domingo, 25 de dezembro de 2022

A VILA ODETE

 A VILA ODETE

https://paulodafigaro.blogspot.com/2016/02/a-vila-odete-o-esplendor-do-ciclo.html

Paulo José da Costa
agradeço por informações que completem a postagem
compro material fotográfico e documental para compor meu acervo.
paulodafigaro@hotmail.com

A Vila Odete começou a ser construída em 1923 para abrigar Agostinho Ermelino de Leão e sua esposa, recém casados. Com mais de 800 m2,  tinha muitas salas, cada uma decorada em estilo diferente,com as mais finas madeiras, panos, vitrais, mármores, entalhes, marchetaria...   A beleza dos jardins é impressionante.   É a síntese perfeita do que a riqueza da erva-mate proporcionou a algumas famílias curitibanas, o retrato perfeito de uma época, de um ciclo.    
                         O autor do projeto é Eduardo Fernando Chaves (1892-1944).                        
                         Esse álbum eu encontrei nas mãos de um colecionador de São Paulo, que me cedeu gentilmente para publicação.

se usar as imagens, por favor cite a fonte. 












































Paulo José da Costa
agradeço por informações que completem a postagem
compro material fotográfico e documental para compor meu acervo.
paulodafigaro@hotmail.com



sábado, 24 de dezembro de 2022

1953 Praça Oswaldo Cruz com apenas um campo para exercícios, em primeiro plano continuação da Visconde de Guarapuava.

 1953 Praça Oswaldo Cruz com apenas um campo para exercícios, em primeiro plano continuação da Visconde de Guarapuava.



Praça Oswaldo Cruz sendo utilizado como campo de futebol e exercícios, em frente ao antigo quartel, no lado esquerdo a Avenida Sete de Setembro.



Futebol - 1912. Depois da preliminar da Corrida de Saco, entrou em campo Internacional X Corityba, prelúdio dos Atletibas de hoje, pois em 1924 o Internacional juntou- se com o América e surgiu o Clube Atlético Paranaense. Aos apostadores, deu coluna 1: Internacional 4, Corityba 1

 Futebol - 1912. Depois da preliminar da Corrida de Saco, entrou em campo Internacional X Corityba, prelúdio dos Atletibas de hoje, pois em 1924 o Internacional juntou- se com o América e surgiu o Clube Atlético Paranaense. Aos apostadores, deu coluna 1: Internacional 4, Corityba 1


1948 Time de futebol do Grêmio Esportivo Cruzeiro do Sul, em seu campo, onde hoje fica a esquina entre as ruas Desembargador Westphalen e Professor Porthos Velozzo. Ao fundo, uma barraquinha de venda de cerveja, o Capão dos Corvos [ a esquerda ]e, bem ao fundo, a direita, o Morro do Guabirotuba. Veem-se, da esq. p/ dta.: [ em pé ] Francisco Cordeiro, Orlando..., Pedro Calixto, Brasilio Berdecka, João Pak, Carlos Friedrich e Adir Marques; [ agachados ] Lelo Ceschin, Ponta Grossa, João Teixeira, " Pardais " e Manoel Ferreira

 1948 Time de futebol do Grêmio Esportivo Cruzeiro do Sul, em seu campo, onde hoje fica a esquina entre as ruas Desembargador Westphalen e Professor Porthos Velozzo. Ao fundo, uma barraquinha de venda de cerveja, o Capão dos Corvos [ a esquerda ]e, bem ao fundo, a direita, o Morro do Guabirotuba. Veem-se, da esq. p/ dta.: [ em pé ] Francisco Cordeiro, Orlando..., Pedro Calixto, Brasilio Berdecka, João Pak, Carlos Friedrich e Adir Marques; [ agachados ] Lelo Ceschin, Ponta Grossa, João Teixeira, " Pardais " e Manoel Ferreira


Time amador de futebol da Primeira Igreja Batista. Veem-se, da esq. p/ dta.: em pé Esmeraldo da Costa, Simeão Matias, Levi Nascimento, Amauri de Oliveira, Nilson do Amaral Fanini e Nereu Colini; [ agachados ] Jaime Mestrinho, [ não identificado ], Orildo Scheffer, Luiz Mestrinho e Eduardo Mario Camargo. Nilson Fani e atualmente presidente da Aliança Batista Mundial, e Luiz Mestrinho e general.

 


Time amador de futebol da Primeira Igreja Batista. Veem-se, da esq. p/ dta.: em pé Esmeraldo da Costa, Simeão Matias, Levi Nascimento, Amauri de Oliveira, Nilson do Amaral Fanini e Nereu Colini; [ agachados ] Jaime Mestrinho, [ não identificado ], Orildo Scheffer, Luiz Mestrinho e Eduardo Mario Camargo. Nilson Fani e atualmente presidente da Aliança Batista Mundial, e Luiz Mestrinho e general.


a equipe de atletas do 9º Regimento de Artilharia Montada, que conquistou o primeiro lugar nas Olimpiadas de quinto Regiao Militar de 1928. Vendo-se a esquerda, o tenente Luis Goncalves e a direita, o Tenente Romero Kirchofer Cabral

 a equipe de atletas do 9º Regimento de Artilharia Montada, que conquistou o primeiro lugar nas Olimpiadas de quinto Regiao Militar de 1928. Vendo-se a esquerda, o tenente Luis Goncalves e a direita, o Tenente Romero Kirchofer Cabral


A história da Guarda Civil do Paraná (1911-1970)

 

A história da Guarda Civil do Paraná (1911-1970)


Integrantes da 1ª turma da Guarda Civil desfilam pela avenida Luiz Xavier no dia 25 de novembro de 1911. (Foto: Acervo Cid Destefani, Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia, 15 de novembro de 1992)

Em 1831 a segurança pública no Brasil passou por uma grande reforma. Seu autor foi Diogo Antônio Feijó, um dos regentes que governaram o país após o retorno de Dom Pedro I a Portugal. O sucessor natural, Dom Pedro II, não tinha idade para assumir o trono, o que determinou esse hiato regencial durante o Brasil Império.  Padre Feijó, quando ainda era ministro da justiça, extinguiu as antigas Forças Armadas das Capitanias, que eram compostas pela Tropas de Linha das Milícias e pelos Corpos de Ordenanças, criando em substituição a Guarda Nacional (lei de 18 de agosto de 1831) que deveria ter representações em todos os municípios do país.

