domingo, 2 de agosto de 2026

Dom Frei Pedro de Santa Mariana e Sousa: O Carmelita Matemático que Educou Dom Pedro II

 

Pedro de Santa Mariana e Sousa
Bispo da Igreja Católica
Bispo auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro

Título

Bispo de Crisópolis da Arábia
Atividade eclesiástica
OrdemOrdem dos Carmelitas Descalços
DioceseDiocese do Rio de Janeiro
Ordenação e nomeação
Ordenação presbiteralnovembro de 1805
Lisboa, Portugal
por José Francisco Miguel António de Mendonça
Nomeação episcopal1 de março de 1841
Ordenação episcopal13 de junho de 1841
Rio de Janeiro, Brasil
por Manuel do Monte Rodrigues de Araújo
Brasão episcopal
Dados pessoais
NascimentoRecife, Pernambuco, Brasil
30 de dezembro de 1782
MorteRio de Janeiro, Brasil
6 de maio de 1864 (81 anos)
ProgenitoresMãe: Mariana Machado Freire
Pai: Carlos José de Sousa
dados em catholic-hierarchy.org
Bispos
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

Dom Frei Pedro de Santa Mariana e Sousa OCD (Recife, 30 de dezembro de 1782Rio de Janeiro, 6 de maio de 1864), titulado Conde de Santa Mariana pela Santa Sé,[1] foi um religioso carmelita brasileiro. Foi bispo de Crisópolis da Arábia e bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, época em que participou da educação do imperador Dom Pedro II do Brasil.

Biografia

Juventude

Nasceu em Recife, Pernambuco, filho de Mariana Machado Freire e de Carlos José de Sousa.

Destinado à vida religiosa, em 17 de fevereiro de 1797, com a idade de 14 anos, entrou para o convento da Ordem do Carmo, cujo superior provincial, o padre-mestre Frei Félix de Sant'Ana, era seu parente. Passado o tempo de pupilo e o da provação, Frei Pedro professou sua fé na Ordem em 7 de fevereiro de 1799 nas mãos de Frei Manuel do Monte Carmelo.

Estudava já filosofia e teologia no colégio de seu convento quando, aberto em 1800, o Seminário Episcopal de Olinda, por Dom José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho, ali se matriculou juntamente com seu irmão, Frei Carlos de São José e Sousa, futuro bispo de São Luís. O dito seminário foi a primeira e melhor aparelhada escola secundária do Brasil colonial, e um grande foco de ideias liberais.

Frei Pedro se notabilizou por esse tempo por sua dedicação ao estudo da matemática, abrindo logo depois no seu convento um curso particular de geometria. Foram seus alunos, entre outros, Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, futuro bispo do Rio de Janeiro, e o irmão deste, o cônego João Rodrigues de Araújo.

Em 1805, após pedir dispensa de seu superior, partiu para Portugal afim de aprimorar seus estudos. Ali chegou no mês de novembro, e logo que recebeu o presbiterado das mãos do bispo paulopatino Dom Frei Miguel, na Capela do Paço da Bemposta, procurou matricular-se na Academia Real de Marinha. Foi a primeira vez que um frade frequentou aquela instituição. Não o conseguiu, entretanto, sem dificuldades. Segundo o historiador Francisco Augusto Pereira da Costa, sua admissão foi recusada a princípio. Dissertando, porém, sobre geometria entre os estudantes, chamou para si a atenção dos professores da academia que, impressionados com seu conhecimento, empenharam-se para que se abrisse uma exceção a seu favor. Concluiu ali o curso de matemática em 1809.[2]

Magistério

Fundada no Brasil a Real Academia Militar, em 1810, pelo então príncipe-regente Dom João, Frei Pedro foi convidado a assumir o cargo de professor substituto das cadeiras de matemática Iniciou seu magistério em janeiro de 1813 e, em 1818, tornou-se lente efetivo. Lecionou durante vinte anos. Foram seus discípulos o Duque de Caxias, o brigadeiro Paulo Barbosa da Silva, o Barão de Itapajipe, o Visconde de Santa Teresa, o general Burlamaqui, o marechal João Paulo dos Santos Barreto e Frederico Carneiro de Campos. Foi jubilado em 1833, mas, por falta de um professor que lhe substituísse, continuou lecionando até o ano seguinte.

Em 1834, por provável indicação de seu ex-discípulo Barbosa da Silva, então mordomo do paço, foi nomeado pelo Marquês de Itanhaém, tutor do menino imperador Pedro II, preceptor do jovem monarca. Frei Pedro estava encarregado da direção geral dos estudos do Imperador.

Preceptor de Sua Majestade

O Marquês de Itanhaém regulamentou as atividades do preceptor imperial, escrevendo-lhe cinco regras:

1.º: O senhor Frei Pedro governa o quarto do Imperador e nada ali se fará sem sua ordem. As aquisições serão por V. S. autorizadas para se comprarem. Para isso, o Criado Particular, varredores, moços e o encarregado do guarda-roupa ficam às sua ordens, não devendo nenhum executar as ordens do Imperador sem lhes comunicar primeiro para receberem o seu placet;

2.º: O Imperador deitar-se-á, levantar-se-á e vestirá como e à hora que V. S. lho prescrever;

3.º: S. M. o Imperador, desde que se levantar até as 2 horas da tarde será guardado por V. S., e bem assim desde as Ave-Marias até se deitar;

4.º: V. S., como diretor da educação de S. M. e A. A., assistirá às lições desses Senhores e prescreverá o trabalho que S. M. e A. A. deverão fazer...

