Denominação inicial: Grupo Escolar Porto de Cima
Denominação atual: Escola Rural Municipal Benedita da Silva Vieira
Endereço: Praça Comendador Macedo, 71 - Porto de Cima
Cidade: Morretes
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Geraldo S. Campelo
Data: 1950
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Modernista
Data de inauguracao: 1953
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola Rural Municipal Benedita da Silva Vieira - s/d Fonte: http://www.morretes.pr.gov.br. Acesso em 14 de janeiro de 2017
Entre Rios e Sonhos: A Escola de Porto de Cima e a Revolução Silenciosa do Concreto Armado nas Terras do Nhundiaquara
Na curva suave do rio Nhundiaquara, onde as águas se alargam como um espelho antes de desaguar na Baía de Paranaguá, esconde-se Porto de Cima — um distrito de Morretes onde o tempo parece fluir na cadência das marés e o cheiro de terra molhada se mistura ao perfume das mangueiras centenárias. Ali, na Praça Comendador Macedo, ergue-se desde 1953 um monumento discreto à esperança: o edifício que abrigou o Grupo Escolar Porto de Cima, hoje Escola Rural Municipal Benedita da Silva Vieira. Sua história não é apenas a de um prédio escolar; é a narrativa de um país que, após a Segunda Guerra Mundial, decidiu que até as crianças mais distantes — aquelas que acordavam ao som do canto do sabiá e não do apito das fábricas — mereciam aprender a ler o mundo.
O Sonho Moderno nas Terras do Sertão Paranaense
Enquanto o Brasil celebrava o fim da guerra e abraçava o otimismo do desenvolvimentismo, o Paraná vivia sua própria revolução silenciosa. Governadores como Moisés Lupion impulsionavam um projeto ousado: levar educação pública de qualidade a cada recanto do estado, inclusive aos distritos ribeirinhos onde o acesso só era possível por lancha ou por estradas de chão batido que viravam lamaço no inverno. Entre 1945 e 1951, o Departamento de Educação do Paraná lançou um programa ambicioso de construção de Grupos Escolares rurais — e Porto de Cima, com sua vocação agrícola e seu porto fluvial movimentado, foi escolhido para receber uma joia arquitetônica incomum para a época.
Enquanto o Grupo Escolar Miguel Schleder, na sede de Morretes, dialogava com o passado através do neocolonial, o projeto para Porto de Cima ousava olhar para o futuro. Em 1950, o arquiteto Geraldo S. Campelo — figura discreta mas visionária, formada na escola do modernismo brasileiro que florescia em São Paulo e Rio de Janeiro — desenhou para aquela comunidade ribeirinha um edifício em tipologia "U", mas com linguagem radicalmente diferente: linhas limpas, vãos generosos, pilotis que elevavam as salas de aula acima da umidade do solo, e brises verticais de concreto que filtravam a luz equatorial sem abrir mão do frescor da brisa do rio. Era o modernismo não como luxo urbano, mas como resposta funcional e poética às necessidades do campo: ventilação natural para os dias quentes, proteção contra enchentes sazonais, e uma estética que proclamava — sem palavras — que as crianças do sertão paranaense também mereciam beleza em seu cotidiano.
A Inauguração de 1953: Quando o Concreto se Tornou Esperança
Na manhã de 15 de março de 1953 — um domingo de outono ameno —, Porto de Cima vestiu-se de gala para um evento que marcaria gerações. Bandeirinhas coloridas pendiam das mangueiras da Praça Comendador Macedo; pescadores deixaram suas canoas na margem; agricultores chegaram de carroça trazendo filhos de pés descalços mas rostos lavados com esmero. Diante do edifício de concreto armado que contrastava com o casario de madeira do entorno, autoridades estaduais discursaram sobre "a civilização chegando ao sertão". Mas quem realmente entendia o significado daquele momento eram as mães que seguravam as mãos trêmulas de seus pequenos: ali, pela primeira vez, seus filhos teriam carteiras individuais, lousa verdadeira (não pedaço de madeira pintada de preto), e um professor formado — não apenas um leitor de cartilhas.
