quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Madraça Ulugue Begue: Sabedoria, Ciência e Arte no Coração da Ásia Central

 

Madraça Ulugue Begue
Ulugʻbek madrasasi
Informações gerais
TipoMadraça
Construção1417–1421
ReligiãoIslão sunita
Património Mundial
Ano2001 [♦]
Referência603 en fr es
Geografia
PaísUsbequistão
CidadeSamarcanda
Conjunto monumentalReguistão
Coordenadas39° 39′ 17″ N, 66° 58′ 29″ L
Localização em mapa dinâmico
Notas:
[♦] ^ Parte do sítio do Património Mundial "Samarcanda – cruzamento de culturas"

A Madraça Ulugue Begue (em usbeque: Ulugʻbek madrasasi) é uma madraça (escola islâmica) no centro histórico de Samarcanda, um sítio classificado como Património Mundial pela UNESCO no Usbequistão.[1] Juntamente com outros monumentos, forma o conjunto monumental do Reguistão, o antigo coração da cidade.[2] Foi construída entre 1417 e 1421 pelo então governador timúrida de Samarcanda, Ulugue Begue, o neto de Tamerlão e proeminente astrónomo, que depois foi imperador entre 1447 e 1449.[3]

A madraça foi um importante centro de ensino do Império Timúrida,[4] onde lecionaram alguns dos mais destacados académicos do seu tempo,[5] tanto religiosos como seculares.[4] É o edifício mais antigo do Reguistão, o único do século XV[2] e o único sobrevivente dum conjunto arquitetónico mais vasto, que incluía várias mesquitas, caravançarais, um bazar e um khanaqah (pousada de sufistas).[4] No local deste último encontra-se atualmente a Madraça Cher-Dor, situada em frente à Madraça Ulugue Begue.[6]

História e contexto

A madraça é um dos vários monumentos erigidos em Samarcanda por Ulugue Begue, que foi um grande patrono do ensino, cultura e ciência na cidade que foi a capital do império fundado pelo seu avô Tamerlão e que ele governou de forma praticamente independente a partir de 1409, enquanto o seu pai Xaruque dirigia o Império Timúrida a partir de Herate, para onde tinha transferido a capital.[3] Ulugue Begue era ele próprio era um estudioso e cientista, que se destacou principalmente no campo da astronomia, conhecido principalmente pelos seus mapas estelares de grande precisão, apesar de terem sido realizados sem recorrer a telescópios.[7]

Embora seja comum apresentar a madraça como uma universidade, alguns autores, nomeadamente Pierre Chuvin, observam que pode ser um exagero considerá-la uma verdadeira universidade, similar às que existem na atualidade, pois o ensino nela ministrado estava muito ligado ao islão. Isso era, de resto, coerente com a forma como o seu fundador encarava a aprendizagem — apesar da sua faceta de cientista, Ulugue Begue era um muçulmano muito piedoso, que considerava a aprendizagem como um ato de reverência para com a criação de Alá, pelo que é um anacronismo saudá-lo como um adepto do racionalismo.[8]

É evidente a forma como a visão de mundo e os interesses de Ulugue Begue se refletiram no projeto da madraça. Por exemplo, o tratamento decorativo usado respeita integralmente a proibição islâmica da representação de seres vivos, usando-se sobretudo motivos geométricos e caligráficos, como é usual na generalidade dos edifícios religiosos islâmicos. Não obstante, na fachada foram tomadas algumas liberdades consideráveis.[7] Esta é decorada com elementos tesselados que formam um conjunto deslumbrante de "constelações", que podem ser interpretados como uma referência à paixão do fundador da madraça pela astronomia. Na verdade, sabe-se que uma parte do edifício foi usado durante algum tempo como observatório astronómico, antes de ter sido construído um edifício projetado especificamente com esse fim, o Observatório de Ulugue Begue, do qual resta muito pouco atualmente porque foi destruído por fanáticos religiosos em 1449, pouco depois da morte de Ulugue Begue.[7] Além da madraça de Samarcanda,[3] onde terá sido professor,[5] Ulugue Begue fundou outras duas, ambas também conhecidas com o seu nome, uma em Bucara e outra em G‘ijduvon,[3][7] embora alguns autores acreditem que estas foram construídas por um filho de Ulugue, Abedalá.[2]

Dadas as semelhanças das três madraças que têm o nome do príncipe-astrónomo em termos de planta e altura, todas elas podem ter tido o mesmo arquiteto. Sabe-se o nome do arquiteto da de Bucara — Ismail b. Tair b. Mamade Isfaani — que pode ter sido descendente dum dos mestres construtores e artesãos capturados pelos exércitos de Tamerlão em Isfaã, no Irão que foram forçados ficar nos domínios timúridas da Ásia Central.[7]

