quinta-feira, 2 de abril de 2026

Cágado-Amarelo (Acanthochelys radiolata): Um Tesouro Discreto da Mata Atlântica Brasileira

 

Acanthochelys radiolata
Classificação científicaedit
Reino:Animalia
Filo:Chordata
Classe:Reptilia
Ordem:Testudines
Subordem:Pleurodira
Família:Chelidae
Gênero:Acanthochelys
Espécies:
A. radiolata
Nome binomial
Acanthochelys radiolata
(Mikan, 1820)[2]
Sinónimos[3]
  • Emys radiolata Mikan, 1820[2]
  • Platemys gaudichaudii Duméril & Bibron, 1835[4]
  • Platemys werneri Schnee, 1900[5]
  • Platemys radiolata quadrisquamosa Luederwaldt, 1926[6]
  • Platemys radiolata radiolata Mikan, 1820[7]

Acanthochelys radiolata (Mikan 1820), conhecido popularmente por cágado-amarelo, é uma espécie endêmica do Brasil de quelônio que ocorre em rios, brejos, restingas e lagoas da Mata Atlântica nos estados Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O nome cágado amarelo deve-se à coloração amarela com manchas negras do plastrão em indivíduos adultos.

Morfologia

O cágado amarelo pode chegar a 20 cm de comprimento de carapaça e apresenta um polimorfismo principalmente quanto a coloração da carapaça e do plastrão.[8] Sua carapaça é achatada e oval com um sulco vertebral, é mais larga na face posterior do que face anterior, variando de coloração entre marrom avermelhada à negra. Os espécimes adultos possuem a primeira e a quinta vertebra mais largas do que alongadas.[9] Na face ventral, o plastrão possui a parte anterior mais larga que a porção exterior e suavemente voltada para cima. Sua coloração é amarela com estrias e manchas que variam de marrom a negro. Quando jovem, os filhotes possuem a coloração do plastrão avermelhado, e à medida que crescem tornam-se amarelados.[10]

A coloração da cabeça e do pescoço pode variar entre amarelo e marrom, em alguns casos sendo pardo. Os dedos dos pés são em posição palmada, e as superfícies anteriores dos membros estão recobertas por grandes escamas. Possuem tubérculos pequenos e pontiagudos distribuídos por toda a coxa. E a cauda curta possui coloração verde oliva. Além disso, possuem barbelos que desempenham função sensorial. Outra característica peculiar destes quelônios, é a coloração branca da íris.[10][11][12][8][9]

Alimentação

A espécie é essencialmente carnívora, alimentando-se de vermes, moluscos, insetos, anfíbios aquáticos e peixes. Como outros membros da família Chelidae, o cágado-amarelo possui hábitos noturnos para alimentação.[10]

Habitat

A espécie habita águas de baixa correnteza e represas com fundo lodoso, onde podem optar por ficar enterrados. Por isso, preferem ecossistemas lênticos, ou seja, águas de pouco movimento.[13]

Distribuição geográfica e Estado de conservação

A espécie Acanthochelys radiolata é endêmica do Brasil e está distribuída na Mata Atlântica, nos estados Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.[14] Atualmente, a espécie não consta como ameaçada de extinção na lista de espécies do Ministério do Meio Ambiente, e na IUCN é definida com o status "Quase ameaçada".[15][16] A Mata Atlântica está em constante ameaça por ações antrópicas como a expansão do mercado imobiliário, agricultura, poluição, queimadas e o desmatamento que ocasionam a perda do habitat e influenciam diretamente na sobrevivência das espécies que ali residem, como o cágado amarelo.[17]

Reprodução

O acasalamento foi descrito e organizado em três fases: aproximação, perseguição e cópula. Na primeira fase, o macho aproxima-se de outros espécimes diferenciando-os a cloaca. Reconhecida a fêmea, o macho passa a fase de perseguição, no qual a fêmea pode ir para água e nadar em círculos até aceitar a aproximação do macho. Feito o contato, o macho posiciona-se na região dorsal da fêmea utilizando as quatro patas para segurar-se firme até que aconteça a cópula que pode durar até dois minutos.[12]

Após se acasalarem, as fêmeas constroem seus ninhos sob as vegetações. As fêmeas utilizam de folhas para cobrir os ovos e assim protegê-los da luz solar, e que atua como camuflagem. Os ninhos são ovalados, e geralmente chegam próximo as raízes das plantas ao redor.[12]

