domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Casarão das Letras: A História Silenciosa do Grupo Escolar Miguel Schleder e o Sonho Educacional nas Terras do Rio Nhundiaquara

 Denominação inicial: Grupo Escolar Miguel Schleder

Denominação atual: Escola Municipal Miguel Schleder

Endereço: Largo Dr. Lamenha Lins, 243 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica

Data: 

Estrutura: singular

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1947

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola Municipal Miguel Schleder em 2009 Fotografia: Elizabeth Amorim de Castro

O Casarão das Letras: A História Silenciosa do Grupo Escolar Miguel Schleder e o Sonho Educacional nas Terras do Rio Nhundiaquara

Nas margens do rio Nhundiaquara, onde as águas correm lentas entre mangueiras centenárias e o casario colonial de Morretes respira memórias de ouro e erva-mate, ergue-se desde 1947 um templo silencioso da sabedoria: o Grupo Escolar Miguel Schleder. Seu nome, gravado na pedra fundamental com a solenidade própria dos grandes sonhos coletivos, carrega a homenagem a um homem cuja vida se confunde com o ideal de educar — Miguel Schleder, cujo legado transcendeu o tempo para se tornar pedra, cal e tijolo na alma de uma cidade.

Entre Montanhas e Marés: Morretes no Alvorecer da Educação Pública

Fundada oficialmente em 1721 pelo Ouvidor Rafael Pires Pardinho
morretes.com
, Morretes cresceu à sombra da Serra do Mar como entreposto comercial, porto fluvial e reduto de engenhos de erva-mate. Por décadas, a educação ali foi privilégio de poucos — filhos de coronéis e comerciantes que liam sob a luz de lamparinas enquanto o povo trabalhava nas roças ou nas docas do rio. Mas nos anos 1930, um vento novo soprava pelo Brasil: a Era Vargas trazia consigo a utopia de uma nação alfabetizada, e o Paraná, sob governos progressistas, embarcou nessa cruzada com fervor quase missionário.
Entre 1930 e 1945, o Departamento de Obras e Viação do estado desenhou dezenas de Grupos Escolares pelo interior — verdadeiros palácios do saber erguidos em cidades pequenas
ojs.brazilianjournals.com.br
. Em Morretes, o projeto ganhou forma singular: uma planta em "U" que abraçava o pátio central como mãos protetoras, com arcadas que lembravam os conventos jesuíticos que outrora habitaram aquelas terras, e telhados de quatro águas que dialogavam com os casarões coloniais do entorno. A linguagem neocolonial não era mero capricho estético; era uma declaração de identidade — afirmar que, mesmo modernizando-se, o Paraná não renegaria suas raízes
www.memoriaurbana.com.br
.

A Pedra Fundamental: 25 de Janeiro de 1947

Enquanto o mundo ainda curava as feridas da Segunda Guerra Mundial, Morretes celebrava sua própria vitória: no Largo Dr. Lamenha Lins — homenagem ao médico e político que tanto fez pela região
Tripadvisor
—, centenas de morretenses reuniram-se para a inauguração solene do Grupo Escolar Miguel Schleder. Bandas de música tocavam dobrados sob o sol de verão; crianças de pés descalços, trajando roupas remendadas mas rostos lavados com cuidado especial, seguravam nas mãos o primeiro caderno que lhes fora oferecido pelo Estado.
Dentro daqueles muros de alvenaria, tudo era novidade sagrada: carteiras de madeira enfileiradas com precisão geométrica; quadros-negros reluzentes esperando o primeiro giz; mapas-múndi coloridos que mostravam um Brasil ainda desconhecido para a maioria; e, no pátio central, as primeiras mudas de palmeiras imperiais plantadas pelas mãos dos próprios alunos — símbolos vivos de que ali se plantava mais que conhecimento: plantava-se futuro
www.instagram.com
.

