do artilheiro. Em montagens navais mais sofisticadas, o pedestal ou a plataforma do artilheiro pode ser ajustado para que o artilheiro mantenha uma posição confortável e estável através da faixa de elevação.
No GAM-BO1, o artilheiro deve:
  1. Posicionar-se na plataforma fixa da montagem
  2. Ser amarrado ou preso à montagem para evitar queda
  3. Operar os controles de elevação e rotação manualmente
  4. Manter a pontaria enquanto o navio balança no mar
  5. Disparar a arma, lidando com recuo e vibração
Esta configuração é particularmente desafiadora em mares agitados, onde o movimento do navio se soma ao movimento da montagem. No entanto, em situações de combate, a adrenalina e o treinamento superam o desconforto físico.

Sistemas de Pontaria

Embora os detalhes específicos dos sistemas de pontaria do GAM-BO1 não sejam amplamente documentados, montagens manuais deste tipo tipicamente empregam:
Mira Aberta:
  • Mira frontal do tipo poste ou lâmina
  • Mira traseira do tipo anel ou abertura
  • Simples, confiável, e não requer energia
Mira de Anel (Ring Sight):
  • Para alvos aéreos, uma mira de anel permite ao artilheiro estimar o "lead" (antecipação) necessário
  • O anel é dimensionado para que, quando a aeronave alvo preenche o anel a uma determinada distância, a antecipação correta é automaticamente aplicada
Estimativa de Lead:
Contra alvos aéreos em movimento, o artilheiro deve calcular mentalmente:
  • Velocidade do alvo
  • Direção do alvo
  • Distância ao alvo
  • Tempo de voo do projétil
  • Ponto de interceptação
Isto requer treinamento extensivo e habilidade considerável, particularmente contra alvos rápidos como aeronaves de ataque ou mísseis antinavio.

Implantação Operacional

Navios de Guerra Britânicos

O GAM-BO1 foi instalado em uma ampla variedade de navios de guerra da Marinha Real Britânica após a Guerra das Malvinas, incluindo:
Porta-Aviões:
  • HMS Invincible
  • HMS Illustrious
  • HMS Ark Royal
Estes navios, particularmente vulneráveis a ataques aéreos, receberam múltiplas montagens GAM-BO1 para defesa de ponto de último recurso.
Contratorpedeiros e Fragatas:
  • Type 42 Destroyers
  • Type 21, 22, e 23 Frigates
Navios de escolta receberam GAM-BO1s para complementar seus sistemas de mísseis e artilharia principal.
Navios de Apoio e Logística:
  • Navios de reabastecimento
  • Navios de transporte anfíbio
  • Embarcações de patrulha
Mesmo navios auxiliares, que tipicamente não teriam armamento significativo, receberam GAM-BO1s para defesa básica.

Configuração Típica de Instalação

Em navios maiores como porta-aviões, múltiplas montagens GAM-BO1 eram instaladas em posições estratégicas:
  • Laterais do convés de voo: Para defesa contra ataques laterais
  • Proa e popa: Para cobertura completa de 360°
  • Posições elevadas: Para maximizar o campo de tiro
Cada montagem era operada por uma equipe de 2-3 pessoas:
  • Artilheiro: Opera a arma e faz o tiro
  • Carregador: Monitora munição e troca cintas
  • Supervisor/Comunicador: Coordena com o centro de controle de combate do navio

Exportação Internacional

Além do serviço na Marinha Real Britânica, o sistema GAM-BO1 foi exportado para muitos países, tornando-se um sistema de defesa de ponto popular para marinhas menores ou para navios que necessitavam de uma solução de armamento rápida e econômica.
Países que adotaram o GAM-BO1 ou sistemas similares incluem nações da Commonwealth, países europeus, e nações em desenvolvimento buscando modernizar suas capacidades navais sem o custo de sistemas de mísseis sofisticados.

