segunda-feira, 8 de junho de 2026

Iberospinus: O Espinossaurídeo da Península Ibérica

 des do grupo dos Espinossaurídeos, nativo da Formação Papo Seco, do Centro-Oeste de Portugal. Essa formação data do Cretáceo Inferior, durante a idade Barremiana, há cerca de 129 a 125 milhões de anos. Até o momento, somente uma espécie foi nomeada, Iberospinus natarioi. O nome do gênero significa "Espinha da Ibéria", em alusão às espinhas neurais alongadas típicas do clado Spinosauridae e ao lugar que foi encontrado, a Península Ibérica.[1]

Este é o primeiro espinossaurídeo descrito de Portugal e o terceiro da Península Ibérica, junto com Camarillasaurus e Vallibonavenatrix.[1]

Descoberta e nomeação

holótipo do gênero, o espécime ML1190, consiste em: fragmentos do dentário, dentes, uma escápula direita fragmentária, partes de costelas, vértebras dorsais e caudais, um pedúnculo do púbis, um calcâneo e uma falange ungueal do pé. Esses elementos foram encontrados associados em uma área de 5x2 metros, levando a conclusão que são parte de um mesmo indivíduo. Os fósseis foram escavados em várias expedições durante os anos de 1999, 2004, 2008 e 2020, na localidade da Praia das Aguncheiras, cidade de Sesimbra, distrito de Setúbal, região Centro-Oeste de Portugal. As rochas desse sítio são afloramentos da Formação Papo Seco, que data da idade Barremiana do Cretáceo Inferior, há entre 129 a 125 milhões de anos.[1]

O nome Iberospinus une Ibero, que se refere a Península Ibérica, e Spinus, que significa espinha em Latim, em alusão às espinhas neurais alongados típicas do clado Spinosauridae. Já o epíteto específico I.natarioi homenageia Carlos Natário, descobridor do espécime. Assim temos: "Espinha Ibérica de Carlos Natário".[1]

Descrição

Reconstrução em vida de Iberospinus mostrando uma digitalização 3D de alguns dos ossos recuperados, bem como musculatura reconstruída

Tal como a maioria dos outros espinossaurídeos, o Iberospinus provavelmente era um terópode bípede e de cauda longa, adaptado para pescar fora e possivelmente dentro de água.[1]

Classificação

Mesmo antes de ser nomeado, o Iberospinus já foi inserido em diversas análises filogenéticas. Inicialmente, Iberospinus foi classficado como parte do gênero Baryonyx ou até da espécie B.walkerii.[2] Após novas análises, foi classificado como grupo irmão de Baryonychinae e Spinosaurinae, um pouco mais basal, em uma tricotomia. Na descrição de Ceratosuchops e Riparovenator ele foi encontrado como táxon mais próximo de Baryonyx, e ambos agrupados junto com Ceratosuchopsini dentro de Baryonychinae, porém na sua descrição a sua classificação mais antiga foi novamente encontrada, onde está em uma tricotomia. Mesmo assim, existem algumas características que indicariam um parentesco mais próximo com os Baryonchinae, porém material mais completo é necessário.[1][2][3][4]

Filogenia de Arden et al, 2018 (originalmente citado como "Táxon da Praia das Aguncheiras"):[3]

Spinosauridae

Iberospinus natarioi

Baryonychinae

Baryonyx walkeri

Suchomimus tenerensis

Spinosaurinae

Siamosaurus suteethorni

Eumeralla taxon?

Ichthyovenator laosensis

Irritator challengeri

Oxalaia quilombensis

Spinosaurini

Gara Samani taxon

Sigilmassasaurus brevicollis

Spinosaurus aegyptiacus

Filogenia de Barker et al, 2021 (Originalmente citado como "ML1190/cf. Baryonyx sp.):[4]

Megalosauridae

Spinosauridae

Vallibonavenatrix

Baryonychinae

Iberospinus natarioi

Baryonyx

Ceratosuchopsini

Suchomimus

Riparovenator

Ceratosuchops

Spinosaurinae

Camarillasaurus

Ichthyovenator

Irritator

Spinosaurini

Sigilmassasaurus

"Spinosaurus B" (=?cf. Sigilmassasaurus/Spinosaurus sp.)

MSNM-V4047 (=?cf. Sigilmassasaurus/Spinosaurus sp.)

FSAC-KK11888 (Spinosaurus sp.)