Outra lei, de 10 de outubro do mesmo ano, altera o nome das recém-criadas corporações locais para “Guardas Municipais”. A regulamentação dessa lei foi estabelecida 12 dias depois, por meio de um decreto. Conforme esclarece Alci Romero em sua pesquisa “A Gênese da Polícia Militar no Estado do Paraná (1831-1874)”, esta regulamentação das Guardas Municipais estipulava características genéricas e disciplinares que a nova corporação deveria assumir nas cidades em que fosse adotada. Seu molde foi a Guarda Municipal de São Paulo, que se tornou o núcleo fundador da futura Polícia Militar daquele estado.

Curitiba, que era a 5ª Comarca da Província de São Paulo, só foi contemplada com um destacamento em 25 de junho de 1834. O inspetor Cláudio Frederico, atual comandante da Guarda Municipal de Curitiba, aponta o fato de que entre os livros pertencentes ao acervo histórico da Câmara Municipal, de fato encontra-se a “Qualificação dos Guardas Municipais 1835-1846”, o que demonstraria a existência dessa corporação militar.

Alci Romero, entretanto, lembra que dois anos depois seria criada, novamente por meio de lei provincial (10 de março de 1836), outra entidade para a defesa de Curitiba: a “Companhia de Municipais Permanentes”. De acordo com o pesquisador, a atuação dos permanentes também se mostrou irregular, esporádica e essa situação se prolongou até a Emancipação do Paraná, em 1853.

Este evento possibilitou que o primeiro presidente da província, Zacarias de Góes e Vasconcellos, assinasse a criação da “Companhia de Força Policial” (lei nº. 7/1854), embrião da atual Polícia Militar do Paraná. O regimento era constituído inicialmente por 67 homens e 33 armas de fogo. A entidade, de acordo com Romero, “não desempenhou uma atividade ativa junto à população, exatamente porque os presidentes provinciais aos quais estava subordinada preferiram deixá-la nos quartéis”.

A Guerra do Paraguai acentuou essa ausência, mas ao término do conflito, em 1870, a corporação contava com 140 integrantes e, em 1874, seu efetivo havia aumentado para 202 praças. Nesse mesmo ano seu nome foi substituído para “Corpo Policial da Província do Paraná”.

Polícia Científica
Conforme o pesquisador Clóvis Gruner em sua tese de doutorado “Paixões torpes, ambições sórdidas...” a Proclamação da República trouxe novidades em todas as áreas da sociedade, sendo que uma delas foi a da segurança pública, com a aprovação do “Código Penal Brazileiro”, em 1890. A nova legislação possibilitou a adoção de metodologias e inovações científicas que estavam revolucionando as forças policiais em países da Europa e na América.

Exames dactiloscópicos (impressões digitais) passaram a ser praticados no Gabinete de Identificação e Estatística (inaugurado em Curitiba no ano de 1895). Cinco anos depois, a Polícia do Paraná passou a usar a fotografia para a identificação de presos e também para o registro de cenas de crimes. Em 1914, foi inaugurado o Laboratório de Análises que realizava exames de sangue e de esperma, entre outros. Este órgão se somou ao Serviço Médico Legal (necrotério) para conferir à atividade policial um caráter mais científico, em acordo com as aspirações positivistas da época.

Nesse contexto de renovação, havia, também, a necessidade de uma melhor convivência entre a polícia e a população, o que só seria possível com patrulheiros de rua cordatos e gentis. Essa necessidade gerou, em 1904, a criação da primeira Guarda Civil de uma cidade brasileira [Rio de Janeiro, então Distrito Federal].

No Paraná, o artigo 8º da lei estadual 1041/1911 autorizou o presidente do estado [Francisco Xavier da Silva] a criar a Guarda Civil. Ela foi instituída pelo decreto estadual 262 de 17 de junho de 1911 e passou a atuar com sede num dos prédios do entorno da Praça Zacarias. A inauguração deste local se deu em 25 de novembro daquele ano e foi descrita pelo jornal “A República” daquele mesmo dia.

Conforme o periódico, as instalações da Guarda Civil estavam ornamentadas por buquês de flores naturais e, nas paredes, quadros com máximas morais. O evento inaugural contou com a presença de autoridades civis e militares, representantes da imprensa e outros convidados que puderam ouvir as palavras do doutor Stanislau Cardoso, Chefe de Polícia. Ele lembrou como a corporação foi criada e enalteceu seus objetivos. Outros discursos foram proferidos. Os 60 guardas-civis (confira abaixo o anexo “pdf 1”) que compunham aquele primeiro regimento permaneceram enfileirados na entrada do prédio e, após a inauguração, desfilaram pelas ruas da cidade recebendo muitos aplausos. “Eram os novos agentes da lei que o povo saudava em nome da própria segurança”, observou o jornalista Cid Destefani em matéria sobre a Guarda Civil publicada pela Gazeta do Povo em 1992.