5.º: V. S. terá a bondade de dizer-me, todos os dias, o resultado das lições para que eu saiba se os mestres me informaram bem.

Desta forma, é possível supor que o frade carmelita teve grande influência sobre a pessoa do jovem monarca, embora não existam documentos que a comprove.

Dos votos apresentados pelos deputados Estêvão Rafael de Carvalho e Álvares Machado sobre as contas do tutor do Imperador e de sua irmã, em 1837, faz-se referência a alegações deste quanto à pessoa do preceptor: S. M. I. he mister cercar-se de homens sabios e de bons costumes que respondão às questões que tam vivamente Elle costuma excitar, e que o doutrinem de modo que não receba idéas falsas e perniciosas. E acrescenta que o Padre Mestre Frei Pedro de Santa Marianna, bem que revestido de muito saber, paciencia, modestia, e d'outras boas qualidades, não he bastante para por si só preencher tão árdua tarefa. Desse mesmo voto, depreende-se que, além da inspeção geral dos estudos do imperador e da princesa, o padre-mestre tinha a seu cargo o ensino de latim, de aritmética e de geometria. O ensino religioso, no entanto, ficara por conta da Condessa de Belmonte.

Frei Pedro passou então a viver no Paço Imperial, e lá foi residente durante mais de trinta anos, até pouco antes de falecer.

Honrarias

Em 1840, declarada a maioridade do imperador, Frei Pedro recebeu o título de esmoler-mor da Casa Imperial. No ano anterior, vago o trono episcopal do Rio de Janeiro, o frade recusou a indicação para ocupá-lo, sendo nomeado em seu lugar o padre Manuel do Monte Rodrigues de Araújo. Daí a meses, foi surpreendido com as bulas de confirmação de bispo-auxiliar, com sé titular em Crisópolis da Arábia, as quais foram impetradas previamente do Papa Gregório XVI, por iniciativa do imperador e das princesas imperiais.

Sua sagação episcopal ocorreu no dia 13 de junho de 1841, na capela da Quinta da Boa Vista, ministrada por Dom Manuel do Monte, bispo do Rio de Janeiro, com auxílio do bispo de Pernambuco, Dom João da Purificação Marques Perdigão, OSA, e do titular de Anemúria, Dom Antônio de Arrábida, OFM Ref.

Por ocasião da coroação de Pedro II, em 18 de julho seguinte, recebeu a comenda da Imperial Ordem de Cristo.

Em 1843, o Papa Gregório o fez conde palatino, seu prelado doméstico e assistente ao sólio pontifício, títulos os quais era o primeiro prelado brasileiro a possuir.

Como lente jubilado da academia militar, recebeu o grau de doutor em ciências matemáticas, graça especial concedida pelo governo aos professores jubilados e efetivos.

Últimos anos

O bispo de Crisópolis viveu o resto de sua vida à parte dos negócios da corte. Passava pelos fardões da corte como passa a abelha por entre as flores, instantâneo, imperceptível.

Em 23 de dezembro de 1863, ministrou o sacramento do crisma às princesas imperais. Foi a última função pública a qual teve que desempenhar. Por esse tempo, sua saúde já se encontrava em declínio.

Dom Pedro faleceu aos 81 anos. O imperador esteve presente em seus últimos momentos e conferiu honras militares ao seu funeral; também compareceu ao seu sepultamento, que se deu próximo ao altar-mor da Igreja da Ordem do Carmo da Lapa, fazendo questão de segurar umas das alças do caixão.[3]

Referências

  1. «Título ainda não informado (favor adicionar)» (PDF). www.cbg.org.br. Consultado em 3 de outubro de 2013. Arquivado do original (PDF) em 3 de março de 2016
  2. «Biographia do Exm. e Rvm. Sr. D. Fr. Pedro de Santa Mariana, natural da provincia de Pernambuco, bispo titular de Chrysopolis, prelado domestico de S. Santidade, bispo assistente ao soleo pontificio, conde palatino e esmoler-mor de S. M. o Imperador». Hemeroteca Digital Brasileira. Diário de Pernambuco. 9 de setembro de 1862. p. 8. Consultado em 25 de fevereiro de 2018
  3. Eugênio Vilhena de Morais (2 de dezembro de 1926). «Frei Pedro de Santa Marianna - O Preceptor de D. Pedro II». Hemeroteca Digital Brasileira. O Jornal. p. 1-2. Consultado em 25 de fevereiro de 2018

Dom Frei Pedro de Santa Mariana e Sousa: O Carmelita Matemático que Educou Dom Pedro II

Dom Frei Pedro de Santa Mariana e Sousa OCD (Recife, 30 de dezembro de 1782 — Rio de Janeiro, 6 de maio de 1864), titulado Conde de Santa Mariana pela Santa Sé, foi uma das figuras mais ilustres e eruditas do Brasil do século XIX. Religioso carmelita, matemático, bispo de Crisópolis da Arábia e bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, marcou a história nacional sobretudo ao exercer o cargo de preceptor e diretor de estudos do jovem imperador Dom Pedro II.

