terça-feira, 14 de abril de 2026

A GRANDE REPORTAGEM

 A GRANDE REPORTAGEM



" Dentre os amigos de mocidade, que saudosamente recordo, um deles evidentemente se destacava. Ao contrário do comportamento formal e comedido que irmanava meus colegas de faculdade e a todos submetia, numa época de notórias repressões, Douglas Munhoz Gomes excepcionava-se por uma conduta ousada, corajosa e independente.

Tal característica não eclodia, entretanto, na composição de uma personalidade agressiva, inconveniente ou desagradável. Douglas era confiante, destemido, impetuoso, mas de maneira alguma deseducado, intempestivo ou inconseqüente. Havia em seu todo uma preocupação de elegância e boas maneiras, a mascarar um temperamento capaz de incríveis façanhas e adoráveis entreveros.

Repórter policial de 'O Dia', ao tempo de Caio Machado, D.M.G. ajustava-se perfeitamente aos seus misteres profissionais, buscando de todas as formas o realce, a evidência, a primazia. Jamais admitia levar um furo ou propalar uma notícia menos detalhada, incompleta ou equivocada. Brioso e competitivo, observava como ponto de honra informar bem, procurando nas minúcias e nos pormenores suplantar os textos dos outros jornais.

Foi assim que, certa manhã, o encontrei na esquina da Ermelino com a Cândido Lopes, eufórico e vitorioso com algumas aparas na mão:
"Oi Lauro, tenho uma notícia de arrebentar".

Retruquei, "O que é que há ?"
Ele disse, "Pois esta madrugada um bonde atropelou uma carrocinha da Padaria Aurora. O povo não gosta mesmo da Força e Luz e vou aproveitar para meter o pau. Manje só o título: - Motorneiro irresponsável deixa a cidade sem pão - Estou indo agora entrevistar o dono da padaria, que deve estar uma onça. Vamos lá ?".

O convite era irrecusável e assim fomos até a Padaria Aurora, na Praça Osório, número 400, onde hoje é a entrada principal do Edifício Wawel. Um senhor alto avermelhado e de cabelos brancos, nos recebeu com amabilidade e atenção.

"O Sr. deve estar muito abalado com o desastre", iniciou o Douglas.
"Que desastre ?"

"Ora, o bonde que destruiu a sua carrocinha".
"Mas não foi desastre, nem destruiu, foi apenas uma batida sem importância, não houve prejuízo, não foi nada..."

"E os cavalos?"
"Os cavalos também, nada sofreram... não se assustaram não se machucaram".

"Sim, mas o motorneiro teve culpa".
"Olhe, eu acho que não, porque bonde não sai do trilho; nosso funcionário é que foi imprudente atravessando a linha".

"Mas a cidade ficou sem pão".
"Não, não ficou, porque a carroça estava vazia, não estava entregando pão".

Douglas notou que a entrevista chegara ao fim e sua reportagem se desmoronara, irremediavelmente perdida. Despediu-se com incontida frustração, e lá fora, após alguns passos, num ímpeto de raiva, rasgou com fúria a manchete sensacional que tão entusiasticamente imaginara.

Xingou o alemão de anta, boçal, cretino, coisas assim.
Em seguida entrou na Stuart e pediu uma cerveja.
Estupidamente gelada. "

(Autor: Lauro Grein Filho, presidente do Centro de Letras do Paraná / Extraído de: Trezentas Historias de Curitiba)

(Foto ilustrativa : Arquivo Gazeta do Povo)

Paulo Grani 

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