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domingo, 4 de janeiro de 2026

A Casa de Walter Kipper: Entre a Vida Doméstica e o Espírito Comercial no Centro de Curitiba

 Denominação inicial:  Projecto de casa para o Snr. Walter Kipper

Denominação atual: Comercial

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Médio Porte

Endereço: Saldanha Marinho, n° 121

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 310,00 m²
Área Total: 310,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 27/04/1930

Alvará de Construção: Talão Nº 27426; N° 1933/1930

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio e, fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Existente


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Fotografia do imóvel em 2012.

Referências: 

1 - PINNOW, Francisco. Projecto de casa para o Snr. Walter Kipper à rua Saldanha Marinho, n° 121. Plantas do pavimento térreo e superior e de implantação, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012)

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.

A Casa de Walter Kipper: Entre a Vida Doméstica e o Espírito Comercial no Centro de Curitiba

Na Rua Saldanha Marinho, uma das artérias históricas do centro de Curitiba, ergue-se desde 1930 um sobrado que encarna, com elegância e funcionalidade, a dualidade típica da cidade na primeira metade do século XX: o encontro entre o lar e o comércio, entre o privado e o público, entre tradição construtiva e modernidade urbana.


Um Projeto de Classe Média Ascendente

Em 27 de abril de 1930, o arquiteto Francisco Pinnow — figura relevante na formação da paisagem arquitetônica curitibana — entregou o projeto de uma casa de médio porte destinada a Walter Kipper, cujo sobrenome sugere origem alemã, comum entre os imigrantes que impulsionaram o desenvolvimento econômico e cultural do Paraná.

Localizada no número 121 da Rua Saldanha Marinho, em posição privilegiada no centro da capital, a edificação foi concebida para dupla finalidade: residência no pavimento superior e comércio no térreo — um modelo arquitetônico então em franca expansão nas cidades brasileiras, permitindo que famílias vivessem acima de seus próprios negócios, mantendo proximidade, economia e vigilância.

Com dois pavimentos e 310 m² de área total (provavelmente 155 m² por andar, já que a área total igual à do pavimento sugere um erro de registro nos dados originais), a construção utilizou alvenaria de tijolos — material mais durável e prestigiado do que a madeira, indicando certo grau de estabilidade financeira do proprietário e uma aposta na longevidade do edifício.

O alvará de construção, emitido sob o número 1933/1930 (Talão nº 27426), sinaliza a regularidade do empreendimento perante as autoridades municipais da época — um detalhe que, aliado à qualidade do projeto, revela o compromisso com a urbanidade e a ordem pública em uma Curitiba que se modernizava rapidamente.


Arquitetura Funcional com Toques de Sofisticação

O projeto, hoje preservado em microfilme digitalizado, apresenta em uma única prancha as plantas dos dois pavimentos, implantação no terreno, corte estrutural e fachada frontal. A fachada, visível na fotografia registrada por Elizabeth Amorim de Castro em 2012, mantém boa parte de sua configuração original: linhas sóbrias, proporções equilibradas, aberturas simétricas e um tratamento vertical que destaca a separação entre o térreo comercial e o andar residencial.

Embora não se enquadre no estilo eclético ou art déco pleno — comuns em edifícios mais luxuosos da época —, a casa de Walter Kipper exibe qualidade construtiva, bom gosto e racionalidade espacial, características típicas da produção de Francisco Pinnow, conhecido por sua arquitetura funcional, porém humanizada.

O térreo, voltado para o comércio, possivelmente abrigava uma loja, escritório ou oficina — atividades que, nas décadas seguintes, se adaptariam às transformações econômicas da região central. Já o pavimento superior, mais reservado, era dedicado à vida familiar: salas de estar, quartos, cozinha e área de serviço, organizados com privacidade e conforto relativo à época.


Sobrevivente do Tempo

Diferentemente de tantos edifícios históricos demolidos em nome do “progresso”, a casa de Walter Kipper permanecia de pé em 2012, conforme atesta a fotografia de Elizabeth Amorim de Castro. Sua preservação física é um testemunho raro da arquitetura residencial-comercial de classe média da Curitiba pré-1950, um patrimônio frequentemente negligenciado em favor de monumentos mais espetaculares.

Embora possivelmente modificado por intervenções internas ou fachadas atualizadas, o edifício mantém sua volumetria, proporção e localização original, integrando-se ao tecido urbano histórico da Rua Saldanha Marinho — via que abriga diversos exemplares de arquitetura civil do início do século XX.


Legado de Um Nome, Memória de Uma Cidade

Walter Kipper talvez nunca tenha sido uma figura pública. Seu nome não consta nas páginas dos jornais da época, exceto, talvez, em registros cartorários ou anúncios comerciais. Mas sua casa — erguida com cuidado, planejada com rigor e habitada com propósito — é um fragmento vivo da história social e urbana de Curitiba.

Ela representa a ascensão da classe média urbana, a mistura de funções na cidade tradicional, e a capacidade da arquitetura de servir à vida real, sem alarde, mas com dignidade.


Conclusão: Preservar o Cotidiano

A casa de Walter Kipper não é um palácio, nem um marco arquitetônico nacional. Mas é, justamente por isso, tão valiosa. Ela mostra como a maioria vivia, trabalhava e sonhava. É um patrimônio do cotidiano — e talvez o mais legítimo de todos.

Que sua existência continue a inspirar o olhar atento para o que é simples, mas essencial; para o que é modesto, mas significativo.

“Nas cidades, não são apenas os monumentos que contam histórias. Às vezes, é a janela de um sobrado comercial, onde alguém um dia acendeu a luz para jantar com a família.”


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