quinta-feira, 26 de março de 2026

Relembrando: A Alameda Doutor Muricy, quando existia o Teatro Guayra, junto aos portões de ferro do Quartel dos Bombeiros, nesta imagem do ano de 1937.

 Relembrando: A Alameda Doutor Muricy, quando existia o Teatro Guayra, junto aos portões de ferro do Quartel dos Bombeiros, nesta imagem do ano de 1937.


NOS TEMPOS DA COMPAGNIE GÉNÉRALE DE CHÉMINS DE FER BRÉSILIENS

 NOS TEMPOS DA COMPAGNIE GÉNÉRALE DE CHÉMINS DE FER BRÉSILIENS



Nesta histórica foto da década de 1890, vemos a diretora da "Compagnie Générale de Chemins de Fer Brésiliens", seccional do Paraná, posando na frente das locomotivas nº 15 e nº 16, estacionadas na garagem da Estação Ferroviária de Curitiba.

As concessões da construção da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba foram transferidas à essa companhia em 1879, pelo Imperador D. Pedro II, visto ela estar atrasada por parte dos concessionários anteriores.

Adiante, texto do Decreto que a credenciou:

" DECRETO Nº 7.420, DE 12 DE AGOSTO DE 1879 - Autoriza a José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos a transferirem á companhia franceza, denominada - Compagnie Générale de Chémins de Fer Brésiliens - os seus direitos e obrigações.

Attendendo ao que Me requereram José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, Hei por bem Autorizal-os a transferirem á companhia franceza denominada - Compagnie Générale de Chémins de Fer Brésiliens - os direitos o obrigações que têm em virtude das concessões constantes dos Decretos n. 5912 do 1º de Maio de 1875, n. 6995 de 10 de Agosto e n. 7035 de 5 de Outubro de 1878, e contrato celebrado em 9 de Setembro deste ultimo anno, mediante as clausulas que com este baixam, assignadas por João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú, do Meu Conselho, Senador do Imperio, Presidente do Conselho do Ministros, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas, que assim o tenha entendido e faça executar:

I - Ficam autorizados José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, concessionarios da Estrada de ferro do Paraná, a transferir á companhia franceza denominada «Compagnie Générale de Chemins de Fer Brésiliens» a concessão que obtiveram do Governo Imperial para construir a mesma estrada de ferro, com a garantia de juros de 7%, sobre o capital fixado de 11.492:042$707, favores e privilegios constantes dos Decretos n. 5912 do 1º de Maio de 1875, e n. 6995 de 10 de Agosto de 1878, e contrato celebrado com o Governo Imperial em data de 9 de Setembro do mesmo anno.

O capital de 11.492:042$707, fixado pelo Decreto n. 7035 de 5 de Outubro de 1878, e que goza da garantia de juros de 7% ao anno, é computado em 32,500,000 francos.

II - Obriga-se a companhia cessionaria a construir a Estrada de ferro de Paranaguá á cidade de Coritiba, entregando-a ao trafego dentro do prazo de tres annos, a contar do começo das obras, que deverá ter logar dentro de cinco mezes, contados desta data, sendo este o prazo tambem fixado para a companhia começar a funccionar no Imperio.

III - Em vista da clausula precedente, o Governo Imperial pagará á - Companhie de Chemins de Fer Brésiliens - os juros garantidos de 7% sobre o capital de 32,500,000 francos, do seguinte modo:

§ 1º - 1,925,000 francos, representando os juros de 7% ao anno sobre 27,500,000 francos, a contar do dia em que esta ultima somma fôr depositada em casa dos agentes financeiros do Brazil em Londres, podendo ser o deposito feito de uma só vez, ou em prestações, contados, porém, os juros respectivos sómente dos valores effectivamente depositados, e do dia em que o forem.

§ 2º - 350,000 francos, que representam os juros garantidos de 7% ao anno sobre 5,000,000 francos, importancia do saldo do capital garantido, serão pagos sómente dous annos depois de feito o deposito de que trata o paraprapho antecedente, effectuando-se em tal occasião o deposito desse saldo de 5,000,000 francos, caso esta mesma somma não tenha sido anteriormente despendida nas obras da estrada.

Se, porém, antes de expirar o mencionado prazo de dous annos, a estrada estiver concluida e fôr entregue ao trafego, começarão a correr os juros sobre o referido capital dos 5,000,000 francos do dia da abertura de toda a linha ao trafego.

