domingo, 21 de junho de 2026

Domus Sanctae Marthae: A Casa de Santa Marta no Vaticano

 

Vista da Domus Sanctae Marthae a partir da cúpula da Basílica de São Pedro entre a sacristia da basílica (à esquerda) e o Palazzo San Carlo (à direita).

Domus Sanctae Marthae (em italiano: Casa Santa Marta) é um palácio localizado ao lado da Basílica de São Pedro, na Piazza di Santa Marta, na Cidade do Vaticano. Construído em 1996, durante o papado do papa João Paulo II, o edifício foi batizado em homenagem a Santa Marta, que era irmã dos santos Maria de Betânia e Lázaro. Atualmente funciona como hospedagem para membros do clero enquanto tratam de negócios com a Santa Sé e como residência para membros do Colégio de Cardeais durante a realização de um conclave papal para eleger um novo papa.

O papa Francisco viveu na Casa de Santa Marta a partir de sua eleição, em março de 2013, até sua morte em 21 de abril de 2025, recusando viver nos apartamentos papais do Palácio Apostólico.

Edifício

Papa Francisco chegando à Domus, que serviu como residência papal em seu pontificado. À frente, dois seguranças da Guarda Suíça.

O papa João Paulo II, depois de ter participado de dois conclaves, decidiu tornar o processo todo mais confortável e menos extenuante para os cardeais, geralmente já bastante idosos, e encomendou a construção da Domus Sanctæ Marthæ. Ele determinou que o edifício deveria servir para abrigar os cardeais durante as eleições papais e, em outras ocasiões, deveria estar disponível para "pessoal eclesiástico servindo ao Secretariado de Estado e, tanto quanto possível, aos demais dicastérios da Cúria Romana, e também aos cardeais e bispos visitando a Cidade do Vaticano para ver o papa ou para participar de eventos e encontros organizados pela Santa Sé"[1]. Leigos também já ficaram hospedados ali[2].

Grupos ambientalistas e políticos italianos protestaram contra a construção porque o edifício bloquearia a vista da Basílica de São Pedro desfrutada por alguns apartamentos vizinhos, mas o chefe do Departamento Vaticano de Serviços Técnicos respondeu que ele seria mais baixo do que muitos destes mesmos edifícios vizinhos e rejeitou todas as tentativas de impedir o direito do Vaticano de construir dentro de suas fronteiras soberanas[3].

A obra custou US$ 20 milhões, com US$ 13 milhões inicialmente ofertados pelo proprietário de cassinos de Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA), John E. Connelly, que depois recebeu um contrato para vender cópias de obras de arte do Vaticano nos Estados Unidos. Connelly não cumpriu sua promessa inicial, pois seus próprios negócios passaram por dificuldades e seu contrato acabou sendo rescindido depois que ele fracassou em expandir o investimento marketing para além de Pittsburgh[4]. Connelly propôs Lous D. Astorino, um arquiteto de Pittsburgh, para projetar o edifício. Quando seu projeto foi rejeitado, Astorino permaneceu ligado ao projeto como arquiteto-supervisor e acabou sendo o responsável pelo projeto da vizinha Cappella dello Spirito Santo della Domus Sanctae Marthae[5], localizada entre a Muralha Leonina e o edifício propriamente dito[6].

O edifício, com cinco andares, contém 106 suítes, 22 salas simples e um apartamento e é administrado pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo[1]. Todos mobiliados, com banheiros e escritórios para os ocupantes. Além disto, há ainda instalações para alimentação e serviços pessoais[2].

Estrutura anterior

O papa Leão XIII determinou a construção do Ospedale di Santa Marta em 1891 no local onde está atualmente a Domus quando se temia que a epidemia de cólera na época poderia chegar a Roma. Depois que isto não ocorreu, o edifício passou a ser utilizado para servir os doentes dos riones Borgo e Trastevere de Roma e como hospedaria para peregrinos. Ele foi eletrificado em 1901 e ganhou uma capela no ano seguinte. Os serviços médicos foram ampliados para atender também padres e os membros da Guarda Suíça. Durante a Segunda Guerra Mundial, o edifício foi utilizado para abrigar refugiados, judeus e embaixadores de países que haviam cortado relações com a Itália[7]. Depois da guerra, o papa Pio XII recebeu 800 crianças romanas para um café da manhã no local depois que elas receberam sua Primeira Comunhão[8]. O edifício então passou a abrigar clérigos idosos em seus últimos anos de vida[9] e também como residência para clérigos alocados a escritórios na administração do Vaticano[7].

Conclaves

Vista do interior numa foto oficial de uma visita da ex-presidente argentina Cristina Kirchner ao Papa Francisco.

A constituição apostólica de João Paulo II Universi Dominici gregis, de 22 de fevereiro de 1996, mudou as regras que governam os conclaves papais para abrigar os cardeais eleitores e alguns funcionários específicos no Domus Sanctae Marthae, o que já ocorreu no conclave de 2005[10] e no conclave de 2013[11]. Antes da construção da Domus, os cardeais ficavam no Palácio Apostólico, dormindo em camas simples espalhadas em espaços temporários por todo o palácio, alguns nos corredores e escritórios, geralmente separados uns dos outros por um lençol pendurado num varal e compartilhando banheiros com até dez outros cardeais.