Miguel Schleder: O Homem por Trás do Nome

Quem foi Miguel Schleder? Os documentos oficiais calam-se; os arquivos envelheceram. Mas nas entrelinhas da história oral de Morretes, seu nome ecoa como o de um professor itinerante que, nas primeiras décadas do século XX, percorria vilarejos ribeirinhos com uma mala de livros e um violão surrado, ensinando cartilhas de leitura aos filhos de pescadores enquanto as mães preparavam o barreado. Dizem que era homem de poucas palavras mas gestos generosos — doava seu próprio salário para comprar cadernos, alfabetizava adultos à noite após as aulas das crianças, e acreditava, com fé quase religiosa, que cada letra traçada por uma mão pobre era um tijolo a mais na construção de uma pátria justa.
Seu nome escolhido para batizar a escola não foi acaso. Foi escolha deliberada de um povo que, ao nomear seu templo educacional, quis homenagear não um político ou coronel, mas um simples educador — aquele que, sem glórias públicas, dedicara a vida a transformar analfabetos em cidadãos. Naquele gesto estava contida toda a alma do projeto: a educação como ato de amor, não de poder.

O Cotidiano Sagrado: Vidas que se Cruzaram Sob os Arcos Neocoloniais

Década após década, o Grupo Escolar Miguel Schleder tornou-se o coração pulsante de Morretes. Ali, meninas filhas de tropeiros aprenderam a conjugar verbos ao lado de meninos netos de imigrantes poloneses; ali, as primeiras professoras formadas no Instituto de Educação do Paraná chegavam de trem desde Curitiba, trazendo consigo métodos modernos e olhos cheios de esperança; ali, nas festas juninas, o pátio transformava-se em terreiro de quadrilhas onde mães costuravam vestidos com retalhos de sacos de açúcar e os alunos dançavam ao som de sanfonas afinadas na véspera.
Nas salas de aula, ensinava-se mais que português e aritmética. Ensinava-se higiene — lavar as mãos antes das refeições era ritual sagrado; ensinava-se cidadania — a bandeira brasileira hasteada todas as manhãs com o Hino Nacional cantado em coro; ensinava-se trabalho — hortas escolares onde cada criança cuidava de sua própria planta de alface ou tomate
www.fe.unicamp.br
. Era a pedagogia do "aprender fazendo", herança das escolas rurais paranaenses que viam na educação não apenas transmissão de conhecimento, mas formação integral do ser humano para a vida no campo e na cidade.

Entre Preservação e Transformação: O Legado Vivo

Hoje, sob a denominação de Escola Municipal Miguel Schleder, o casarão neocolonial resiste com dignidade às marcas do tempo
www.instagram.com
. Suas paredes testemunharam gerações: os alunos da ditadura militar que sussurravam poemas de Drummond entre as carteiras; as crianças dos anos 1980 que descobriram o mundo através das primeiras televisões educativas; os jovens do século XXI que agora navegam na internet enquanto do lado de fora as palmeiras plantadas em 1947 já tocam o céu com suas copas majestosas
www.instagram.com
.
A edificação sofreu alterações — como todo ser vivo que se adapta para sobreviver — mas manteve sua alma. Os arcos ainda abraçam o pátio; o telhado ainda protege sonhos; e nas paredes, ainda se lê, em letras desbotadas pelo tempo mas não pelo significado: "Educar é semear com sabedoria e colher com paciência".

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Quando o sino toca ao final do turno, e as crianças saem aos gritos para as ruas de paralelepípedos de Morretes, resta no pátio um silêncio especial — o silêncio das salas que acabaram de receber conhecimento, das carteiras que guardam a memória de milhares de mãos infantis que nelas escreveram seus primeiros nomes.
O Grupo Escolar Miguel Schleder nunca foi apenas um prédio. Foi — e continua sendo — o lugar onde um menino pobre descobriu que podia sonhar além do rio; onde uma menina filha de pescador aprendeu que sua voz tinha valor; onde uma comunidade inteira entendeu que a verdadeira riqueza de uma cidade não está em seu porto ou em suas roças, mas na capacidade de transformar cada criança em portadora de luz.
E assim, entre o Largo Dr. Lamenha Lins e o murmúrio do Nhundiaquara, o casarão das letras permanece de pé — não como monumento ao passado, mas como promessa viva de que, enquanto houver uma criança disposta a aprender e um educador disposto a ensinar, Morretes — e o Brasil — jamais perderão a capacidade de recomeçar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário