terça-feira, 5 de maio de 2026

RELEMBRANDO OS PRIMEIROS SINALEIROS DE CURITIBA

 RELEMBRANDO OS PRIMEIROS SINALEIROS DE CURITIBA


Quando nos reportamos à palavra "sinaleiro" nos dias atuais, o primeiro pensamento que nos vem é acerca dos semáforos. Mas, a hum século atrás não era isso. Os dicionários definem o significado da palavra sinaleiro, como o "indivíduo encarregado da sinalização nos diferentes meios de transportes." Com o tempo, a palavra foi vertida para significar a "máquina" em detrimento de significar o "homem". Hoje vamos analisar como Curitiba conheceu o aparecimento de ambos - o homem sinaleiro e a máquina sinaleiro.

Na primeira década dos anos 1900, Curitiba tinha poucas ruas a mais do que as quatorze mencionadas no seu histórico mapa de 1857, o que nos leva a imaginar como era fácil o convívio do cidadão curitibano em meio às carruagens, charretes, carroças, bondinhos e bicicletas que nela circulavam.

Foi assim que, em 1911, a pacata e calma população de Curitiba viu o aparecimento dos primeiros "guardas-civis" vestidos com seu uniforme azul marinho, saírem pelas ruas da cidade, agindo de modo a evitar conflitos entre condutores e pedestres. Vale lembrar que foi somente em 1913 que Curitiba viu os primeiros bondes elétricos circularem na Capital, pois, até então, ela convivia com os lentos bondinhos puxados por mulas. Lembramos, também, que foi somente em 1913 que a Prefeitura de Curitiba adquiriu os primeiros veículos motorizados, sob a administração de Candido de Abreu.

O primeiro automóvel só chegou em Curitiba em 1903 e, apesar do desejo que despertou entre os curitibanos mais abastados de possuírem aquela novidade Européia, foi somente na década de 1920 que a cidade sentiu o crescimento do número de automóveis que rodavam em suas ruas, principalmente por causa da chegada dos "fordecos", com preços mais acessíveis à população.

Diante deste contexto, foi criada a "Guarda-Civil" que funcionou com sede em um prédio junto à Praça Zacarias. Segundo o jornal A República, "Os 60 guardas-civis que compunham aquele primeiro regimento permaneceram enfileirados na entrada do prédio e, após a inauguração, desfilaram pelas ruas da cidade recebendo muitos aplausos", eram os novos agentes da lei que o povo saudava em nome da própria segurança. A imprensa chegou a dizer que "os uniformes cor azul-marinho utilizados pelos guardas-civis de Curitiba inspiravam confiança e eram uma guarda de elite".

Conforme proferiu o deputado Benjamim Pessoa, na ocasião da criação do regimento: “a Guarda-civil tem uma significação moral mais elevada, effectivamente, porque este é um projeto de cidades grandes, de cidades prósperas, de cidades ricas, é até mesmo um adorno, um enfeite; a cidade servida por Guarda Civil composta de moços limpos, educados, bem instruídos, capazes de raciocínio, de lógica, aptos para distinguir bem a razão entre dois litigantes."

Assim, temos o aparecimento da expressão "guarda" usada pela população curitibana até hoje, que assim chamava aqueles policiais, pois pertenciam ao batalhão dos "guardas-civis" da cidade. Mais tarde, devido a destinação deles quase exclusivamente ao trânsito, foram chamados "Guardas Sinaleiros".

Nas fotos das primeiras décadas do século passado, percebe-se a presença desses guardas nas ruas e esquinas bem próximas ao centro antigo, principalmente no pentágono Praça Tiradentes, Rua XV de Novembro, Praça Osório, Praça Zacarias, Estação Ferroviária. Eles ocupavam postos de trabalho designados, quase sempre sem intervir no ir e vir dos transeuntes, pois a população da cidade, além de vestir-se elegantemente, demonstrava um grau de educação que beirava ao das melhores culturas Européias.

Nas décadas de 1930/40, esses policiais passam a ocupar-se do controle do tráfego, quando então foram chamados "guardas sinaleiros". A lentidão dos veículos de tração animal começava a "atrapalhar" a aceleração dos veículos automotores e, nesse meio, os transeuntes tentavam manter a sua costumeira liberdade de andar livremente na rua ou na calçada.