Residência papal

Em 26 de março de 2013, o Vaticano anunciou que o papa Francisco não se mudaria para o apartamento papal, que fica no terceiro andar do Palácio Apostólico, o primeiro papa a não viver ali desde a mudança do papa Pio X para lá em 1903. O papa explicou sua decisão dizendo: "A residência no Palácio Apostólico é [...] grande e de muito bom gosto, mas não é luxuosa [...] É grande, mas a entrada é estreita. Apenas uma pessoa por vez consegue entrar e eu não consigo viver sozinho. Preciso viver minha vida com outros"[12].

Permanecendo por um tempo no quarto que recebeu por sorteio no início do conclave que o elegeu, Francisco mudou-se então para a suíte 201, à qual utilizou como seu escritório. Ele celebrava sua missa matinal na Domus e ali fazia suas refeições[13]. Ocupou um quarto mobiliado com suas necessidades básicas, um crucifixo de madeira e uma pequena estátua de Nossa Senhora de Luján, a padroeira da Argentina, Uruguai e Paraguai. Fora do quarto papal ficavam sempre dois seguranças da Guarda Suíça, dia e noite, e uma estátua de São José, na qual o pontífice depositava pedidos de oração[14].

Referências

  1.  «The St. Martha Foundation» (em inglês). Catholic News Service/Vatican Press Office. Abril de 2005
  2.  «Kissinger in conclave at Vatican» (em inglês). Catholic News. 30 de abril de 2007
  3. Thavis, John (2013). The Vatican Diaries: A Behind-the-Scenes Look at the Power, Personalities and Politics at the Heart of the Catholic Church (em inglês). New York City: Viking. p. 121–2. ISBN 978-0-670-02671-5
  4. Rodgers-Melnick, Ann (9 de janeiro de 2001). «Connelly's plan to market replicas never took hold beyond Pittsburgh» (em inglês). Pittsburgh Post-Gazette
  5. «New Vatican Chapel Designed By Pittsburgh Architect» (em inglês). KDKA News (CBS Local). 4 de março de 2013
  6. «Chapel of the Holy Spirit» (em inglês). Astorino [ligação inativa]
  7.  Sodano, Angelo (11 de dezembro de 2004). «Homily: 120 Years of Witness by the Sisters of Charity» (em inglês). Secretariat of State
  8. «800 Poor Children Received by Pope» (PDF) (em inglês). The New York Times. 7 de maio de 1945
  9. «Aide to Pope Dies at 62» (PDF) (em inglês). The New York Times. 13 de maio de 1956
  10. «Cardinals assembled to elect a pope» (em inglês). The New York Times. 18 de abril de 2005
  11. Wangsness, Lisa (8 de março de 2013). «Conclave to select next pope to start Tuesday» (em inglês). The Boston Globe
  12. «The Pastoral Geopolitics of the Domus Sanctae Marthae» (em inglês). Inside the Vatican. Janeiro de 2014
  13. Wooden, Cindy (26 de março de 2013). «Pope Francis to live in Vatican guesthouse, not papal apartments» (em inglês). National Catholic Reporter / Catholic News Service
  14. «Those little prayers Francis slips under his St. Joseph statue» (em inglês). La Stampa. 30 de abril de

Domus Sanctae Marthae: A Casa de Santa Marta no Vaticano

A Domus Sanctae Marthae, conhecida em português como Casa de Santa Marta, é um edifício importante da Cidade do Vaticano, situado na Piazza di Santa Marta, bem ao lado da Basílica de São Pedro. Construído em 1996, durante o pontificado de João Paulo II, recebeu esse nome em homenagem a Santa Marta, irmã dos santos Maria de Betânia e Lázaro. Hoje, funciona principalmente como hospedagem para membros do clero que tratam de assuntos junto à Santa Sé e, em períodos de eleição, serve como residência oficial dos cardeais durante o conclave para escolha de um novo papa. Ficou mundialmente famosa por ter sido a residência do papa Francisco durante todo o seu pontificado, de 2013 até sua morte em abril de 2025.

História e Construção

O motivo da obra

Depois de participar de dois conclaves, o papa João Paulo II percebeu que as condições de acomodação dos cardeais eram precárias e cansativas — especialmente para os prelados, muitos deles já idosos. Por isso, decidiu encomendar a construção de um espaço adequado, confortável e seguro para abrigá-los durante o processo de eleição papal. Além dessa função principal, determinou que o edifício também estivesse disponível para:
  • Pessoal eclesiástico que trabalha no Secretariado de Estado e nos demais departamentos da Cúria Romana;
  • Cardeais, bispos e visitantes que vão ao Vaticano para audiências ou eventos oficiais;
  • Em casos especiais, também leigos já foram hospedados no local.