IV - A companhia obriga-se a applicar exclusivamente ao pagamento dos juros annuaes e amortização do capital de 23,000,000 francos que fôr realizado por meio de obrigações emittidas por conta e risco da mesma companhia, a quantia de 1,670,925 francos, que será deduzida da importancia total dos juros garantidos nos termos da clausula III.

V - Ficará dependente da fiel execução da precedente clausula a continuação do pagamento semestral, por parte do Governo Imperial, dos juros garantidos, devendo a companhia provar perante o mesmo Governo haver realizado no semestre anterior o pagamento estipulado na clausula IV;

VI - O reembolso á companhia das quantias depositadas nos termos da clausula III, será feito por prestações e mediante pedido dirigido ao Governo Imperial com a antecedencia de 90 dias pelo representante da companhia, no Rio de Janeiro.

Palacio do Rio de Janeiro, em 12 de Agosto de 1879. Com a rubrica de Sua Magestade o Imperador."

(Foto: Acervo Paulo José Costa)

Paulo Grani 

Praça Carlos Gomes, Curitiba, 1918. À direita, a Av. Marechal Floriano. Ao fundo o chalé do Dr. Victor Ferreira do Amaral. (Foto: Arquivo Gazeta do Povo) Paulo Grani.

 Praça Carlos Gomes, Curitiba, 1918. À direita, a Av. Marechal Floriano.  Ao fundo o chalé do Dr. Victor Ferreira do Amaral. (Foto: Arquivo Gazeta do Povo)  Paulo Grani.


Bondinho puxado a cavalo, chegando próximo ao ponto do Batel, em 1906. Foto: Coleção Julia Wanderley.

 Bondinho puxado a cavalo, chegando próximo ao ponto do Batel, em 1906.

Foto: Coleção Julia Wanderley.

Edifício Brasílio de Araújo: A Consolidação do Morar Moderno em Curitiba (1963)

 

Anúncio de venda dos apartamentos do Edifício Brasílio de Araujo, em 1963.

Página do livro Morar nas alturas! A verticalização de Curitiba entre 1930 e 1960. Para saber mais acesse a página deste trabalho no site Memória Urbanahttps://www.memoriaurbana.com.br/morar-nas-alturas/.

Edifício Brasílio de Araújo: A Consolidação do Morar Moderno em Curitiba (1963)

Introdução

O ano de 1963 representava um momento de ebulição e transformação profunda para a cidade de Curitiba. No âmbito da arquitetura e do urbanismo, a capital paranaense vivenciava a consolidação de um novo padrão de vida verticalizada. O anúncio de venda dos apartamentos do Edifício Brasílio de Araújo, lançado neste período, não é apenas uma peça publicitária; é um documento histórico que encapsula as aspirações de uma classe média em ascensão, as inovações tecnológicas da construção civil e as estratégias de mercado de uma época marcada pela instabilidade econômica e pela fé no progresso.
Promovido pelo renomado incorporador Jayme Canet Jr., o edifício surgia como a continuação de uma série de sucessos anteriores, prometendo não apenas moradia, mas um estilo de vida sofisticado e familiar no coração nobre da cidade.

O Incorporador: Jayme Canet Jr. e a Tradição de Sucesso

No topo do anúncio, a assinatura manuscrita de Jayme Canet Jr. destaca-se com uma afirmação de autoridade e confiança: "Repetindo o extraordinário negócio que foi a compra dos apartamentos dos Edifícios Bourbon e Sumatra, oferece-lhes MAIS ESTA EXCELENTE OPORTUNIDADE".
Esta referência não era casual. Os Edifícios Bourbon e Sumatra eram empreendimentos anteriores de grande sucesso, o que servia como um "selo de garantia" para o comprador. Canet Jr. estabelecia-se assim como um nome de confiança no mercado imobiliário curitibano, alguém que entregava o que prometia e cujos investimentos anteriores haviam valorizado. Essa estratégia de marketing, baseada no histórico do incorporador, visava mitigar os riscos percebidos pelos compradores em um período de construção na planta.