Progresso
A criação da Guarda Civil também estava em consonância com a ideia de modernidade e progresso que Curitiba almejava desde que se tornou capital da Província. Países da Europa, sobretudo a França, exportavam tendências que eram adotadas (com maior ou menor grau de adesão) pelo resto do mundo, então não seria de todo equivocado encontrar elementos de “gendarmerie” na apresentação e na conduta daqueles novos policiais curitibanos. “Gens d’armes” (Homens de Armas) eram os integrantes das milícias surgidas em Paris durante a Revolução Francesa (1789) com a finalidade de tentar preservar a segurança da cidade. Com o tempo, a expressão ganhou outros contornos e se expandiu pelo mundo como sinônimo de polícia de elite.

Os uniformes cor azul-marinho utilizados pelos guardas-civis de Curitiba inspiravam confiança, sentimento que o povo não nutria, naquele momento, em relação ao Regimento de Segurança. A instituição, desde 1908 sofria os reflexos de uma tentativa de insurreição interna que resultou na morte de um dos revoltosos.

A definição da Guarda Civil como uma guarda de elite já estava presente na imprensa ( confira abaixo o anexo “pdf 2”) e nas discussões parlamentares que antecederam sua criação, como se pode depreender do debate havido entre os deputados estaduais Benjamim Pessoa e Jayme Reis [registrado no jornal “A República” de 27 de junho de 1911]. Reis defendia que a medida seria desnecessária, pois a solução do problema da criminalidade em Curitiba consistiria em aumentar o efetivo do Regimento de Segurança.

Pessoa rebateu com a seguinte argumentação: “a Guarda Civil tem uma significação moral mais elevada, effectivamente, porque este é um projeto de cidades grandes, de cidades prósperas, de cidades ricas, é até mesmo um adorno, um enfeite; a cidade servida por Guarda Civil composta de moços limpos, educados, bem instruídos, capazes de raciocínio, de lógica, aptos para distinguir bem a razão entre dois litigantes. Ella tem um ponto de vista mais lato, um horizonte mais vasto; uma cousa bonita, que dá nome a uma cidade, a um estado, a um governo; tem esta significação bela”.

A exigência de boa conduta por parte dos novos guardas-civis estava explícita no texto do decreto que criou a instituição [e que veio a embasar seu regulamento]. O decreto 262 de 15 de março de 1911, publicado pelo jornal “A República” em 24 de junho diz em seu artigo 28 que o guarda deve dirigir-se ao superior com inteira obediência e tratar com os companheiros e o público com a maior cortesia e seriedade. O artigo seguinte determinava que o guarda não deveria provocar ou alimentar discussões, e no cumprimento de suas funções deveria agir com prudência, calma e energia, tratando os delinquentes com respeito e humanidade. O texto vai além, estipulando restrições comportamentais aos agentes: o artigo 34 estabelecia que o guarda durante o serviço [que durava seis horas] não deveria fumar, conversar ou se sentar.

A reação popular
A estreia da nova corporação foi vista com desconfiança pela população, conforme se verifica numa crônica publicada em “A República” uma semana depois da implantação do serviço. O autor, que se intitula singelamente “Solidônio”, diz que num lugar onde o patrulhamento policial era até então praticamente nenhum, seria de se esperar que a população reagisse com estranhamento. “Era de supor, portanto, que aqui ou ali a intervenção do Guarda causasse contrariedade porque, se alguns, por prudência ou julgando justa qualquer admoestação, a ellas se submettiam, outros poderiam insurgir-se colocando acima dos princípios de tolerância os estos da vaidade, do orgulho, do sentimento de rebeldia que todo povo livre possue em maior ou menor somma”.

A crônica sugere que os guardas pareciam levar excessivamente ao “pé-da-letra” as normas e instruções municipais, como foi o caso da lei que proibia o trânsito pelas calçadas portando cargas (sem definir o porte dessas cargas). O cronista reclama que, após uma longa preleção moral, foi instado pelo guarda a andar pelo leito da rua XV por estar carregando um pequeno pacote que continha meras empadas (A República, 2 de dezembro de 1911).

Após este impacto inicial, a imprensa acabou por se acostumar com a novidade e a Guarda Civil passou a ser citada quase diariamente. Chama atenção, nesses primeiros tempos da corporação, a quantidade de eventos prosaicos, como o registrado pelo jornal “A República” em 31 de janeiro de 1912. Anunciava-se o fato de que um Guarda Civil havia encontrado um guarda-chuva perdido na Praça Osório e que o objeto estava na sede da Guarda à disposição do proprietário. Outras notícias destes primeiros anos descrevem cuidados da Guarda Civil em relação a moradores de rua, alcoolizados violentos, animais abandonados e também o combate ao tráfico de carne irregular [não abatida no Matadouro Municipal].

Mas não tardou para que os guardas-civis atuassem em episódios mais violentos, como o que é descrito por Ediméri Stadler Vasco em sua pesquisa “A cultura do trabalho na Curitiba de 1890 a 1920”. Ele menciona a situação que envolveu dois padeiros [Procópio Cléves e Francisco Fallavela] que trabalhavam na padaria de Paulo Dalle, na rua Conselheiro Barradas [antiga Rua do Serrito e futura Presidente Carlos Cavalcanti], no ano de 1914. Houve uma discussão entre os dois a respeito de 200 réis que uma criada havia passado a Francisco para que ele remetesse uma carta pelo correio, ação não levada a efeito, segundo Procópio. Ambos se feriram com objetos perfurantes contundentes [uma faca e uma ripa de madeira]. Um Guarda Civil que passava à rua naquele momento foi acionado pela esposa de Paulo Dalle e separou os contendores já gravemente feridos.