Inicialmente, esses guardas sinalizadores disciplinaram o trânsito postados nos cruzamentos, no mesmo nível dos pedestres e dos veículos, fato este que dificultava uma melhor atuação deles em sua tarefa. Diante dos problemas, as autoridades criaram uma solução tupiniquim: Confeccionaram caixotes de madeira para que os "guardas" subissem neles e se destacassem no meio do trânsito e, assim, pudessem visualizar melhor seu entorno, como também serem vistos mais facilmente por todos. Usando seus braços e um apito, passavam os sinais e silvos que a população facilmente assimilou.

Apesar do "caixotinho", volta-e-meia, esses guardas sofriam acidentes. Lindamir Rehme, conta que um tio seu era um dos guardas de trânsito naquela época e que, ele ficava sobre a tal caixinha. Seu posto de "guarda" era na Praça Tiradentes esquina com Candido Lopes. Disse ela que seu "tio teve que dar no pé várias vezes para fugir de veículos que vinham da rua do Rosário, desgovernados por falta de freio. Mais tarde fizeram uma cabine que, também foi demolida por veículo desgovernado."

Com os diversos atropelamentos dos "guardas sinalizadores", o sistema foi sendo aperfeiçoado. De cima dos "caixotes" eles foram para cabines instaladas em alguns cruzamentos ou em calçadas adjacentes, agora manuseando um equipamento mecânico, a base de manivela, que trocava as plaquetas "siga" e "pare".

Na década de 1940, esse sistema evoluiu e apareceram os primeiros sinaleiros eletro-mecânicos instalados nos principais cruzamentos. Era formado por quatro conjuntos de lâmpadas verdes, amarelas e vermelhas, que indicavam aos motoristas o momento certo de seguir caminho ou parar, porém, ainda controlados manualmente. O guarda responsável por operar o equipamento controlava o tempo de manutenção das cores, através de uma manivela, de acordo com as alterações no fluxo dos veículos em cada sentido das vias. "Quando o guarda precisava se ausentar por algum motivo, como ir ao banheiro, deixava o sinaleiro todo no amarelo", assim contou o diretor do Museu Histórico da Polícia Militar, tenente Anacleto Antonio Winck.

Esse sistema eletromecânico, funcionava com engrenagens dentadas que eram acionadas por um motor elétrico. Cada dente correspondia a um segundo no controle do tempo entre as luzes verde, amarela e vermelha. O primeiro sinaleiro desse tipo foi instalado, em 1956, no cruzamento da Rua XV de Novembro com a Rua Dr. Muricy, no Centro.

O equipamento era ligado à rede elétrica e contava com uma bateria que era acionada em caso de falta de energia elétrica. O sinaleiro começava a funcionar às 8:00 horas e o expediente encerrava às 22:00 horas. "Segundo relatou o policial militar da reserva, Marco Antonio Vilela, "os colegas mais antigos contavam que quando chovia levavam choques por causa do metal molhado".

Não se tem registro da época exata que foram instalados, bem como até quando funcionaram, no entanto, esse modus operandi pôde ser visto em alguns cruzamentos da Capital ainda no final dos anos 1960, apesar de ainda haver alguns sinaleiros funcionando com sistema mecânico em alguns locais, nessa época.

Com o tempo, o sistema foi aperfeiçoado de modo que a máquina "sinaleiro" tivesse comando eletro-eletrônico, não dependendo mais do homem "sinaleiro". Assim, apareceram os sinaleiros automáticos, ora instalados no meio dos cruzamentos, ora pendurados por cabos de aço, deixando os cruzamentos mais livres.

Em 1977, foi criado o primeiro sistema informatizado de controle dos sinaleiros, com equipamentos importados da Holanda, onde trinta cruzamentos foram sincronizados a partir da central. A frota da capital já era de 167.964 veículos. Hoje, curitiba tem 950 cruzamentos semaforizados, dos quais, 60% estão ligados à central do Controle de Tráfego em Áreas (CTA), da Diretoria de Trânsito da Urbanização de Curitiba S.A.

Atualmente, Curitiba conta com mais de um milhão de veículos circulando pelas ruas. Os 40 segundos de espera diante do sinal vermelho nos horários de maior movimento parecem não ter fim. Nem os mais modernos sistemas de controle do tráfego, como os sensores que permitem microajustes na sincronia dos sinaleiros nos cruzamentos mais movimentados, conseguem dissipar a sensação de que o trânsito não flui.