1. Origens, Formação e o Amor pelas Ciências Exatas

Natural de Recife, filho de Mariana Machado Freire e de Carlos José de Sousa, Frei Pedro seguiu a vida religiosa muito jovem. Aos 14 anos, em 1797, ingressou no convento da Ordem do Carmo. Poucos anos depois, matriculou-se no recém-criado Seminário Episcopal de Olinda (1800), celeiro de ideias liberais e uma das instituições de ponta do Brasil colonial, onde estudou filosofia e teologia ao lado do irmão, Frei Carlos de São José e Sousa (futuro bispo de São Luís).

Dotado de uma mente brilhante para as ciências exatas, destacou-se no estudo da matemática e chegou a abrir um curso particular de geometria no seu próprio convento.

A Experiência em Portugal e a Academia de Marinha

Em 1805, partiu para Portugal para aprimorar os estudos. Recebeu o presbiterado na Capela do Paço da Bemposta e buscou matricular-se na prestigiosa Academia Real de Marinha — sendo o primeiro frade a frequentar a instituição. Após alguma resistência inicial superada pelo seu impressionante domínio da geometria, concluiu o curso de matemática em 1809.

2. O Magistério na Academia Militar e o Convívio com a Elite

De regresso ao Brasil, com a fundação da Real Academia Militar em 1810 por D. João, Frei Pedro foi convidado a assumir o cargo de professor substituto de matemática, tornando-se lente efetivo em 1818 e lecionando durante duas décadas.

Por suas salas de aula passou a nata da elite militar e política do Império, incluindo figuras como:

  • O Duque de Caxias

  • O brigadeiro Paulo Barbosa da Silva

  • O Barão de Itapajipe

  • O Visconde de Santa Teresa

  • O general Burlamaqui

3. Preceptor do Imperador Dom Pedro II

Em 1834, por indicação de seu ex-aluno Paulo Barbosa da Silva, Frei Pedro foi nomeado pelo Marquês de Itanhaém para a árdua e honrosa tarefa de preceptor e diretor geral dos estudos do jovem imperador Dom Pedro II e de sua irmã.

As regras estipuladas pelo tutor imperial demonstravam o rigor e a centralidade da figura do frade na rotina do futuro monarca: Frei Pedro geria o quarto do imperador, controlava as ordens dadas a criados e mordomos, prescrevia os horários de sono e vestuário, e acompanhava rigorosamente todas as lições (que incluíam latim, aritmética e geometria).

O carmelita passou a residir no Paço Imperial, mantendo-se no local por mais de trinta anos.

4. Episcopado, Honrarias e Últimos Anos

Com a declaração da maioridade de D. Pedro II em 1840, Frei Pedro foi nomeado esmoler-mor da Casa Imperial. Recusando inicialmente a sé episcopal do Rio de Janeiro, aceitou contudo ser consagrado bispo-auxiliar com sede titular em Crisópolis da Arábia, em junho de 1841.

O reconhecimento internacional e pontifício veio em 1843, quando o Papa Gregório XVI o elevou a conde palatino, prelado doméstico e assistente ao sólio pontifício — sendo o primeiro prelado brasileiro a ostentar tais títulos nobiliárquicos da Santa Sé.

O Fim da Vida e a Homenagem Imperial

Até o fim da vida, manteve-se reservado quanto aos negócios da corte. Ministrou o último sacramento do crisma às princesas imperiais em dezembro de 1863.

Dom Frei Pedro de Santa Mariana faleceu aos 81 anos. O próprio Imperador Dom Pedro II esteve presente em seus momentos finais, conferiu-lhe honras militares e fez questão de comparecer ao sepultamento — realizado na Igreja da Ordem do Carmo da Lapa —, segurando pessoalmente uma das alças do caixão do seu antigo mestre.


Mathias José Velho: O Magnate do Rio Grande do Sul e a Sua Extensa Descendência

 Mathias José Velho (Rio Grande do Sul, 20 de outubro de 1802 — Rio Pardo, 25 de maio de 1875) foi um latifundiário brasileiro, um dos homens mais ricos da província de São Pedro do Rio Grande do Sul durante a segunda metade do século XIX[1].

Batizado em Rio Grande, Mathias era um dos muitos filhos de Matías Bello (1760-1818), natural de Caspe, então Reino de Aragão, o qual no Rio Grande passou a ser chamado de Mathias Velho, e de sua esposa, a açoriana Rita Maria Pereira (1765-1848), natural de Cedros, na Ilha de Horta[2].

Recebeu o título de major, no entanto, não é possível afirmar que participou de alguma guerra, nem participado da Guarda Nacional.[3]

Em 22 de setembro de 1827, na atual cidade de Mostardas, Mathias José Velho se casou com Luciana Francisca da Terra (1806-1888), filha de Manoel Francisco da Terra e de Josefa Maria do Nascimento.

Em 1857, adquiriu do Barão de Quaraí a grande Fazenda de Santa Vitória, em Rio Pardo. A negociação, mais tarde, serviu de tema para uma crônica sarcástica do escritor Josué Guimarães, em que narra que o barão estava afoito para se livrar da propriedade mal cuidada e que o comprador Velho veio a se arrepender da compra.

