Edifícios Santa Inês e Presidente: Testemunhos da Verticalização Curitibana em 2017
Edifícios Santa Inês e Presidente: Testemunhos da Verticalização Curitibana em 2017
Introdução
Em 2017, os edifícios Santa Inês e Presidente, localizados na Rua Desembargador Westphalen, no Centro de Curitiba, permaneciam como importantes testemunhos físicos do processo de verticalização intensiva que transformou a capital paranaense durante a década de 1950. Estas duas construções, erguidas em anos consecutivos - 1954 e 1955 respectivamente - representam um período áureo da arquitetura modernista curitibana e continuam a compor a paisagem urbana do centro da cidade mais de seis décadas após sua construção.
Contexto Histórico da Construção
O Boom Imobiliário dos Anos 1950
A década de 1950 marcou uma virada decisiva na história urbana de Curitiba. Durante este período, a cidade experimentou um acelerado processo de verticalização, impulsionado pelo crescimento populacional, desenvolvimento econômico e pela emergência de uma nova cultura habitacional que valorizava a vida em edifícios de apartamentos no centro urbano.
O Edifício Santa Inês foi construído em 1954, com projeto dos Irmãos Thá & Cia., enquanto o Edifício Presidente foi erguido em 1955, construído pela Construtora Imobiliária Comercial - CISA S.A.
. Ambos os edifícios foram implantados na Rua Desembargador Westphalen, uma via que se tornaria um dos eixos importantes de verticalização do Centro, localizada a apenas duas quadras da histórica Praça Zacarias.
A Localização Estratégica
A escolha da Rua Desembargador Westphalen não foi casual. Esta região do Centro de Curitiba, próxima à Praça Zacarias - oficialmente a praça mais antiga da cidade, criada em 1871 - constituía-se como uma área nobre e em processo de valorização
. A proximidade com o centro comercial, serviços públicos e a infraestrutura urbana consolidada tornava esta localização extremamente atrativa para empreendimentos residenciais de médio e alto padrão.
Características Arquitetônicas Originais
Edifício Presidente: Inovação e Modernidade
O anúncio de lançamento do Edifício Presidente em 1955 revela as estratégias de marketing e as características arquitetônicas que eram valorizadas na época. A CISA S.A. promoveu o empreendimento destacando:
Localização Privilegiada: O anúncio enfatizava a posição central do edifício, "na Rua Des. Westfalen a duas quadras da Praça Zacarias", explorando o apelo de morar no centro da cidade.
Tipologia dos Apartamentos: O edifício oferecia apartamentos com 1, 2 e 3 quartos, 2 banheiros e quarto de empregada. Os planos apresentados no anúncio revelam plantas compactas e funcionais, características da produção habitacional da época que buscava otimizar espaços sem abrir mão do conforto.
Inovações Tecnológicas: Um dos principais diferenciais destacados era "o melhor sistema de elevadores de Curitiba", demonstrando a importância atribuída à modernidade tecnológica e ao conforto dos moradores.
Áreas de Lazer: A existência de playground representava uma inovação para a época, refletindo uma preocupação com o bem-estar das famílias e das crianças, algo relativamente novo no mercado imobiliário curitibano.
Conforto Ambiental: O anúncio destacava "iluminação e ventilação perfeitas", aspectos que revelam uma preocupação com o conforto ambiental e a qualidade de vida, princípios que começavam a se consolidar na arquitetura moderna.
Condições de Pagamento: O preço de lançamento era de Cr$ 12.900 de entrada, com prestações a partir de Cr$ 1.650,00, condições que visavam facilitar o acesso à propriedade para a classe média emergente.
Edifício Santa Inês: Sobriedade e Funcionalidade
Construído um ano antes, em 1954, o Edifício Santa Inês foi projetado pelos Irmãos Thá & Cia., um dos importantes escritórios de arquitetura atuantes em Curitiba durante este período
. Embora menos documentado que o Presidente em termos de campanhas publicitárias preservadas, o Santa Inês compartilha características similares de linguagem arquitetônica modernista, com fachadas compostas por elementos repetitivos, janelas em fileiras e uma estética funcionalista típica dos anos 1950.