Em cativeiro a ovipostura ocorreu no período noturno, cerca de 2 à 4 ovos por ovipostura. Os ovos mediam entre 25mm e 28,8mm, e pesavam de 5 a 12 gramas. A incubação dos ovos até o nascimento leva aproximadamente 135 dias. Os filhotes nascem com a coloração avermelhada e a íris negra. A partir dos três primeiros meses de vida, a coloração muda entre o gradiente vermelho, laranja até ficar amarelo. Após os 3 meses, a íris também é clareada, adquirindo a coloração branca. A hipótese é que a coloração vermelha com manchas negras tenha função de proteção contra predadores, pois as manchas conspícuas tornam a forma do animal menos sólida, adquirindo menos destaque no ambiente.[12]

Ectoparasitos

Foi reportado na literatura o ectoparasitismo do carrapato Amblyomma rotundatum Koch, 1844 em um indivíduo de cágado-amarelo. A presença de parasitos é uma das possíveis causas das baixas de populações de quêlonios. Em destaque, os carrapatos são vetores de infecções por protozoários que podem reduzir as concentrações de hemoglobina nos hospedeiros. A espécie Amblyomma rotundatum foi reportada como vetor do protozoário Hemolivia stellata em sapos gigantes. Além disso, as lesões decorrentes da alimentação dos carrapatos criam portas de entrada para infecção de microorganismos.[18]

Referências

  1. Tortoise & Freshwater Turtle Specialist Group (1996). «Acanthochelyx radiolata»Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas1996. Consultado em 19 de fevereiro de 2009
  2.  Mikan, J.C. 1820. Delectus Florae et Faunae Brasiliensis. Antonii Strauss. Wien. 54 pp.
  3. Turtle Taxonomy Working Group [van Dijk, P.P., Iverson, J.B., Rhodin, A.G.J., Shaffer, H.B., and Bour, R.]. 2014. Turtles of the world, 7th edition: annotated checklist of taxonomy, synonymy, distribution with maps, and conservation status. In: Rhodin, A.G.J., Pritchard, P.C.H., van Dijk, P.P., Saumure, R.A., Buhlmann, K.A., Iverson, J.B., and Mittermeier, R.A. (Eds.). Conservation Biology of Freshwater Turtles and Tortoises: A Compilation Project of the IUCN/SSC Tortoise and Freshwater Turtle Specialist Group. Chelonian Research Monographs 5(7):000.329–479, doi:10.3854/ crm.5.000.checklist.v7.2014.
  4. Duméril, A.M.C. and Bibron, G. 1835. Erpétologie Générale ou Histoire Naturelle des Reptiles. Tome Second. Paris: Roret, 680 pp.
  5. Schnee, P. 1900. Uber eine Sammlung südbrasilianischer Reptilien und Amphibien, nebst Beschreibung einer neuen Schildkröten (Platemys werneri). Zoologische Anzeiger 23:461–464.
  6. Luederwawaldt, H. 1926. Os chelonios brasileiros. Rev. Mus. Paulista 14:403–470.
  7. Pritchard, P.C.H. 1979. Encyclopedia of Turtles. Neptune, NJ: TFH Publications, 895 pp.
  8.  GARBIN, Rafaela C. et al. Morphological variation in the Brazilian Radiated Swamp Turtle Acanthochelys radiolata (Mikan, 1820) (Testudines: Chelidae). Zootaxa, [S.L.], v. 4105, n. 1, p. 45-64, 19 abr. 2016.
  9.  ERNST, C. H. Platemys radiolata. Catalogue of American Amphibians and Reptiles (CAAR), 1983.
  10.  MOCELIN, M. A. et al. Reproductive biology and notes on natural history of the side-necked turtle Acanthochelys radiolata (Mikan, 1820) in captivity (Testudines: Chelidae). South American Journal of Herpetology, 3, n. 3, p. 223-228, 2008.
  11. MURPHY, J. B.; LAMOREAUX, W. E. Mating behavior in three Australian chelid turtles (Testudines: Pleurodira: Chelidae). Herpetologica, p. 398-405, 1978.
  12.  MOLINA, F. d. B. Comportamento e biologia reprodutiva dos cágados Phrynops geoffroanus, Acanthochelys radiolata e Acanthochelys spixii (Testudines, Chelidae) em cativeiro. Revista de Etologia, p. 25-40, 1998.
  13. IVERSON, J. B.; COLLEGE, E. Checklist with distribution maps of the turtles of the world. Paust Print., 1986.
  14. COSTA, H. C.; BÉRNILS, R. S. Répteis do Brasil e suas Unidades Federativas: Lista de espécies. Herpetologia brasileira, 7, n. 1, p. 11-57, 2018.
  15. Brasil Ministério do Meio Ambiente (2014) Portaria MMA nº 445 de 17de dezembro de 2014. Dispõe sobre a "Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção" Acesso em 30 Jan 2021 <https://www.icmbio.gov.br/sisbio/images/stories/instrucoes_normativas/PORTARIA_N%C2%BA_444_DE_17_DE_DEZEMBRO_DE_2014.pdf>
  16. Tortoise & Freshwater Turtle Specialist Group. 1996. Acanthochelys radiolata (errata version published in 2016). The IUCN Red List of Threatened Species 1996: e.T78A97260100. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.1996.RLTS.T78A13078282.en. Downloaded on 27 January 2021
  17. BONIN, F. et al. 2006. Turtles of the World. A&C Black Publishers. 2006. 416p
  18. ZORNOSA-TORRES, C. et al. Acanthochelys radiolata. Ectoparasites. Herpetological Review, 50 (3), 2019