Performance em Combate e Exercícios

Engajamento de Alvos Aéreos

Contra alvos aéreos, o GAM-BO1 é mais eficaz em distâncias de até 1.500 metros. A 1.000 rounds por minuto disparando projéteis de 20 mm, o sistema pode criar uma densa nuvem de fragmentos explosivos e incendiários.
Táticas de Engajamento AA:
  1. Barrage Fire (Tiro de Barragem): Disparar uma cortina de fogo através da qual a aeronave deve passar
  2. Tracer Walking (Caminhar Traçantes): Usar rounds traçantes para "caminhar" o fogo até o alvo
  3. Lead Calculation (Cálculo de Antecipação): Atirar à frente da aeronave no ponto de interceptação calculado
Probabilidade de Hit:
Contra uma aeronave de ataque se aproximando a 500+ nós (aproximadamente 250 m/s) a 1.500 metros:
  • Tempo de voo do projétil: Aproximadamente 1,5 segundos
  • Distância percorrida pela aeronave: Aproximadamente 375 metros
  • Janela de oportunidade: 2-3 segundos no máximo
Isto ilustra o desafio extremo do engajamento antiaéreo com armas manuais, exigindo artilheiros altamente treinados e calmos sob fogo.

Engajamento de Alvos de Superfície

Contra alvos de superfície, o GAM-BO1 é significativamente mais eficaz:
Alvos Típicos:
  • Embarcações de ataque rápido (fast attack craft)
  • Botes infláveis armados (RHIBs)
  • Embarcações de contrabando ou pirataria
  • Minas flutuantes
Performance:
A 2.000 metros de alcance efetivo, o GAM-BO1 pode:
  • Penetrar cascos de embarcações leves
  • Danificar motores e sistemas de propulsão
  • Neutralizar tripulações expostas
  • Iniciar incêndios com munição incendiária
A cadência de tiro de 1.000 rounds por minuto significa que, em uma rajada de 5 segundos, 80+ projéteis podem ser disparados contra um alvo, criando uma probabilidade alta de hits devastadores.

Uso em Funções Secundárias

Além das funções primárias de defesa antiaérea e de superfície, o GAM-BO1 tem sido usado em várias funções secundárias:
Sinalização de Aviso (Warning Shots):
  • Disparar através da proa de embarcações não cooperativas
  • Demonstrar intenção de usar força sem causar dano imediato
Engajamento de Alvos em Terra:
  • Em operações anfíbias ou de apoio costeiro
  • Contra posições fortificadas leves
  • Supressão de fogo inimigo
Defesa Contra Mísseis:
  • Embora extremamente desafiador, teoricamente possível engajar mísseis antinavio em distâncias muito curtas
  • Requer tempo de reação quase instantâneo e sorte considerável

Comparação com Sistemas Contemporâneos

Vantagens do GAM-BO1

Custo:
  • Custo unitário: Relativamente baixo comparado a sistemas de mísseis
  • Custo por disparo: Munição de 20 mm é ordens de magnitude mais barata que mísseis
  • Manutenção: Simples e econômica
Confiabilidade:
  • Sistema mecânico simples
  • Poucas partes móveis complexas
  • Funciona sem energia elétrica
  • Tolerante a condições adversas
Capacidade de Fogo Sustentado:
  • 200 rounds prontos para disparo
  • Capacidade de fogo contínuo por 12+ segundos
  • Recarga rápida de cintas
  • Múltiplas montagens podem fornecer fogo coordenado
Versatilidade:
  • Eficaz contra alvos aéreos, de superfície, e terrestres
  • Munição versátil (HE-I, AP, traçante)
  • Alcance adequado para defesa de ponto

Limitações Comparado a Sistemas Modernos

Sistemas CIWS (Close-In Weapon Systems):
Sistemas como o Phalanx (EUA), Goalkeeper (Holanda), ou Sea Wolf (Reino Unido) oferecem:
  • Radar de controle de fogo: Detecção e rastreamento automático de alvos
  • Direção de tiro computadorizada: Cálculo automático de lead e correções
  • Cadência de tiro muito maior: 3.000-4.500 rounds por minuto
  • Munição especializada: Projéteis com tungstênio ou urânio empobrecido
  • Tempo de reação mais rápido: Segundos vs. minutos
No entanto, estes sistemas custam milhões de dólares, requerem manutenção complexa, e consomem munição cara a taxas extraordinárias.
Sistemas de Mísseis:
Mísseis de defesa de ponto como o SeaRAM ou Rolling Airframe Missile (RAM) oferecem:
  • Alcance maior: 5-10 km vs. 2 km
  • Maior probabilidade de kill: Warhead explosivo vs. impacto cinético
  • Engajamento além da linha de visão: Não requer linha de visão direta
  • Menor exposição da tripulação: Operação remota
Mas mísseis custam centenas de milhares de dólares cada, têm número limitado de lançadores, e podem ser esgotados rapidamente em um ataque saturado.

