quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Forte de Santo António da Ponta da Mina é uma antiga fortificação colonial portuguesa situada na Ponta da Mina, na Ilha do Príncipe — a menor das duas ilhas principais do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Sua função original era garantir a defesa da baía de Santo António e do seu porto, o principal ponto de entrada e saída de mercadorias e pessoas na ilha.

 

Fortaleza de Santo António da Ponta da Mina
Apresentação
Tipofortaleza
Fundação
Estatuto patrimonial
Localização
LocalizaçãoPagué
Q1039
LocalizadoIlha do Príncipe
Coordenadas
Entrada do porto da ilha do Príncipe (gravura inglesa de 1727): à esquerda, a meia-encosta, o Forte da Ponta da Mina.

O Forte de Santo António da Ponta da Mina localiza-se na ponta da Mina, na Ilha do Príncipe, a menor do arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Tinha como função a defesa da baía de Santo António e seu porto, o principal da ilha.

História

O estabelecimento de uma Alfândega na Ilha do Príncipe, em 1695, conduz à construção (ou reedificação) da Fortaleza da Ponta da Mina.

De acordo com padre Cunha Matos, a fortificação deveria ser anterior a essa data, referindo que "(...) nessa data [1695] consistia em vários parapeitos de fachina, que cobriam algumas peças de artilharia, que defendiam a entrada do porto.

E acrescenta que, ainda nessa data, veio de Portugal uma Companhia de Infantaria para guarnecer a fortaleza.

Em 1706 e em 1709 a cidade de Santo António foi invadida por Franceses, que para evitar o fogo da fortaleza, encravaram-lhe a artilharia.

Em 1719 a cidade foi atacada e incendiada pelo pirata inglês Bartholomew Roberts, também conhecido como John Roberts e Black Bart, em represália pela morte do seu capitão, Howell Davis.

A descrição de Cunha Matos (1815)

Em 1815, Cunha Matos, militar português, descreveu a defesa da ilha:

"A ilha do Príncipe é defendida pelas fortalezas da Ponta da Mina, e de Santa Ana: da primeira dependem o reducto de Nazareth, a praça baixa de Nossa Senhora , e a bateria de São João.
A fortaleza da Ponta da Mina está edificada em um monte, que forma a ponta do sul do porto da cidade: as embarcações passam, e fundeam muito próximo a ella.
Consta esta fortaleza de duas baterias, uma superior chamada 'Bateria Real' e outra inferior assentada em um pequeno monte chamada 'Bateria do Príncipe'.
A 'Bateria Real' apresenta ao mar a parte convexa de um parapeito semi-circular d'alvenaria, onde se acham assentadas 16 peças de artilharia de bronze, de calibre 3 até 14.
N’esta bateria ha um pequeno deposito de pólvora, e sobre um terreno elevado fica o quartel da guarnição, e junto a elle o grande armazém da pólvora de péssima construcção: este armazém é redondo, e semelhante a um moinho de vento, tem pela sua má construção arruinado muitos centos d'arrobas de pólvora.
Da 'Bateria Real' desce-se por um zig-zag para a 'Bateria do Príncipe', que fica a oeste d’ella.
A dita 'Bateria do Príncipe' é um quadrado longo de pedra e cal: tem 120 palmos de comprido, e 33 de largura: a altura interior do parapeito 9 palmos; tem assentadas da banda do norte 5 peças de ferro, de calibre 6; à face d'oeste tem duas peças do mesmo calibre, a do sul uma de 4, e a do leste encostada ao monte em que fica a 'Bateria Real'.
A 'Bateria do Príncipe' é mais vantajosa para a defeza do porto, do que a 'Real', porque esta acha-se a 500 pés acima do nível do mar, e a 'Bateria do Príncipe' a 200 pés.
A leste, e 50 toesas distante distante da 'Bateria Real', está um um reducto chamado 'Praça Baixa de Nossa Senhora' 35 pés acima do nível do mar: tem três peças de ferro de calibre 3, e é muito útil á defensa do porto.
Em um outeiro contíguo, e que domina a fortaleza da Ponta da Mina pela parte do sudoeste há um bom reducto chamado 'Nossa Senhora da Nazareth': obra mais interessante, que todas as outras da ilha do Príncipe, e por falta da qual tomaram os Franceses sem nenhum obstáculo nos annos de 1706 e 1709: tem 2 peças de bronze de calibre 4, e fosso com ponte levadiça. D'este reducto enfiam-se todas as obras fortificadas da ilha do Príncipe, e a tiros d'espingarda se defendem a 'Bateria Real', a do 'Príncipe', e a 'Praça Baixa de Nossa Senhora'.
Um tiro d'espingarda a oeste da fortaleza da Ponta da Mina, há uma bateria chamada 'de S. João' na qual estão assestadas duas peças de ferro de calibre 6.
Defronte d'esta bahia a cincoenta toesas ancoram quasi todas as embarcações, que entram no porto da ilha do Príncipe."