Localização Estratégica: O Coração Nobre de Curitiba

O mapa simplificado apresentado no anúncio situa o empreendimento em uma das áreas mais valorizadas de Curitiba: a Praça Oswaldo Cruz (conhecida popularmente como Praça Ozório).
As referências viárias deixam clara a posição privilegiada:
  • Rua Comendador Araújo
  • Avenida João Pessoa
  • Rua Vicente Machado
  • Rua Visconde de Nácar
Esta região, conhecida como o "Centro Cívico" ou a alta elite residencial da época, afastava-se do comércio popular da Rua XV de Novembro, oferecendo um ambiente mais arborizado, tranquilo e distinto. Estar próximo à Praça Ozório significava residir em um bairro planejado, com ruas mais largas e uma atmosfera de exclusividade. O anúncio destaca que o terreno possuía 1.953 m², com 30 metros de frente para a Rua Visconde de Nácar, o que garantia uma imponência volumétrica ao edifício.

Conceito Arquitetônico: "Exclusivamente Familiar"

Um dos pontos mais interessantes do anúncio é a especificação: "Exclusivamente familiar (sem lojas)".
Na arquitetura urbana da época, era comum que os edifícios misturassem uso residencial e comercial, com lojas ocupando o térreo e a sobreloja. Ao eliminar as lojas, o Edifício Brasílio de Araújo propunha um conceito de privacidade e silêncio. O térreo seria dedicado integralmente aos moradores e às áreas de lazer, sem o fluxo de estranhos ou o barulho característico do comércio de rua. Isso reforçava o caráter de "refúgio urbano" para as famílias.
O projeto é atribuído ao arquiteto André Masini, e a construção ficou a cargo da Técnica e Industrial de Mari Ltda., indicando uma divisão profissionalizada de tarefas entre o desenho arquitetônico e a execução da obra.

Inovações e Áreas de Lazer: O Nascimento do Condomínio Clube

O anúncio detalha uma série de amenidades que eram consideradas luxuosas e modernas para 1963, antecipando o conceito de "condomínio clube" que se popularizaria nas décadas seguintes:
  1. Salão de Festas Monumental: O texto destaca um "salão de festas decorado e mobiliado, com mais de 200m²". Para os padrões da época, um espaço privativo de convivência deste tamanho dentro de um edifício residencial era algo extraordinário, permitindo que os moradores realizassem grandes eventos sem sair de casa.
  2. Foco na Infância: Havia um "salão infantil cuidadosamente decorado" e um "play-ground ao ar livre, na térrea". Isso revela uma mudança cultural significativa: o edifício passava a ser projetado pensando não apenas no adulto trabalhador, mas na criança e na família nuclear.
  3. Lazer Adulto: Um "salão de jogos" complementava as opções de lazer, oferecendo espaço para reuniões sociais informais.
  4. Conforto e Espera: As "salas de espera, junto aos elevadores" demonstram um cuidado com a circulação e a etiqueta social, evitando aglomerações nos corredores dos apartamentos.

A Tecnologia da Construção e Segurança

A imagem principal do anúncio mostra o edifício em fase avançada de estruturação (concreto aparente), com a data da foto registrada como 10-01-62. Isso permitia ao comprador ver a "ossatura" do prédio, transmitindo transparência e segurança sobre o andamento da obra.
Outra imagem, no canto superior direito, mostra a fachada já com acabamento, indicando a estética moderna do empreendimento: linhas retas, varandas sucessivas e uma estética funcionalista.
O anúncio especifica detalhes técnicos importantes:
  • 4 Elevadores Atlas: A marca "Atlas" era sinônimo de qualidade e durabilidade. Ter quatro elevadores para um edifício desta altura garantia agilidade no transporte vertical.
  • Revestimento: Os elevadores seriam "revestidos de fórmica", um material moderno, higiênico e fácil de limpar, muito em voga no design de interiores dos anos 60.
  • Tipologia: Os apartamentos contavam com 2 e 3 dormitórios, o formato padrão para famílias de classe média da época.

O Contexto Econômico: A Garantia do "Preço Fixo"

Talvez o ponto mais crucial do anúncio, quando lido sob a ótica da história econômica do Brasil, seja a promessa: "Preço fixo, inteiramente sem reajustamentos".
O ano de 1963 foi um dos mais turbulentos da história republicana brasileira. O país vivia sob o regime parlamentarista, com alta inflação, instabilidade política (governo João Goulart) e tensões sociais que culminariam no golpe militar de 1964. Em um cenário onde a moeda se desvalorizava rapidamente e os preços mudavam da noite para o dia, oferecer um "preço fixo" era um argumento de venda poderosíssimo.
Além disso, o anúncio garantia "Entrega em dia certo: 31 de julho de 1963". Essa pontualidade contratual, com multa por atraso especificada (Cr$ 30.000,00 mensais por apartamento), reforçava a seriedade do incorporador em um mercado onde atrasos de obras eram (e ainda são) comuns.