O Nicho do GAM-BO1

O GAM-BO1 encontra seu nicho ideal em:
  1. Navios menores: Que não podem justificar o custo e peso de sistemas CIWS
  2. Camada final de defesa: Depois que mísseis e CIWS esgotaram sua munição
  3. Ameaças assimétricas: Piratas, contrabandistas, embarcações rápidas não-blindadas
  4. Orçamentos limitados: Marinhas que precisam de capacidade de defesa sem custos proibitivos
  5. Redundância: Backup para quando sistemas eletrônicos falham

Modernizações e Variantes

Melhorias Potenciais

Embora o GAM-BO1 básico seja um sistema puramente manual, várias melhorias foram implementadas ou propostas:
Sistemas de Pontaria Aprimorados:
  • Miras ópticas com aumento
  • Miras noturnas ou de imagem térmica
  • Miras computadorizadas com cálculo automático de lead
Controle Remoto:
  • Conversão para operação remota
  • Controle de dentro do navio (protegido)
  • Integração com sistemas de combate do navio
Estabilização:
  • Plataformas estabilizadas para compensar movimento do navio
  • Maior precisão em mares agitados
Alimentação de Munição:
  • Cintas de maior capacidade
  • Sistemas de alimentação contínua de paióis
  • Redução do tempo de recarga

Variantes Relacionadas

Oerlikon 20 mm em Outras Montagens:
O canhão KAA básico foi instalado em várias outras montagens além do GAM-BO1:
  • Montagens duplas: Para dobro da cadência de tiro
  • Montagens estabilizadas: Para maior precisão
  • Montagens remotamente operadas: Para proteção do artilheiro
Sistemas Derivados:
A Rheinmetall (que adquiriu a Oerlikon Contraves) continuou a desenvolver sistemas de 20 mm e 27 mm baseados na tecnologia Oerlikon, incluindo:
  • Oerlikon KDE: Versão de maior cadência de tiro
  • Oerlikon KDC: Versão com alimentação dupla
  • Millennium Gun: Sistema de 35 mm CIWS moderno

Legado e Importância Histórica

Impacto na Doutrina Naval

O GAM-BO1 e sistemas similares tiveram um impacto significativo na doutrina naval moderna:
Reconhecimento da Artilharia Convencional:
Após décadas de foco em mísseis como a solução para todas as ameaças navais, a Guerra das Malvinas e a subsequente adoção do GAM-BO1 demonstraram que:
  • Mísseis não são a solução universal
  • Artilharia convencional tem papel vital em defesa em profundidade
  • Sistemas simples e confiáveis complementam sistemas complexos
  • Custo-benefício importa em orçamentos de defesa limitados
Defesa em Camadas:
O GAM-BO1 tornou-se parte integrante do conceito de defesa em camadas:
  1. Camada 1: Mísseis de longo alcance (50+ km)
  2. Camada 2: Mísseis de médio alcance (10-50 km)
  3. Camada 3: Mísseis de curto alcance / CIWS (1-10 km)
  4. Camada 4: Artilharia convencional como o GAM-BO1 (0-2 km)
Cada camada fornece redundância e aumenta a probabilidade geral de sobrevivência do navio.

Transição para Sistemas Modernos

À medida que a tecnologia avança, o GAM-BO1 está sendo gradualmente substituído ou complementado por sistemas mais modernos:
Sistemas de Arma Remotamente Operados (RWS):
  • Operação de dentro do navio (protegido)
  • Integração com sensores e sistemas de combate
  • Maior precisão e tempo de reação
  • Menor exposição da tripulação
Canhões Automatizados:
  • Sistemas como o MSI Defense SeaSpider
  • Canhões de 25-30 mm com controle computadorizado
  • Cadência de tiro mais alta
  • Munição mais potente
No entanto, o GAM-BO1 continua em serviço em muitos navios, particularmente em marinhas menores ou em navios onde o custo de substituição não pode ser justificado.

