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sábado, 31 de janeiro de 2026

A Casa do Saber na Alameda do Tempo: A Escola Manoel Pedro e a Memória Viva da Instrução Primária na Lapa do Século XIX

 Denominação inicial: Escola Manoel Pedro - 1ª Sede

Denominação atual:

Endereço: Alameda David Carneiro, 243 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 

Estrutura: singular

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: 

Escola Manoel Pedro - s/d

Acervo: Memorial Lysimaco Ferreira da Costa

A Casa do Saber na Alameda do Tempo: A Escola Manoel Pedro e a Memória Viva da Instrução Primária na Lapa do Século XIX

Na Alameda David Carneiro, 243, no coração do Centro Histórico da Lapa, ergue-se em silêncio uma testemunha muda de tempos remotos — um edifício de linhas ecléticas, bloco único de pedra e cal, cujas paredes carregam nas fissuras o eco de vozes infantis que um dia soletraram o alfabeto sob a luz tênue de lampiões a querosene. Esta é a Escola Manoel Pedro – 1ª Sede, não apenas um imóvel catalogado, mas um santuário da memória educacional paranaense: o lugar onde, na segunda metade do século XIX, meninos e meninas de pés descalços cruzaram pela primeira vez o limiar do saber, transformando-se em cidadãos letrados num Brasil ainda tateando os caminhos da República.

Entre Ruínas e Renascimentos: A Lapa que Aprendia a Ler o Mundo

Para compreender a magnitude simbólica desta escola, é preciso mergulhar na alma da Lapa do século XIX — cidade marcada pela bravura histórica do Cerco de 1894, quando por 26 dias seus moradores resistiram heroicamente aos assaltos federalistas, consolidando com sangue o ideal republicano
dialnet.unirioja.es
. Mas entre os estrondos da guerra e o silêncio das trincheiras, havia outro combate igualmente heroico: o combate cotidiano pela instrução. Num Paraná que em 1890 contava com meros 249 mil habitantes e recebia timidamente imigrantes
periodicos.fgv.br
, cada escola primária erguida era um ato de fé no futuro — uma declaração de que, mesmo na fronteira agrícola, o conhecimento merecia templo próprio.
A Escola Manoel Pedro nasceu neste contexto de escassez e esperança. Enquanto na Província do Paraná apenas sete edifícios escolares eram construídos na segunda metade do século XIX — sendo apenas um destinado ao ensino secundário —, cada casa de instrução primária tornava-se farol em meio à escuridão do analfabetismo
www.memoriaurbana.com.br
. Não havia pompa nem grandiosidade arquitetônica exuberante: apenas um bloco singelo, linguagem eclética que misturava austeridade colonial com traços modernizantes, telhado de duas águas protegendo salas onde o giz rangia no quadro-negro e o cheiro de cera de abelha impregnava o ar.

O Homem por Trás do Nome: Manoel Pedro e o Ideal Republicano da Educação

Quem foi Manoel Pedro? Os documentos oficiais calam-se, mas a história oral da Lapa sussurra possibilidades. Talvez tenha sido um professor leigo que, nas noites após o trabalho na roça, ensinava crianças a formar letras com gravetos na terra batida. Talvez um comerciante generoso que doou terreno para erguer o prédio escolar. Ou quem sabe um político local que compreendeu, antes de muitos, que a verdadeira independência não se conquista apenas com armas, mas com cartilhas.
O que importa não é o rosto específico, mas o ideal que o nome representa: a crença inabalável de que toda criança, fosse filha de tropeiro, de imigrante italiano ou de família tradicional luso-brasileira, merecia acesso às letras. Num período em que a instrução pública no Paraná ainda engatinhava
periodicos.ufmg.br
, cada escola como esta era um ato revolucionário — um espaço onde meninas aprendiam a ler num tempo em que muitos ainda questionavam se o saber feminino não corromperia a pureza doméstica; onde crianças de diferentes origens étnicas compartilhavam o mesmo banco de madeira rústica, tecendo, sem saber, os fios da identidade paranaense.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Saber Entrava Pela Porta da Frente

Imagine a cena: manhã de inverno na Lapa, neblina envolvendo os pinheirais ao redor da cidade. Crianças de calças remendadas e vestidos desbotados caminham descalças pela Alameda — ainda não chamada David Carneiro, mas talvez Rua da Matriz ou Ladeira do Rosário — carregando consigo cadernos de pauta grossa e lápis de cedro já roídos pelo uso. Ao adentrarem a escola, deixavam à porta não apenas a lama das botas, mas também a ignorância herdada de gerações.
Dentro da sala de aula, o professor — talvez um homem de bigode cerrado e voz grave, talvez uma professora normalista recém-formada em Curitiba — conduzia o ritual sagrado do aprender: a cartilha de João de Deus aberta na primeira página; o exercício de caligrafia com pena de aço mergulhada no tinteiro; a lição de história do Brasil onde se contava a saga dos desbravadores do sertão paranaense; o canto em coro do hino nacional, ainda novo na boca das crianças após a Proclamação da República.
Nas paredes, mapas desbotados mostravam um Brasil em expansão; retratos de Duque de Caxias e Deodoro da Fonseca vigiavam o recinto com olhos severos; e, pendurado discretamente, o crucifixo lembrava que, mesmo na escola laica republicana, a fé permanecia entrelaçada ao saber. Era ali, naquele espaço singelo da Alameda, que se forjava o cidadão brasileiro — não com discursos grandiloquentes, mas com a paciência infinita de quem ensina a formar a letra "A" pela centésima vez.