O Relatório do tenente Conceição e Sousa (1879)

Na segunda metade do século XIX, o Relatório do tenente Conceição e Sousa, por sua vez, informava:

"Fica esta fortaleza situada em uma excelente posição estratégica, distante uma milha da cidade, na margem direita da baía de Santo António, no extremo da ponta que avança para a mesma baía na direcção NO, e que se denomina Ponta da Mina.
Tem esta ponta no local da fortaleza, a altura de 50 metros acima do nível do mar e a largura superior de 42 metros. As suas vertentes do lado sul e norte despenham-se abruptas para a baía, e no sentido mesmo do seu comprimento a sua inclinação é superior a 35%.
De sua elevada e inacessível posição domina esta fortaleza toda a extensão do porto, compreendida entre a ponta denominada do Capitão a NE, e a da Praia Salgada a ESSE, e fecha toda e qualquer comunicação marítima com a cidade; cobrindo-a assim de um golpe de mão do inimigo.
Conta esta fortaleza de uma bateria poligonal que coroa a ponta, tendo 17 canhoneiras com outras tantas peças e dum reduto construído na vertente NO da ponta, o qual fica 17 metros acima do nível do mar e a 96 distante da bateria com a qual se comunica por meio d’uma rampa em ziguezagues.
Tem este reduto oito canhoneiras e a sua face SO uma banqueta para o fogo de fuzilaria, para defender o desembarque na praia próxima.
São estas duas obras construídas de alvenaria, incluindo os parapeitos como todas as fortificações dos tempos antigos, tendo por isso os inconvenientes inerentes à sua construção.
O seu estado actual – Esta fortaleza está ao presente num estado o mais deplorável. O quartel do destacamento composto de dois pequenos quartos, além de ser insuficiente, precisa ser reconstruído, por estar em mau estado, o paiol serve ao presente de cozinha às praças; as peças estão estendidas no chão e escondidas no meio da erva, por falta de reparos; a rampa que comunica a bateria com o reduto está arruinada; as canhoneiras estão em mau estado de conservação; e com pouco mais tempo as muralhas, se lhe não acodem a tempo, se reduzirão a um montão de ruínas.
As peças que existem nesta fortaleza são 31, sendo 7 de bronze e as restantes de ferro fundido. Foram todas fundidas no reinado de D. Pedro II. Tinham sido cravadas suponho pelos franceses em 1709, existindo algumas ainda neste estado.
Construções necessárias – Proponho a construção de um quartel para destacamento, composto duma caserna suficiente para 8 praças, um quarto para o comandante do destacamento, um dito para a arrecadação, um dito para convalescentes, podendo comportar oito leitos e finalmente uma cozinha.
Sendo o local da fortaleza considerado relativamente mais saudável do que a cidade, achei conveniente a construção do já citado quarto para convalescentes. Proponho igualmente a construção de uma estrada que comunique a bateria com o reduto e este com a praia, devendo ser formada de rampas e escadas, único meio com que se obviará o inconveniente da sua actual comunicação, cuja inclinação chega em alguns pontos a ser superior a 30%.
Proponho finalmente a construção de 21 reparos para as peças.
Reparações – As reparações a fazer consistem: No reduto: assentamento delgado na plataforma, reboco das canhoneiras e madeiramento para a casa da guarda existente no mesmo. Na bateria: colocação de lajedo na plataforma, reboco nas canhoneiras, reparações na escada e na rampa existentes no interior da mesma, e finalmente no levantamento dalguns muros que fazem parte desta obra.
A importância do orçamento que remeto à Direcção das Obras Públicas da Província para solicitar a necessária autorização, para se levar avante estes indispensáveis melhoramentos, que a honra da nação e a sua vitalidade nos impõe, é, excluindo o custo dos reparos das peças, 7.130$000 réis. Seria conveniente também a substituição das 19 peças de ferro fundido, que estão em mau estado." (Relatório apresentado ao Governador da Província pelo engenheiro-ajudante tenente José Elias da Conceição e Sousa, chefe das secção de Obras Públicas da Ilha do Príncipe, datado de 20 de Junho de 1879. apud: MELO, 1947:28-32)