Spinosaurus holotype

Filogenia de Mateus & Estraviz-López (2022), o artigo de nomeação de Iberospinus:[1]

Spinosauridae

Iberospinus

Baryonychinae

Spinosaurinae

Paleoecologia

A Formação Papo Seco também produziu fósseis de ornitópodessaurópodes e terópodes indeterminados, e nenhum foi nomeado até agora.[1]


Referências

  1.  Mateus, Octávio; Estraviz-López, Darío (16 de fev de 2022). «A new theropod dinosaur from the early cretaceous (Barremian) of Cabo Espichel, Portugal: Implications for spinosaurid evolution»PLOS ONE (em inglês) (2): e0262614. ISSN 1932-6203PMC 8849621Acessível livrementePMID 35171930doi:10.1371/journal.pone.0262614. Consultado em 18 de fevereiro de 2022
  2.  «A new specimen of the theropod dinosaur Baryonyx from the early Cretaceous of Portugal and taxonomic validity of Suchosaurus»Zootaxa. 21 de abril de 2011. Consultado em 18 de fevereiro de 2022
  3.  Arden, Thomas M. S.; Klein, Catherine G.; Zouhri, Samir; Longrich, Nicholas R. (1 de janeiro de 2019). «Aquatic adaptation in the skull of carnivorous dinosaurs (Theropoda: Spinosauridae) and the evolution of aquatic habits in spinosaurids»Cretaceous Research (em inglês): 275–284. ISSN 0195-6671doi:10.1016/j.cretres.2018.06.013. Consultado em 18 de fevereiro de 2022
  4.  Barker, Chris T.; Hone, David W. E.; Naish, Darren; Cau, Andrea; Lockwood, Jeremy A. F.; Foster, Brian; Clarkin, Claire E.; Schneider, Philipp; Gostling, Neil J. (29 de setembro de 2021). «New spinosaurids from the Wessex Formation (Early Cretaceous, UK) and the European origins of Spinosauridae»Scientific Reports (em inglês) (1). 19340 páginas. ISSN 2045-2322doi:10.1038/s41598-021-97870-8. Consultado em 18 de fevereiro de 2022

Iberospinus: O Espinossaurídeo da Península Ibérica

Iberospinus é um gênero de dinossauros terópodes pertencentes à família dos Espinossaurídeos, descoberto na região Centro-Oeste de Portugal. Viveu durante o Cretáceo Inferior, na idade Barremiana, há aproximadamente 129 a 125 milhões de anos, e é uma das espécies mais importantes para entender a diversidade e a evolução dos espinossaurídeos na Europa. Até o momento, apenas uma espécie foi identificada e nomeada: Iberospinus natarioi.
O nome do gênero tem um significado que remete diretamente à sua origem e às características do grupo: Ibero refere-se à Península Ibérica, onde foi encontrado, e Spinus significa “espinha” em latim, uma alusão às espinhas neurais alongadas que são uma marca registrada dos espinossaurídeos. O nome completo pode ser traduzido como “Espinha Ibérica de Carlos Natário”, uma homenagem ao descobridor dos fósseis. Ele é o primeiro espinossaurídeo descrito em território português e o terceiro da Península Ibérica, ao lado de Camarillasaurus e Vallibonavenatrix, ambos encontrados na Espanha.

Descoberta e Nomeação

Os fósseis que deram origem ao gênero foram encontrados na Praia das Aguncheiras, no município de Sesimbra, distrito de Setúbal, em afloramentos rochosos da Formação Papo Seco — uma unidade geológica formada por sedimentos depositados durante o Barremiano. O material fóssil, catalogado como espécime ML1190, foi coletado em expedições realizadas nos anos de 1999, 2004, 2008 e 2020, e inclui:
  • Fragmentos do dentário (osso da mandíbula);
  • Dentes isolados;
  • Escápula direita fragmentada;
  • Partes de costelas;
  • Vértebras dorsais e caudais;
  • Um pedúnculo do púbis (parte do osso pélvico);
  • Calcâneo (osso do tornozelo);
  • Falange ungueal do pé (osso que forma a base da garra).
Todos esses elementos foram encontrados associados em uma área de apenas 5 metros por 2 metros, o que levou os pesquisadores a concluírem que pertencem a um único indivíduo. Por muito tempo, o material foi citado em estudos como “táxon da Praia das Aguncheiras” ou “cf. Baryonyx sp.”, até ser formalmente descrito e nomeado em 2022 por Mateus e Estraviz-López.

