Vista Parcial, em destaque a praca Carlos Gomes, aparecem as ruas Pedro Ivo a direita a rua Jose Loureiro a esquina aparecem a Avenida Marechal Floriano e Monsenhor Celso. [data aproximada 1930]

fotos fatos e curiosidades antigamente O passado, o legado de um homem pode até ser momentaneamente esquecido, nunca apagado
A Escola de Dona Carola
Lauro Grein Filho
Andava beirando os seis anos quando, pelas mãos ainda jovens de minha mãe, fui levado da rua Dr. Pedrosa, onde morávamos, para uma velha casa em meio à André de Barros, endereço da professora mais famosa da época.
Com a mestra, uma senhora miúda e simpática, em cuja fala cantava o peculiar acento nordestino, minha mãe conversou a respeito do novo aluno, já alfabetizado e um tanto desenvolto nas quatro operações.Ajustadas na hora e no preço de vinte mil réis por mês, D. Carola assegurou à interessada que 1a "puxar"pelo menino, o que desse e pudesse.
Assim que minha mãe saiu, a professora colocou-me defronte ao quadro negro, onde me submeteu a um breve exame oral para ver até onde 1a em português e aritmética.
Somei e diminuí bem, multipliquei regularmente e dividi mal. A sala era retangular, com duas alas de carteiras contíguas que se estendiam por todo comprimento. À frente de tudo D. Carola, em pé, ou sentada na janela, comandando, corrigindo, ensinando. A disciplina era observada à risca e ninguém ousava infrigí-la. Não só pelo respeito que a professora inspirava, como pelo temor às reguadas que estalavam fáceis ao mínimo sinal de mau comportamento.
A escola preparava para os exames de admissão ao Ginásio e Escola Normal.
Estudava-se de tudo: aritmética desde os enormes carroções do livro de Souza Lobo, até álgebra, juros e câmbio.
Em português eram as análises gramáticas, mais que as lógicas, as composições e os ditados extraídos dos "Autores Contemporâneos". Geografia decorava-se no "O Brasil e o Paraná", de Sebastião Paraná. Nesse livro aprendi que a população do Brasil era de 36 milhões de habitantes e a superfície de 8.000.767.01 lkms2.
Não existia recreio, nem intervalos, nem chamadas, nem perda de tempo. O estudo era incessante e só na saída das aul.is é que sobravam opurtunidades para as brincadeiras de rua, pelada, búrico, ou pião, conforme as temporadas. A classe era mista de meninos e meninas, unidos por uma camaradagem sadia que a todos confraternizava na estima e no bom entendimento.
A Escola manteve-se aberta durante pelo menos trinta anos na mesma quadra da André de Barros, próxima à Floriano, instruindo e educando centenas e centenas de crianças.
Recordo e reconheço todos os colegas daquele tempo e daqueles bancos, médicos, advogados, engenheiros, magistrados, presidentes de Clubes, de Entidades, da Boca, etc. D. Carola há muito desapareceu.
Sua imagem lembrada e perpetuada em nome de rua, marca uma página na História da cultura paranaense.
Da mestra e seus alunos, para tudo dizer, seriam poucas as muitas folhas de um livro. O livro que D. Carola merece.
Lauro Grein Filho é do Centro de Letras do Paraná.
Russo ou Polaco?
Sérgio Luiz Chautard
A pacata Curitiba dos anos 40 oferecia poucas opurtunidades de " modernos" entreterimentos a garotada.
Hoje comparando vemos o quanto perdemos em espaços livres de poluição, mas naquele tempo ainda não percebíamos o tesouro que dispúnhamos.
A grande novidade eletrônica era o rádio e os programas de auditório que geravam.
A PRB-2 tinha seu auditório na Rua Barão do Rio Branco e nele se acomodavam umas cento e cinqüenta pessoas que disputavam o previlégio de assistir programas ao vivo.
A variedade era grande e especialmente os programas de calouros que imitavam, localmente, a famosa Hora do Pato, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Existiam também sessões de cinema naqueles auditórios visando chamar mais gente para os já concorridos lugares.
Também pagava-se entrada variando o custo conforme a importância do que se apresentava.
Mas um dos programas mais disputados era, sem dúvida, o que dirigia à platéia diversas perguntas premiando o acertador.
Grupos se organizavam para responder corretamente e faturar os prêmios.
Muitos prêmios eram em dinheiro de cinco a cincoenta mil réis, verdadeiras fortunas.
Outros prêmios eram em espécie e de uma variedade incrível.
Além das perguntas normais sobre futebol, história, geografia, etc, haviam algumas que consistia em o contra-regra, na sala de comando da rádio, tocar parte de um disco, normalmente música, autor, etc, enfim perguntas sobre música e seus executantes eram usuais.
Uma das indústrias que ajudavam nos prêmios em espécie era a já vitoriosa Todeschini que sempre oferecia "cinco quilogramas da bala de ovos Rainha". Numa dessas ocasiões em que o prêmio eram esses quilos de balas a pergunta arremessada à platéia foi:
"O violinista Alexander Brailovski é russo ou polaco?"
Imediatamente o auditório separou-se em dois grupos ululantes que respondiam simultaneamente "Russso", "Polaco" um verdadeiro pandemonio sob a batuta do animador que ia, sorridente, recebendo as duas únicas respostas aparentemente possíveis.
No meio daquela selva de braços erguidos existia o de um garoto que nada dizia mas pedia a palavra por gestos e que acabou sendo notado pelo animador que esperando prolongar a festa, fez a opção: disse "Vamos ouvir o garoto ali".
- Não sei se é russo ou polaco mas Alexandre Brailovski não é violinista e sim pianista.
Fui vaiado, cuspido, xingado, mas levei meus cinco quilos de bala.
Anos mais tarde tive o prazer de assistir a um concerto de piano, no Municipal do Rio, com o meu ídolo de então.
Nunca mais, porém após aquela vitória, consegui gostar de bala de ovos!
Sérgio Luiz Chautard é técnico industrial, professor e sindicalista.