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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Raízes e Sabedoria: A História Viva do Colégio Agrícola Olegário Macedo, o Sonho do Campo que Resistiu ao Tempo

 Denominação inicial: Escola de Trabalhadores Olegário Macedo

Denominação atual: Colégio Agrícola Estadual Olegário Macedo

Endereço: Avenida Marly Rolim, s/n - Vila Rio Branco

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 

Estrutura: padronizado

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1938

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola de Trabalhadores Rurais Olegário Macedo, Castro, em 1943

Acervo: Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR)

Raízes e Sabedoria: A História Viva do Colégio Agrícola Olegário Macedo, o Sonho do Campo que Resistiu ao Tempo

Nos Campos Gerais do Paraná, onde o vento carrega o cheiro de terra molhada e o canto dos sabiás, ergue-se desde 1938 um templo silencioso da educação rural — testemunha de gerações que aprenderam a ler nas páginas dos livros e nas linhas dos sulcos

1938: O Ano em que o Campo Ganhou Escola

Naquele ano em que o mundo se preparava para a tempestade da Segunda Guerra Mundial, enquanto Getúlio Vargas consolidava o Estado Novo com seu discurso de "ordem e progresso", algo extraordinário acontecia nos Campos Gerais do Paraná. Nas terras férteis de Castro — cidade histórica fundada em 1778, outrora ponto obrigatório dos tropeiros que cruzavam o planalto — erguia-se a Escola de Trabalhadores Olegário Macedo, primeira instituição de ensino profissional rural da região
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.
Não era apenas mais um prédio escolar. Era um manifesto em concreto: a crença de que o homem do campo merecia educação digna, técnica e transformadora. Enquanto 1.288 escolas rurais isoladas espalhavam-se pelo Paraná na década de 1930
seer.ufu.br
, aquela construída na Vila Rio Branco distinguia-se por sua vocação profissionalizante — não apenas ensinaria a ler e escrever, mas formaria capatazes, agrimensores, zootecnistas do povo.
Em 6 de janeiro de 1939, poucos meses após sua inauguração, o Decreto nº 7.782 oficializaria nacionalmente o modelo ao regulamentar as "Escolas de Trabalhadores Rurais" — instituições que rompiam com a visão tradicional da escola rural como mero anexo da lavoura para torná-la centro irradiador de modernização agrícola
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. E Castro, com sua vocação agrícola ancestral e sua diversidade étnica de imigrantes italianos, poloneses, ucranianos e holandeses que colonizavam os Campos Gerais desde o século XIX
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, tornava-se palco privilegiado dessa revolução silenciosa
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.

Olegário Macedo: O Homem por Trás do Nome

Quem foi Olegário Macedo? Os registros oficiais calam-se sobre sua biografia completa, mas seu nome inscrito na fachada Art Déco da escola carrega o peso de um legado. No Paraná da primeira metade do século XX, nomes dados a instituições públicas raramente eram escolhidos ao acaso — geralmente homenageavam educadores visionários, políticos progressistas ou pioneiros da agricultura que dedicaram suas vidas ao desenvolvimento do estado
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.
Seja qual tenha sido sua trajetória, Olegário Macedo tornou-se símbolo de uma ideia poderosa: a de que a dignidade do trabalho rural não se mede pela força dos braços, mas pelo conhecimento que guia as mãos. Enquanto o Brasil urbano celebrava a industrialização, aquela escola afirmava com orgulho que o futuro do país também se construía nos campos — e que os filhos de camponeses mereciam sonhar além do arado.

A Arquitetura que Educava: Quando o Art Déco Falava ao Campo

Erguido com estrutura padronizada pelo Departamento de Obras e Viação do Paraná — órgão responsável pela modernização da infraestrutura escolar estadual na era Vargas —, o edifício revelava nas formas a alma de uma época
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. Sua linguagem Art Déco, tão presente nas escolas urbanas da década de 1930, ganhava aqui significado especial: não era mero ornamento estético, mas declaração de igualdade.
As linhas geométricas que cortavam a fachada não dialogavam apenas com a modernidade parisiense; afirmavam que os filhos do campo tinham direito à mesma estética, à mesma racionalidade arquitetônica, à mesma dignidade que as crianças das capitais
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. O bloco único, tipologia predominante nas escolas rurais profissionalizantes, organizava em um só corpo salas de aula, oficinas práticas, dormitórios para alunos internos e espaços administrativos — tudo pensado para criar uma comunidade educativa autossuficiente onde teoria e prática se fundiam
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.
As janelas amplas permitiam entrada generosa de luz natural — elemento essencial não apenas para a saúde das crianças, mas para o simbolismo da "iluminação" do saber. Os corredores largos facilitavam a circulação de alunos que chegavam com botas enlameadas das lavouras vizinhas. E nos pátios externos, projetados estrategicamente próximos a áreas cultiváveis, as lições saíam dos cadernos para a terra: ali, meninos e meninas aprendiam a selecionar sementes, a manejar o solo, a cuidar de animais — transformando conhecimento abstrato em sabedoria concreta
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.
A fotografia preservada no acervo do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR), datada de 1943, captura esse momento histórico
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. Mostra o edifício imponente sob o céu dos Campos Gerais, com jovens de roupas simples mas posturas eretas, orgulhosos de pertencer àquela instituição que os elevava acima da condição de simples "peões do campo". Nas mãos, não apenas livros, mas enxadas, foices e instrumentos de medição — símbolos de uma nova classe de trabalhadores rurais: letrados, técnicos e conscientes de seu valor.