Cágado-Amarelo (Acanthochelys radiolata): Um Tesouro Discreto da Mata Atlântica Brasileira

Nas águas calmas e sombreadas da Mata Atlântica, habita um quelônio de beleza sutil e importância ecológica fundamental: o cágado-amarelo, cientificamente denominado Acanthochelys radiolata (Mikan, 1820). Endêmico do Brasil, esse réptil semi-aquático é um dos representantes mais fascinantes da família Chelidae, adaptado aos ambientes lênticos e às margens de rios, brejos, restingas e lagoas que ainda resistem à pressão antrópica. Seu nome popular deriva da coloração vibrante do plastrão em indivíduos adultos: um amarelo intenso salpicado de manchas e estrias escuras que, ao longo do tempo, tornaram-se sua assinatura visual. Mais do que uma curiosidade zoológica, o cágado-amarelo é um bioindicador silencioso da saúde dos ecossistemas aquáticos e um testemunho vivo da riqueza biodiversa brasileira.

Morfologia e Adaptações Físicas

O cágado-amarelo é um quelônio de porte médio, podendo atingir até 20 centímetros de comprimento retilíneo da carapaça. Sua morfologia reflete milhões de anos de adaptação a ambientes aquáticos rasos e de fundo mole. A carapaça apresenta formato oval e aplainado, com um sulco vertebral discreto e largura maior na região posterior, facilitando a estabilização e o deslocamento em substratos lodosos. A coloração dorsal varia entre marrom-avermelhado e negro, funcionando como camuflagem natural contra predadores aéreos e terrestres.
O plastrão, por sua vez, exibe a parte anterior mais larga que a posterior, com leve curvatura para cima. Nos adultos, predomina o amarelo com padrões irregulares em tons de marrom e preto. Curiosamente, os filhotes nascem com o plastrão avermelhado, sofrendo uma transição cromática gradual até os três primeiros meses de vida, quando o amarelo se estabiliza. Essa mudança ontogenética não é meramente estética: acredita-se que a coloração vibrante inicial atue como mecanismo de disrupção visual, dificultando a identificação da forma corporal por predadores.
A cabeça e o pescoço apresentam tonalidades que oscilam entre amarelo, marrom e pardo, com barbelos sensoriais posicionados estrategicamente na região mentoniana. Essas estruturas são essenciais para a detecção de vibrações e compostos químicos na água turva, compensando a visão limitada em ambientes com baixa transparência. Os membros são palmados, com grandes escamas nas faces anteriores e tubérculos pontiagudos distribuídos pelas coxas, auxiliando na tração e na escavação. A cauda, curta e de coloração verde-oliva, complementa a hidrodinâmica do animal. Um dos traços mais distintivos da espécie é a íris branca, uma característica rara entre quelônios neotropicais que facilita a identificação em campo.

Ecologia Alimentar e Comportamento

Essencialmente carnívoro, o cágado-amarelo ocupa um nicho trófico importante nas cadeias alimentares de água doce. Sua dieta é composta por vermes aquáticos, moluscos, insetos e suas larvas, pequenos anfíbios e peixes de porte reduzido. Como a maioria dos quelídeos, exibe hábitos noturnos de forrageamento, período em que a atividade de presas e a menor competição interespecífica favorecem a captura.
A espécie emprega estratégias de emboscada e perseguição lenta, utilizando a visão lateral e os barbelos para localizar alimento no sedimento. Em ambientes com maior disponibilidade, pode complementar a dieta com matéria orgânica em decomposição, demonstrando flexibilidade trófica que contribui para sua resiliência ecológica. Sua presença regula populações de invertebrados e contribui para a ciclagem de nutrientes, atuando como um elo estabilizador nos ecossistemas lênticos.