Estratégia Comercial e Vendas

A comercialização estava a cargo da Comissária Galvão Ltda., uma corretora de imóveis estabelecida na Av. João Pessoa, 75. O anúncio demonstra uma agressividade comercial moderna para a época:
  • Visita à Obra: "Venha ver pessoalmente seu apartamento. Dado o adiantado da obra, você poderá escolher, no próprio prédio, seu apartamento." Isso permitia que o cliente visualizasse a vista real e a posição do sol, algo impossível de fazer apenas com plantas baixas.
  • Horários Estendidos: O estande de vendas atendia "diariamente... até as 22 horas, inclusive aos domingos". Essa flexibilidade visava captar o comprador trabalhador, que só tinha tempo livre no final do dia ou no fim de semana.
  • Facilidades: A menção a "Condições bem facilitadas" sugeria um financiamento próprio ou parcelamento direto que contornava as dificuldades de crédito da época.

O Legado do Edifício Brasílio de Araújo

O Edifício Brasílio de Araújo permanece até hoje como um marco na paisagem da Praça Ozório em Curitiba. Ele representa a transição definitiva da casa de rua para o apartamento de luxo como o ideal habitacional da elite curitibana.
Sua construção reflete o otimismo tecnológico dos anos 60, onde o concreto armado e os elevadores rápidos permitiam novas formas de viver em comunidade vertical. As áreas de lazer coletivas anunciadas em 1963 prenunciavam a importância que a vida em condomínio teria nas décadas futuras, transformando o edifício não apenas em um local de dormitório, mas em um espaço completo de vivência social, lazer e segurança para a família.
Em suma, o anúncio de 1963 do Edifício Brasílio de Araújo é um retrato fiel de uma Curitiba que queria crescer, se modernizar e oferecer conforto e status a seus cidadãos, mesmo em meio às incertezas de um país em transformação.

Edifício Asa: O Gigante Modernista de Curitiba nos Anos 1950

 

Anúncio de venda dos apartamentos do Edifício Asa, em 1955.

Página do livro Morar nas alturas! A verticalização de Curitiba entre 1930 e 1960. Para saber mais acesse a página deste trabalho no site Memória Urbanahttps://www.memoriaurbana.com.br/morar-nas-alturas/.

Edifício Asa: O Gigante Modernista de Curitiba nos Anos 1950

Introdução

O Edifício Asa representa um dos marcos mais significativos da arquitetura moderna e da verticalização de Curitiba. Construído no início da década de 1950 e comercializado em 1955, este imponente edifício de 22 pavimentos simbolizava o que havia de mais moderno e arrojado no mercado imobiliário curitibano da época. O anúncio de venda de seus apartamentos, datado de 1955, constitui um documento histórico precioso que revela não apenas as características arquitetônicas do empreendimento, mas também o contexto econômico, social e urbano de uma Curitiba em plena transformação.

Contexto Histórico: Curitiba nos Anos 1950

A Cidade em Transformação

A década de 1950 representou um divisor de águas na história urbana de Curitiba. Após décadas mantendo um perfil predominantemente horizontal, com influência arquitetônica europeia visível em seus sobrados e casarões, a cidade começava a olhar para cima. A verticalização surgia como resposta às necessidades de uma população em crescimento e de uma economia que se diversificava.
Este período coincidia com o pós-guerra, momento em que o Brasil vivenciava um processo acelerado de industrialização e urbanização. Curitiba, embora ainda não fosse o grande centro industrial que se tornaria nas décadas seguintes, já demonstrava sinais de modernização e desenvolvimento urbano.

O Surgimento dos Primeiros Arranha-Céus

Os anos 50 testemunharam o nascimento dos primeiros verdadeiros arranha-céus curitibanos. Edifícios como o Asa, com seus 22 pavimentos, eram considerados verdadeiras proezas arquitetônicas e engenharias para a época. Representavam não apenas avanços técnicos, mas também uma nova forma de conceber o espaço urbano e o modo de vida nas cidades.