O Cotidiano que Transformava Vidas: Entre o Quadro-Negro e o Campo

Imagine uma manhã típica na escola em meados da década de 1940. Ao raiar do sol, alunos vindos de chácaras distantes — alguns a cavalo, outros de charrete, muitos a pé percorrendo quilômetros de estradas de terra — cruzavam os portões da instituição. A primeira aula não era de português nem de matemática, mas de educação física ao ar livre — parte do programa nacional de formação corporal implementado pelo Estado Novo
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.
Depois, nas salas de aula com carteiras de madeira rústica, professores explicavam a tabuada enquanto relacionavam números à contagem de cabeças de gado ou à medição de áreas plantadas. Lições de geografia focavam nos solos dos Campos Gerais; aulas de história celebravam os pioneiros da agricultura paranaense; até mesmo o civismo varguista adaptava-se à realidade rural — o Hino Nacional era cantado com a mesma devoção com que se rezava pelas chuvas na época da seca
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.
Mas o verdadeiro milagre acontecia após o recreio. Era quando alunos e professores dirigiam-se aos campos experimentais anexos à escola. Ali, sob a orientação de agrônomos formados nas faculdades da capital, jovens aprendiam a:
  • Selecionar variedades de milho adaptadas ao clima dos Campos Gerais
  • Implementar técnicas de rotação de culturas para preservar o solo
  • Manejar rebanhos leiteiros com higiene e eficiência
  • Construir silos para armazenamento de grãos
  • Operar máquinas agrícolas que começavam a chegar ao interior
Essa dupla jornada — entre o quadro-negro e o campo — criava uma geração única: jovens que falavam tanto de frações quanto de fertilidade do solo; que entendiam de gramática e de gramíneas; que liam Machado de Assis e manuais de zootecnia com igual interesse. Eram os primeiros "engenheiros do campo" formados não em universidades distantes, mas na própria terra onde nasceram.

Castro e os Campos Gerais: O Berço Fértil de uma Revolução Silenciosa

Para compreender a magnitude daquela escola, é preciso mergulhar na alma dos Campos Gerais. Região de planalto com altitude entre 800 e 1.200 metros, clima ameno e solos profundos de terra roxa, os Campos Gerais tornaram-se, desde o final do século XIX, fronteira agrícola dinâmica do Paraná
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. Imigrantes europeus chegavam em levas constantes — italianos do Vêneto estabeleciam-se em colônias como Itaiacoca; poloneses fundavam núcleos em Palmeira; ucranianos cultivavam trigo em Mallet; holandeses introduziam técnicas avançadas de produção leiteira
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Castro, cidade histórica às margens do antigo Caminho de Sorocaba, tornou-se ponto de convergência dessas correntes migratórias. Suas terras generosas produziam milho, trigo, soja e, especialmente, leite — atividade que transformaria a região em berço da pecuária leiteira paranaense
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. Mas havia um problema: a agricultura praticada ainda era predominantemente tradicional, baseada na experiência empírica dos avós, sem acesso às inovações técnicas que revolucionavam a agricultura mundial.
Foi nesse contexto que a Escola de Trabalhadores Olegário Macedo surgiu como ponte entre o saber ancestral e a ciência moderna. Seus alunos não apenas absorviam conhecimentos técnicos; tornavam-se agentes de difusão — ao retornarem às propriedades familiares nos fins de semana, levavam consigo sementes selecionadas, técnicas de adubação, métodos de ordenha higiênica. Eram, sem saber, os primeiros extensionistas rurais do Paraná — multiplicadores silenciosos de uma revolução agrícola que transformaria o estado em potência agropecuária nacional.