Preservação e Memória

Embora o GAM-BO1 seja um sistema operacional relativamente moderno (entrando em serviço por volta de 1985), ele já representa uma geração de tecnologia naval que está sendo superada. Alguns exemplares podem ser encontrados em:
  • Museus navais no Reino Unido
  • Navios-museu
  • Coleções de armamento histórico
Estas preservações garantem que as gerações futuras possam compreender a evolução da artilharia naval e as lições aprendidas em conflitos como a Guerra das Malvinas.

Especificações Técnicas Resumidas

Canhão:
  • Designação: Oerlikon 20 mm / 85 KAA
  • Calibre: 20 mm (0,79")
  • Comprimento do cano: 1.400 mm (55,1")
  • Calibres: 85
  • Peso: 92 kg (203 lbs) sem munição; 182 kg (401 lbs) com 200 rounds
  • Cadência de tiro: 900-1.000 rounds/minuto (cíclica)
  • Mecanismo: Recuo avançado (API)
Munição:
  • Cartucho: 20 x 128 mm (128,7 mm real)
  • Tipo: HE-I (Alto Explosivo-Incendiário)
  • Peso do projétil: 120 g (0,264 lbs)
  • Comprimento do round: 20,3 cm (8,0")
  • Velocidade inicial: 1.050 m/s (3.440 fps)
  • Alimentação: Cinta de 200 rounds
Performance:
  • Alcance efetivo (superfície): 2.000 m (2.200 jardas)
  • Alcance efetivo (aeronave): 1.500 m (1.650 jardas)
  • Alcance máximo: 6.800 m (7.450 jardas)
Montagem:
  • Designação: GAM-BO1 (BMARC A41/820)
  • Peso total: 454 kg (1.000 lbs)
  • Elevação: -10° a +55° (manual)
  • Rotação: 360° (manual)
  • Operação: Totalmente manual
  • Tripulação: 2-3 pessoas
Serviço:
  • Data de entrada em serviço: ~1985
  • Usuário primário: Marinha Real Britânica
  • Usuários secundários: Múltiplas marinhas exportadoras
  • Status: Em serviço (sendo gradualmente substituído)

Conclusão

O canhão 20 mm / 85 GAM-BO1 representa um capítulo importante na evolução da artilharia naval moderna. Emergindo das cinzas da Guerra das Malvinas, este sistema demonstrou que mesmo na era dos mísseis guiados por radar e sistemas de armas computadorizados, há um lugar vital para armas convencionais simples, confiáveis, e eficazes.
Baseado no lendário canhão Oerlikon da Segunda Guerra Mundial, mas aprimorado com cano mais longo e velocidade inicial mais alta, o GAM-BO1 combinou a sabedoria de designs comprovados em combate com melhorias de performance modernas. Sua adoção em massa pela Marinha Real Britânica e exportação para numerosas marinhas ao redor do mundo valida sua eficácia e valor.
Embora a operação manual da montagem, com suas limitações ergonômicas e dependência da habilidade e resistência física do artilheiro, represente uma desvantagem comparada a sistemas automatizados modernos, ela também proporciona vantagens em termos de simplicidade, confiabilidade, independência de sistemas de energia, e custo.
O GAM-BO1 serviu como uma ponte entre a artilharia naval tradicional e os sistemas CIWS modernos, demonstrando o valor da defesa em camadas e da redundância em sistemas de armas navais. Sua presença nos conveses de navios britânicos por décadas após a Guerra das Malvinas é um testemunho de sua utilidade contínua.
À medida que a tecnologia naval continua a avançar, com sistemas de arma remotamente operados, canhões automatizados de maior calibre, e mísseis cada vez mais sofisticados, o GAM-BO1 e sistemas similares continuarão a encontrar nichos em marinhas menores, em navios auxiliares, e como sistema de backup em navios de combate principais.
O legado do GAM-BO1 é claro: em guerra naval, não há substituto para fogo de arma confiável, e às vezes a solução mais simples é a mais eficaz. Como a Marinha Real Britânica aprendeu nas águas geladas do Atlântico Sul em 1982, quando os sistemas complexos falham ou são sobrecarregados, é o canhão simples e confiável - operado por um artilheiro determinado amarrado a sua montagem - que pode fazer a diferença entre a sobrevivência e a perda de um navio.

O 20 mm / 85 GAM-BO1 permanecerá na história da artilharia naval como um exemplo de como lições de combate podem ser rapidamente traduzidas em capacidades operacionais, e como designs clássicos podem ser revitalizados para atender às necessidades de novas eras de combate.