Finalizando, nesses 110 anos que se passaram desde então, os curitibanos consagraram o uso da palavra "sinaleiro" significando a máquina e, hoje, todos dizem - "cuidado com o sinaleiro; o sinaleiro fechou; colocaram lombadas eletrônicas nos sinaleiros ..." .

E os guardas-sinaleiros?

Eles foram substituídos pelos sinaleiros automáticos ... enquanto tiverem energia elétrica. Caso contrário os, agora, guardas de transito, são destacados para evitarem o caos. E quando eles chegam, os curitibanos, carinhosamente, dizem: "Lá vem o guarda".

(Fontes: curitiba.pr.gov.brgazetadopovo.com.br, Arquivo Público do Paraná, Diretran-Pr, Guarda Civil do Paraná, Wikipedia, Policia Militar do Paraná)

Paulo Grani
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RELAÇÃO NOMINAL DOS 60 GUARDAS CIVÍS DA PRIMEIRA TURMA:

Reinaldo Carlos Vendt, João Gaertner, Ismael Gonçalves Marques, Cândido Perelles, Ernesto Gies Rebello, Miguel Baby, Manoel da Conceição Lara, Oscar Antônio de Abreu Cezar, Francisco Cardoso de Salles, Alcides Gonçalves de Oliveira, Felecissimo Monteiro, Nemo Soares, Cassiano Alves de Miranda, Nestor Pinto, Maurício Antonio de Jesus, Álvaro Campos, Paschoal Ferreira, Constante Bordinhon, Francisco Velozzo, Luiz Gonzaga das nesses, Generoso Pinto de Macedo, Henrique ferreira neves, Francisco Beggi, Carlos Educardo Ferreira, Casimiro Ignacio Custódio, Herculano Soares da Costa, Loiurenço Fava, João Antonio Malino, José Bialli, Manoel Mariano Cardoso, Alexandre Corsico, Alvaro Maravalhas, Lino Ferreira Fernandes, Raimundo laez, Guilherme Henrique Vesttg, Amado Gonçalves Cordeiro, Cyro Leite Pereira, Henrique Rodrigues, Pedro Rippel da Silva, Domingos Dalni, Generoso Nascimento Teixeira, Geronymo Fanha, Pedro Lagos Marques, João Gonçalves Marques, David Pereira de Almeida, João do Amaral e Silva, Paulino Benedicto de Oliveira, Ernesto Paulo Pinheiro, Arthur de Oliveira Guedes, Agostinho Estevão da Silva, José Ferreira Pontes da Luz, José do Rego Rangel, Francisco Tschartschenthaler, Osmael da Cunha Marques e Francisco Ferreira da Costa.
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1952, CRIAÇÃO DO SERVIÇO DE GUARDAS SINALEIROS DE TRÂNSITO:
Em 1952, por entendimento entre o Chefe de Polícia e o Diretor do Departamento de Trânsito, esse serviço passou a ser realizado também pela Polícia Militar, então foi designado o 1º Ten. Reinaldo José Machado para selecionar, instruir, chefiar e por em prática essa atividade, a qual passou a denominar-se como Serviço de Guardas Sinaleiros de Trânsito da Polícia Militar.

Os primeiros postos de sinalização estabelecidos em Curitiba foram:

Posto 1 - cruzamento da Rua Carlos de Carvalho com a Voluntários da Pátria; Posto 2 - cruzamento da Rua Emiliano Perneta com a 28 de Setembro; Posto 3 - cruzamento da Avenida Batel com a Rua Francisco Rocha; Posto 4 - cruzamento da Rua Barão do Cerro Azul com a Inácio Lustoza; Posto 5 - cruzamento da Rua Comendador Araújo com a Visconde de Nácar; Posto 6 - cruzamento da Rua Desembargador Westephalen com a Avenida Iguaçu; Posto 7 - cruzamento da Avenida Marechal Deodoro com a Rua Monsenhor Celso; Posto 8 - cruzamento da Avenida Marechal Deodoro com a Marechal Floriano; Posto 9 - cruzamento da Avenida Marechal Floriano com a Rua Conselheiro Dantas; Posto 10 - cruzamento da Avenida João Gualberto com a Rua Manoel Eufrásio.