Faleceu em 1875 em sua estância de Santa Vitória, em Rio Pardo, aos setenta e três anos de idade. Com sua morte, foi realizado seu inventário, que abrangia inúmeras propriedades e bens, incluindo escravos e até mesmo os "ingênuos" (filhos de escravos libertos), apesar da promulgação da Lei do Ventre Livre de 1871. O patrimônio englobava uma estância com 35.216 hectares de terra e mais de 15 mil animais. A partilha levou alguns anos para ser concluída em razão de existir um filho pré-morto e netos menores envolvidos na partilha. A Fazenda Santa Vitória passou, por herança, para uma filha de Mathias, Virgínia Velho Py, casada com Francisco Py (um irmão de Manoel Py).

Nos dias de hoje, um retrato de Mathias e de sua esposa Francisca, feitos pelo pintor italiano Frederico Trebbi, fazem parte do acervo do Museu do Barão de Santo Ângelo, em Rio Pardo.

Descendência

Mathias Velho e sua esposa Francisca da Terra Velho tiveram ao menos catorze filhos, que deixaram inúmeros descendentes, alguns dos quais conhecidos.

Através de seu filho mais velho, Manuel Mathias Velho (1829-1900), é um antepassado do ator Paulo César de Campos Velho, o Paulo César Peréio (1940-2024), e de seu irmão, Carlos Augusto (1946-2012), melhor conhecido Jota Pingo, artista radicado em Brasília. Também por meio do primogênito Manuel Mathias, Mathias José foi avô do Dr. Alberto de Campos Velho (n. 1856-), médico, que dá nome a uma importante avenida no bairro Cristal, em Porto Alegre, e que foi partipante da 4ª Exposição de Flores organizada pelo Estado do Rio Grande do Sul em 1920.

Através de seu terceiro filho, Miguel Mathias da Terra Velho (1833-1889), foi avô do doutor Leonel Gomes Velho (1865-1943), que ocupou o cargo de Inspetor de Saúde de Porto Alegre e chefe da Inspetoria de Saúde dos Portos do Estado durante a epidemia de varíola, e bisavô do médico e político Edgardo Pereira Velho (1901-1962), que dá nome ao distrito de Mostardas.

Através de sua filha Rita Carolina da Terra Velho (1841-1882), Mathias Velho foi avô materno da primeira médica mulher formada no Brasil, Rita Velho Lobato Lopes, graduada em 1887.

Através de sua filha Josefa Geralda Velho (1844-1912), Mathias Velho foi avô materno de Geralda Velho Cardia (1861-1929), a esposa de Protásio Alves, deputado e presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Mathias Velho foi também pai de Saturnino Mathias Velho (1849-1924), seu sétimo filho, que foi proprietário na cidade de Canoas de uma grande fazenda que hoje corresponde ao popular bairro Mathias Velho, e de um casarão antigo, demolido em 1986, que deu lugar ao shopping da cidade. Saturnino Mathias Velho foi ainda avô do político Carlos de Brito Velho (1912-1998) e bisavô do artista plástico Britto Velho (1946-).

Referências

  1. X Salão de Ensino e Extensão - UNISC: MATHIAS JOSÉ VELHO E SEUS ESCRAVOS: O INVENTÁRIO COMO FONTE DE PESQUISA.
  2. Registro de batismo, Diocese de Rio Grande
  3. MATHIAS JOSÉ VELHO E SEUS ESCRAVOS: O INVENTÁRIO COMO FONTE DE PESQUISA.

Mathias José Velho: O Magnate do Rio Grande do Sul e a Sua Extensa Descendência

Mathias José Velho (Rio Grande do Sul, 20 de outubro de 1802 — Rio Pardo, 25 de maio de 1875) foi um proeminente latifundiário brasileiro e uma das figuras financeiras mais poderosas da província de São Pedro do Rio Grande do Sul durante a segunda metade do século XIX.

1. Origens e Percurso Biográfico

Batizado em Rio Grande, Mathias era fruto da união entre Matías Bello (1860–1818), natural de Caspe (Reino de Aragão) que aportou ao Rio Grande e adotou o nome de Mathias Velho, e a açoriana Rita Maria Pereira (1765–1848), natural de Cedros (Ilha de Horta).

Embora ostentasse o título militar de major, não existem registos concretos que atestem a sua participação em campanhas bélicas ou na Guarda Nacional.

A 22 de setembro de 1827, na atual cidade de Mostardas, uniu-se pelo matrimónio a Luciana Francisca da Terra (1806–1888), filha de Manoel Francisco da Terra e de Josefa Maria do Nascimento.

A Fazenda de Santa Vitória e o Património

Em 1857, adquiriu ao Barão de Quaraí a imponente Fazenda de Santa Vitória, situada em Rio Pardo. A transação comercial inspirou, mais tarde, uma crônica sarcástica do escritor Josué Guimarães, na qual descrevia o alívio do barão em se desfazer da propriedade mal cuidada e o subsequente arrependimento do comprador Velho.