Arquitetura Modernista Curitibana
Características Estéticas
Ambos os edifícios exemplificam os princípios da arquitetura modernista que dominou a produção arquitetônica brasileira nas décadas de 1940 a 1960. As características observáveis incluem:
Verticalidade Acentuada: As fachadas enfatizam a verticalidade através da repetição rítmica dos elementos construtivos - janelas, varandas e lajes - criando uma composição que dialoga com os ideais modernistas de celebração da altura e da tecnologia construtiva.
Racionalidade Construtiva: A estrutura aparente em concreto armado, as esquadrias padronizadas e a repetição modular dos apartamentos refletem os princípios de racionalização e eficiência construtiva defendidos pelo movimento moderno.
Funcionalismo: As plantas dos apartamentos priorizam a funcionalidade, com distribuição eficiente dos ambientes e aproveitamento máximo dos espaços, atendendo às necessidades das famílias de classe média da época.
Ausência de Ornamentação: Seguindo os preceitos modernistas, ambos os edifícios apresentam fachadas despojadas de ornamentação excessiva, privilegiando a expressão estrutural e a honestidade dos materiais.
O Processo de Verticalização de Curitiba
Os anos 1950 constituíram o que historiadores da arquitetura chamam de "anos dourados" da verticalização curitibana
. Durante esta década, a cidade passou por uma transformação radical de sua paisagem urbana, deixando de ser predominantemente horizontal para desenvolver um perfil vertical cada vez mais marcante.
Este processo foi impulsionado por diversos fatores:
Crescimento Populacional: Na década de 1950, Curitiba atingiu aproximadamente 180.575 habitantes, criando uma demanda por novas soluções habitacionais
.
Desenvolvimento Econômico: O crescimento econômico da cidade, impulsionado pela industrialização e expansão do comércio e serviços, gerou uma classe média urbana com poder aquisitivo para adquirir apartamentos no centro.
Inovações Tecnológicas: O avanço das técnicas construtivas, especialmente o uso do concreto armado e de elevadores mais eficientes, tornou economicamente viável a construção de edifícios mais altos.
Mudança Cultural: Emergiu uma nova cultura habitacional que passava a valorizar a vida em apartamentos, associada à modernidade, conforto e status social.
Os Edifícios em 2017
Estado de Conservação e Permanência
Em 2017, tanto o Edifício Santa Inês quanto o Edifício Presidente permaneciam de pé, continuando a cumprir sua função habitacional original
. A fotografia registrada neste ano mostra dois edifícios que, embora apresentem sinais naturais do passar do tempo, mantêm suas características arquitetônicas originais preservadas.
Edifício Santa Inês: Localizado no número 223 da Rua Desembargador Westphalen, o edifício continuava em operação como condomínio residencial, mantendo sua estrutura original de 1954
. Com mais de 60 anos de existência, o prédio representa um exemplo de longevidade da arquitetura modernista curitibana.
Edifício Presidente: Situado no número 265 da mesma rua, o edifício construído em 1955 também permanecia ativo como residência multifamiliar
. Sua fachada, com as características fileiras de janelas e a linguagem modernista típica dos anos 1950, continuava a compor a paisagem do Centro de Curitiba.
Valor Patrimonial e Histórico
A permanência destes edifícios em 2017, mais de seis décadas após sua construção, reforça seu valor como patrimônio arquitetônico e documental da história urbana de Curitiba. Eles representam:
Documentos Arquitetônicos: Cada edifício constitui um documento físico das técnicas construtivas, dos materiais, das soluções arquitetônicas e dos padrões estéticos vigentes na década de 1950.
Testemunhos Urbanos: A localização, a implantação e a relação dos edifícios com o tecido urbano circundante revelam as estratégias de ocupação do solo e os processos de transformação urbana que marcaram o Centro de Curitiba.
Memória Habitacional: Os apartamentos, com suas plantas e configurações originais, contam a história dos modos de vida, das aspirações e dos padrões de conforto da classe média curitibana dos anos 1950.
Referências Identitárias: Para os moradores do Centro e para a cidade como um todo, estes edifícios constituem pontos de referência e elementos que compõem a identidade visual e histórica do bairro.