Em 1953, esse policiamento tornou-se independente e passou a denominar-se Companhia de Guardas Sinaleiros de Trânsito, e, em 1955, Batalhão de Sinaleiros de Trânsito. Em 1964, esse Batalhão passou a chamar-se Batalhão de Controle de Tráfego (BCT). Em 1976, o BCT passou a denominar-se Batalhão de Polícia de Trânsito, (BPTran)ficando subordinado ao Comando do Policiamento da Capital. 










Expressivo Cartão Postal de Curitiba, da década de 1950, apresenta a agência dos Correios e Telégrafos de Curitiba, cuja entrada principal está voltada para a rua XV de Novembro.

 Expressivo Cartão Postal de Curitiba, da década de 1950, apresenta a agência dos Correios e Telégrafos de Curitiba, cuja entrada principal está voltada para a rua XV de Novembro.



Tradição e modernidade formam a marca dos Correios. Com três séculos e meio de existência, além do registro histórico em peças filatélicas, a empresa expressa a trajetória do país no seu patrimônio arquitetônico.

Antes mesmo de ser transformada em empresa, no início do século passado os Correios investiam em modernas construções para sediar a empresa. Nas décadas de 1920 e de 1930, seguindo uma tendência mundial, foram inaugurados imponentes prédios da empresa.

Nessa época, investimentos no setor postal e telegráfico formavam uma conjugação de esforços para alinhamento do país aos movimentos de modernização nas comunicações e de incentivo à integração nacional.

A preocupação da empresa em preservar a história e a memória postal pode ser vista em numerosas construções pelo Brasil afora.

Em Curitiba (PR), o prédio edificado em 1934 especialmente concebido para abrigar a agência central da cidade, tem mais de 4 mil metros quadrados. Um marco arquitetônico da comunidade curitibana, o edifício foi construído com traços geométricos do estilo art déco que refletiam os mais avançados conceitos de modernidade da primeira metade do século 20.

Em 2016, a edificação recebeu investimentos de 5,7 milhões de reais para recuperação e reforma, buscando preservar as características originais da construção que forma um patrimônio histórico e arquitetônico que compõe o entorno cultural mais importante da cidade.

Paulo Grani 

Anna Alvares de Araujo Nascida cerca 1766 - Curitiba, Paraná, Brasil Baptizada a 10 de fevereiro de 1770 (sábado) - Curitiba, Paraná, Brasil Falecida a 28 de abril de 1863 (terça-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil, com cerca de 97 anos Enterrada em abril de 1863 - Curitiba, Paraná, Brasil

  Anna Alvares de Araujo Nascida cerca 1766 - Curitiba, Paraná, Brasil Baptizada a 10 de fevereiro de 1770 (sábado) - Curitiba, Paraná, Brasil Falecida a 28 de abril de 1863 (terça-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil, com cerca de 97 anos Enterrada em abril de 1863 - Curitiba, Paraná, Brasil

Anna Alvares de Araujo: Uma Vida que Atravessou um Século em Curitiba

Nas sombras das araucárias e sob o céu vasto do planalto paranaense, nasceu uma mulher cuja trajetória se entrelaçou com a própria história de Curitiba. Anna Alvares de Araujo não foi apenas um nome em registros paroquiais ou um dado isolado em árvores genealógicas; foi testemunha de quase um século de transformações, matriarca de uma família numerosa e símbolo da resistência, da fé e do afeto que sustentaram gerações. Nascida por volta de 1766 e falecida em 28 de abril de 1863, com quase 97 anos de idade, sua existência abrangeu o Brasil Colônia, a chegada da Corte portuguesa, a Independência e o auge do Império. Em um tempo em que a vida média mal ultrapassava os quarenta anos, chegar ao centenário era um feito que carregava consigo histórias de cuidados, resiliência e bênçãos silenciosas.