O Edifício Asa: Características Arquitetônicas

Um Colosso de 22 Pavimentos

O anúncio de 1955 destaca com orgulho: "BLOCO ARQUITETÔNICO DE 22 PAVIMENTOS COM 6 ELEVADORES". Para se ter uma dimensão do que isso representava, é importante contextualizar que, na Curitiba dos anos 50, a maioria das construções não ultrapassava três ou quatro andares. Um edifício de 22 pavimentos era, portanto, algo verdadeiramente extraordinário e visionário.
A altura considerável do Edifício Asa o colocava entre as construções mais altas da cidade na época, competindo com poucos edifícios pelo título de arranha-céu curitibano. Esta verticalidade extrema para os padrões locais representava uma afirmação de modernidade e progresso.

Infraestrutura Avançada

O anúncio enfatiza aspectos técnicos que demonstravam a sofisticação do empreendimento:
Seis Elevadores: A presença de 6 elevadores para 22 pavimentos revelava um cuidadoso planejamento de fluxo e circulação vertical. Era um número generoso para a época, garantindo agilidade no transporte de moradores entre os andares.
Força Própria: A menção a "força própria para os elevadores e iluminação do prédio" indica que o edifício contava com sistema independente de energia, provavelmente através de geradores. Esta característica era fundamental em uma época em que a infraestrutura urbana de Curitiba ainda não era totalmente confiável, e quedas de energia eram mais frequentes.
Iluminação Própria: Assim como a força para os elevadores, o sistema de iluminação independente garantia autonomia ao edifício, reforçando o conceito de autossuficiência que caracterizava os grandes edifícios modernos da época.

Localização Privilegiada

O anúncio destaca que o edifício está "SITUADO NO CORAÇÃO DA CIDADE", referência à sua localização na Avenida João Pessoa, 75. Esta avenida, que integra o centro de Curitiba, era e continua sendo uma das vias importantes da região central, próxima à Rua XV de Novembro, principal artéria comercial da cidade.
A escolha da localização não era casual. O centro de Curitiba concentrava, nos anos 50, o comércio mais sofisticado, os serviços especializados, os escritórios profissionais e a vida cultural da cidade. Morar no "coração da cidade" significava ter acesso facilitado a tudo o que Curitiba oferecia de melhor.

O Anúncio de 1955: Estratégias de Marketing Imobiliário

"APROVEITEM! Últimos Apartamentos"

A chamada do anúncio utiliza uma estratégia de marketing que permanece atual até hoje: a criação de senso de urgência. Ao afirmar que restavam apenas os "últimos apartamentos", a administradora buscava acelerar a decisão de compra dos potenciais interessados.
Esta expressão também sugere que o edifício, embora ainda em construção ou recém-construído (as fotos indicam construção no início dos anos 50), já havia vendido a maior parte de suas unidades, demonstrando o sucesso do empreendimento.

"Neste Majestoso Edifício"

O adjetivo "majestoso" não era exagero retórico. O Edifício Asa, com seus 22 pavimentos, era de fato uma construção majestosa para os padrões curitibanos da época. O termo evoca grandiosidade, imponência e sofisticação, qualidades que a construtora e a administradora desejavam associar ao empreendimento.

As Imagens do Anúncio

O anúncio inclui uma representação gráfica do edifício em perspectiva axonométrica, mostrando:
  • A volumetria impressionante da construção
  • A regularidade das fachadas com suas fileiras de janelas
  • A inserção do edifício no tecido urbano, com referência às ruas do entorno
  • A modernidade da arquitetura, com linhas retas e ausência de ornamentação
Esta representação visual era fundamental para permitir que os potenciais compradores visualizassem o produto final, especialmente considerando que muitos apartamentos foram vendidos na planta, antes da conclusão da obra.

Aspectos Econômicos e Financeiros

Os Preços: 180 a 225 Mil Cruzeiros

O anúncio informa: "PREÇOS: - DE 180 A 225 MIL CRUZEIROS". Para compreender o significado destes valores, é necessário contextualizar economicamente o Brasil de 1955:
O Cruzeiro: Em 1955, o cruzeiro era a moeda brasileira vigente. O país vivia um período de desenvolvimento industrial acelerado, mas também de pressões inflacionárias crescentes.
Poder de Compra: Os valores de 180 a 225 mil cruzeiros representavam um investimento significativo, acessível principalmente às classes média alta e alta da sociedade curitibana. A variação de preços provavelmente refletia diferenças de tamanho, localização dentro do edifício (andares mais altos ou com melhor vista) e acabamento das unidades.
Comparação com a Renda: Embora seja difícil fazer uma conversão exata para os padrões atuais devido às múltiplas mudanças monetárias e inflacionárias que o Brasil experimentou, é possível afirmar que estes valores representavam um investimento considerável, equivalente a vários anos de salário de um trabalhador médio da época.