Mathias faleceu em 1875, aos 73 anos, na sua estância em Rio Pardo. O seu inventário revelou um complexo e vasto património:

  • Uma estância com 35.216 hectares de terra.

  • Mais de 15 mil animais.

  • Numerosos escravos e até "ingênuos" (filhos de escravos libertos), mesmo após a promulgação da Lei do Ventre Livre em 1871.

A partilha dos bens estendeu-se por vários anos devido à existência de um filho pré-morto e de netos menores. A Fazenda Santa Vitória foi herdada por uma das filhas, Virgínia Velho Py, casada com Francisco Py. Atualmente, retratos de Mathias José Velho e da esposa Francisca da Terra, pintados pelo italiano Frederico Trebbi, integram o acervo do Museu do Barão de Santo Ângelo, em Rio Pardo.

2. Descendência e Legado Familiar

Mathias e Francisca tiveram pelo menos catorze filhos, cujas ramificações familiares geraram figuras de enorme relevo na história política, artística, médica e social do Rio Grande do Sul e do Brasil:

  • Manuel Mathias Velho (1829–1900): O filho mais velho. É antepassado do célebre ator Paulo César Peréio (1940–2024) e do artista Jota Pingo (1946–2012). Foi também pai do Dr. Alberto de Campos Velho (n. 1856), médico homenageado com uma importante avenida no bairro Cristal, em Porto Alegre, e participante da 4ª Exposição de Flores do Estado (1920).

  • Miguel Mathias da Terra Velho (1833–1889): Terceiro filho, avô do Dr. Leonel Gomes Velho (1865–1943) — inspetor de saúde que atuou na linha da frente durante a epidemia de varíola — e bisavô do médico e político Edgardo Pereira Velho (1901–1962), que dá nome a um distrito de Mostardas.

  • Rita Carolina da Terra Velho (1841–1882): Avó materna de Rita Velho Lobato Lopes, a primeira médica formada no Brasil, graduada em 1887.

  • Josefa Geralda Velho (1844–1912): Avó materna de Geralda Velho Cardia (1861–1929), esposa de Protásio Alves, deputado e presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

  • Saturnino Mathias Velho (1849–1924): Sétimo filho, proprietário de uma vasta fazenda em Canoas cujas terras deram origem ao popular bairro Mathias Velho. Foi avô do político Carlos de Brito Velho (1912–1998) e bisavô do consagrado artista plástico Britto Velho (1946–).

Maria Francisca de Paula "Marica" Lessa: A Matriarca do Ceará e o Crime que Inspirou a Literatura Clássica

 

Marica Lessa
Nome completoMaria Francisca de Paula Lessa
Nascimento
Morte
c. 1887

ProgenitoresMãe: Francisca Maria de Paula
Pai: José dos Santos Lessa
ParentescoVicente Alves de Paula Pessoa (primo)
Stênio Gomes da Silva (sobrinho-trineto)
CônjugeDomingos Vítor de Abreu e Vasconcelos (c. 1827–53)
Ocupaçãoproprietária rural

Maria Francisca de Paula "Marica" Lessa (Quixeramobim, janeiro de 1804Fortaleza, após 1887) foi fazendeira brasileira acusada de ser mandante do assassinato de seu próprio esposo, o coronel Domingos Vítor de Abreu e Vasconcelos, crime este que inspirou Oliveira Paiva a escrever o romance Dona Guidinha do Poço, considerada um clássico da literatura brasileira.

Biografia

Marica era a terceira dos quatro filhos de José dos Santos Lessa, capitão-mor da então vila de Campo Maior de Quixeramobim, com sua prima cruzada, Francisca Maria de Paula. O capitão-mor era o homem mais rico da região, tendo sido um dos primeiros vereadores daquele município, cargo que voltou a exercer várias vezes, além de outros cargos públicos. Pelo lado materno, era neta do tenente-coronel Vicente Alves da Fonseca e de sua primeira esposa, Maria Francisca do Espírito Santo. Fonseca era dono de praticamente todo o atual distrito de Pirabibu, e que foi o construtor do primeiro açude público no Ceará, entre os anos 1770 e 1780. Viúvo, casou-se pela segunda vez com Ângela Teresa de Jesus (a mãe Anjinha do romance de Oliveira Paiva), que ministrou as primeiras letras à menina Marica.

Marica foi batizada em 11 de abril de 1804, na Matriz de Quixeramobim, pelo padre José Basílio Moreira, tendo como padrinhos o tio Vicente Alves da Fonseca (Filho) e a esposa deste, Antônia Geracina Isabel de Mesquita, cuja filha, Francisca Maria Carolina, viria a ser esposa do senador Francisco de Paula Pessoa[1]. Logo, era prima-tia do senador Vicente Alves de Paula Pessoa e também tia-bisavó de Estênio Gomes da Silva.

Em 30 de junho de 1827, quando contava 23 anos de idade, casou-se com Domingos Vítor de Abreu e Vasconcelos, natural de Goiana, Pernambuco, cavalariano, i.e., comerciante de cavalos. Eles não tiveram filhos, mas viviam em certa harmonia. Marica era a senhora de todos os bens, mas, ainda assim, Domingos veio a se tornar uma figura de prestígio, sucedendo ao sogro na vida pública de Quixeramobim: juiz de paz, vereador, depois presidente da Câmara, suplente de juiz municipal, coronel da Guarda Nacional e chefe do Partido Liberal na ausência do presidente local, Antônio Pinto de Mendonça.