Raízes e Primeiros Anos

Filha de Sebastião Alvares de Araujo e Quitéria da Silva Pinheiro, Anna herdou sobrenomes que carregavam séculos de história lusitana e raízes profundas no sul do Brasil. Seu pai, nascido em 1725, e sua mãe, por volta de 1740, uniram-se em uma época em que a terra, a fé e a família eram os únicos alicerces da sobrevivência. A linhagem de Anna remonta a nomes como Paschoal Alvares, Natária de Araujo, João Álvares Martins, Maria de Souto, Gabriel Alves de Araújo e Catarina Martins de Faria, traçando um mapa genealógico de pioneiros que desbravaram, fincaram estacas e construíram lares no solo ainda selvagem do Paraná.
O batismo de Anna, celebrado em 10 de fevereiro de 1770 na capela de Nossa Senhora da Luz, não foi apenas um rito religioso. Foi o início de uma jornada que a marcaria como elo entre o passado colonial e o Brasil que emergia. Curitiba, na época, era uma vila modesta, cercada por campos de pastoreio, trilhas de tropeiros e uma comunidade unida pela religião e pelo trabalho na roça. Foi nesse cenário que Anna deu seus primeiros passos, aprendeu as orações, ouviu as histórias dos mais velhos e absorveu o ritmo lento e firme da vida no planalto.

A Casa dos Irmãos: Laços, Perdas e Aprendizados

Crescer na casa de Sebastião e Quitéria significou dividir espaços, sonhos e, inevitavelmente, perdas com uma prole numerosa. Anna foi cercada por irmãos que carregaram os mesmos sobrenomes e enfrentaram os mesmos desafios: Manuel e Francisco, nascidos em 1758; Maria Clara, em 1759; Antônio, por volta de 1760; José, em 1762; Joaquim, em 1765; e, mais tarde, Gertrudes (1774), Izabel (cerca de 1775) e Ritta (1778). Havia também a memória de um meio-irmão, Manoel, cuja vida breve deixou uma marca silenciosa na família.
Cada nascimento era uma bênção; cada partida, uma lição de resiliência. Anna viu irmãos se casarem, construírem suas próprias casas e seguirem seus caminhos. Joaquim, por exemplo, casou-se duas vezes, primeiro com Maria Rosa de Viterbo Vaz Torres em 1787 e depois com Anna Joaquina de Jesus em 1792. Mas a vida no século XVIII e início do XIX era frágil. Anna acompanhou o falecimento do pai, Sebastião, em setembro de 1796; da mãe, Quitéria, por volta de 1805; e de vários irmãos ao longo dos anos: José em 1818, Joaquim em 1831 e Antônio em 1833. A perda repetida forjou nela uma maturidade precoce, transformando-a gradualmente em alicerce emocional para os que restaram.

O Altar e a Parceria: Casamento com Gonçalo José Guimarães

Aos trinta anos, em 27 de junho de 1796, Anna selou seu destino diante do altar de Nossa Senhora da Luz, unindo-se a Gonçalo José Guimarães, nascido por volta de 1765. O matrimônio foi celebrado em uma Curitiba ainda marcada pela simplicidade das casas de taipa, pelas igrejas de pedra e madeira, e pelas trilhas que ligavam a vila ao resto do Brasil. Não há registros de grandes festas ou dotes exorbitantes, mas há a certeza de um compromisso sério, celebrado sob as bênçãos da Igreja e com o consentimento das famílias.
Gonçalo partilhou com Anna os dias de trabalho árduo, as noites de reza e as esperanças depositadas nos filhos que viriam. Juntos, construíram um lar onde a tradição e o cuidado se misturavam, onde cada colheita, cada nascimento e cada luto eram vividos em comunhão. O casamento deles durou décadas, sobrevivendo a doenças, intempéries, mudanças políticas e às incertezas típicas de uma época em que o futuro era escrito dia após dia, com esforço e fé.

Mãe de Oito: A Maternidade como Legado

A maternidade de Anna foi um ciclo de bênçãos que se estendeu por quase duas décadas. Em 1797, nasceu Francisco Manoel; em 1799, Maria do Rosário; em 1802, Francisca de Paula; em 1804, Antônio Francisco; em 1808, João Francisco; em 1810, Francisco de Paula Guimarães Alves; em 1812, Isabel Maurícia; e, por fim, em 1814, Ana Rita. Oito filhos, oito ramos de uma árvore que ela e Gonçalo plantaram com suor e devoção.
Como mãe, Anna foi farol e abrigo. Viu os primeiros passos, ensinou as preces, consolou as febres e celebrou os batismos na mesma igreja onde um dia fora ela mesma batizada. A vida no século XIX exigia força: as doenças infantis eram comuns, os remédios eram caseiros, as viagens eram longas e perigosas, e a economia dependia da agricultura e do pastoreio. Mesmo assim, Anna manteve a família unida. Transmitiu valores, organizou a casa, cuidou dos mais novos e, quando necessário, consolou os que partiam. Seu nome aparece repetidamente nos registros de batismo dos filhos, sempre com a mesma grafia, a mesma presença, a mesma constância.