Habitat e Preferências Ambientais

O cágado-amarelo demonstra forte preferência por corpos d'água de baixa energia hidrodinâmica: represas naturais, lagoas temporárias, brejos permanentes e trechos remansados de rios. O fundo lodoso ou arenoso é indispensável, pois permite que os indivíduos se enterrem parcialmente para termorregulação, descanso ou proteção contra predadores e variações bruscas de temperatura.
A espécie depende de margens bem estruturadas, com vegetação ripária densa e raízes expostas, que oferecem sombra, abrigo e substrato para nidificação. A qualidade da água é um fator limitante: turbidez elevada, contaminação por agrotóxicos e alterações no pH podem comprometer a sobrevivência, especialmente dos estágios iniciais de vida. Por serem sensíveis a perturbações ambientais, sua presença ou ausência funciona como um termômetro ecológico valioso para monitoramento de bacias hidrográficas.

Distribuição Geográfica e Estado de Conservação

Endêmico do Brasil, Acanthochelys radiolata ocorre nos estados de Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, sempre associado aos remanescentes da Mata Atlântica. Apesar de sua distribuição relativamente ampla, a espécie enfrenta pressões crescentes que levaram a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a classificá-la como "Quase Ameaçada".
As principais ameaças incluem a fragmentação florestal, a expansão urbana desordenada, a conversão de áreas úmidas para agricultura e pecuária, a poluição hídrica por esgoto doméstico e defensivos agrícolas, além de incêndios florestais e alterações no regime hidrológico. A perda de corredores ecológicos isola populações, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinção local. Embora a espécie não figure atualmente nas listas oficiais de ameaça do Ministério do Meio Ambiente, sua classificação internacional sinaliza a necessidade de monitoramento contínuo e ações preventivas.
A conservação do cágado-amarelo está intrinsecamente ligada à preservação da Mata Atlântica. Unidades de conservação, restauração de matas ciliares, controle de poluentes e programas de educação ambiental são pilares fundamentais para garantir a persistência da espécie a longo prazo.

Reprodução e Ciclo de Vida

O comportamento reprodutivo do cágado-amarelo é meticulosamente estruturado em três etapas distintas: aproximação, perseguição e cópula. O macho identifica a fêmea por meio de estímulos químicos e táteis na região cloacal. Após o reconhecimento, inicia-se a perseguição, na qual a fêmea pode nadar em círculos ou buscar refúgio subaquático até demonstrar receptividade. Durante a cópula, o macho posiciona-se dorsalmente, fixando-se com as quatro patas, e o ato pode durar até dois minutos.
A nidificação ocorre em áreas sombreadas próximas à vegetação ribeirinha. As fêmeas cavam ninhos ovalados, geralmente entre raízes expostas, e utilizam folhas e detritos orgânicos para cobrir os ovos, protegendo-os da insolação direta e mascarando sua localização. Em condições controladas, observam-se posturas noturnas de 2 a 4 ovos, com dimensões entre 25 e 28,8 mm e peso variando de 5 a 12 gramas. O período de incubação estende-se por aproximadamente 135 dias, sendo influenciado pela temperatura e umidade do substrato.
Os filhotes emergem com íris escura e coloração avermelhada no plastrão. Nos primeiros três meses, ocorre a transição cromática para o amarelo característico, acompanhada pelo clareamento da íris. Essa mudança gradual está associada a mudanças de comportamento e microhabitat, com os juvenis buscando áreas mais protegidas até alcançarem tamanho que reduza a vulnerabilidade. A taxa de sobrevivência nos estágios iniciais é naturalmente baixa, compensada pela estratégia reprodutiva que prioriza a qualidade dos cuidados com o ninho em detrimento do número de ovos.

Importância Ecológica e Perspectivas Futuras

Além de seu valor intrínseco como componente da biodiversidade brasileira, o cágado-amarelo desempenha funções ecológicas insubstituíveis. Contribui para o controle de populações de invertebrados, auxilia na aeração de sedimentos durante o forrageamento e serve como presa para aves aquáticas, mamíferos semi-aquáticos e répteis de maior porte. Sua sensibilidade a alterações ambientais o torna um modelo ideal para estudos de ecotoxicologia, biologia da conservação e resposta às mudanças climáticas.
Pesquisas recentes têm focado em métodos não invasivos de monitoramento, como armadilhas fotográficas submersas, análise de DNA ambiental e mapeamento de habitats críticos. A participação de comunidades locais em programas de ciência cidadã também tem se mostrado promissora para ampliar a cobertura de dados e fortalecer a conexão entre população e conservação.
Preservar Acanthochelys radiolata vai além de salvar uma única espécie: é proteger um ecossistema inteiro, manter serviços ecossistêmicos essenciais e honrar o compromisso ético com a herança natural brasileira. A sobrevivência do cágado-amarelo nas próximas décadas dependerá da integração entre políticas públicas, gestão territorial sustentável e conscientização coletiva.

