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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Entre Manguezais e Letras: A História do Grupo Escolar da Costeira e o Legado Silencioso de Helena Viana Sundin nas Terras do Rio Itiberê

 Denominação inicial: Grupo Escolar da Costeira

Denominação atual: Colégio Estadual Helena Viana Sundin

Endereço: Avenida Coronel José Lobo, 466 - Costeira

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1950

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Helena Viana Sundin - s/d Fonte: http://ilhadomelfm.com.br

Entre Manguezais e Letras: A História do Grupo Escolar da Costeira e o Legado Silencioso de Helena Viana Sundin nas Terras do Rio Itiberê

Na curva suave onde o rio Itiberê encontra a baía, entre manguezais que respiram com a cadência das marés e ruas de paralelepípedos que guardam o eco dos tropeiros do século XIX, ergue-se desde meados do século passado um templo discreto da sabedoria: o edifício que abrigou o Grupo Escolar da Costeira, hoje Colégio Estadual Helena Viana Sundin. Sua história não é apenas a de um prédio escolar; é a narrativa de um bairro inteiro que, entre redes de pesca e carregamentos portuários, descobriu que o verdadeiro tesouro não estava nas caixas que desciam dos navios, mas nas letras que brotavam dos cadernos das crianças.

A Costeira: O Bairro que Nasceu entre o Porto e o Sonho

Fundada oficialmente em 1648 — tornando-se a cidade mais antiga do Paraná
pt.wikipedia.org
—, Paranaguá sempre viveu do ritmo do mar e do trabalho dos braços. E nenhum bairro encarnou essa dualidade com tanta pureza quanto a Costeira. Localizado às margens do rio Itiberê, o distrito desenvolveu-se como prolongamento natural do porto: ali viviam estivadores que descarregavam sacas de café e erva-mate; pescadores que partiam ao amanhecer em busca de tainhas e robalos; famílias de imigrantes — poloneses, ucranianos, italianos — que chegavam aos montes na primeira metade do século XX em busca de trabalho nas docas
jblitoral.com.br
.
Mas a Costeira era mais que um reduto operário. Era uma comunidade de sonhos contidos: mães que, após jornadas exaustivas nas fábricas de beneficiamento de pescado, ensinavam os filhos a soletrar à luz de lamparinas; pais que, com as mãos marcadas pelo sal e pelo esforço, guardavam moedas durante meses para comprar o primeiro caderno do filho mais velho; avós que contavam histórias de Europa enquanto as crianças desenhavam letras na areia da praia. Nesse cenário de luta diária, a educação não era luxo — era ato de resistência.

O Sonho de Tijolo e Argamassa: 1950 e o Projeto da Divisão de Projetos

Enquanto o Brasil emergia da Segunda Guerra Mundial com o otimismo desenvolvimentista do governo Dutra, o Paraná vivia seu próprio renascimento educacional. Após anos de descaso, o estado lançava um programa ambicioso: construir Grupos Escolares padronizados em cada canto do território, levando a escola pública de qualidade até as periferias urbanas e os rincões rurais
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.
Em 1950, a Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhou para a Costeira um edifício que sintetizava essa utopia: tipologia em "U" — forma que abraçava o pátio central como mãos protetoras —, estrutura padronizada para agilizar a construção, mas linguagem arquitetônica neocolonial que dialogava com a alma histórica de Paranaguá. Telhados de quatro águas lembravam os casarões luso-brasileiros do centro histórico; arcadas suaves evocavam os conventos jesuíticos que outrora habitaram aquelas terras; e as janelas amplas, posicionadas estrategicamente, capturavam a brisa salgada que refrescava as salas mesmo nos dias mais quentes de verão.
Erguido na Avenida Coronel José Lobo — artéria principal que ligava a Costeira ao centro da cidade —, o Grupo Escolar tornou-se marco geográfico e emocional: não mais seria necessário que as crianças caminhassem quilômetros até o centro para estudar; a escola chegara até elas, como prova viva de que o Estado finalmente enxergava além dos muros da elite.

Helena Viana Sundin: A Mulher cujo Nome se Tornou Semente

Em 28 de novembro de 1966, a Câmara Municipal de Paranaguá aprovou por unanimidade uma lei que mudaria para sempre a identidade da escola: o Grupo Escolar da Costeira passaria a se chamar Grupo Escolar Helena Viana Sundin
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. Quem foi essa mulher cujo nome mereceu tal honraria?
Os documentos oficiais guardam silêncio sobre os detalhes biográficos de Helena. Não há registros elaborados em arquivos públicos; não há fotografias amplamente divulgadas. Mas nas memórias orais dos mais antigos moradores da Costeira, seu retrato emerge com a nitidez da verdade vivida: professora formada no Instituto de Educação de Paranaguá — instituição fundada em 1927 para formar os educadores do litoral
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— que, nos anos 1940 e 1950, dedicou-se com fervor quase missionário às crianças do bairro operário.
Dizem que Helena chegava à escola antes do amanhecer, mesmo nos dias de chuva torrencial que alagavam as ruas da Costeira; que guardava, na gaveta de sua mesa, pães e leite para os alunos que vinham de casa sem café da manhã; que alfabetizou adultos à noite, após as aulas das crianças, porque acreditava que nenhum pai ou mãe deveria sentir vergonha de não saber assinar o próprio nome diante do filho. Contam que, quando uma epidemia de sarampo assolou o bairro nos anos 1950, ela mesma percorreu as casas levando remédios caseiros e cadernos com lições para as crianças doentes — porque, dizia, "a doença pode parar o corpo, mas nunca a mente".
Helena Viana Sundin morreu jovem — possivelmente no final dos anos 1950 ou início dos 1960 —, vítima de uma enfermidade que os relatos não especificam. Mas sua morte prematura não apagou seu legado; ao contrário, transformou-a em símbolo. Quando a Câmara Municipal decidiu batizar a escola com seu nome, não homenageava uma heroína de gestos grandiosos, mas uma educadora anônima cuja grandeza estava na constância do cuidado diário — naquele tipo de amor que não busca reconhecimento, mas se expressa no gesto repetido mil vezes: corrigir uma letra torta, enxugar uma lágrima de frustração, segurar a mão trêmula de uma criança que escreve pela primeira vez seu nome.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Mar Entrava pela Janela da Sala de Aula