David Carneiro e a Memória que Nomeia a Alameda

A escolha do endereço — Alameda David Carneiro — não é casual. David Antonio da Silva Carneiro (1904-1990) foi um dos mais importantes intelectuais paranaenses do século XX, autor de obras fundamentais como "O Cerco da Lapa e Seus Heróis" e "História do Período Provincial do Paraná"
academiaparanaensedeletras.com.br
. Ao nomear a alameda em sua homenagem, a cidade prestou tributo não apenas ao historiador, mas ao guardião da memória — aquele que compreendeu que sem memória não há identidade, e sem identidade não há povo.
É profundamente simbólico que a primeira sede da Escola Manoel Pedro repouse justamente nesta alameda: como se a própria cidade reconhecesse que a educação e a memória são faces da mesma moeda — uma alimenta a outra num ciclo eterno de renovação cultural. David Carneiro, que dedicou sua vida a resgatar do esquecimento os heróis anônimos do Cerco da Lapa, encontraria naquela escola do século XIX seus verdadeiros heróis cotidianos: os professores que, sem glória nem medalhas, transformaram gerações de analfabetos em leitores do mundo.

O Memorial Lysimaco Ferreira da Costa: Guardião das Memórias Escolares

É no Memorial Lysimaco Ferreira da Costa, em Curitiba, que repousam hoje os vestígios materiais desta história — fotografias amareladas, documentos escolares, relatos de mestres que dedicaram suas vidas ao magistério
memoriallysimaco.com.br
. Lysimaco Ferreira da Costa (1881-1961) foi educador visionário, fundador da Escola Normal de Curitiba e figura central na formação de professores paranaenses
www.curitibahistorica.com.br
. Seu memorial tornou-se santuário da memória educacional — lugar onde se preservam não apenas papéis e imagens, mas a alma do ofício docente.
É provável que entre os documentos ali guardados repousem registros da Escola Manoel Pedro — listas de matrícula com nomes hoje esquecidos, relatórios de inspetores provinciais elogiando ou criticando o estado do prédio, fotografias de turmas onde crianças de olhos sérios posam diante da câmera, conscientes de que aquele momento seria eternizado. Cada documento é um fio na tapeçaria coletiva — prova material de que, mesmo nas margens do Império agonizante e na aurora da República incerta, homens e mulheres comuns ergueram escolas com as próprias mãos, acreditando que cada criança alfabetizada era uma semente de civilização plantada na terra paranaense.

O Presente que Honra o Passado: Da 1ª Sede à Escola Municipal Dr. Manoel Pedro

A Escola Manoel Pedro não desapareceu — transformou-se. Sua sede atual, na Rua XV de Novembro, 351, no Centro da Lapa, celebra hoje mais de setenta anos de existência contínua
www.facebook.com
. Em outubro de 2024, comemorou 72 anos de história e dedicação à educação lapeana
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, mantendo viva a chama acesa naquela primeira sede da Alameda David Carneiro.
O edifício original na Alameda, embora existente com alterações
www.memoriaurbana.com.br
, carrega em suas paredes o peso sagrado da origem — é o locus onde tudo começou, o berço simbólico de uma tradição educacional que atravessou guerras, revoluções, ditaduras e democracias, mantendo-se inabalável em seu propósito: formar cidadãos. As alterações arquitetônicas — janelas modificadas, rebocos renovados, talvez até divisões internas refeitas — não apagam a essência: ali, um dia, uma criança aprendeu a escrever seu nome pela primeira vez. Ali, um professor apagou o quadro com gesto cansado mas esperançoso. Ali, o futuro do Paraná foi, silenciosamente, escrito letra por letra.

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Hoje, quando turistas caminham pela Alameda David Carneiro admirando o Centro Histórico da Lapa — com suas igrejas barrocas, seus casarões coloniais e a memória viva do Cerco de 1894 —, poucos percebem que um dos monumentos mais importantes da cidade repousa ali, discreto, sem placa ostentosa nem iluminação especial: a Escola Manoel Pedro – 1ª Sede.
Não é um monumento de mármore ou bronze. É um monumento de memória viva — presente em cada aluno que hoje frequenta a escola municipal que leva o mesmo nome; em cada professor que, inspirado pelos mestres do passado, entra na sala de aula com a mesma dedicação dos pioneiros do século XIX; em cada cidadão lapeano que lê um jornal, assina um documento ou escreve uma carta, exercendo um direito conquistado naquelas salas rústicas.
A grandeza desta escola não está na arquitetura eclética nem na antiguidade das pedras. Está no ato silencioso e revolucionário de ensinar — gesto tão antigo quanto a humanidade, mas sempre novo quando praticado com amor. Enquanto houver crianças aprendendo a soletrar na Lapa, enquanto houver professores dispostos a repetir a lição pela centésima vez com paciência infinita, a Escola Manoel Pedro – 1ª Sede permanecerá viva: não como ruína museificada, mas como pulsação contínua do saber, ecoando através dos séculos como um hino silencioso àqueles que compreenderam, antes de todos, que a verdadeira revolução não se faz com armas — faz-se com cartilhas, com giz, com a coragem de acreditar que cada criança merece o mundo inteiro nas mãos, desde que saiba ler as palavras que o descrevem.