Conclusão

O cágado-amarelo é muito mais do que um réptil de cores vibrantes e hábitos discretos. É um guardião silencioso das águas da Mata Atlântica, um símbolo de resiliência e um lembrete da fragilidade dos ecossistemas que sustentam a vida. Compreender sua biologia, respeitar seu habitat e agir em sua defesa são passos indispensáveis para um futuro onde a biodiversidade brasileira continue a florescer. Cada lagoa preservada, cada mata ciliar restaurada e cada atitude consciente conta na jornada de conservação dessa espécie única.
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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Curitiba do ano de 1966 - Avenida Marechal Floriano e Praça Tiradentes. Imagem captada, a partir do Edifício Bantiba, na esquina das Marechais Deodoro e Floriano.

 Curitiba do ano de 1966 - Avenida Marechal Floriano e Praça Tiradentes. Imagem captada, a partir do Edifício Bantiba, na esquina das Marechais Deodoro e Floriano.


FABRICA DE BALAS E CHOCOLATES URCA

 FABRICA DE BALAS E CHOCOLATES URCA

Desde criança, ouvia minha mãe, Iolanda Greinert Grani (89), contar suas lembranças do tempo em que trabalhou numa fábrica de balas e chocolates que pertencia ao sr. José Nicolau Abagge, a qual funcionava na rua Saldanha Marinho nº 1260 (entre a Brigadeiro Franco e a Desembargador Mota), em Curitiba, em frente à Igreja São Francisco de Paula. Lá, trabalhou junto com outra operária, Iracema Scaramella Henze (91), sua colega desde a juventude, a qual tornou-se minha madrinha de batismo.
Minha mãe contou-me que foi admitida, nos idos de 1948, para "embrulhar" balas. Determinada na realização das tarefas que lhe designavam, logo destacou-se entre as operárias. Dona Carmela, esposa do seu Nicolau, logo percebeu sua facilidade de aprender e espontaneidade na realização de tarefas. Então, em determinada ocasião conversou com ela procurando saber sobre seus costumes e perspectivas de vida, onde percebeu, também, seu bom caráter e honestidade.
Em pouco tempo, Iolanda foi remanejada para o setor de expedição de pedidos, onde conferia o peso das latas de balas e outros produtos, carimbava as notas de vendas, colocava os selos dos impostos, conferia as caixas e latas durante os carregamentos, controlava estoques dos ítens fabricados, atendia compradores que vinham do interior e, ainda cuidava da inspeção das outras operárias, no tocante ao uso do uniforme de trabalho e inspeção de saída. Quando a produção da seção de balas atrasava algum pedido, ela ia ao setor de enchimento das latas e auxiliava, até completar os pedidos. Trabalhou nessa fábrica durante três anos e saiu em 1951, para se casar com meu pai Edevino Grani.
Recentemente, lembrei-me do que ela contava com grande satisfação acerca daquele tempo de sua vida, e fui em busca dessa história para melhor conhecer essa empresa, seu empreendedor, e entender o contexto.
Pois bem, o seu José Nicolau Abagge (nome de batismo Yussef), era um imigrante sírio, nascido em 18/04/1892. Seu temperamento empreendedor, aventureiro e corajoso, fez com que, em 1905, com apenas treze anos de idade, se aventurasse embarcar em direção ao Brasil buscando melhor condição de vida para si e seus familiares.
O pequeno José juntou-se a outros meninos da mesma idade, entre eles Jorge Gid e Elias Bitar, e embarcaram clandestinamente em um navio que partiu em direção à "terra prometida", o Brasil. Desembarcaram no Rio de Janeiro, onde permaneceram unidos como irmãos. Naquele começo, mantinham-se vendendo bilhetes de loterias e fazendo bicos em geral. Por sua vez, seu José saía pelas ruas do Rio vendendo doces árabes que ele mesmo confeccionava, pois aprendera a fazê-los com sua mãe, desde sua infância na Síria. Com o dinheiro que produzia, além de manter-se, enviava uma parte para sua família, na Síria, para ajudá-la no seu sustento.
Ele e seus amigos mantiveram-se sempre unidos, algum tempo depois resolveram mudar-se para Curitiba, para tentar a vida pois souberam que havia outros patrícios já estabelecidos na cidade. Ao chegar em Curitiba no começo da década de 1910, José Nicolau começou a trabalhar fazendo sorvetes e doces; depois foi trabalhar como padeiro em uma padaria, cujo dono ensinou-lhe tudo sobre panificação. Mais tarde, esse senhor vendeu-lhe essa padaria que ficava na rua Saldanha Marinho, sendo este empreendimento o início de seu sucesso como empresário. Em 1916, casou-se com Carmela Aymone, imigrante italiana. Em 1934, José naturalizou-se brasileiro.