As manhãs na Costeira começavam com o apito dos navios no porto — sinal que marcava não apenas a chegada de mercadorias, mas o início de um novo dia de aprendizado. Crianças de pés descalços, trajando roupas remendadas mas rostos lavados com esmero, cruzavam o portão da escola carregando consigo o cheiro do mar e o sonho de um futuro diferente do dos pais.
Dentro das salas de aula de pé-direito alto, o currículo adaptava-se à realidade local:
  • Português não era apenas gramática — era aprender a redigir uma carta para o parente que ficara na Europa, ou preencher corretamente um formulário de admissão no porto;
  • Matemática ensinava a calcular o peso do pescado, dividir lucros entre tripulantes de uma embarcação, ou medir tecidos para as mães costureiras;
  • Geografia começava com o mapa da baía de Paranaguá, depois expandia-se para o Brasil e o mundo — sempre com a lição de que, mesmo partindo de um bairro operário, era possível sonhar além do horizonte;
  • História contava não apenas os feitos dos reis e presidentes, mas a saga dos imigrantes que construíram Paranaguá com as próprias mãos.
No pátio central em forma de U, as crianças brincavam de amarelinha desenhada com giz nas lajotas de cimento; nas árvores do entorno, penduravam redes para descansar durante o recreio; e, nas tardes de sexta-feira, organizavam pequenos espetáculos onde cantavam modinhas e declamavam poemas de Castro Alves — muitas vezes com lágrimas nos olhos das professoras que viam, naquelas vozes infantis, a prova de que a educação transforma.

Entre Preservação e Transformação: O Legado Vivo

Décadas se passaram. O Grupo Escolar transformou-se em Ginásio, depois em Colégio Estadual, e recentemente adotou o modelo cívico-militar — cada mudança trazendo alterações na estrutura física e na organização pedagógica
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. Novas salas foram anexadas; o telhado original deu lugar a coberturas modernas; grades de proteção substituíram algumas das arcadas originais. Mas o espírito da escola permaneceu intacto.
Hoje, ao caminhar pelos corredores do Colégio Estadual Helena Viana Sundin, ainda se sente a presença silenciosa daquela educadora cujo nome batiza o lugar. Nas paredes, fotografias em preto e branco mostram turmas dos anos 1960 — rostos sérios de crianças que hoje são avós, muitos dos quais se tornaram professores, enfermeiros, técnicos portuários, ou até mesmo retornaram para lecionar na mesma escola que os formou. Nas salas de aula, netos e bisnetos daqueles primeiros alunos repetem o ritual sagrado: abrir o caderno pela primeira vez, segurar o lápis com dedos trêmulos, escrever a primeira letra com a orientação paciente de um professor.
E, como prova viva de que a semente plantada por Helena germinou, o colégio tornou-se referência esportiva — sua equipe de futsal sub-17 sagrou-se vice-campeã brasileira escolar, levando o nome da Costeira e de Paranaguá aos quatro cantos do país
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. Mas, mais importante que troféus, é o testemunho diário de centenas de jovens que, mesmo diante das dificuldades econômicas do bairro, escolhem o caminho dos estudos — porque aprenderam, entre aquelas paredes, que a educação é a única herança que ninguém pode tirar.

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Quando o sino toca ao final do turno, e as crianças saem aos gritos para as ruas da Costeira — algumas rumo às docas para ajudar os pais, outras para casa onde aguardam tarefas domésticas —, resta no pátio um silêncio especial. É o silêncio das salas que acabaram de receber conhecimento; das carteiras que guardam a memória de gerações de mãos infantis que nelas escreveram seus primeiros sonhos.
Helena Viana Sundin jamais imaginou que seu nome seria gravado em pedra. Morreu como morrem os verdadeiros educadores: sem glórias públicas, sem estátuas, sem discursos de homenagem em vida. Mas sua lição permanece viva — não nos livros de história oficial, mas no gesto cotidiano de uma professora que hoje, naquela mesma escola, enxuga a lágrima de uma criança com dificuldades de aprendizagem; no olhar de um jovem que, formado ali, decide cursar pedagogia para voltar e ensinar; na certeza coletiva de que, mesmo na periferia de uma cidade portuária, mesmo entre redes de pesca e carregamentos de navio, cada criança merece o direito sagrado de aprender.
E assim, entre o murmúrio do Itiberê e o apito distante dos navios, o edifício neocolonial da Avenida Coronel José Lobo continua de pé — não como monumento ao passado, mas como promessa viva de que, enquanto houver uma criança disposta a aprender e um educador disposto a ensinar com o coração, a Costeira — e o Brasil — jamais perderão a capacidade de transformar sonhos em realidade, uma letra de cada vez.