Crime

Um dia apareceu na fazenda um sobrinho do coronel, Senhorinho Antônio da Silva Pereira, foragido da justiça de Goiana, onde fora acusado de ser cúmplice no assassinato de seu padrasto. O tio o acolheu, deu-lhe suporte e, através da política, procurou livrá-lo do processo. Nesse ínterim, Pereira se estabeleceu na vila com uma casa comercial e, após liquidar o negócio, numa das fazendas dos tios.

Marica começou a se preocupar cada vez mais com Senhorinho, ainda mais do que com seu esposo. Mandou um emissário em segredo a Pernambuco para averiguar o andamento do processo na justiça, e tudo mais fez para atrair sua atenção. Com a subida do Partido Liberal ao governo, não foi difícil conseguir a absolvição, e o fato foi comemorado com muita alegria na fazenda de Lessa. Quando Senhorinho possuía casa comercial, Marica tornou-se sua freguesa principal; depois, quando ele passou a cortejar a filha do juiz, ela não fez questão de esconder seu desgosto, fazendo críticas mordazes e procurando estorvar o namoro. Convidava-o frequentemente para ir a sua fazenda, a festas e outros eventos, com o intuito de sempre tê-lo por perto. As pessoas da fazenda não demoraram a notar o proceder da matrona e começaram a fazer comentários desairosos a este respeito. Senhorinho igualmente passou a dar cada vez menos atenção ao tio e protetor. Domingos Vítor via tudo impassível, até que os rumores chegaram a seus ouvidos.

Oliveira Paiva e João Batista Saraiva Leão afirmam que o coronel pensou primeiramente em suicídio em vez de reagir contra os dois traidores. Mais tarde, porém, expulsou Senhorinho de sua casa. No entanto, o ambiente na fazenda Canafístula lhe foi ficando cada vez mais hostil, visto que algumas das pessoas que lá trabalhavam eram favoráreis a Marica e Senhorinho. Domingos então foi a Fortaleza a procura de Tomás Pompeu de Sousa Brasil, seu líder político, para tratar do desquite e pedir proteção ao chefe de polícia. De volta a Quixeramobim, não sentindo mais seguro na fazenda, Domingos resolveu fixar residência numa das casas da vila, recebendo proteção da polícia, com acompanhamento discreto de um soldado sempre que saía de casa.

Enquanto isso, Marica estaria planejando modos de dar fim à vida do cônjuge. Teria, primeiramente, mandado buscar um criminoso (chamado no romance de Lulu Venâncio) que acoitara e que se refugiava no Riacho do Sangue, mas este terminou não cumprindo sua ordem. Marica então pediu ajuda a Francisco dos Santos, um retirante da seca de 1845 que por ali se fixara e que se tornara seu compadre, dando todo seu apoio ao romance entre ela e Senhorinho. Silveira indicou-lhe para executor do crime o escravo Manuel Ferreira do Nascimento, vulgo Corumbé, afilhado de Marica e de Domingos. Assim foram os dois homens à vila, ficando na casa de uma protegida de Marica, entre os animais, para fugirem após a consumação do crime. Corumbé dirigiu-se então à casa do padrinho, aproveitando-se de sua familiaridade para entrar. O coronel Domingos Vítor, que se encontrava fazendo sua barba, ao ver o afilhado, cumprimentou-lhe e virou-se para a mesa a fim de guardar a tesoura. Corumbé aproveitou a oportunidade e apunhalou-lhe nas costas. Domingos teve morte quase que instantânea, mas ainda conseguiu gritar para a cozinheira pedindo socorro. Esta saiu às ruas em busca de auxílio e logo várias pessoas apareceram, inclusive o vigário, que retirou o punhal e perguntou quem o havia golpeado. Domingos denunciou Corumbé e em seguida expirou.

Corumbé foi preso sem muita dificuldade, pois, por estar todo encourado, tinha dificuldade de se locomver. Confessou o crime assim que preso, acusando Marica Lessa de ser a mandante do crime. Ao saber de sua prisão, Francisco dos Santos fugiu e nunca foi encontrado pela polícia.

O sepultamento do coronel Domingos foi realizado no mesmo dia, em 20 de setembro de 1853, na igreja matriz de Quixeramobim, o qual foi um dos mais concorridos que aquele município já presenciara. Durante muitos anos, na casa onde aconteceu o crime, ainda era possível ver impresso na parede da sala de estar a mancha da mão ensanguentada do coronel, que ali se apoiara após passar a mão na ferida. A crendice popular dava a essa mancha um caráter de um pedido de justiça, partido de uma alma no limiar da eternidade, o que teria motivado sua conservação por muitos anos.

Prisão e julgamento

Marica e Senhorinho foram presos no dia seguinte ao do crime, recolhidos à cadeia pública de Quixeramobim, onde já estava Corumbé, assistidos pelo vigário e pelo juiz de direito. Processados, foram pronunciados em 28 de outubro do mesmo ano, conforme ofício do delegado suplente, coronel Manuel de Torres Câmara, ao chefe de polícia da província, Antônio José Machado, datado de 22 de janeiro de 1854.