Condições de Pagamento Facilitadas

O anúncio destaca: "ENTRADA DE 10% E O RESTANTE EM 8 ANOS". Estas condições revelam aspectos importantes do mercado imobiliário da época:
Entrada Acessível: Uma entrada de apenas 10% do valor total era relativamente baixa, facilitando o acesso à propriedade. Esta estratégia permitia que um número maior de pessoas pudesse se comprometer com a compra, reservando a unidade com um investimento inicial menor.
Financiamento de Longo Prazo: O prazo de 8 anos para o pagamento do restante era consideravelmente longo para a época, quando os financiamentos imobiliários geralmente operavam em prazos mais curtos. Esta flexibilidade demonstrava a sofisticação das condições comerciais oferecidas e o desejo de ampliar o público potencial de compradores.
Sistema de Financiamento: Em 1955, antes da criação do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) em 1964, o financiamento imobiliário operava através de mecanismos diversos, incluindo bancos privados, caixas econômicas e as próprias construtoras e incorporadoras. As condições anunciadas sugerem um sistema bem estruturado de crédito imobiliário.

A Administradora Santa Ângela

O anúncio informa que as vendas estavam "A CARGO DA 'ADMINISTRADORA SANTA ANGELA'", com escritório na "AV. JOÃO PESSOA, 75 - 2.º ANDAR - CONJUNTO 5".
A existência de uma administradora especializada revela a profissionalização do mercado imobiliário curitibano. Empresas como a Santa Ângela desempenhavam papel fundamental na intermediação entre construtoras e compradores, oferecendo expertise em vendas, financiamento e administração de condomínios.
O fato de a administradora ter seu escritório no próprio endereço do edifício (ou próximo a ele) sugere uma operação integrada e a possibilidade de os interessados visitarem o local facilmente.

Arquitetura Modernista em Evidência

Características do Estilo Internacional

As fotografias do Edifício Asa revelam características típicas do modernismo arquitetônico e do Estilo Internacional que dominava a arquitetura de meados do século XX:
Fachada Regular e Repetitiva: A imagem mostra uma fachada marcada pela repetição regular das esquadrias e janelas, criando um padrão geométrico que se estende por todos os 22 pavimentos. Esta repetição era uma marca do funcionalismo moderno, que priorizava a racionalidade construtiva.
Ausência de Ornamentação: Diferentemente dos edifícios ecléticos e art déco das décadas anteriores, o Asa apresenta fachada despojada, sem elementos decorativos supérfluos. A beleza residia na própria estrutura, na proporção e na regularidade da composição.
Linhas Retas e Geometria: O volume do edifício é marcado por linhas retas e ângulos precisos, seguindo os preceitos modernistas de clareza formal e racionalidade.
Janelas em Fita: Embora a qualidade da imagem não permita detalhes precisos, a fachada sugere a presença de janelas contínuas ou em fita, característica típica da arquitetura moderna que buscava maximizar a iluminação e ventilação naturais.

Influências do Modernismo Brasileiro

O Edifício Asa se insere no contexto do modernismo brasileiro, movimento que teve em Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Affonso Eduardo Reidy e outros seus maiores expoentes. Embora Curitiba não fosse o epicentro do modernismo brasileiro (posição ocupada pelo Rio de São Paulo), a cidade absorvia e adaptava as tendências modernas às suas particularidades regionais.
Arquitetos curitibanos e atuantes na cidade, como Rubens Meister, João Augusto Grabowski, e outros profissionais da época, contribuíram para disseminar a linguagem moderna na capital paranaense. O Edifício Asa, embora não tenhamos informações precisas sobre seu autor no anúncio, reflete esta influência modernista.