Trabalhando com determinação, instalou no mesmo prédio um armazém, onde vendia os chamados "secos e molhados". Mudou a padaria para os fundos do mesmo prédio, instalando junto dela, uma fábrica de bolachas.
Com seu espírito empreendedor, construiu ao lado direito desse Imóvel mais dois predinhos de dois pisos. Nesse imediato, instalou o primeiro Supermercado Abagge de Curitiba e, no outro da direita, uma Fábrica de Balas e Biscoitos, mais tarde, ampliada para fabricação de chocolates, também.
Em 05/11/1937, o Jornal da Tarde, de Curitiba, publicava o lançamento das "Balas Caipira", produzidas pela Fábrica de Balas e Bolachas J.N. Abagge: "Alerta Petisada !!! Balas Caipira - Coleções Premiadas. A última novidade a ser lançada na praça, hoje. Além de ser um produto saboroso, oferece aos seus colecionadores os mais lindos prêmios. As Balas Caipira, cuja coleção completa compõe-se de apenas 60 (sessenta) quadros (figurinhas) numerados(as), distribue os mapas elucidativos [...] que formam a coleção. À venda em todos os negócios da Capital e do Interior. Pedidos dirétos pelo telefone 89 - J.N.Abagge - Curityba."
Ao que tudo indica, o empresário José Nicolau Abagge estava tentando seguir o sucesso das Balas Zequinha, as quais estavam sendo comercializadas em Curitiba e no estado, desde 1929, com apenas 50 estampas naquela época. Pena que não localizamos quaisquer figurinhas dessa citada coleção.
Iracema, descreve o funcionamento da Fábrica de Balas em 1948: "Na fabricação de balas, o seu Romão, um imigrante russo e surdo-mudo, era o confeiteiro. Manuseava o tacho fervente, cujo cristal despejava, primeiramente, numa mesa de aço e, depois com a ajuda de um gancho fixado na parede, esticava e dobrava a massa, sem parar, até dar o ponto certo e atingir o diâmetro certo para o corte dele, no tamanho das balas. Nesta seção trabalhavam mais de trinta pessoas, contando as embrulhadeiras. Seu Romão permaneceu na fábrica até a sua venda, em 1958.
"Eram produzidas balas carioca da gema, as de goma, de hortelã, de guaco, de canela, pastilhas de frutas (chamadas tuti-fruti) e outras. A "carioca da gema", era muito gostosa, feita de côco e gema de ovo, era a bala mais difícil de embrulhar, pois era compridinha e pequena. A bala de guaco, também muito apreciada, era quadrada, grande e esverdeada.
Em 16/02/1943, José Nicolau Abagge publica no jornal curitibano Folha da Tarde, a aquisição das marcas de chocolates "Urca" e "Mégue", da fábrica do mesmo nome, de São Paulo-SP, o embrião de sua fábrica de balas e chocolates.
Sobre a Fábrica de Chocolates, Iracema Henze descreve suas lembranças da fabricação de chocolates: "A chocolataria era gerenciada pelo sr. Amorim e a chefe de produção, era dona Daltiva. O bomboneiro era um senhor chamado José. O setor de chocolataria recebia os sacos das sementes de cacau que vinham dos produtores e iniciava-se o processo de fabricacão torrando as sementes. Descascavam, separavam os resíduos e depois moíam as amêndoas até virar pó. Por último, prensavam até virar uma massa que, depois, era derretida; separava-se uma parte que era o chocolate amargo e na outra parte era adicionado leite e açúcar, para fazer o famoso chocolate ao leite. Os chocolates eram levados em formas às geladeiras até dar o ponto de manuseio, depois de desenformados eram espalhados sobre as mesas e embalados um a um pelas operárias que ficavam sentadas ao redor das mesas.
"Na seção de chocolates trabalhavam diversas pessoas na parte artesanal de sua produção e o embrulhamento era manual, onde trabalhavam cerca de 30 operárias. Produzia-se um bom sortimento de bombons: ameixa preta, côco carioca, frutas, passas, damasco, triângulo com passas, creme branco e outros.
"O bombom chamado côco carioca era feito inteiro com côco e recoberto de chocolate. Já o de damasco, era feito com creme branco, ia para a estufa até secar e, depois era coberto com chocolate. Fazíamos um chocolate pequeno, chamado "Bis", tipo grão, em cujo interior tinha licor, eles eram colocados em uma caixinha de papelão.
"Antecedendo a Páscoa, a chocolataria passava a produzir, também, coelhos recheados de vários tamanhos, alem de ovos e outras guloseimas de páscoa. Os ovos de diversos tamanhos, eram embrulhados em papel aluminizado de diversas cores. O menor ovo, era chamado mignon.
"No ano de 1947, em plena 2ª Grande Guerra, a fábrica recebeu uma encomenda inusitada, da parte da Loja (Armazem Scander ?) , cujas vitrines ficavam de frente para a Estação de Bondes que havia na Praça Tiradentes: Fazer um grande ovo de páscoa, que seria colocado na vitrine da loja e seria objeto para venda de uma rifa numerada. Detalhe, o ovo deveria estar envolto a uma Bandeira do Brasil, confeitada, estendida e drapeada com ondulações, nas cores e dimensões oficiais.