Arquitetura

Pátio interior

O edifício tem planta retangular, com 56 por 81 metros,[7] com um minarete com 33 metros de altura em cada um dos quatro ângulos.[5] Cada um dos lados é constituído por blocos de dois pisos, que circundam um pátio interior. A entrada é feita por três ivãs sucessivos. O ivã exterior, virado para a praça Reguistão, tem um enorme pistaque com 35 metros de altura[5] (o dobro da altura do resto do edifício) e ocupa dois terços do lado da madraça. Ostenta uma inscrição em cúfico onde se lê: «esta fachada magnificente tem uma altura tal que é o dobro da do céu e tem um peso tal que a espinha da Terra está prestes a demoronar».[5] A seguir ao ivã exterior há um outro intermédio, mais pequeno, que por sua vez dá acesso a um terceiro, virado para o pátio interior.[4]

O pátio interior, com 30 por 40 metros,[7] é rodeado por uma galeria de dois pisos, onde estão as entradas das ciquenta hujras (celas de habitação dos estudantes). No centro de cada uma das galerias do pátio há um ivã. O do lado ocidental dá acesso a uma mesquita comprida e estreita, situada na parte traseira da madraça,[4] onde estão em exposição várias peças, nomeadamente documentos e gravuras europeias do século XVII. Uma das das gravuras mostra Ulugue Begue com aspeto muito europeu. Em cada um dos cantos do pátio há uma darskhana (sala de leitura ou de aulas),[5] coberta por uma cúpula. Estas salas flanqueiam a sala da mesquita a oeste e o ivã principal a leste.[4] A colocação das salas de aula nos cantos foi adotada por quase todas as madraças posteriores da Ásia Central, embora nas madraças mais recentes ser comum uma das esquinas ser ocupada pela mesquita, em vez desta ficar na parte traseira.[7]

Todas as superfícies exteriores estão cobertas por um esquema decorativo variegado, executado em tijolos hazarbaf, azulejos haft e mosaicos de faiança (majólica). Os lambrins e molduras são em mármore.[4] Os motivos decorativos são sobretudo padrões girikh geométricos, mas também há motivos florais e inscrições em cúfico. A base amarelo-acastanhada (cor de terra), ajuda a destacar os vidrados verdes, amarelos, turquesa e azuis claros e escuros. No pishtaq da entrada principal, uma panóplia de estrelas azuis na decoração demonstra a paixão de Ulugue Begue pela astronomia.[5]

Notas

Referências

  1. Samarkand – Crossroad of Cultures. UNESCO World Heritage Centre - World Heritage List (whc.unesco.org). Em inglês ; em francês ; em espanhol. Páginas visitadas em 19 de novembro de 2020.
  2.  Bloom & Blair 2009, p. 398. Versão online: «Central Asia». Oxford Islamic Studies Online. Consultado em 19 de novembro de 2020
  3.  Peter, Bernhard (2006). «Die Medrese von Ulugh Beg in Samarqand» (em alemão). www.kultur-in-asien.de. Consultado em 19 de novembro de 2020
  4.  «Madrasah-i Ulugh Beg (Samarkand)». archnet.org (em inglês). ArchNet: Islamic Architecture Community. Consultado em 19 de novembro de 2020
  5.  MacLeod & Mayhew 2017, p. 182.
  6. «Sher-Dor Madrasa, Samarkand, Uzbekistan» (em inglês). Asian Historical Architecture. www.orientalarchitecture.com. Consultado em 19 de novembro de 2020
  7.  «Ulugh Beg Madrasa of Samarkand, Uzbekistan» (em inglês). Asian Historical Architecture. www.orientalarchitecture.com. Consultado em 19 de novembro de 2020
  8. Chuvin & Degeorge 2001, citado em OrientalArchitecture.com

Bibliografia

A Madraça Ulugue Begue: Sabedoria, Ciência e Arte no Coração da Ásia Central

A Madraça Ulugue Begue (em usbeque: Ulugʻbek madrasasi) é uma das mais importantes e antigas escolas islâmicas preservadas da Ásia Central. Localizada no centro histórico de Samarcanda, cidade classificada como Patrimônio Mundial da UNESCO, ela faz parte do conjunto monumental do Reguistão — a antiga praça principal e coração político, religioso e cultural da cidade durante séculos. Erguida sob a direção de um dos governantes mais brilhantes de sua época, esse edifício representa a fusão entre fé, conhecimento e arte no auge do Império Timúrida.