Por medida de segurança, o destacamento de polícia foi reforçado, mas, tendo em vista as despesas que isto acarretaria, o chefe de polícia preferiu transferir os presos para Fortaleza. Marica Lessa foi a cavalo, enquanto que os outros presos fizeram o trajeto a pé, amarrado com cordas. Eles deram entrada na Cadeia Pública de Fortaleza em 8 de novembro de 1853.

A repercussão de seu crime chegou à Corte Imperial, através de ofício do então presidente da província, Joaquim Vilela de Castro Tavares, ao ministro da Justiça, conselheiro José Tomás Nabuco de Araújo Filho. Este, em resposta, manda recomendações do imperador Pedro II quanto à prisão do foragido Francisco dos Santos e o pronto julgamento dos réus. No entanto, Francisco dos Santos jamais foi encontrado, enquanto que o julgamento de Marica e Senhorinho só veio a acontecer mais de dois anos depois do crime. Além disso, durante esse período, em outubro de 1856, houve uma fuga de presos da Cadeia Pública, entre os quais, estava Corumbé, o executor material do assassinato.

Marica Lessa enfim foi a júri nos dias 14 e 15 de abril de 1856. O julgamento foi presidido pelo recém-empossado juiz municipal de Quixeramobim, Francisco de Faria Lemos, e teve Joaquim Mendes da Cruz Guimarães como promotor. A ré foi defendida por Benedito Marques da Silva Acauã. Embora alegando inocência, ela foi condenada a vinte anos de prisão com trabalho e custas. Senhorinho foi julgado quatro dias depois, tendo como advogado de defesa Leandro de Chaves e Melo Ratisbona; ele, por sua vez, foi condenado a apenas quatro anos.

Corumbé permaneceu foragido até junho de 1861, quando foi encontrado numa fazenda que pertencia a uma cunhada de Marica. Ele foi levado a júri duas vezes: em 5 de abril de 1862 e em 12 de novembro de 1864. Ambos os julgamentos foram presididos por Francisco de Assis Bezerra de Meneses, o promotor de justiça foi João Pinto de Mendonça e o defensor do réu, nomeado pelo juiz, foi Antônio Rodrigues da Silva e Sousa, coronel da Guarda Nacional. Não se sabe ao certo qual teria sido a penalidade imposta, mas acredita-se que Corumbé tenha terminado seus dias no presídio de Fernando de Noronha.

Como o Ceará não possuía próprio tribunal de relação, Marica recorreu de sua sentença para o tribunal de Pernambuco, ao qual sua província era subordinada. Todavia, o novo veredito lhe foi mais cruel, impondo-lhe trinta anos de prisão. Logo após o julgamento, foi abandonada por Senhorinho, que obteve da Justiça Imperial o direito de cumprir sua pena na prisão de Belém.

Empobrecimento, libertação e fim de vida

Marica teve que vender todas as suas propriedades para arcar com as despesas de advogado e outros gastos com a justiça. Dentre essas propriedades, está a fazenda conhecida hoje como Massapê Grande, que ela vendeu em 23 de agosto de 1856 a Antônio Ferreira Severo, por cem mil réis, que já pertenceu ao ex-ministro Armando Falcão, bisneto do comprador original. As outras foram sendo vendidas seguidamente até não restar uma sequer.

Ao sair da prisão, não quis voltar a Quixeramobim e passou a vagar pela cidade de Fortaleza como mendiga. O escritor Gustavo Barroso, que a conheceu pessoalmente em seus últimos anos, descrevia-a como uma velha desgrenhada, farrapenta e suja, que a molecada perseguia com chufas, a que ela replicava com os piores doestos deste mundo[2]. As chufas sempre faziam referência ao assassinato de seu esposo, cuja culpa ela sempre negou com veemência.

O caso de Marica Lessa foi romanceado com fidelidade, apesar das trocas dos nomes, por Manuel de Oliveira Paiva em seu livro Dona Guidinha do Poço, escrito quando o autor foi a Quixeramobim tratar da saúde, em 1891, mas que só veio a ser publicado sessenta anos depois, por iniciativa da escritora Lúcia Miguel Pereira. A obra é considerada por muitos um clássico do realismo brasileiro. Em 1963, o historiador e escritor Ismael de Andrade Pordeus publicou À Margem de Dona Guidinha do Poço, em que dá a versão histórica do caso.

Em meados dos anos 1970, o dramaturgo B. de Paiva, sobrinho de Oliveira Paiva, cogitou adaptar o romance de seu tio para telenovela, porém o projeto não foi para frente por falta de apoio.

Notas e referências

  1. Quixeramobim, Batismos, fl. 126, Livro 5
  2. A Verdadeira Dona Guidinha do Poço, crõnica publicada no livro À Margem da História do Ceará, de Gustavo Barroso

Maria Francisca de Paula "Marica" Lessa: A Matriarca do Ceará e o Crime que Inspirou a Literatura Clássica

Maria Francisca de Paula "Marica" Lessa (Quixeramobim, janeiro de 1804 — Fortaleza, após 1887) foi uma fazendeira brasileira cuja trajetória marcou profundamente a história do Ceará no século XIX. Ficou nacionalmente conhecida por ter sido acusada e condenada como a mandante do assassinato de seu próprio esposo, o coronel Domingos Vítor de Abreu e Vasconcelos — um crime célebre que inspirou o escritor Oliveira Paiva a redigir o romance realista Dona Guidinha do Poço, considerado um clássico da literatura brasileira.