Testemunha de uma Época

A vida de Anna não ocorreu no vácuo. Ela nasceu quando Curitiba ainda era uma vila modesta, dependente da pecuária e do tropeirismo. Viu o Paraná se organizar administrativamente, a política se consolidar e o Brasil mudar de status. Atravessou a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro (1808), a Proclamação da Independência (1822), as transformações urbanas e sociais do século XIX, e o crescimento lento, porém constante, da região sul.
Em meio a essas mudanças históricas, seu cotidiano manteve o ritmo da terra: o cuidado com os animais, a costura, a reza do terço, as festas de santos, a transmissão oral de histórias. Sua longevidade foi um privilégio e uma responsabilidade; ela se tornou a memória viva da família, a ponte entre avós e netos, entre o passado distante e o presente em construção. Quem conviveu com Anna nos seus anos maduros certamente a via como uma mulher de postura firme, voz serena e mãos que nunca paravam de trabalhar.

Os Últimos Anos e a Partida

Os anos finais de Anna foram marcados pela serenidade de quem cumpriu sua missão. Viu o falecimento de seu filho Francisco de Paula Guimarães Alves em dezembro de 1855, um golpe que, sem dúvida, tocou profundamente seu coração. Mesmo assim, manteve-se firme. Quando Gonçalo partiu (cuja data exata não consta nos registros, mas cuja ausência certamente foi sentida), ela seguiu como matriarca, cercada por filhos, netos e a comunidade que a conhecia e respeitava.
Em 28 de abril de 1863, numa terça-feira de outono paranaense, Anna Alvares de Araujo fechou os olhos para o mundo, aos 97 anos. Foi sepultada em Curitiba, na terra que a viu nascer, crescer, amar e partir. Seu enterro, em abril daquele mesmo ano, não foi apenas o fim de uma vida, mas a consolidação de um legado. Não deixou testamentos escritos nem discursos públicos, mas deixou algo mais duradouro: uma linhagem que se multiplicou, sobrenomes que ecoaram por gerações e a memória silenciosa de uma mulher que soube viver com profundidade.

Um Legado que Permanece

Anna Alvares de Araujo não buscou a fama, nem a ocupou. Sua grandeza está na constância, no amor dedicado aos filhos, na fidelidade ao marido, no respeito aos pais e na capacidade de atravessar quase um século mantendo a família unida. Em cada descendente que carrega os Guimarães, os Alves, os Araújo, pulsa um fragmento de sua história. Olhar para trás e enxergar Anna é reconhecer que a grandeza nem sempre grita; às vezes, ela sussurra através de gerações, mantendo viva a chama de quem soube enfrentar o tempo com dignidade, simplicidade e coragem.
Sua árvore genealógica continua a brotar. Seus registros de batismo, casamento e óbito permanecem como testemunhos físicos de uma existência plena. E, acima de tudo, Anna Alvares de Araujo permanece como um farol para quem busca suas origens: uma lembrança viva de que, por trás de cada nome em um documento antigo, há uma história de sangue, fé, trabalho e amor que merece ser contada.
  • Nascida cerca 1766 - Curitiba, Paraná, Brasil
  • Baptizada a 10 de fevereiro de 1770 (sábado) - Curitiba, Paraná, Brasil
  • Falecida a 28 de abril de 1863 (terça-feira) - Curitiba, Paraná, Brasil, com cerca de 97 anos
  • Enterrada em abril de 1863 - Curitiba, Paraná, Brasil

 Pais

 Casamento(s) e filho(s)

 Irmãos

 Meios irmãos e meias irmãs

Pelo lado de Sebastião Alvares de Araujo (Sol. Alvares de Araújo) 1725-1796
(esconder)

 Acontecimentos

cerca 1766 :
Nascimento - Curitiba, Paraná, Brasil
10 de fevereiro de 1770 :
Baptismo - Curitiba, Paraná, Brasil
27 de junho de 1796 :
MARR - Curitiba, Paraná, Brasil
27 de junho de 1796 :
Casamento (com Gonçalo José Guimarães) - Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil
28 de abril de 1863 :
Morte - Curitiba, Paraná, Brasil
abril de 1863 :
Enterro - Curitiba, Paraná, Brasil