Em 1922, mesmo ano em que a Guarda obteve equiparação salarial com a Polícia Militar, o tenente Aristóteles Xavier publicou o manual “Gyria dos Delinquentes (Dialecto dos Malandros)” - republicado em 1978 pela Revista da Polícia Civil do Paraná. De acordo com o pesquisador Clóvis Gruner, o manual, hoje raro, foi feito aos moldes de outra pesquisa da mesma natureza lançada alguns anos antes pelo alagoano Elysio de Carvalho, um dos maiores entusiastas da ideia de “polícia científica”. Aristóteles Xavier, que à época exercia a função de instrutor na escola da Guarda Cívica [nome da Guarda Civil durante alguns anos] encerrava seu manual com um breve diálogo (confira abaixo o anexo “pdf 3”) construído por meio do emprego de algumas das expressões coletadas.

Outros fatos
Na virada dos anos 20 para os anos 30, os jornais “A República” e “A Gazeta do Povo” entraram numa polêmica a respeito dos salários pagos aos agentes da Guarda Civil [naquele momento conhecida como Guarda Cívica]. A “Gazeta” defendia que os agentes eram mal remunerados e que isso influenciava na qualidade da sua atuação. “A República” refutava as acusações, publicando em 17 de setembro de 1929 inclusive uma carta resposta do comandante da corporação capitão Francisco da Fontana Barreto que convidava os críticos para uma visita às “recém-hygienizadas” instalações da Guarda. A polêmica atingiu seu ápice quando a tentativa de suicídio da esposa de um Guarda Cívico foi atribuída pela “Gazeta” aos baixos salários pagos, de acordo com a edição de A República de 27 de abril de 1930.

Possivelmente tais fatos contribuíram para que em 11 de junho daquele mesmo ano, uma decisão judicial da “Corte de Apellação” conferisse o status de servidor público aos integrantes da guarda. A sentença proferia que o Guarda Cívico (ou Civil) “é um agente da autoridade pública, subordinado ao Chefe de Polícia, cujas funções auxilia por delegação, [portanto] deve ser considerado funcionário público para efeitos legais”.

Entre os meses de agosto e outubro de 1932, os integrantes da Guarda Civil foram incorporados ao Exército para atuarem junto às tropas federais na insurgência conhecida como “Revolução Constitucionalista”, conta o guarda-civil Miroslau Santchuck em texto publicado em 1969, na revista da Guarda Civil. Em 31 de janeiro de 1937, o chefe de polícia Roberto Barroso emitiu uma nota de pesar pelo falecimento do guarda Sebastião Siqueira, que foi publicada pelo jornal “O Estado”. Siqueira era o último guarda remanescente das primeiras turmas da Guarda Civil (ingressou em 18 de novembro de 1913), tendo permanecido na corporação durante 23 anos sem uma nódoa em sua ficha.

“Contar toda a história da Guarda Civil requer um livro bem volumoso”, disse Cid Destefani em sua coluna Nostalgia publicada pelo jornal Gazeta do Povo em 15 de novembro de 1992. “Com a implantação do regime militar em 1964, a Guarda Civil foi extinta em todo o Brasil sob a alegação de que não poderiam existir organizações paramilitares além da Polícia Militar, que é uma tropa auxiliar do próprio Exército. Foi uma pena. Os guardas-civis deixaram saudades”, lamentou o jornalista, falecido em setembro deste ano.                

Galeria dos Heróis
O inspetor Cláudio Frederico, atual diretor da Guarda Municipal, é detentor de uma preciosa raridade: uma revista publicada pelo governo do estado em 1969, por ocasião do encerramento das atividades da Guarda Civil. A publicação contém as biografias de Paulo Pimentel (governador do estado), do coronel Julio Werner Hackradt (secretário de segurança) e do major Benur Augusto Muniz, ex-expedicionário que ocupava a direção da Guarda Civil do Paraná naquele momento. Fotos mostram o cotidiano da Guarda, os integrantes da corporação em seus locais de atividade, treinamentos físicos etc.

Um dos textos que compõem esta revista é o relatório de Durval Simões, Diretor da Subdivisão de Rádio Patrulha. Ele informa que “no decorrer desses anos de luta contra a delinquência de toda natureza, tombaram no cumprimento do dever os seguintes patrulheiros: em 16 de setembro de 1961, Waldomiro Ry; em 22 de junho de 1964, José Alcides de Lima; em 21 de dezembro de 1964, José Pereira de Araújo; em 15 de janeiro de 1967, Izidoro Siedelinski e em 29 de setembro de 1969, João Vieira. (...) Esses nomes, como não poderia deixar de ser, fazem parte da Galeria dos Heróis da Guarda Civil do Paraná, que, mesmo com sua extinção, jamais serão esquecidos”.,

Para o inspetor Frederico, a existência dessa revista realça ainda mais a necessidade de preservação das memórias tanto da Guarda Civil quanto da Municipal. “Um tributo a todos que doaram um pouco de suas vidas em favor da segurança pública de Curitiba”, afirma o policial. Ele ainda esclarece que doações particulares para o acervo da Guarda Municipal de Curitiba são bem-vindas.

Referências Bibliográficas
Destefani, Cid. Guarda Civil. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (15 de novembro de 1992) - impresso

Destefani, Cid. A polícia na velha Curitiba. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (23/11/2013)

Destefani, Cid. Imagens perdidas. Gazeta do Povo, Coluna Nostalgia (24/10/2009)

Garcia, Alex Ferreira. De Zacarias aos dias de hoje: a segurança pública em Curitiba. Revista Vernáculo, n. 17 e 18, 2006.