1. Origens e Contexto Familiar

Marica nasceu em Quixeramobim, sendo a terceira dos quatro filhos de José dos Santos Lessa — capitão-mor e um dos homens mais ricos e influentes da então vila de Campo Maior de Quixeramobim — com sua prima cruzada, Francisca Maria de Paula.

Pelo lado materno, era neta do tenente-coronel Vicente Alves da Fonseca, proprietário de quase todo o atual distrito de Pirabibu e responsável pela construção do primeiro açude público do Ceará entre 1770 e 1780. Após a viuvez, seu avô casou-se com Ângela Teresa de Jesus (a figura que inspirou a "mãe Anjinha" na obra de Oliveira Paiva), sendo esta responsável por ministrar as primeiras letras à jovem Marica.

Em 30 de junho de 1827, aos 23 anos, Marica casou-se com Domingos Vítor de Abreu e Vasconcelos, um comerciante de cavalos natural de Goiana (Pernambuco). Embora o casal não tenha tido filhos, Domingos ascendeu social e politicamente na região, herdando o prestígio do sogro ao ocupar cargos como juiz de paz, vereador, presidente da Câmara, coronel da Guarda Nacional e líder local do Partido Liberal.

2. O Crime: A Traição e o Assassinato do Coronel

O ponto de virada na vida da família ocorreu com a chegada à fazenda de Senhorinho Antônio da Silva Pereira, sobrinho do coronel Domingos que fugira da justiça de Pernambuco sob a acusação de cumplicidade no assassinato de seu próprio padrasto. O coronel acolheu-o e tentou protegê-lo por vias políticas.

Com o tempo, Senhorinho estabeleceu-se na região, mas a atenção de Marica voltou-se para o jovem de forma obsessiva. A fazendeira cortejou-a e protegeu-a abertamente, desagradando os moradores e distanciando o rapaz do tio. Informado dos rumores de traição, o coronel Domingos Vítor tentou inicialmente o desquite e buscou proteção policial, refugiando-se em uma casa na vila de Quixeramobim.

A Execução

Afastado na vila e sob escolta discreta, o coronel foi surpreendido a 19 de setembro de 1853. Marica teria articulado a execução com a ajuda de Francisco dos Santos, que indicou o escravo Manuel Ferreira do Nascimento (vulgo Corumbé) — afilhado do casal — como o braço armado.

Aproveitando-se da familiaridade de afilhado, Corumbé entrou na residência enquanto o coronel fazia a barba e desferiu-lhe um golpe fatal de punhal pelas costas. Antes de expirar, Domingos Vítor denunciou Corumbé às autoridades. O sepultamento, realizado no dia seguinte na matriz de Quixeramobim, foi um dos mais concorridos da história local.

3. Prisão, Julgamento e Condenação

No dia seguinte ao crime, Marica e Senhorinho foram detidos e recolhidos à cadeia pública. Dada a repercussão do caso — que chegou à Corte Imperial através de ofícios trocados com o imperador D. Pedro II —, os réus foram transferidos para a Cadeia Pública de Fortaleza em novembro de 1853.

  • O Júri de Marica: Após longos adiamentos e trâmites, Marica Lessa foi a júri em abril de 1856 e condenada a 20 anos de prisão com trabalho.

  • O Recurso em Pernambuco: Como o Ceará ainda não possuía Tribunal de Relação próprio, o processo foi julgado em instâncias superiores em Pernambuco, onde a pena de Marica foi agravada para 30 anos de prisão. Logo após o veredito, Senhorinho abandonou-a, obtendo o direito de cumprir pena em Belém.

  • O Executor (Corumbé): Após fugir da cadeia em 1856, Corumbé foi recapturado anos mais tarde, em 1861, e submetido a julgamento na década de 1860, terminando seus dias no presídio de Fernando de Noronha.

4. O Fim da Vida e o Legado na Cultura Popular

Para arcar com os custos jurídicos e as despesas com advogados, Marica viu-se obrigada a liquidar todo o seu vasto património, vendendo terras históricas (como a fazenda Massapê Grande) por valores irrisórios até não lhe restar absolutamente nada.

Após cumprir sua longa pena, recusou-se a retornar a Quixeramobim, passando a vagar pelas ruas de Fortaleza como mendiga. Foi conhecida e descrita pelo escritor Gustavo Barroso em sua velhice como uma figura esquecida e farrapenta, que negava veementemente a autoria do crime até o fim de seus dias, falecendo após 1887.

A Obra Literária

A tragédia serviu de base para Manuel de Oliveira Paiva escrever o célebre romance Dona Guidinha do Poço (redigido em 1891 e publicado postumamente na década de 1950), consagrado como um marco do realismo brasileiro. A história também foi esmiuçada pelo historiador Ismael de Andrade Pordeus na obra histórica À Margem de Dona Guidinha do Poço (1963).