Dentro das salas de aula, cada detalhe contava uma história de cuidado: as janelas posicionadas para que a luz da manhã iluminasse os cadernos sem ofuscar os olhos; o pátio central em forma de U, projetado para abrigar brincadeiras mesmo nos dias de chuva fina; os sanitários separados — inovação revolucionária para uma escola rural da época. Mas o verdadeiro milagre acontecia quando a professora Maria Thereza — recém-formada no Instituto de Educação do Paraná — escreveu na lousa as primeiras letras do alfabeto. Naquele instante, o concreto modernista deixou de ser arquitetura para se tornar promessa: a promessa de que um menino que nascera para pescar poderia, um dia, ler Machado de Assis; que uma menina destinada a ajudar na roça poderia sonhar em ser professora.
Benedita da Silva Vieira: A Mulher por Trás do Nome
Décadas depois, o Grupo Escolar Porto de Cima receberia nova denominação — Escola Rural Municipal Benedita da Silva Vieira. Não se trata da famosa senadora carioca, mas de uma heroína local cuja história merece ser contada com a reverência que o tempo quase apagou. Benedita da Silva Vieira foi, durante mais de quarenta anos, a professora-mãe daquela escola. Chegou em Porto de Cima nos anos 1960, jovem formada em Curitiba que escolheu o distrito ribeirinho quando poderia ter ficado na capital. Durante décadas, enfrentou enchentes que invadiam o pátio, períodos sem energia elétrica quando as aulas continuavam à luz de lamparinas, e a desistência frequente de alunos chamados para trabalhar nas roças antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome.
Mas Benedita resistiu. Criou a "biblioteca da varanda" — estantes improvisadas sob a cobertura lateral onde guardava livros doados por visitantes; organizou a primeira horta escolar do distrito, ensinando geometria através do plantio de mandioca e aritmética contando pés de milho; e, nas noites de lua cheia, transformava o pátio em auditório a céu aberto para contar histórias do folclore paranaense. Quando se aposentou nos anos 1990, quase toda a comunidade adulta de Porto de Cima havia passado por suas mãos — e cada ex-aluno carregava não apenas o alfabeto, mas a certeza de que alguém acreditara neles quando o mundo os via apenas como "filhos de pescador" ou "netos de tropeiro".
Batizar a escola com seu nome foi mais que homenagem; foi reconhecimento de que a verdadeira arquitetura da educação não é feita de concreto, mas de dedicação humana.
O Cotidiano Sagrado: Vidas Transformadas entre Pilotis e Brises
As décadas transformaram o edifício — novas salas foram anexadas, o telhado original deu lugar a cobertura de fibrocimento, os brises originais cederam espaço a grades de proteção. Mas o espírito da escola permanece intacto. Nas manhãs de hoje, ainda se ouve o tilintar do sino de metal que chama as crianças para a aula; ainda se veem pés descalços correndo pelo pátio de terra batida; ainda se sente o cheiro de café coado na cozinha escolar, oferecido gratuitamente aos alunos que chegam de casa sem café da manhã.
Mas algo mudou profundamente: entre as carteiras, sentam-se hoje netos e bisnetos daqueles primeiros alunos de 1953. Alguns se tornaram professores e voltaram para ensinar na mesma escola que os alfabetizou; outros partiram para Curitiba ou Paranaguá, mas retornam nas férias para mostrar aos filhos "onde vovô aprendeu a ler". A escola tornou-se não apenas instituição educacional, mas guardiã da memória coletiva — o lugar onde se guardam as fotografias antigas do porto movimentado, os registros dos primeiros plantios de erva-mate mecanizados, as histórias dos antigos comandantes de lancha que ligavam Porto de Cima ao resto do mundo.
Epílogo: O Futuro que se Constrói no Presente
Quando o sol da tarde incide sobre os brises verticais — agora desbotados pelo salitre e pelo tempo —, projeta no chão do pátio sombras geométricas que dançam como notas musicais. É nesse momento que a escola revela sua verdadeira natureza: não é um monumento ao passado, mas um organismo vivo que respira com a comunidade.
Hoje, enquanto o Brasil debate a valorização da educação rural, a Escola Benedita da Silva Vieira permanece de pé como testemunha silenciosa de uma verdade simples e profunda: que a revolução mais poderosa não acontece com gritos ou manifestações, mas no silêncio de uma sala de aula onde uma criança escreve pela primeira vez seu nome — e descobre, naquele gesto aparentemente pequeno, que o mundo é seu para ser lido, compreendido e transformado.
E assim, entre o rio que flui e as montanhas que protegem, o edifício modernista de Geraldo S. Campelo continua cumprindo sua missão original: ser mais que concreto e tijolo; ser o lugar onde sonhos ribeirinhos aprendem a navegar além das curvas do Nhundiaquara — rumo ao mar infinito do conhecimento.