Gruner, Clóvis. Em torno à “boa ciência”: debates jurídicos e a questão penitenciária na imprensa curitibana. Revista de história Regional 8 (1): 67-94, Verão, 2003.

Gruner, Clóvis. Um bom estímulo à regeneração”: a Penitenciária do Estado e as novas estratégias da ordem na Curitiba da Primeira República. Revista História. São Paulo, 28 (2). Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Campus de Franca, 2009.

Gruner, Clóvis. Paixões torpes, ambições sórdidas: transgressão, controle social, cultura e sensibilidade moderna em Curitiba, fins do século XIX e início do XX. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em História.  Curitiba, 2012.

Hemeroteca Digital Brasileira (coleção de jornais antigos)

Romero, Alci Fonseca. A gênese da Polícia Militar no estado do Paraná (1831-1874). Monografia apresentada ao Curso de Bacharelado e Licenciatura em História da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2000.

Souza, Camila Castro de. Casas e monstros em Curitiba, 1890-1920. Monografia apresentada para obtenção da graduação no curso de História da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2000.

Vasco, Ediméri Stadler. A cultura do trabalho na Curitiba de 1890 a 1920. Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, como quesito parcial à obtenção do título de Mestre em História. Curitiba, 2006.

A despedida da princesa e o caso da ferrovia não terminada

 

A despedida da princesa e o caso da ferrovia não terminada

por Michelle Stival da Rocha

Cartão postal com a estação de Curitiba da estrada de ferro do Paraná, por volta de 1900. (Fonte: chimbica91.wordpress.com)

A princesa Isabel e seus filhos despediram-se de Curitiba no dia 13 de dezembro de 1884, após passarem quatorze dias entre a capital e o interior do Paraná. Pegaram o trem para Paranaguá a poucos quilômetros da estação em frente à rua da Liberdade – atual Barão do Rio Branco – pois os trilhos ainda não haviam sido assentados até o fim. Conde d'Eu seguia viagem pelo interior até Santa Catarina, onde iria se encontrar com a esposa dias depois.

Na carta diário que a Redentora – como era conhecida por defender a causa abolicionista – enviou a seus pais, Dom Pedro II e Dª Tereza Cristina, foram poucas as palavras sobre a partida. “Volta a Paranaguá. Dia, outra vez, esplêndido para a descida da serra. Fizemos parar, por vezes, o trem, para apanharmos flores novas para nossa coleção” - estas observações sobre a flora, que aparecem em diversos momentos na sua carta, devem-se ao seu grande interesse por botânica.

Nos bastidores, uma corrida para que a estrada estivesse pronta para os festejos da Emancipação Política do Paraná, que completaria 31 anos. No entanto, tão perto de chegar ao seu final, após cinco anos em obras, parecia patinar em acertos burocráticos na capital. Isto ao menos é o que conta o correspondente do Diário de Notícias do Rio de Janeiro.

“Em Curityba tem havido o diabo com o assentamento dos trilhos da estrada de ferro do Paraná. O Sr. commendador Martins Franco, em cujas terras passa a estrada, embargou as obras, e pede 16:000$ de indemnisação. Segundo nos consta, o Sr. Dr. Teixeira Soares, engenheiro-chefe da estrada, vai depositar a quantia pedida e acceitar a acção judiciaria, afim de poderem proseguir os trabalhos de assentamento dos trilhos, que estão distantes da estação central, em Curityba, apenas 4 kilometros e 600 metros. Mais dois dias de trabalho e a machina soltará o seu silvo do progresso na esperançosa cidade de Curityba.” Escreveu isto no dia 8 daquele mês, com a publicação no Rio de Janeiro somente dias depois, na edição 361 (26 de dezembro), pois as reportagens chegavam pelo correio.
 
Mas foi no dia 13 de dezembro que o correspondente soltou toda a sua indignação em texto, ao relatar a partida da princesa, pois as obras ainda não haviam terminado como ele esperava. “Por causa da camara municipal da capital da provincia, tiveram SS. AA. Imperiaes, a Sra. Princeza e seus filhos, sua comitiva, de percorrer em carro, cerca de 2 kilometros para alcançar a ponta dos trilhos da estrada de ferro do Paraná, que devido á patriotica camara não chegou ainda ao seu termino.”

Contou ele de um novo embargo à obra, administrada pela companhia Génerale de Chemins de Fèr Brésiliens. “Agora é a camara municipal de Corityba da capital da provincia, quem embarga as obras, por passarem os trilhos pelas terras municipaes, exigindo para levantar o embargo a grande quantia de 1:500$000.” Mais adiante, no mesmo texto, prosseguiu: “Quando se encetaram os trabalhos d'esta estrada, a camara municipal de Paranaguá, deu um notavel baile aos engenheiros, e fez votos para que a estrada continuasse. Vencidos os primeiros 40 kilometros chegou a machina á cidade de Morretes e a respectiva municipalidade, considerou esse acontecimento como um dia de festa, e houve grande pagodeira”.

Segundo ele, faltavam apenas 3,2 quilômetros para a conclusão da ferrovia quando houve o embargo. “Vejam os leitores se isto é coherencia. Perto da cidade, havia um grande pantano, a camara municipal de Corytiba dirige-se ao engenheiro chefe dos trabalhos da estrada e pede-lhe para fazer alli a estação. O engenheiro, accede ao pedido, faz a estação, com a qual gastou 114:000$, dessecca o pantano, e dá com isso á cidade outras condições de salubridade;  A camara municipal apanhou-se servida e no momento em que a assembléa provincial, sem duvida mais empenhada pelo engrandecimento da provincia, pede o prolongamento da estrada, vem a camara municipal e embarga-lhe as obras. Não farei mais commentarios e apenas direi que o que a camara municipal e a assembléa deviam pedir, não é vias de communicações faceis, baratas e rapidas como os outros paizes, - é cathechese, porque ainda estão muito selvagens estes povos.”