Transformação da Paisagem Urbana

Da Foto dos Anos 50 à Foto de 2017

A comparação entre as duas fotografias apresentadas é reveladora das transformações urbanas de Curitiba:
Foto 35 (início dos anos 50): A imagem mostra o Edifício Asa em construção, dominando uma paisagem ainda predominantemente baixa. Ao redor, vê-se construções de menor porte, ruas com menos tráfego, uma cidade que ainda mantinha características de capital provincial. O edifício se destaca dramaticamente no horizonte, verdadeiramente isolado em sua altura.
Foto 36 (2017): Mais de seis décadas depois, o mesmo edifício é fotografado de ângulo similar, mas o contexto urbano mudou radicalmente. Embora o Asa permaneça imponente, ele agora divide o céu curitibano com inúmeros outros edifícios altos. A paisagem se densificou, a cidade cresceu verticalmente de forma intensa. No primeiro plano, aparece um relógio de praça e palmeiras, elementos que humanizam o espaço público.

Permanência e Mudança

O Edifício Asa permanece de pé em 2017, testemunhando a passagem do tempo e as transformações urbanas. Sua sobrevivência por mais de 60 anos (e provavelmente ainda continua em uso) demonstra a qualidade de sua construção e a durabilidade dos edifícios modernistas quando bem mantidos.
No entanto, o edifício que era único e extraordinário nos anos 50 se tornou, em 2017, apenas mais um entre centenas de edifícios altos que compõem o skyline curitibano. Esta relativização de sua singularidade é o testemunho mais eloquente do processo de verticalização intensa que Curitiba experimentou nas décadas seguintes.

Aspectos Sociais e Culturais

Um Novo Modo de Vida Urbano

A oferta de apartamentos em um edifício de 22 pavimentos representava, nos anos 50, uma proposta radicalmente nova de moradia urbana:
Vida em Altura: Morar em andares elevados era uma experiência nova para os curitibanos, acostumados a casas térreas ou sobrados de poucos andares. A vida nas alturas trazia novas sensações: vistas panorâmicas da cidade, maior insolação, ventilação, mas também novos desafios como a dependência de elevadores e o distanciamento da rua.
Condomínio e Convivência: Um edifício de 22 pavimentos com múltiplos apartamentos por andar abrigava centenas de moradores. Esta densidade populacional vertical exigia novas formas de convivência, regras de condomínio, e uma redefinição das relações entre vizinhos.
Privacidade e Anonimato: Ao mesmo tempo, o edifício moderno oferecia privacidade e certo anonimato, características atraentes para uma classe média em ascensão que valorizava a independência familiar.

Status e Modernidade

Adquirir um apartamento no Edifício Asa em 1955 era, sem dúvida, um símbolo de status. O edifício representava:
Progresso e Sofisticação: Morar no "coração da cidade", em um edifício moderno e alto, demonstrava sucesso profissional e financeiro, além de bom gosto e alinhamento com a modernidade.
Conforto e Praticidade: As instalações modernas, os elevadores, a localização central, tudo contribuía para uma vida mais confortável e prática, adequada aos ritmos acelerados da vida urbana moderna.
Distinção Social: Os preços elevados e as condições de pagamento, embora facilitadas, ainda restringiam o acesso às classes com maior poder aquisitivo, tornando o edifício um marcador de distinção social.

Perfil dos Moradores

Embora o anúncio não especifique o perfil dos compradores, é possível inferir que o Edifício Asa atraía:
Profissionais Liberais: Médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais que buscavam residências sofisticadas no centro da cidade, próximas a seus locais de trabalho.
Comerciantes e Empresários: A classe empresarial curitibana, em expansão nos anos 50, encontrava nestes apartamentos uma opção de moradia condizente com sua posição social.
Famílias de Classe Média Alta: Famílias com recursos suficientes para investir em imóveis de alto padrão, valorizando a localização central e o prestígio do endereço.

O Centro de Curitiba: Coração da Cidade

A Avenida João Pessoa

A localização na Avenida João Pessoa colocava o Edifício Asa em uma posição privilegiada. Esta avenida, que conecta diferentes partes do centro, era e é uma via importante da malha urbana curitibana.
Nos anos 50, o centro de Curitiba concentrava:
  • O comércio mais sofisticado e diversificado
  • Os principais serviços bancários e financeiros
  • Escritórios profissionais de todas as áreas
  • Teatros, cinemas e espaços culturais
  • Restaurantes e cafés elegantes
  • A sede do governo estadual e municipal
Morar no centro significava ter tudo ao alcance: trabalho, lazer, cultura, comércio e serviços. Era a materialização do conceito de cidade compacta e caminhável, muito antes deste termo se tornar popular no urbanismo contemporâneo.