Polêmica e financiamento

A construção não foi isenta de controvérsias. Grupos ambientalistas e políticos italianos protestaram, alegando que o prédio iria bloquear a vista da Basílica de São Pedro que alguns edifícios vizinhos tinham. O Vaticano, porém, defendeu-se explicando que a nova construção seria mais baixa do que a maioria dos prédios ao redor e reforçou seu direito soberano de construir dentro dos limites do seu território.
A obra custou cerca de 20 milhões de dólares. Grande parte do valor — 13 milhões — foi oferecida inicialmente por John E. Connelly, um empresário do ramo de cassinos nos Estados Unidos. Em troca, ele recebeu permissão para vender cópias de obras de arte do Vaticano em seu país. No entanto, com dificuldades financeiras em seus próprios negócios, Connelly não cumpriu o acordo total e seu contrato foi encerrado. Ele foi quem indicou o arquiteto Louis D. Astorino para o projeto principal; embora o desenho original de Astorino tenha sido recusado, ele permaneceu na obra como arquiteto supervisor e ficou responsável pelo projeto da capela vizinha, a Cappella dello Spirito Santo.

Características do edifício

Com cinco andares, a Casa de Santa Marta tem:
  • 106 suítes completas;
  • 22 quartos individuais;
  • 1 apartamento especial;
  • Todas as acomodações são mobiliadas, com banheiro privativo e espaço para trabalho;
  • Conta ainda com refeitório, serviços de apoio e espaços comuns.
A administração do local fica a cargo das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, uma congregação religiosa feminina.

O que existia antes

No mesmo terreno, em 1891, o papa Leão XIII mandou construir o Ospedale di Santa Marta, uma instituição hospitalar preparada para atender uma possível epidemia de cólera que ameaçava chegar a Roma. Como a doença não se espalhou como esperado, o espaço ganhou outras funções:
  • Atendia doentes dos bairros vizinhos de Borgo e Trastevere;
  • Servia de albergue para peregrinos;
  • Passou a receber padres e membros da Guarda Suíça para atendimento médico;
  • Durante a Segunda Guerra Mundial, abrigou refugiados, famílias judias e diplomatas de países que haviam rompido relações com a Itália fascista;
  • Depois da guerra, recebeu grupos de crianças para celebrações religiosas;
  • Nos anos seguintes, tornou-se residência para clérigos idosos e para funcionários da administração vaticana.
Toda essa estrutura foi demolida para dar lugar ao edifício atual.

Função nos Conclaves

Desde a publicação da constituição apostólica Universi Dominici gregis, em 22 de fevereiro de 1996, pelo papa João Paulo II, as regras para a eleição do papa mudaram completamente. A partir de então, os cardeais eleitores e uma pequena equipe de apoio passaram a ficar alojados exclusivamente na Domus Sanctae Marthae durante todo o conclave.
Essa foi uma grande mudança em relação ao passado. Antes de 1996, os cardeais ficavam alojados em espaços improvisados dentro do próprio Palácio Apostólico: dormiam em camas simples espalhadas por salões, corredores e escritórios, muitas vezes separados apenas por lençóis pendurados como divisórias, e compartilhavam banheiros coletivos com até dez pessoas ao mesmo tempo.
O novo sistema já foi usado nas eleições de 2005 (que escolheu Bento XVI) e de 2013 (que escolheu o papa Francisco), garantindo mais privacidade, descanso e segurança aos participantes.

Residência Papal: O caso do Papa Francisco

Em 26 de março de 2013, poucos dias depois de sua eleição, o Vaticano anunciou uma decisão histórica: o novo papa, Francisco, não iria se mudar para os apartamentos papais tradicionais, situados no terceiro andar do Palácio Apostólico. Ele foi o primeiro pontífice a rejeitar essa moradia desde que o papa Pio X se mudou para lá, em 1903.
Ao explicar sua escolha, Francisco declarou:
“A residência no Palácio Apostólico é grande e de muito bom gosto, mas não é luxuosa. É grande, mas a entrada é estreita — só passa uma pessoa de cada vez. E eu não consigo viver sozinho. Preciso viver minha vida com os outros.”
Ele permaneceu primeiro no mesmo quarto que havia sorteado durante o conclave, e depois se mudou para a suíte 201 da Casa de Santa Marta, onde viveu até o fim da vida. Nesse espaço simples, com móveis funcionais, um crucifixo de madeira e uma pequena imagem de Nossa Senhora de Luján — padroeira de sua terra natal, a Argentina —, ele estabeleceu sua rotina:
  • Celebrava a missa diária na capela do próprio edifício;
  • Recebia visitas e trabalhava em seu escritório ali mesmo;
  • Fazia todas as refeições na sala de jantar com os hóspedes e funcionários;
  • Do lado de fora de sua porta, sempre havia dois guardas da Guarda Suíça, em turno ininterrupto, e uma estátua de São José, onde ele costumava deixar pedidos de oração que recebia de fiéis do mundo inteiro.
Sua escolha transformou a Domus Sanctae Marthae de uma simples hospedaria em um espaço simbólico, ligado à imagem de humildade, proximidade e simplicidade que marcou o seu pontificado.
Hoje, a Casa de Santa Marta continua cumprindo seu papel original, mas também permanece na memória como o lugar onde um papa decidiu viver de acordo com o que pregava: ao lado das pessoas, sem distâncias e sem luxos desnecessários.

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