Ele continuou fazendo duras críticas à Câmara e também à cidade: “Ao passo que a camara de Corityba, de gloriosa memoria, oppõe-se abertamente ao progresso da provincia, esquece-se dos seus deveres, deixa que a cidade continúe immunda, sem calçamento, e as ruas cheias de atoleiros e de pó. Quando chove não se póde sahir de casa, quando não chove o pó é tanto que suffoca os transeuntes. Só quem vem ao Paraná é que póde avaliar a miseria em que se acha a provincia, cuja capital é inferior ao bairro do Engenho Novo ou de Todos os Santos ahi no Rio de Janeiro. O Paraná nada tem, e o que possui é mau e pessimo; começando pelas ruas, passa-se á cadeia que é um attentado ao progresso, á civilisação e á higyene, e faz-se ponto na camara municipal de que fallo, que está de cutello erguido contra tudo que seja elemento de grandeza para estra provincia que é patrimonio de duas famílias, que põem e dispõem a seu bel prazer. Digo estas verdades porque estamos em tempo, atravessamos um periodo em que é preciso pintar a cousa tal qual é, sem medo, nem rebuço.”

Não foi de se admirar o pedido de embargo realizado pela Câmara. Era ela o poder administrador da cidade – a figura do prefeito tornou-se efetiva somente após a Proclamação da República – e pelos motivos que o próprio repórter elencou, era preciso dinheiro para investimentos. O valor exigido para levantar o embargo, portanto, fazia-se evidentemente necessário. Para uma obra que durou cinco anos, tendo enfrentado desafios como as construções do Viaduto do Carvalho e a Ponte São João, mal algum faria ser prolongada por mais alguns dias. O fato é que, no dia 19 de dezembro, data da Emancipação Política do Paraná, foi definitivamente concluída – a estação ainda tinha com alguns detalhes por terminar. A inauguração ocorreria no dia 2 de fevereiro do ano seguinte.

O Dezenove de Dezembro, periódico que circulava no Paraná, nada relatou a respeito do embargo, mas ao noticiar a partida da família imperial, cumprimentou os “distinctos collegas da imprensa da côrte da Gazeta de Noticias [do Rio de Janeiro] e do Paiz, os Srs. Maximino Serzedello e José Vinhaes”. “A' tão distinctos cavalleiros, que em tão pouco tempo tanta sympathia grangearam do povo desta capital, apresentamos nossos cumprimentos, desejando prospera viagem correspondendo á delicada cortesia com que vieram despedir-se do proprietário de nossa folha”. Na redação, obviamente, ainda não haviam lido o jornal carioca, que seria publicado somente no dia 1º de janeiro de 1885, devido à demora dos correios da época.


Leia as outras reportagens da série sobre a visita da princesa a Curitiba:

Uma princesa nos trilhos da nossa história

A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

Três príncipes nos campos de trigo do Abranches

Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

2) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências bibliográficas:
Edição 361 - Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – 26 de dezembro de 1884

Edição 001 - Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – 1 de janeiro de 1885

A estrada de ferro Paranaguá-Curitiba. Uma obra de arte. - Acervo do Museu Paranaense (leia aqui).

Edição  291 - O Dezenove de Dezembro – 14 de dezembro de 1884
Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).

Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

 

Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

por Michelle Stival da Rocha

Quando a princesa Isabel visitou a Santa Casa não foram poupadas críticas ao prédio, por parte do jornal carioca. (Foto: Acervo Cid Destefani, em exposição no Palácio Rio Branco da Câmara/Reprodução: Michelle Stival)

“Se por fóra elle é bonito, por dentro é horroroso, só tendo de bom a capella em estylo gothico e o necroterio no mesmo gosto. Para este edificio póde empregar-se o ditado – por fora cordas de viola, por dentro pão bolorento.” Foi exatamente assim que a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, no dia 3 de dezembro de 1884, reportou sobre as dependências da Santa Casa de Misericórdia, por ocasião da visita da família imperial a Curitiba. Era um espaço praticamente recém-criado, inaugurado em 1880 pelo próprio imperador, Dom Pedro II, e que por muitos anos foi o único hospital da cidade.  

Embora seja possível notar o expressivo mau humor com que o repórter carioca – enviado especialmente para cobrir a comitiva da princesa Isabel – abordou certos assuntos da capital paranaense, por meio de seus relatos é possível delinear alguns traços de Curitiba que não estão nos livros, tampouco em fotografias. Não é de se estranhar seu descontentamento, acostumado que estava a viver na cidade que recebera todos os mimos e investimentos por ser sede do Império do Brasil.

“Dividido em muitas salas, algumas acanhadas e sem ar, na maior parte vazias e infectas, taes são as enfermarias onde se encontram actualmente 31 doentes, sendo 10 loucos, 7 mulheres e tres homens, um dos quaes estava nú. As camas e os colchões (se é que o são) não abonam muito o estabelecimento, nem a irmandade, que é o provedor e medico do hospital, o Sr. Dr. Albuquerque... Tem o hospital uma boa pharmacia e um excellente enfermeiro”, continuou.

“O hospital, por fóra é de bonita apparencia, e, construido n'um estylo que nem é gothico, nem dorico, é uma melange de architecturas, mas que mostra o gosto de quem o desenhou e de quem executou as obras”, descreveu. A casa de saúde fora fundada pelo Dr. José Candido da Silva Murici, que dá nome à alameda Dr. Muricy.