"Então a equipe de confeiteiros da chocolataria debruçou-se em fazer aquele ovo de páscoa inusitado, com quase hum metro de altura. Dentro, foi recheado com um grande coelho envolto a papel alumínio e assentado em uma cesta cheia de ovos de diversos tamanhos e cores, em meio a tiras de papel celofane. O ovo teve que ser feito em partes separadas, e, após recheado, montada a parte superior. Foi um desafio que alegrou cátodos e dona Carmela e seu José elogiaram a equipe.
"Terminado o desafio, o grande ovo foi levado à loja e colocado na sua vitrine principal. Aquele ponto de bondes, à época, era o local de maior circulação da cidade. Rapidamente a notícia correu por todos os cantos da cidade e o público vibrou com a idéia.
"A alegria durou pouco pois, logo que a notícia chegou ao ouvido das autoridades, alguém apontou que aquilo feria a lei sobre a bandeira e que ela não poderia ser exposta estampada daquela forma. O delegado mandou retirar a bandeira do ovo. Enfim, o ovo voltou à fábrica e a linda bandeira confeitada, drapeada em seu entorno, foi retirada.
"Na seção de bolacharia, dona Alice capitaneava mais de vinte moças. Produziam as bolachas tipos maria, champagne e maisena. Faziam, também, os biscoitos tipo cream crackers quadrados e os salgadinhos redondos.
"Seu Nicolau, como todos os funcionários o bem conheciam, era uma pessoa muito boa, de um coração ímpar, porém, bastante enérgico, pois assim era necessário ser, para tratar o grande número de funcionários que tinha."
"Certa vez, os cartazes anunciavam o filme A Grande Valsa, que passaria em matinê no Cine Palácio, cuja propaganda despertou entre algumas funcionárias, bolarem um jeito de fugir do serviço, durante aquele expediente. O plano arquitetado envolvia apenas quatro delas, pois, em maior número, poderiam ser descobertas. Chegou a hora, naquela tarde, e, cada uma delas deram um jeito de escapar e esgueiraram-se por um muro que tinha uma passagem que dava acesso à rua e, correram em direção ao cinema.
"Uma outra funcionária, que não foi convidada, descobriu o plano arquitetado e, depois da fuga das quatro cumplices, correu delatar ao seu José o acontecido. Ele ficou furioso, vestiu um terno branco que gostava de usar quando ia ao centro, e foi até a frente do cinema, onde aguardou até o fim da sessão. Na saída do público, as quatro amigas, de mãos dadas, deram de cara com o seu José postado à frente, de braços cruzados, tipo um pai que flagra suas filhas fazendo algo proibido. Elas, correram em direções diferentes e sumiram. À ele restou esperá-las na fábrica. Ao confrontá-las, uma a uma, foi aquele sermão."
Uma das protagonistas era a própria Iracema, então, uma bela jovem de 17 anos, fazendo suas proezas. Saiu da fábrica em 1951 para se casar com Waldemar Henze.
José Nicolau Abagge, foi um empreendedor de rara atividade. Com seu fabuloso tino comercial tornou-se grande empresário, tendo aberto as seguintes empresas: Industrias Alimentícias Abagge, Armazém São Francisco, Chocolates Urca, Panificadora São Francisco, Fábrica de Balas e Bolachas São Francisco, Olaria Abagge, Serraria Abage, Carpintaria Abagge, Fábrica de Brinquedos Abagge, Estamparia Abagge, Latas e Embalagens Abagge, entre outras.
Foi muito influente na vida social, política, econômica empresarial e religiosa do Estado. Foi benemérito na construção da Igreja São Francisco de Paula e a Igreja Ortoxa São Jorge. Foi um dos idealizadores e fundadores do Clube Sírio Libanês do Paraná e do Iate Clube de Guaratuba.
Em 1951, iniciou a construção de um moinho nas imediações da linha férrea Curitiba-Paranaguá, que hoje é o Moinho Anaconda. Não chegou a ver concluída a obra, pois faleceu antes, em 06/04/1953, aos 58 anos de idade. Deixou 10 filhos, 32 netos, 68 bisnetos e 18 trinetos.
Após o falecimentos do seu José Nicolau e sua esposa, em 1953, a Fabrica de Chocolates foi transferida para os filhos Leonardo e Nicolau e seu genro Levy Suplicy Ferreira do Amaral, os quais venderam-na em 1958.
Hoje, o antigo prédio da Fábrica de Chocolates, abriga as instalações das empresas Coletiza e Mada.
(Agradecimento especial aos membros da família Abagge: Dr. Munir Abagge, Sheila Cordeiro Abagge, Mário Abagge e Juçara Amaral Sprenger / Fotos: Acervo da família Abagge, Biblioteca Nacional, Pinterest)
Paulo Grani

