Denominação inicial: Escola de Trabalhadores Rurais Dr. Carlos Cavalcanti
Denominação atual: Campus I da Universidade Federal do Paraná
Endereço: Rua dos Funcionários, 1540 - Cabral
Cidade: Curitiba
Classificação (Uso): Escolas Profissionais Rurais
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor:
Data: 1933
Estrutura:
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 10 de março de 1935
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola de Trabalhadores Rurais Dr. Carlos Cavalcanti - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)
Escola de Trabalhadores Rurais Dr. Carlos Cavalcanti: Um Marco da Educação Rural e da Arquitetura Art Déco em Curitiba
Entre as ruas arborizadas do bairro Cabral, em Curitiba, ergue-se um edifício que guarda mais do que paredes e corredores — ele abriga memórias de um projeto visionário de educação popular, concebido num Brasil em transformação. Trata-se da antiga Escola de Trabalhadores Rurais Dr. Carlos Cavalcanti, hoje integrada ao Campus I da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um testemunho silencioso da luta por uma formação técnica e humana voltada aos filhos do campo.
Origens de um Projeto Social e Pedagógico
Fundada oficialmente em 10 de março de 1935, a Escola de Trabalhadores Rurais Dr. Carlos Cavalcanti nasceu no contexto das reformas educacionais dos anos 1930, impulsionadas por um ideal de modernização rural e justiça social. O período entre 1930 e 1945 foi marcado por intensos esforços do Estado brasileiro para integrar o trabalhador rural ao processo de desenvolvimento nacional — não apenas como mão de obra, mas como cidadão com direito à instrução, à dignidade e à participação.
A escola foi batizada em homenagem a Dr. Carlos Cavalcanti, figura proeminente da vida política e intelectual paranaense, conhecido por seu compromisso com a educação pública e o progresso social. Sua denominação refletia claramente a missão institucional: formar jovens do meio rural em ofícios práticos — como agricultura, pecuária, carpintaria e administração doméstica —, aliando teoria e prática numa perspectiva integral de ensino.
Localizada na Rua dos Funcionários, 1540, no bairro Cabral, a escola ocupava um terreno estratégico, próximo ao centro urbano, mas ainda cercado pela paisagem semi-rural típica da Curitiba da época. Era um espaço de transição — entre o campo e a cidade, entre o saber empírico e o conhecimento técnico.
Arquitetura com Alma: O Estilo Art Déco no Ensino Público
O projeto arquitetônico, elaborado em 1933, revela a influência marcante do Art Déco, linguagem estética que floresceu internacionalmente nas décadas de 1920 e 1930. Caracterizado por linhas geométricas, simetria, verticalidade e decoração estilizada, o Art Déco conferia às edificações públicas um ar de modernidade, solenidade e otimismo — valores centrais ao ideário da era Vargas.
A planta do edifício segue a tipologia em “U”, comum em instituições educacionais da época, permitindo boa ventilação, iluminação natural e circulação fluida entre os espaços. A fachada, embora sóbria, trazia detalhes ornamentais característicos do estilo: frisos horizontais, molduras em concreto, janelas alongadas e um tratamento plástico que valorizava a volumetria do conjunto.
Embora o nome do arquiteto responsável pelo projeto não conste nos registros disponíveis, a qualidade do desenho e a coerência com os princípios pedagógicos da época sugerem a intervenção de profissionais alinhados aos movimentos de renovação urbana e educacional que então se espalhavam pelo país.
Da Escola Rural ao Campus Universitário
Ao longo das décadas, a função da instituição evoluiu. Com a expansão do ensino superior no Paraná, especialmente após a consolidação da Universidade Federal do Paraná como referência acadêmica, o edifício foi incorporado ao Campus I da UFPR. Embora tenha sofrido alterações estruturais e funcionais, sua estrutura original permanece identificável, preservando a essência de seu traçado inicial.
Atualmente, o prédio continua sendo utilizado como edifício escolar, mantendo viva sua vocação educativa — agora voltada a estudantes universitários, mas ainda ecoando os passos dos jovens rurais que ali aprenderam a ler, plantar e sonhar.
Patrimônio Cultural e Memória Coletiva
A Escola de Trabalhadores Rurais Dr. Carlos Cavalcanti está registrada no acervo da Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração), reconhecida como parte do patrimônio histórico e arquitetônico do Paraná. Sua classificação como Escola Profissional Rural sublinha seu papel pioneiro na formação técnica voltada às necessidades do meio agrário — um modelo que, embora superado em forma, permanece relevante em espírito.
Mais do que um monumento de concreto, o edifício é um símbolo de um tempo em que a educação era vista como ferramenta de emancipação. Representa a crença de que, ao ensinar um jovem a cultivar a terra com ciência e consciência, estava-se também plantando as sementes de uma sociedade mais justa.
Conclusão: Entre o Passado e o Futuro
Hoje, ao caminhar pelas imediações da Rua dos Funcionários, poucos percebem a profundidade histórica que aquele prédio carrega. Mas para quem se detém a olhar, é possível sentir o eco das vozes que ali aprenderam a escrever seu nome, a calcular a colheita ou a defender seus direitos.
A Escola Dr. Carlos Cavalcanti não é apenas um capítulo da história da educação paranaense — é um lembrete de que toda construção verdadeiramente duradoura começa com o investimento nas pessoas. E, nesse sentido, seu legado continua ensinando — mesmo em silêncio.
