terça-feira, 2 de junho de 2026

NOSSOS ESTIMADOS JAPONESES

 NOSSOS ESTIMADOS JAPONESES



Com o fim da escravidão, o Brasil correu para os países europeus buscar imigrantes.

Os alemães, italianos, poloneses, espanhóis, ucranianos, suíços, foram os primeiros.

Depois, com a pressão dos cafeicultores e a forte necessidade de importar mão de obra para trabalhar nas fazendas de café, o governo buscou os japoneses.

Os asiáticos foram chamados em um segundo momento

O Japão estava em crise.

O imperador viu na emigração uma saída para que os jovens pudessem trabalhar e enviar remessas de dinheiro para as famílias que permaneceriam no Japão.

Mas orientou a todos: "VOCÊS ESTARÃO REPRESENTANDO O JAPÃO FORA DO BRASIL".

"Comportem-se de forma exemplar, trabalhem arduamente e mantenham a honra e a dignidade em qualquer circunstância".

Haruo Fukuoka chegou em Santos 1920, tinha 18 anos e foi direto para uma fazenda de café

Trabalhou dois anos na fazenda porque almejava ganhar dinheiro, mas era impossível, porque havia uma "caderneta".

Nesta caderneta se anotavam os gastos do imigrante com alimentação, moradia.

Valores que eram superfaturados e nem que o japonês trabalhasse de sol a sol e gastasse o mínimo, ainda ficaria devendo

A saída foi fugir. Foi para Avaré- São Paulo. Lá conseguiu o cargo de auxiliar de alfaiate, que era o que ele já trabalhava no Japão.

Foi morar em uma pensão cuja dona tinha adotado uma mocinha; esta era filha de um italiano que voltara para a Itália, por causa da Guerra.

A menina ficou.

E assim que o japonês chegou e a dona da pensão viu que era um bom rapaz, quis que ele casasse com a moça de 14 anos.

E eles se casaram e mudaram para Curitiba, no início dos anos 30.

E foram morar na Rua da Paz (onde essa moça da foto nasceu).

A região era só chácaras. O casal plantava e vendia as verduras na Praça Zacarias, onde montavam a banca em uma feira livre.

Mas o Brasil entrou na guerra em 1942 e ninguém mais queria comprar da banca do japonês

Foi quando ele apostou na tinturaria - tinha espírito empreendedor e conseguiu levantar, com muito esforço, dinheiro para montar uma lavanderia: Lavanderia FUKUOKA" - a primeira em lavagem a seco

...na época só tinha a "Lavanderia Maia” que não oferecia esse tipo de serviço.

A lavagem a seco era com varsol.

Alugou um predinho de dois andares. No térreo ficava a tinturaria e em cima, a residência da família.

Tinha um grande quintal nos fundos onde as roupas secavam ao sol e os ternos lavados à seco ficavam ao vento para ventilar e eliminar o cheiro do varsol.

Havia castanheiras, pitangueiras emitas outras árvores frutíferas.

O casal teve 8 filhos. Sr Fukuoka nunca conseguiu falar o português claramente. Falava meio português, meio japonês.

Quando o primeiro filho nasceu, era para se chamar Italo.

Mas ao pronunciar para o homem do cartório, só conseguiu dizer: Itaro.

E assim ficou na certidão

Os oito filhos trabalharam na Lavanderia Fukuoka, na Emiliano Perneta, 580.

A lambreta com aquele compartimento onde os ternos e camisas ficavam nos cabides, sem amassar, fazia as entregas à domicílio.

A filha do Sr Fukuoka aparece na sacada do predinho. Ao fundo vemos a Igreja Santo EstanislAu e a rua que cruza é a Visconde do Rio Branco.

E essa luta não foi só de Haruo. Foi de tantos japoneses que, vindos do outro lado do mundo, transformaram suas vidas com muito trabalho e honra — a mesma que o imperador pediu.

Filhos e netos foram para as universidades, tribunais, hospitais, e mantém sempre a mesma cortesia e educação de quem chegou lá atrás, há mais de 100 anos.

Relato da neta AnaCristina Woiczack a seguir l: "Karin
A década inteira de 50 foi a fase que considero mais especial da história dos meus avós… foi vivida na Rua Emiliano Perneta, (a qual minha simpática avó Nenê se referia ainda de “Aquidaban”)quase esquina com a Rua Visconde do Rio Branco.

Depois de uma fase difícil com a banca de verdura em frente a Praça Zacarias em 1945… não teve como continuar um japonês e uma italiana a trabalharem com as ofensas e boicote naquela ocasião… Bastante complicado!

Admirável o esforço deles, pois nunca desistiram, e empreenderam a lavanderia a seco, uma novidade na época em Curitiba.

Meu avô Haruo além da lavagem a seco, também costurava/consertava as peças de roupas, geralmente possuíam forro( na maioria ternos e casacos)com maior esmero, era o diferencial do seu negócio.

Novidade também era um telefone preto, um dos poucos na região ter uma linha telefônica, número 4372.

Hoje quando passo na frente desse endereço (agora é um estacionamento), lembro das maquinas para lavagem com removedor/varsol, turbinas, tanques, galpão dos ferros a vapor e dos varais no longo quintal com varias árvores frutíferas.)

As crianças da família foram criadas juntas desde pequenos neste ambiente de trabalho ( as brincadeiras não faltavam no extenso quintal, terreno que fazia divisa com as freiras do Internado Sagrada Família) ou a hora do cochilo no cesto de vimi junto aos olhos materno, enquanto passavam as roupas dos clientes com o pesado ferro a vapor.

Dessa época, é fascinante imaginar que na vizinhança tínhamos de um lado da rua a fábrica e casa da família de Dalton Trevisan, quase em frente do outro lado, a residência dos familiares do próprio Emiliano Perneta; todos ao redor da magnífica igreja polonesa que lá está desde 1909 oficialmente.

Que lugar singular, que passado inesquecível"

A foto é do quintal nos fundos que quase alcançava a Casa Glaser. O predinho da tinturaria aparece nos fundo e fazia frente para a Rua Aquidaban.
À direita, os ternos pendurados para ventilar no varal
A vó de AnaCristina Woiczack é a primeira à esquerda.

Livro MEMÓRIAS DE CURITIBA III - 39,90 DIA DAS MÃES Pedidos WhatsApp: 41 99810 0423 

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