A Rua XV de Novembro e o Entorno

Embora o anúncio mencione a Avenida João Pessoa, o edifício estava inevitavelmente próximo à Rua XV de Novembro, o principal corredor comercial e de serviços de Curitiba, que desde o século XIX vinha se consolidando como o coração pulsante da cidade.
A proximidade com a XV garantia acesso facilitado a:
  • Lojas e boutiques de destaque
  • Cafés e restaurantes tradicionais
  • Bancos e instituições financeiras
  • Teatros como o Guaíra
  • Praças como a Tiradentes e a Santos Andrade

Legado e Importância Histórica

Documento de uma Época

O anúncio de 1955 do Edifício Asa é muito mais do que uma peça publicitária. É um documento histórico que permite compreender:
A Evolução do Mercado Imobiliário: As estratégias de venda, os preços, as condições de financiamento, tudo revela como funcionava o mercado imobiliário curitibano em meados do século XX.
A História da Arquitetura: O edifício representa um momento específico da arquitetura moderna em Curitiba, com suas características formais, técnicas construtivas e aspirações estéticas.
A Transformação Urbana: A comparação entre as fotos dos anos 50 e de 2017 permite dimensionar a intensidade das transformações urbanas experimentadas por Curitiba em pouco mais de seis décadas.
A História Social: O anúncio revela aspectos da sociedade curitibana da época: estratificação social, aspirações de status, modos de vida, valores e expectativas.

Patrimônio Arquitetônico

Embora o Edifício Asa possa não ser formalmente tombado como patrimônio histórico, ele constitui, sem dúvida, parte do patrimônio arquitetônico de Curitiba. Sua preservação permite:
Memória Urbana: Manter viva a memória das primeiras experiências de verticalização da cidade, servindo como referência para compreender o processo de transformação da paisagem urbana.
Qualidade Construtiva: A longevidade do edifício (mais de 60 anos em 2017, e provavelmente ainda em uso) atesta a qualidade de sua construção e a durabilidade da arquitetura modernista quando bem executada.
Referência Arquitetônica: O edifício serve como referência para estudos de arquitetura moderna, história urbana e desenvolvimento imobiliário em Curitiba.

Conclusão

O Edifício Asa e seu anúncio de venda de 1955 constituem um testemunho extraordinário de um momento crucial na história de Curitiba. Em plena década de 1950, quando a cidade começava a se transformar de uma capital provincial de características europeias em uma metrópole moderna e verticalizada, o Asa surgia como símbolo de progresso, modernidade e sofisticação.
Com seus impressionantes 22 pavimentos, 6 elevadores, infraestrutura independente e localização privilegiada no "coração da cidade", o edifício representava o que havia de mais avançado no mercado imobiliário curitibano da época. Os preços de 180 a 225 mil cruzeiros e as condições facilitadas de pagamento (10% de entrada e o restante em 8 anos) revelam um mercado em profissionalização, buscando ampliar o acesso à propriedade de alto padrão.
O anúncio, com sua linguagem enfática ("APROVEITEM! Últimos apartamentos", "neste majestoso edifício"), demonstra estratégias de marketing imobiliário já bastante desenvolvidas, enquanto a representação gráfica do edifício revela o cuidado na apresentação visual do produto.
Mais de seis décadas depois, a comparação entre as fotografias dos anos 50 e de 2017 conta a história da transformação radical de Curitiba. O que era um edifício isolado e extraordinário em sua altura se tornou parte de uma paisagem densamente verticalizada. No entanto, o Edifício Asa permanece, testemunho concreto da qualidade da arquitetura modernista e da visão de seus idealizadores.
Este documento de 1955 nos convida a refletir sobre como as cidades se transformam, sobre como o modo de vida urbano evolui, sobre como a arquitetura reflete os valores e aspirações de cada época. Preservar e estudar registros como este é fundamental para compreender não apenas o passado de Curitiba, mas também seu presente e futuro, permitindo que planejadores, arquitetos, historiadores e cidadãos construam cidades cada vez melhores e mais humanas.
O Edifício Asa, assim, transcende sua função original de empreendimento imobiliário para se tornar um ícone da história urbana curitibana, um marco que continua a contar, através de suas paredes e janelas, a história de uma cidade que olhou para o céu e decidiu crescer verticalmente.