Descrição Morfológica

Embora o material fóssil não seja completo o suficiente para uma reconstrução total do corpo, as características preservadas permitem inferir detalhes importantes sobre a aparência e o modo de vida do Iberospinus. Assim como outros membros da família Espinossaurídeos, ele era um dinossauro bípede, com cauda longa e corpo adaptado a um estilo de vida semiaquático.
Suas principais características compartilhadas com o grupo incluem:
  • Dentes cônicos e ligeiramente curvados, com serrilhas finas — formato ideal para capturar e segurar presas escorregadias, como peixes;
  • Espinhas neurais alongadas nas vértebras, que provavelmente sustentavam uma vela ou crista ao longo das costas, função que pode ter sido relacionada à termorregulação, comunicação ou até mesmo flutuação na água;
  • Membros anteriores fortes e garras desenvolvidas, úteis para caçar tanto em ambientes aquáticos quanto terrestres.
Estudos recentes utilizaram digitalização 3D dos ossos recuperados para reconstruir a musculatura e a estrutura corporal, mostrando que ele tinha um porte intermediário, menor que o famoso Spinosaurus aegyptiacus, mas semelhante em proporções a gêneros como Baryonyx e Suchomimus.

Classificação Filogenética

A posição evolutiva do Iberospinus dentro dos Espinossaurídeos foi debatida por anos, antes e depois de sua nomeação oficial. Análises diferentes apresentaram resultados variados, refletindo a complexidade das relações entre os membros dessa família. Abaixo, as principais propostas:

1. Análise de Arden et al. (2018)

Na época, o material era chamado apenas de “táxon da Praia das Aguncheiras”. O estudo posicionou o gênero como um ramo inicial, fora das duas subfamílias principais:
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Spinosauridae
├─ Iberospinus natarioi
├─ Baryonychinae
│  ├─ Baryonyx walkeri
│  └─ Suchomimus tenerensis
└─ Spinosaurinae
   ├─ Siamosaurus suteethorni
   ├─ Ichthyovenator laosensis
   ├─ Irritator challengeri
   ├─ Oxalaia quilombensis
   └─ Spinosaurini
      ├─ Sigilmassasaurus brevicollis
      └─ Spinosaurus aegyptiacus

2. Análise de Barker et al. (2021)

Então citado como “ML1190 / cf. Baryonyx sp.”, ele foi inserido diretamente na subfamília Baryonychinae, próximo a Baryonyx e ao grupo Ceratosuchopsini:
plaintext
Spinosauridae
├─ Vallibonavenatrix
├─ Baryonychinae
│  ├─ Iberospinus natarioi
│  ├─ Baryonyx
│  └─ Ceratosuchopsini
│     ├─ Suchomimus
│     ├─ Riparovenator
│     └─ Ceratosuchops
└─ Spinosaurinae
   ├─ Camarillasaurus
   ├─ Ichthyovenator
   ├─ Irritator
   └─ Spinosaurini
      ├─ Sigilmassasaurus
      └─ Spinosaurus sp.

3. Análise de Mateus & Estraviz-López (2022)

No estudo que nomeou oficialmente o gênero, os autores retornaram a uma classificação mais basal, onde Iberospinus forma uma tricotomia (divisão em três ramos) com as duas subfamílias existentes:
plaintext
Spinosauridae
├─ Iberospinus
├─ Baryonychinae
└─ Spinosaurinae
Apesar das divergências, há características anatômicas que aproximam o Iberospinus dos Baryonychinae — como detalhes na forma do dentário e das vértebras. No entanto, os pesquisadores concordam que material fóssil mais completo é necessário para confirmar definitivamente sua posição na árvore evolutiva.

Paleoecologia: O Ambiente em que Viveu

A Formação Papo Seco, onde os fósseis foram encontrados, representa um ambiente costeiro e de águas rasas, com manguezais, rios e lagos que se conectavam ao mar. Essa paisagem era rica em vida aquática — peixes, moluscos, crustáceos — e também abrigava outros vertebrados terrestres.
Além do Iberospinus, foram encontrados fósseis de:
  • Ornitópodes (dinossauros herbívoros bípodes ou quadrúpedes);
  • Saurópodes (grandes dinossauros herbívoros de pescoço longo);
  • Outros terópodes, ainda não identificados ou nomeados.
Essa diversidade mostra que, durante o Barremiano, a Península Ibérica era uma região com condições ideais para o desenvolvimento de diferentes grupos de dinossauros, e os espinossaurídeos ocupavam um nicho ecológico único: predadores que exploravam tanto os recursos da terra quanto da água.
O Iberospinus é, portanto, uma peça fundamental para entender como esses dinossauros se espalharam pela Europa e como evoluíram suas adaptações para a vida semiaquática, sendo um dos exemplos mais importantes da paleontologia portuguesa e ibérica.

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