Diferente foi o relato da princesa Isabel, que, em uma carta diário destinada a seus pais D. Pedro II e Dª Tereza Cristina, reconheceu a falta de recursos, mas foi suave ao retratar o cenário. “Depois do almoço visita ao hospital de Caridade, com poucos recursos, mas bem arranjado. Capelinha muito bonita, feita com madeiras do Paraná. O Dr. Pires [Atonio Carlos Pires de Carvalho e Albuquerque], provedor da irmandade e médico daí, agradou-me. Dizem ser muito boa pessoa e muito caridosa. O estilo arquitetônico do hospital é inglês, do tempo da Rainha Isabel, bonito. Só é pena que tivessem caiado todo o edifício. Dessa forma não lhe terão deixado todo o seu cunho.”  

A história da inauguração da Santa Casa, que contou com a presença do imperador D. Pedro II, é contada pelo jornalista da Câmara Municipal João Cândido Martins, em outra matéria publicada na seção do Nossa Memória (leia na íntegra). Ocorreu no dia 22 de maio de 1880 e foi um marco da influência alemã na engenharia curitibana. O prédio foi decisivo para a urbanização do Campo do Olho d'Água, local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa.

Hoje a instituição é mantida pelo Grupo Marista e atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), convênios e particular. Possui uma estrutura com 278 leitos, sendo 37 de UTIs e nove salas cirúrgicas, conforme seu site. Realiza entre 600 e 800 cirurgias mensais e interna uma média de 1.350 pacientes por mês. Atende diversas especialidades, como cirurgia vascular, otorrinolaringologia, cardiologia, cirurgia vascular, bariátrica, transplantes, dentre outras.

A Câmara e a Assembleia
No dia 5 de dezembro, a família imperial visitou a Câmara Municipal, que funcionava em cima da cadeia pública. Desta vez, foi a princesa Isabel quem não poupou críticas: “muito acanhada, e Gaston [Gastão de Orleans, o Conde d’Eu] desceu à prisão que achou muito suja, muito desordenada, os presos muito acumulados. Dizem que pouca fiscalização tem havido, e que até súcias¹ e jantares se têm dado na prisão, entre presos e gente de fora. O presidente (Brasílio Machado) e o Chefe de polícia (Dr. Leão Veloso) dizem que vão tomar providências. Eles há pouco chegaram, e por isso nada fizeram”.

Na Gazeta de Notícias, inicialmente uma simples menção à visita. “O edifício da municipalidade é pequeno e fica ao lado da cadêa, havendo no pavimento terreo uma prisão.” No entanto, posteriormente, o mesmo jornal, sem dó, publicaria: “não podemos deixar de declarar, que não ha em todo o imperio peior cadeia que a d'esta capital. Os presos aqui passam um vidão, passeiam quando querem, visitam a família e os amigos, dão banquetes e fazem negocio nas prisões, cujas grades têm o aspecto de vitrina de casa de quinquilharias”. Esse prédio ao qual se referiram foi demolido e ficava onde hoje é o Mercado das Flores, na Praça Generoso Marques.

No mesmo dia, os príncipes foram visitar a Assembleia Provincial: “Foram Suas Altezas, acompanhadas do Sr. marechal Miranda Reis e baroneza de Suruhy, visitar a assembléia provincial, onde foram recebidas pelos srs. Conselheiro Alves de Araujo, Dr. Generoso Marques e outros Srs. Deputados. O edificio da assembléia foi mandado construir pelo finado conselheiro Zacarias e pode-se dizer que é um dos melhores edificios da provincia: espaçoso, com uma grande galeria para o povo, muito arejada e perfeitamente collocada”, noticiou o periódico.

O prédio ficava na Dr. Muricy, esquina com a rua Cândido Lopes, onde permaneceu até o início da década de 50, conforme informa o site da Assembleia Legislativa do Paraná. O prédio não existe mais e no lugar está a Biblioteca Pública do Paraná.

O palácio da Assembleia Provincial, a Santa Casa, a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e o Passeio Público, citados nesta série de reportagens sobre a visita da princesa Isabel e sua família a Curitiba, são os primeiros sinais do progresso que se avolumava após a Emancipação Política do Paraná, cujo território antes de 1853 era subordinado à província de São Paulo. No entanto, percebe-se que ainda havia pouco recurso para geri-lo, o que ficou evidente aos augustos viajantes na visita. Curitiba e o Paraná estavam crescendo e demandavam investimentos.

Na próxima reportagem, saiba como foi a visita da família imperial à Colônia Abranches, hoje um bairro de Curitiba.


Leia as outras reportagens da série sobre a visita da princesa a Curitiba:

Uma princesa nos trilhos da nossa história

A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

Três príncipes nos campos de trigo do Abranches

A despedida da princesa e o caso da ferrovia não terminada

Notas:
1) Súcias: cambada, corja, bando de vagabundos, grupo de marginais.

2) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

3) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

4) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências Bibliográficas:
Edição 355 da Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro – Sábado, 20 de dezembro de 1884
Edição 357 – Gazeta de Noticias RJ, 22 de dezembro de 1884 – pg 1
Edição 358 – Gazeta de Notícias RJ 23 de dezembro de 1884 – pg 2
Diário da Princesa 3 dezembro de 1884,  pg 38.
Site da Assembleia Legislativa do Paraná (ttp://www.alep.pr.gov.br/a_assembleia/historia)
Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).