A Resistência do Tempo: De Escola de Trabalhadores a CEEP

Ao longo de décadas, o edifício na Avenida Marly Rolim testemunhou transformações profundas. O Brasil passou do Estado Novo à redemocratização; da ditadura militar à Constituição de 1988; da agricultura de subsistência à revolução da soja e do agronegócio. E a escola adaptou-se a cada nova era, mantendo sua essência enquanto renovava sua missão.
Na década de 1990, com a reorganização do ensino profissional no Paraná, transformou-se em Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP) Olegário Macedo — denominação que preserva a memória do patrono enquanto afirma seu caráter técnico contemporâneo
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. Seus cursos expandiram-se além da agricultura tradicional para incluir agroindústria, meio ambiente, gestão rural — preparando jovens não apenas para trabalhar na terra, mas para liderar cadeias produtivas complexas.
Em 2024, o colégio celebrou 90 anos de existência — nove décadas durante as quais formou milhares de profissionais que hoje estão espalhados pelos quatro cantos do Brasil e até no exterior
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. Seus ex-alunos tornaram-se engenheiros agrônomos, veterinários, empresários rurais, cooperativistas, pesquisadores — muitos retornando à escola como professores, fechando um ciclo de gratidão que poucas instituições conseguem alcançar
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O edifício original, embora com alterações ao longo do tempo, permanece de pé — testemunha silenciosa de gerações que cruzaram seus portais
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. Fachadas foram revestidas, janelas trocadas, novos pavilhões erguidos ao redor do bloco Art Déco original. Mas nas paredes mais antigas, ainda se percebem os traços geométricos da década de 1930 — um friso escondido sob tinta nova, uma moldura angular resistindo às reformas. E no pátio central, onde hoje alunos usam celulares para pesquisar pragas agrícolas, ainda ecoa o murmúrio das primeiras turmas que ali aprenderam a soletrar "agricultura" com orgulho.

O Legado que Não se Mede em Colheitas

Hoje, quando se fala em educação rural no Brasil, muitos evocam estatísticas de evasão escolar, falta de infraestrutura, distância até a escola mais próxima. Mas o Colégio Agrícola Olegário Macedo representa outra narrativa — a de que a escola rural pode ser, sim, lugar de excelência, inovação e transformação social.
Sua história ensina lições profundas:
  • Que a dignidade do trabalho rural não depende de romantização, mas de valorização técnica e intelectual do saber camponês
  • Que a modernização agrícola não precisa significar o abandono das tradições, mas sua releitura à luz do conhecimento científico
  • Que as periferias do Brasil — os interiores, os campos, as zonas rurais — merecem infraestrutura educacional de primeira linha, não versões empobrecidas do que existe nas capitais
  • Que a arquitetura escolar não é neutra: um prédio Art Déco erguido no campo afirma, em cada linha geométrica, que os filhos do campo são tão dignos de beleza e ordem quanto os da cidade
Em um país onde a dicotomia urbano/rural ainda alimenta preconceitos profundos, aquela escola de 1938 permanece como farol. Não apenas por formar técnicos agrícolas — embora isso seja crucial —, mas por resgatar a autoestima de quem vive da terra. Por ensinar que lavrar a terra com conhecimento é tão nobre quanto operar um computador; que entender os ciclos da natureza é tão complexo quanto dominar algoritmos; que o futuro do Brasil depende tanto dos arranha-céus de São Paulo quanto dos campos de soja dos Campos Gerais.

Epílogo: O Canto dos Sabiás Sobre as Carteiras Vazias

Ao entardecer, quando o sol se põe atrás das colinas que cercam Castro e os últimos alunos deixam os portões da escola, algo mágico acontece. O silêncio invade os corredores onde, durante décadas, ecoaram risadas, recitativos de tabuadas e discussões sobre pragas agrícolas. E nesse silêncio, se prestarmos atenção, podemos ouvir:
O menino polonês de 1942 que aprendeu a ler em português antes de falar fluentemente, hoje avô orgulhoso mostrando aos netos o diploma de conclusão do curso de capataz.
A menina italiana de 1955 que desafiou preconceitos para estudar zootecnia, tornando-se pioneira na produção leiteira da região.
O jovem de 1987 que saiu da escola para cursar agronomia na UFPR, retornando anos depois como professor para ensinar novas gerações.
E o aluno de 2023, filho de agricultores familiares, que sonha em unir tecnologia de precisão com práticas agroecológicas para transformar a propriedade dos pais em modelo de sustentabilidade.
Nove décadas. Milhares de histórias. Uma única certeza: a Escola de Trabalhadores Olegário Macedo nunca foi apenas um prédio. Foi — e continua sendo — o lugar onde o campo paranaense aprendeu a sonhar com dignidade. Onde a terra não apenas alimentou corpos, mas também nutriu mentes. Onde cada aluno que cruzou seus portais levou consigo uma semente: não de milho ou soja, mas de esperança — a certeza de que, mesmo nas terras mais distantes da capital, o conhecimento pode florescer com a mesma força das lavouras que cobrem os Campos Gerais.
E assim, entre as linhas geométricas de seu Art Déco resistente e o cheiro eterno da terra molhada pela chuva da tarde, o Colégio Agrícola Olegário Macedo permanece de pé — não como monumento ao passado, mas como sementeira viva do futuro. Porque enquanto houver jovens dispostos a aprender com a terra e a transformá-la com sabedoria, aquela escola inaugurada em 1938 continuará cumprindo sua missão mais nobre: plantar conhecimento para colher cidadãos.
E nos Campos Gerais, onde o vento sopra livre sobre planícies infinitas, isso é mais que educação. É poesia em forma de colheita. É história que se renova a cada safra. É o Brasil profundo — aquele que não aparece nos noticiários, mas que sustenta a nação com o suor de suas mãos e a inteligência de seu coração — encontrando, finalmente, seu lugar ao sol.