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quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Lenda de Béco, o Lobisomem de Antonina: Entre a Névoa do Portinho e o Uivo que Ainda Ecoa

 

A Lenda de Béco, o Lobisomem de Antonina: Entre a Névoa do Portinho e o Uivo que Ainda Ecoa


A Lenda de Béco, o Lobisomem de Antonina: Entre a Névoa do Portinho e o Uivo que Ainda Ecoa

Há cidades que respiram história pelas frestas das janelas de madeira, e Antonina é uma delas. Encravada entre a Baía de Paranaguá e as encostas da Serra do Mar, a cidade carrega em seu calçamento de paralelepípedo, em seus trapiches centenários e no silêncio dos seus manguezais uma memória que não se apaga com o tempo. Entre as tantas vozes que ainda sussurram nas noites úmidas do litoral paranaense, uma se ergue com força particular: a lenda de Béco, o lobisomem que não nasceu de maldição de sangue, mas de um abraço entre um homem e seu cão.

O Homem, o Cão e a Rotina que Escondia o Mistério

Belmiro, conhecido por todos simplesmente como Béco, era figura de contornos marcantes no bairro Portinho. Baixo, magricelo, com cabelos grisalhos que o vento marinho sempre despenteava e um olhar que parecia atravessar paredes, ele vivia em um barraco de tábuas remendadas, cercado por redes velhas, latas enferrujadas e o cheiro constante de maresia e fumo de corda. Sua vida era de movimentos previsíveis, quase mecânicos: quase todos os dias, caminhava até o centro, entrava no boteco do Mercado Municipal, comprava sua dose de pinga e um maço de fumo, e retornava ao silêncio do barraco. Falava pouco. O pouco que dizia vinha rouco, arrastado. Mas havia um detalhe que marcava seus passos: o assovio. Béco assoviava, invariavelmente, a melancólica e circular "Valsa Vianense". O som ecoava pelas vielas do Portinho, misturando-se ao bater das ondas e ao grasnar das gaivotas, criando uma trilha sonora que, com o tempo, se tornaria sinônimo de presságio.
Ao seu lado, sempre ao seu lado, estava Tico. Não era um cão comum. Era um vira-lata de porte médio, pelagem encardida, orelhas sempre em alerta e um temperamento que afugentava até os mais corajosos. Diziam os mais antigos que Tico não obedecia a comandos, mas a silêncios. Onde Béco pisava, Tico seguia. Onde Tico dormia, Béco se encolhia. A dupla era tão inseparável que moradores juravam terem visto Béco oferecendo metade de seu pão duro ao cão, ou Tico deitando-se sobre os pés do velho para aquecê-lo nas madrugadas frias de junho. Era uma simbiose que beirava o sobrenatural, uma daquelas ligações que a ciência não explica, mas que a tradição registra como sinal de almas gêmeas ou de um pacto não dito.

A Sexta-Feira, a Lua e o Ritual na Pedra Santa

O mistério ganhava contornos reais quando o calendário marcava uma sexta-feira e o céu se vestia de prata. Nesses dias, Béco e Tico desapareciam. Não saíam para o mercado, não cruzavam as ruas de paralelepípedo, não assoviavam. O barraco permanecia fechado, as janelas tapadas, e um silêncio pesado caía sobre o entorno. Segundo relatos colhidos ao longo dos anos por moradores e repassados em roda de boteco, a ausência não era por doença ou cansaço. Era preparação.
Paulinho Siri, pescador de olhos atentos e passos leves, foi quem mais se aproximou da verdade. Em mais de uma ocasião, seguiu os dois pela trilha que leva ao Mirante da Pedra, conhecida localmente como Pedra Santa. O caminho era íngreme, coberto de raízes expostas e musgo úmido. Mas quando a lua atingia seu ápice e o relógio marcava meia-noite, Paulinho viu o impossível. Béco e Tico pararam diante da rocha principal. O velho se ajoelhou. O cão se aproximou. E, num gesto que desafiava a lógica terrena, se abraçaram.
Não foi um abraço de carinho. Foi um entrelaçamento de corpos, de respirações, de pulsações que pareciam se sincronizar. No instante do contato, uma luz esbranquiçada, quase leitosa, irradiou da união entre homem e animal. O ar ficou pesado, com cheiro de ozônio e terra molhada. E então, o grito. Não era humano. Não era canino. Era um som gutural, rasgado, que ecoou pelas encostas e fez as folhas das árvores tremerem sem vento. Naquele momento, a fusão se consumava. O velho e o cão deixavam de existir como entidades separadas. Dali emergia o lobisomem.