José Nicolau Abagge, foi um empreendedor de rara atividade. Com seu fabuloso tino comercial tornou-se grande empresário, tendo aberto as seguintes empresas: Industrias Alimentícias Abagge, Armazém São Francisco, Chocolates Urca, Panificadora São Francisco, Fábrica de Balas e Bolachas São Francisco, Olaria Abagge, Serraria Abage, Carpintaria Abagge, Fábrica de Brinquedos Abagge, Estamparia Abagge, Latas e Embalagens Abagge, entre outras.
Fila de pessoas para comprar pão na época da 2ª Guerra Mundial. José Nicolau Abagge, conseguiu importar trigo da Argentina durante a guerra, produzindo pães para a população e bolachas que eram enviadas para os soldados da FEB que estavam no front de batalha.
Na foto, da esquerda para direita: O predinho do "Armazém São Francisco, Padaria e Fábrica de Bolachas". No prédio do meio, o primeiro Supermercado Abagge. No prédio da direita, a "Fábrica de Chocolates e Balas Urca". Em todos prédios, a parte superior era formada por residências na frente e, nos fundos, os salões eram utilizados pelas indústrias. 
O Ford da Padaria São Francisco (dirigido por Elias Abagge, irmão do sr. José Nicolau), era usado para fazer entrega de pães e correlatos nos armazéns da cidade e periferia.
Ponto dos bondes Elétricos que havia na Praça Tiradentes.
Em 05/11/1937, o Jornal da Tarde, publicava o lançamento das "Balas Caipira", produzidas pela Fábrica de Balas e Chocolates Abagge: "Alerta Petisada !!! Balas Caipira - Coleções Premiadas. A última novidade a ser lançada na praça, hoje. Além de ser um produto saboroso, oferece aos seus colecionadores os mais lindos prêmios. As Balas Caipira, cuja coleção completa compõe-se de apenas 60 (sessenta) quadros (figurinhas) numerados(as), distribue os mapas elucidativos [...] que formam a coleção. À venda em todos os negócios da Capital e do Interior. Pedidos dirétos pelo telefone 89 - J.N.Abagge - Curityba."
Ao que tudo indica, o empresário José Nicolau Abagge estava tentando seguir os passos do sucesso das Balas Zequinha, as quais estavam sendo comercializadas em Curitiba e no estado, desde 1929, com apenas 50 estampas naquela época.
Sentados, da esquerda para a direita: Alceu Abagge, José Nicolau Abagge e sua esposa Carmela Aymone, e José Nicolau Abagge Junior (Zeca).
Em pé, da esquerda para a direita: Leonilda Demeterco e Nicolau; Angelo e Maria Cláudia Gnoato; Leonardo e Rina Teixeira; Roselvira Malucelli e Jorge; Izabel e Levy Suplicy Ferreira do Amaral; Antonieta e Italo Anderson.