Parte dessas obras só teriam lugar entre 1885 e 1886, sendo a fortaleza considerada arruinada em 1890.

Do século XX aos nossos dias

Novos reparos tiveram lugar em 1905, 1907 e 1910, insuficientes para a sua recuperação, vindo a cair em abandono.

As últimas cinco peças de bronze da fortaleza foram recolhidas à cidade na primeira metade do século XX, tendo feito fogo quando da passagem do General António Óscar de Fragoso Carmona pela ilha em 1938.

Atualmente a fortaleza encontra-se em ruínas, ocultas pela vegetação, com a antiga artilharia de ferro espalhada pelo solo, tendo sobrevivido de pé apenas o antigo Paiol de Pólvora, habitado em meados do século XX pelo faroleiro.

Com relação ao Forte de Santa Ana, indicado mas não descrito pelo padre Cunha Matos, pode ter-se localizado em uma ponta do lado norte da baía, fronteira à Ponta da Mina, onde recentemente estudantes da University of Salford identificaram um sítio arqueológico com as características de um antigo forte.

Bibliografia

  • MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica das Ilhas de S. Tomé, Prícipe, Ano Bom e Fernando Pó (4a. ed.). São Tomé: Imprensa Nacional, 1916.
  • MELO, José Brandão Pereira de. A Fortaleza de Santo António da Ponta da Mina. Lisboa: Agência-Geral do Ultramar, 1969. (Coleção Figuras e Feitos de Além-Mar, no. 5) 87p.

Forte de Santo António da Ponta da Mina

O Forte de Santo António da Ponta da Mina é uma antiga fortificação colonial portuguesa situada na Ponta da Mina, na Ilha do Príncipe — a menor das duas ilhas principais do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Sua função original era garantir a defesa da baía de Santo António e do seu porto, o principal ponto de entrada e saída de mercadorias e pessoas na ilha.