 Notas

Notas individuais

Brasão conseguido é de graça na Biblioteca Virtual da Torre do Tombo.
Domínio Público
https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4162406
PT-TT-CR-D-A-1-19_m0281.TIF

 Fontes

  • Pessoa:
    - Árvore Genealógica do FamilySearch - 10 SEP 2023 - Adicionado através de um Record Match - Discovery - 40001:98115737:
    - Árvore Genealógica do FamilySearch - 18 MAR 2025 - Ana Guimarães (nascida Álvares de Araújo)Também conhecido como: Ana Alves de AraújoAna Maria PinheiroGênero: FemininoNascimento: Perto de 1770 - Curitiba, Paraná, BrasilBatizado: 10 de fev de 1770 - Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, BrasilCasamento: 27 de jun de 1796 - Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, BrasilMorte: 28 de abr de 1863 - Curitiba, Paraná, BrasilEnterro: abr de 1863 - Curitiba, Paraná, BrasilPais: Sebastião Álvares de Araújo, Quitéria Álvares de Araújo (nascida da Silva Pinheiro)Esposo: Gonçalo José GuimarãesFilhos: Capitão Francisco Manoel Guimarães, Maria do Rosário Alves de Araújo (nascida Guimarães), Francisca de Paula Alvares de Araújo (nascida Guimarães), Antônio Francisco Guimarães, João Francisco Guimarães, Francisco de Paula Guimarães Alves, Isabel Maurícia Guimarães, Ana Rita Ferreira (nascida Guimarães)Irmãos: Manoel Alves de Araujo, Manuel Alves Araújo, Francisco Álvares de Araújo, Maria Clara da Guedes de Carvalho (nascida Silva), Antônio Alves de Araújo, Jose Alves Pinheiro, Joaquim Alvares de Araujo, Gertrudes Maria de Assumpção dos Santos Cortes (nascida Araujo), Izabel Maria da Borges de Sampaio Leite (nascida Silva), Ritta Alves de Araújo - Record - 40001:98115737:
cerca1766
177010 fev.
~ 4 anos
1774
~ 8 anos

Nascimento de uma irmã

 
Baptismo a 24 de março de 1774 (Curitiba, Paraná, Brasil)
cerca1775
~ 9 anos
1778
~ 12 anos
179627 jun.
~ 30 anos
cerca1797
~ 31 anos
cerca1799
~ 33 anos

Nascimento de uma filha

 
Baptismo a 16 de fevereiro de 1799 (Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil)
cerca1802
~ 36 anos

Nascimento de uma filha

 
Baptismo a 17 de janeiro de 1802 (Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil)
cerca1804
~ 38 anos

Nascimento de um filho

 
Baptismo a 26 de junho de 1804 (Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil)
cerca1808
~ 42 anos

Nascimento de um filho

 
Baptismo a 18 de julho de 1808 (Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil)
cerca1810
~ 44 anos
cerca1812
~ 46 anos

Nascimento de uma filha

 
Baptismo a 12 de fevereiro de 1812 (Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil)
cerca1814
~ 48 anos

Nascimento de uma filha

 
Baptismo a 17 de junho de 1814 (Nossa Senhora da Luz, Curitiba, Paraná, Brasil)
1818
~ 52 anos

Morte de um irmão

 
Paraná, Brasil
18313 abr.
~ 65 anos
18333 jan.
~ 67 anos
185529 dez.
~ 89 anos

Morte de um filho

 
Enterro em dezembro de 1855 (Curitiba, Paraná, Brasil)
186328 abr.
~ 97 anos
1863abr.
~ 97 anos

Antepassados de Anna Alvares de Araujo

Paschoal Alvares 1668- Natária de Araujo 1666- João Álvares Martins 1638-1730 Maria De Souto 1665-1740    
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Gabriel Alves de Araújo (Sol. Alvares de Araujo) 1684-1726 Catarina Martins de Faria ca 1690-1764 João da Silva Pinheiro ca 1706-1746 Ignacia Gonçalves de Aguiar 1708-
|- 1704 -| | |



 


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Sebastião Alvares de Araujo (Sol. Alvares de Araújo) 1725-1796 Quitéria da Silva Pinheiro 1740-ca 1805
|- 1757 -|



|
Anna Alvares de Araujo ca 1766-1863


Descendentes de Anna Alvares de Araujo