Os Sete Uivos e o Medo que Paralisou a Cidade

Pontual como a maré, à meia-noite em ponto, o lobisomem erguia a cabeça e uivava. Sete vezes. Nunca mais, nunca menos. O primeiro uivo era agudo, cortante, como uma faca rasgando o tecido da noite. O segundo, mais grave, fazia os vidros das casas estalarem. O terceiro ecoava pela baía. O quarto paralisava os cães de guarda. O quinto trazia um arrepio na espinha de quem o ouvia. O sexto calava o vento. O sétimo, o mais longo, parecia carregar o peso de uma maldição antiga.
A vizinhança do Portinho e dos bairros adjacentes trancava portas, fechava janelas, rezava terços e acendia velas atrás de cortinas. Ninguém ousava sair. As crianças eram colocadas para dormir mais cedo, e os adultos permaneciam em vigília silenciosa, ouvindo o relógio e o eco que ainda vibrava nas paredes de madeira. Em uma dessas noites, o medo cobrou seu preço mais alto. Zé Pelego, morador do bairro Laranjeiras, já idoso e de coração frágil, ouviu o sétimo uivo através de uma fresta da janela. O som foi tão intenso, tão carregado de uma presença que não deveria existir, que seu peito não suportou. Uma parada cardíaca fulminante o levou em minutos. A morte de Zé Pelego não foi registrada como acidente. Foi registrada, na memória coletiva, como consequência direta do uivo.
As manhãs que se seguiam aos rituais traziam vestígios. Animais eram encontrados mortos nas beiras de estrada, nos quintais, no meio do mato. Gatos, cães de pequeno porte, galinhas, até um porco de criação. Os corpos não tinham marcas de mordidas profundas ou arranhões de luta. Estavam pálidos, leves, com dois pequenos orifícios no pescoço ou nas costas. O sangue havia sido extraído com precisão cirúrgica. Os cadáveres eram deixados à vista, como se o lobisomem não quisesse esconder sua passagem, mas sim deixar um aviso. A cidade aprendeu a ler esses sinais. Aprendeu a temer a lua cheia de sexta-feira como se temesse a tempestade.

Por que Antonina? Raízes de uma Lenda que Nega o Clichê

A lenda do lobisomem no Brasil geralmente segue um roteiro conhecido: sétimo filho de sétimo filho, batizado de forma inadequada, transformação automática em noites de sexta. Mas a história de Béco rompe com o molde. Aqui, a transformação não é hereditária, nem acidental. É ritualística. É escolhida. É nascida da solidão, da marginalização, da vida à beira do rio e do esquecimento. Antonina, cidade de pescadores, estivadores, comerciantes e gente que viveu entre o mar e a serra, é palco fértil para esse tipo de narrativa. O litoral paranaense sempre foi terra de superstições, de respeito ao invisível, de histórias contadas ao pé do fogão a lenha para explicar o inexplicável.
Béco e Tico representam a dualidade que habita o imaginário popular: o homem e o animal, a civilização e o instinto, a pobreza e a dignidade, o silêncio e o grito. A lenda não nasce do mal, nasce do abandono. Nasce de um velho que não tinha ninguém, exceto um cão. Nasce de um cão que não tinha ninguém, exceto um velho. E juntos, na escuridão e na luz da lua, encontraram uma forma de existir que o mundo dos vivos não permitia. Por isso a lenda ressoa. Por isso ela não foi esquecida.

Vinte Anos Depois: O Eco que Ainda Perambula

O tempo passou. O barraco no Portinho foi demolido, substituído por muros de concreto e antenas de televisão. O boteco do Mercado Municipal mudou de dono, de placa, de freguesia. Béco e Tico partiram. A causa da morte nunca foi oficializada, mas diz-se que o velho adormeceu e o cão não acordou ao lado. Ou que ambos simplesmente deixaram de ser vistos, como quem cumpre um ciclo e se retira.
Quase duas décadas se passaram, mas a lenda não morreu. Nas sextas-feiras de lua cheia, pescadores que recolhem redes às três da manhã juram ter visto duas silhuetas caminhando pela trilha da Pedra Santa. Turistas que visitam Antonina em busca de história e paisagem ouvem os moradores baixarem o tom de voz quando o assunto surge. Crianças ainda são advertidas pelos avós: "Não vá para a rua quando a lua estiver cheia e for sexta. Béco e Tico estão soltos". O uivo não é mais ouvido, mas o silêncio que o substitui é igualmente pesado. A lenda se transformou em memória afetiva, em identidade local, em patrimônio imaterial que não cabe em museus, mas vive na boca do povo.

Conclusão: Quando a Lenda é Mais Verdadeira que a História

Há quem diga que lendas urbanas são invenções, exageros, mentiras vestidas de mistério. Mas quem já viveu em cidades como Antonina sabe que a verdade nem sempre mora nos arquivos ou nos registros oficiais. Às vezes, ela mora no assovio de uma valsa antiga, no abraço de um homem e seu cão, no medo que une uma comunidade, na história que é contada para que ninguém esqueça que o invisível também faz parte da paisagem.
Béco, o lobisomem de Antonina, não é um monstro. É um espelho. Reflete a solidão dos que são deixados para trás, a força dos laços que desafiam a lógica, o poder da natureza de transformar dor em mito. E enquanto houver lua cheia nas sextas-feiras, enquanto o vento continuar a assoprar pela Pedra Santa, enquanto houver quem assovie uma valsa antiga ao caminhar por ruas de paralelepípedo, o uivo de sete vezes não deixará de ecoar. Não nos ouvidos, mas na memória.
Crônica original concebida e narrada por Jhonny Arconi, preservada e ampliada como homenagem à tradição oral e ao imaginário do litoral paranaense.