A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

 

A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

A Mansão das Rosas, em 1880, propriedade do industrial do mate Francisco Fasce Fontana. Na foto, não está a Princesa Isabel. (Foto: Acervo Casa da Memória)

“Depois de visitada à chácara, dirigiram-se para uma das ilhas, a maior, onde tomaram Suas Altezas e comitiva matte sob differentes fórmas, em chá, em folha, queimado e por último à moda da terra, em cuia, havendo entre estas uma que conta mais de cincoenta annos.” A cena, narrada pela Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, passa-se em Curitiba, em 1º de dezembro de 1884: Princesa Isabel, Conde d'Eu e dois dos filhos do casal, em visita à cidade (leia mais), foram conhecer a fábrica de erva mate dos senhores Silva, Irmão & Fontana. Considerado o ciclo de “ouro” de Curitiba, o mate enriqueceu muitas famílias e trouxe progresso à capital – e era este o principal motivo de se construir a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, que estava sendo concluída naquele final de ano, e por onde chegou a princesa a Curitiba na primeira viagem da ferrovia.

“Todos juntos, menos Antônio, partimos às 4 horas para a fábrica de mate do Fontana, oriental [como chamavam as pessoas vindas da Banda Oriental do Uruguai], filho de italianos e casado com uma filha do Dr. Ermelino. É bem inteligente, seu mate muito bem beneficiado. Tem convertido em verdadeiras plantações de flores e de bonitas árvores (muitas delas frutíferas) um verdadeiro brejo que rodeava a antiga fábrica de mate que Papai conheceu neste lugar”, assim contou a Redentora a seus pais, D. Pedro II e Tereza Cristina, em uma carta-diário.

A fábrica ficava onde hoje é a avenida João Gualberto. O local descrito no início do texto é bem próximo do Passeio Público, inaugurado e aberto ao público somente dois anos depois, em 1886 (Foto 2). Fontana aplicou uma técnica de redução de banhados em seu território e logo após fez o mesmo no terreno onde seria o parque, às suas próprias custas, por ser amigo do presidente da província, Visconde de Taunay. Da Mansão das Rosas, residência do industrial (Foto 1), sobrou somente o portal, que hoje é entrada de um conjunto de edifícios em frente ao Colégio Estadual do Paraná. A demolição da propriedade ocorreu em 1974¹.
 
A Gazeta do Rio de Janeiro descreveu com detalhes como era feito o processamento do mate. “Estes senhores possuem dous estabelecimentos juntos um do outro, organizados e construídos pelo laborioso industrial o Sr. Francisco Fasce Fontana, ha seguramente tres anos e meio. Um dos estabelecimentos é movido a vapor por um motor da força de 42 cavallos, e outro por motor hydraulico. E' grande o desenvolvimento do primeiro, que, trabalhando dez horas, prepara diariamente mais de mil arrobas de matte, prompto para a exportação. O segundo, em vista do motor, que, como já se sabe, é hidráulico, apenas póde beneficiar de 300 a 400 arrobas diarias, não sendo tão perfeito como o primeiro.” A máquina a vapor seria uma invenção do próprio Fontana.

Suas altezas percorreram a “esplendida chacara que rodeia as fabricas, cortadas por innumeros rios, divididos de proposito, alem de magnificos jardins nas ilhas pitorescas, que tornam agradavel e aprazivel aquella parte da cidade. N'esta chacara encontram-se flôres e arbustos rarissimos, e que só se conhecem na Europa e nas repúblicas do Prata, pela excellencia do clima. O do Paraná nada fica devendo áquelle”, relata o jornal.

Fontana teria oferecido licor de mate aos augustos viajantes, preparado na própria fábrica, “e que é excellente”, elogia o correspondente. “O Sr. conde d'Eu significou ao intelligente industrial o Sr. Fontana o contentamento e a satisfação com que se retirava, declarando que não esperava encontrar alli um tão importante estabelecimento”, continua. Após esta visita, com autorização de Dom Pedro II, o engenho foi batizado de Fábricas Imperiais Fontana.  

A família também visitou os engenhos de Tibagi e Iguaçu (foto 3), no Batel, de propriedade de Ildefonso Pereira Correia – onde hoje está a pracinha do Batel. Ele ficaria mais conhecido posteriormente pelo nome de Barão do Serro Azul. Recebeu este título da própria princesa Isabel, em 1888.

O repórter carioca manifestou claramente sua preferência pela fábrica dos Fontana: “Também o Sr. commendador Ildefonso Corrêa tem uma bem montada fabrica de preparar herva matte; porém um pouco inferior á dos Srs. Silva, Irmão & Fontana, em aparelhos e modo de preparar a materia prima”.

Já a princesa Isabel, dias depois em seu diário, escreveria diferente aos pais. “Fábrica de beneficiar mate do Comendador Ildefonso Pereira Correia: Pareceu-me ainda melhor instalada do que a do Fontana. Esta fábrica está um pouco fora da cidade [o Batel era considerado rocio, lugar afastado do centro], e aí perto há um altozinho aonde fomos para gozar a vista. Não se podia ver nada de mais lindo e aprazível. Ao longe, S. José dos Pinhais, campos, copas de pinheiros. Mais perto, casinhas pitorescas, culturas, Curitiba.”

Por Michelle Stival da Rocha – Jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba
 
Leia as outras reportagens da série sobre a visita da princesa a Curitiba:
 
 
Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

2) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

3) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências:
Edição 351 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – terça-feira, 16 de dezembro de 1884. pg. 2. (Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).
 
(1) Romanel, Maria Cecília; Scherner, Maria Luiza. Álbum de Memórias: A trajetória das indústrias do Paraná, Curitiba: Editora Univer Cidade, 2007.