domingo, 25 de outubro de 2026

RESGATANDO O FANDANGO QUE JÁ FOI DANÇADO EM CURITIBA

 RESGATANDO O FANDANGO QUE JÁ FOI DANÇADO EM CURITIBA




Em 11/01/1831, a câmara da então Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, "discutia sobre a aplicação de multas a donos de casas de fandangos, que não tinham licença para funcionar."

Fico a imaginar a quantidade de nativos do litoral e parnanguaras que, naquela época, moravam em Curitiba, para chegar ao ponto de a Câmara registrar a existência de "casas" que promoviam a dança do "fandango", chegando a distinguí-las como pontos de exercício dessa atividade, as quais tinham necessidade de obter a respectiva "licença" municipal para funcionamento.
O Fandango é uma reunião de várias danças chamadas “marcas”, que podem ser bailadas ou sapateadas. Tem-se registrada perto de trinta marcas diferentes e muitas outras existentes ainda, próprias de cada região em que se dança o fandango. Os homens batem o sapateado com tamancos, e o ritmo é entremeado de palmas. O acompanhamento é constituído por uma ou duas violas, uma rabeca e um pandeiro. Somente os músicos cantam. O fandango é dançado em todo litoral paranaense; começa no início da noite e só acaba ao amanhecer. Em alguns pontos da baía de Paranaguá é dançado em cima do arroz, a fim de tirá-lo da casca. A isso se chama “fazer gambá”.
O fandango chegou ao nosso litoral com os primeiros casais de colonos açorianos, por volta de 1750. Os primeiros açorianos se espalharam pelos recôncavos do nosso litoral e, como era natural, sentindo nostalgia de sua terra natal, procuraram recordar à pátria distante com danças de sua terra. Então em contato com os indígenas, cuja dança também era de roda, eles acabaram incorporados e formaram o “Fandango” – que é um misto do fandango espanhol com as danças dos nossos índios Carijós. Esse Primeiro contato deu-se primeiramente na Ilha da Cotinga e demais ilhas da baía de Paranaguá.
O fandango era praticado o ano todo, porém, passou a ser “batido” principalmente durante o “entrudo” (precursor do carnaval). Durante estes quatros dias a população do litoral paranaense não fazia outra coisa senão bater tamanco e comer barreado, que é um prato típico a base de carne e toucinho. A bateção começava à boca da noite de sábado, terminava pela manhã, descansavam durante o dia e assim por diante até zero horas de quarta-feira de cinzas.
O fandango que, apesar de ter sido discriminado pelas classes economicamente dominantes em Curitiba, pois o consideravam um ato de devassidão, acabou sendo, a partir de 1860, liberado e até praticado por algum tempo.
Até o início da década de 1990, a tradição do fandango vinha se apagando aos poucos. Sem nenhum grupo em atividade e com mestres fora dos holofotes culturais, a dança chegou a entrar na relação das manifestações que poderiam ser extintas, de acordo com o Conselho Internacional das Organizações de festivais folclóricos.
Em Paranaguá, de 1993 para cá, a situação mudou. Isso porque foi feito um trabalho de resgate, o qual iniciou-se através de encontros com estudantes, juntamente com a atuação do Poder Público local, para que houvesse a formação de um grupo folclórico.
Em 12 de junho de 1994, aconteceu a estreia, em Curitiba, no antigo Teatro da Ordem, do Grupo Folclórico Mestre Romão que surgiu com apoio da prefeitura de Paranaguá e o Governo do Estado, representando a cidade e o Paraná em festivais por todo o Brasil. Nesta data, Mestre Romão voltou a atuar com aquilo que mais gostava: o fandango.
O resgate deu certo e, na sequência, outros grupos e mestres surgiram. Hoje, Mestre Romão acompanha o trabalho, que é conduzido pelos netos.
Paranaguá conta com quatro grupos que atuam regularmente com bailes a cada 15 dias no Mercado do Café. Além do Grupo Mestre Romão, há ainda os grupos Mandicuera, Pés de Ouro (Mestre Nemésio) e Grupo Valadares (Mestre Brasilio).
Segundo o Mestre Nemésio, o Fandango se dá ao som da rabeca e da viola, mas é no ritmo do tamanco dos homens que ele toma vida. “O tamanco é o principal instrumento do Fandango. É ele que marca a batida. E só os homens batem. As mulheres não, elas não podem colocar o tamanco. Se ela coloca e vai tentar bater, fica diferente. Tem que seguir a tradição e isso estamos fazendo, explica.
Atualmente, o fandango é considerado um patrimônio cultural brasileiro, respeitado e valorizado.
Fontes: Câmara Municipal de Curitiba, IHGPguá, Folha do Litoral Pr.,
Paulo Grani

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