Origem e Contexto Histórico

A construção da madraça ocorreu entre 1417 e 1421, por ordem de Ulugue Begue, neto do famoso conquistador Tamerlão. Na época, ele governava Samarcanda de forma quase independente, enquanto seu pai, Xaruque, mantinha a capital oficial do império na cidade de Herate. Ulugue Begue se tornou imperador de todo o território timúrida apenas mais tarde, exercendo o cargo de 1447 a 1449.
Mais do que um governante, ele foi um patrono incansável da cultura, da educação e da ciência. Ele próprio era um estudioso e astrônomo de renome mundial, responsável por elaborar mapas estelares de precisão impressionante — tudo isso sem o auxílio de telescópios, que só seriam inventados mais de um século depois. Para Ulugue Begue, o aprendizado não era apenas um dever intelectual, mas também um ato de devoção: ele acreditava que estudar o universo era uma forma de compreender e reverenciar a criação de Alá.
A madraça de Samarcanda foi a primeira de três instituições semelhantes fundadas por ele ou sob sua influência — as outras ficaram em Bucara e em G‘ijduvon. Alguns estudiosos sugerem que as duas últimas podem ter sido concluídas por seu filho, Abedalá, mas todas seguem o mesmo padrão arquitetônico e refletem o mesmo ideal de ensino.
Ela também é o edifício mais antigo do Reguistão e o único remanescente do século XV no local. Originalmente, fazia parte de um conjunto arquitetônico muito maior, que incluía mesquitas, pousadas para viajantes (caravançarais), um mercado e uma residência para monges sufistas. Hoje, no lugar dessa última, ergue-se a Madraça Cher-Dor, construída séculos depois e posicionada exatamente em frente à obra de Ulugue Begue.

Uma Instituição de Ensino: Entre Religião e Ciência

Por muito tempo, a Madraça Ulugue Begue foi considerada a primeira “universidade” da Ásia Central. No entanto, historiadores como Pierre Chuvin alertam que esse termo deve ser usado com cuidado: diferente das universidades modernas, o ensino ali era profundamente ligado à doutrina islâmica. Ainda assim, sua abrangência era maior do que na maioria das instituições religiosas da época.
Ali lecionaram e estudaram os maiores intelectuais do Império Timúrida. O currículo combinava estudos religiosos — interpretação do Alcorão, direito islâmico e teologia — com disciplinas seculares como matemática, geografia, lógica, literatura e, especialmente, astronomia. Há registros que indicam que Ulugue Begue chegou a atuar como professor no próprio edifício. Por um tempo, uma das alas da madraça foi até usada como observatório astronômico, antes que ele construísse uma instalação específica para esse fim, o famoso Observatório de Ulugue Begue. Infelizmente, essa estrutura foi destruída por grupos religiosos radicais logo após sua morte, em 1449, restando dela apenas vestígios até hoje.

Arquitetura e Decoração: Simbolismo e Precisão

O projeto da madraça reflete tanto a tradição arquitetônica islâmica quanto os interesses pessoais de seu fundador. O arquiteto principal da obra, assim como das outras madraças da mesma família, provavelmente foi Ismail b. Tair b. Mamade Isfaani — um mestre construtor descendente de artesãos trazidos de cidades persas pelo exército de Tamerlão, especialistas em técnicas de construção e decoração que se tornaram marca registrada da região.

Estrutura Geral

O edifício tem planta retangular, medindo 56 metros de largura por 81 metros de comprimento. Em cada um dos quatro cantos, ergue-se um minarete de 33 metros de altura, que serviam tanto para a chamada à oração quanto para marcar a presença da instituição na paisagem da cidade.
Todo o perímetro é formado por blocos de dois andares que cercam um amplo pátio interno. A entrada principal é feita por meio de três salões abertos em arco, chamados ivãs. O primeiro e mais imponente deles, voltado para a praça do Reguistão, tem uma fachada monumental — o pishtaq — com 35 metros de altura, ou seja, o dobro da altura do resto do edifício. Nela, uma inscrição em caligrafia cúfica dizia, em tom grandioso: “esta fachada magnificente tem uma altura tal que é o dobro da do céu e tem um peso tal que a espinha da Terra está prestes a desmoronar”.

O Pátio Interior

No centro, o pátio tem 30 metros de largura por 40 de comprimento e é rodeado por uma galeria coberta de dois andares. Ali se abrem as portas de 50 celas (hujras), onde moravam os estudantes durante o período de formação. Em cada lado do pátio há um novo ivã, que dá acesso aos espaços principais:
  • No lado oeste, o salão conduz a uma mesquita comprida e estreita, localizada na parte traseira da madraça. Hoje, esse espaço funciona como uma pequena exposição, com documentos antigos, mapas e gravuras europeias do século XVII — uma delas mostra uma representação de Ulugue Begue feita com traços ocidentais.
  • Nos quatro cantos do pátio ficam as salas de aula e leitura (darskhana), cada uma coberta por uma cúpula. Essa disposição foi inovadora para a época e se tornou um modelo seguido por quase todas as madraças construídas posteriormente na Ásia Central.

Decoração e Simbolismo

Seguindo a regra islâmica de não representar seres vivos, toda a decoração é feita com padrões geométricos, motivos florais estilizados e inscrições com versículos do Alcorão e frases de sabedoria. Os materiais usados são nobres: tijolos trabalhados, azulejos coloridos, mosaicos de faiança e lambrins de mármore. A base de tom terroso amarelado contrasta com o brilho dos vidrados em tons de verde, amarelo, turquesa e azul — cor que predomina na parte superior da fachada.
Mas o detalhe mais especial está nos azulejos da entrada principal: eles formam desenhos que lembram constelações e estrelas, uma referência direta à paixão de Ulugue Begue pela astronomia. É uma forma única de ver, na arquitetura, a ligação entre a fé que guiava a instituição e a ciência que seu fundador tanto valorizava.