Desafios da Preservação
A conservação de edifícios modernos dos anos 1950 enfrenta desafios específicos:
Envelhecimento dos Materiais: Após mais de 60 anos, materiais como concreto, esquadrias metálicas e revestimentos exigem manutenção constante e, em muitos casos, substituição.
Atualização Tecnológica: A necessidade de adequação a novas normas técnicas, instalação de novos sistemas (elétricos, hidráulicos, de prevenção a incêndio) e melhoria da acessibilidade representa desafios para a preservação das características originais.
Valorização Imobiliária: A localização central privilegiada pode gerar pressões para demolição e substituição por edifícios mais altos e lucrativos, colocando em risco a preservação do patrimônio edificado.
Conscientização Patrimonial: A valorização social da arquitetura modernista dos anos 1950 ainda é um processo em construção, sendo necessário educar a sociedade sobre o valor histórico e cultural destes edifícios.
A Rua Desembargador Westphalen como Eixo de Verticalização
Concentração de Edifícios Históricos
A Rua Desembargador Westphalen concentra diversos edifícios residenciais construídos durante o período áureo da verticalização curitibana. Além do Santa Inês (nº 223) e do Presidente (nº 265), a via abriga outros edifícios históricos que compõem um verdadeiro corredor de arquitetura modernista dos anos 1950 e 1960.
Esta concentração torna a rua um importante documento urbano do processo de verticalização, permitindo a leitura da evolução tipológica, estilística e tecnológica dos edifícios residenciais curitibanos ao longo de duas décadas.
Relação com a Praça Zacarias
A proximidade com a Praça Zacarias, a praça mais antiga de Curitiba, confere à região um caráter especial de centralidade histórica
. Durante a década de 1950, esta área passou por intensas transformações, combinando o patrimônio histórico do século XIX com a arquitetura modernista do século XX.
Esta justaposição temporal cria uma paisagem urbana complexa e rica, onde diferentes períodos da história da cidade dialogam e se complementam.
Legado e Importância Contemporânea
Valorização do Patrimônio Modernista
Em 2017, os edifícios Santa Inês e Presidente já demonstravam a importância de sua preservação como patrimônio arquitetônico. A arquitetura modernista brasileira, reconhecida internacionalmente por sua qualidade e inovação, encontra nestes edifícios curitibanos exemplos significativos de sua aplicação em escala residencial.
Contribuição para a Identidade Urbana
Estes edifícios contribuem de forma decisiva para a identidade visual e histórica do Centro de Curitiba. Sua presença contínua na paisagem urbana, desde os anos 1950 até 2017, cria uma sensação de permanência e continuidade que é fundamental para a construção da memória coletiva da cidade.
Lições para o Urbanismo Contemporâneo
A qualidade das soluções arquitetônicas adotadas nestes edifícios - iluminação natural, ventilação cruzada, plantas funcionais, integração entre espaços privados e comuns - oferece lições valiosas para a produção habitacional contemporânea, demonstrando que é possível conciliar densidade urbana com qualidade de vida.
Conclusão
Os edifícios Santa Inês e Presidente, fotografados em 2017, representam muito mais que simples construções residenciais. Eles são testemunhos vivos de um período crucial da história de Curitiba, quando a cidade olhou para cima e começou a se verticalizar, abraçando a modernidade arquitetônica e urbanística.
Construídos em 1954 e 1955 respectivamente, estes edifícios sobreviveram por mais de seis décadas, continuando a cumprir sua função habitacional e a compor a paisagem do Centro curitibano. Sua preservação é fundamental não apenas para a memória da cidade, mas também como referência para futuras intervenções urbanas e arquitetônicas.
A Rua Desembargador Westphalen, com sua concentração de edifícios históricos, e sua proximidade com a Praça Zacarias, constituem um dos conjuntos urbanos mais significativos para a compreensão do processo de verticalização de Curitiba entre 1930 e 1960.
Preservar edifícios como o Santa Inês e o Presidente significa preservar a memória, a identidade e a história de Curitiba, garantindo que as futuras gerações possam conhecer e valorizar o patrimônio arquitetônico que moldou a cidade moderna.