História

A origem e evolução da estrutura confundem-se com a própria história da ocupação e defesa da Ilha do Príncipe:
  • Antes de 1695: Documentos como os registros do padre Cunha Matos indicam que já existia alguma forma de proteção militar no local antes da data oficial de construção ou reedificação. Na época, a defesa resumia-se a parapeitos de madeira e ramos (fachina) que abrigavam peças de artilharia, suficientes apenas para controlar a entrada do porto.
  • 1695: Com a instalação da Alfândega da Ilha do Príncipe, tornou-se necessário reforçar a segurança comercial e marítima, o que levou à construção ou à completa reestruturação da fortificação. No mesmo ano, chegou de Portugal uma Companhia de Infantaria para compor a sua guarnição permanente.
  • 1706 e 1709: A cidade de Santo António foi invadida por forças francesas. Para neutralizar a defesa, os invasores danificaram e imobilizaram a artilharia do forte.
  • 1719: A região sofreu um ataque violento do pirata inglês Bartholomew Roberts, conhecido como “Bart Negro”, que incendiou a cidade como represália pela morte do seu antecessor, o capitão Howell Davis.
  • 1815: O militar e historiador Cunha Matos descreveu detalhadamente o conjunto defensivo, composto por várias baterias e redutos, com dezenas de peças de artilharia.
  • 1879: O relatório do tenente Conceição e Sousa alertou para o estado avançado de degradação da estrutura, propondo reformas profundas que só foram parcialmente executadas entre 1885 e 1886.
  • 1890: A fortificação foi oficialmente classificada como arruinada.
  • Início do século XX: Foram feitas pequenas intervenções em 1905, 1907 e 1910, mas insuficientes para recuperar a estrutura, que entrou em abandono definitivo.
  • 1938: As últimas peças de artilharia de bronze ainda em condições foram usadas para uma salva de saudação durante a visita do general António Óscar de Fragoso Carmona e depois recolhidas para a cidade.
  • Atualidade: O forte permanece em ruínas, parcialmente coberto pela vegetação. Apenas o antigo paiol de pólvora mantém-se de pé; durante parte do século XX, ele chegou a ser usado como moradia para o faroleiro local.

Descrição e Estrutura

Ao longo dos séculos, o conjunto defensivo foi ampliado e organizado em várias partes, conforme registros históricos:

Segundo Cunha Matos (1815)

A defesa da ilha dependia de duas fortificações principais: a da Ponta da Mina e a de Santa Ana. O primeiro era composto por:
  • Bateria Real: A mais elevada, com plataforma semicircular em alvenaria, 16 peças de artilharia de bronze (calibres de 3 a 14), um pequeno depósito de pólvora, quartel e um paiol de construção deficiente. Ficava a cerca de 150 metros acima do nível do mar.
  • Bateria do Príncipe: Situada mais abaixo, ligada à anterior por uma rampa em ziguezague. Tinha formato retangular, com 8 peças de artilharia e posição mais vantajosa para defender diretamente o porto, a cerca de 60 metros de altura.
  • Reduto de Nossa Senhora da Nazaré: Construção estratégica que dominava o conjunto, com fosso e ponte levadiça; controlava toda a área defensiva e foi justamente a sua ausência que permitiu as invasões francesas no século XVIII.
  • Praça Baixa de Nossa Senhora e Bateria de São João: Outras estruturas menores, posicionadas para cobrir diferentes pontos de acesso à baía.

Segundo Relatório de 1879

O engenheiro Conceição e Sousa descreveu a fortaleza como ocupando uma posição estratégica elevada (cerca de 50 metros acima do mar), com encostas íngremes e visão total sobre o porto. Nessa época, ela contava com:
  • Uma bateria principal com 17 canhoneiras;
  • Um reduto mais baixo, a 17 metros de altura, com 8 canhoneiras;
  • Um total de 31 peças de artilharia (7 de bronze e 24 de ferro), muitas já danificadas ou imobilizadas.

Outras Fortificações Associadas

Além do Forte da Ponta da Mina, existia o Forte de Santa Ana, mencionado nas descrições antigas mas cuja localização exata se perdeu ao longo do tempo. Estudos recentes, realizados por investigadores da Universidade de Salford, identificaram um sítio arqueológico na ponta norte da baía de Santo António — em frente à Ponta da Mina — com características compatíveis com essa antiga estrutura defensiva.

Importância Histórica

O Forte de Santo António da Ponta da Mina representa um exemplo marcante da estratégia de defesa colonial portuguesa no Atlântico. Ele reflete a importância econômica da Ilha do Príncipe, ponto de parada e controle de rotas comerciais, bem como as dificuldades de manutenção de estruturas militares em regiões afastadas e de clima tropical. Hoje, suas ruínas permanecem como um testemunho da história militar e marítima do arquipélago.

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