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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

CURITIBA, AS COISAS MUDARAM

 CURITIBA, AS COISAS MUDARAM



"Começo a perceber que tudo o que existia, se foi.
A casa da Manteiga não mais existe, assim como a Roskamp.
Os avisos de falecimento do café da alvorada ainda estão lá, mas aqueles que liam, já apareceram nos avisos.
A loja do Dr. Scholl continua, mas com a fachada diferente.
Ainda na mesma quadra, vejo que a lanchonete Cegonha sumiu e deu lugar a outro estabelecimento comercial. A joalheria do Boiko não existe mais.

Na esquina e na quadra, centenas de coreanos dominam as lanchonetes, antes de japoneses. Atravesso a rua, o passeio continua. Olho calmamente para o lado esquerdo e vejo que a confeitaria cometa faz muita falta. Ouço os sons daquela casa cheia, mesas de mármore branco e a cerveja gelada, em meio a empadinhas e sanduíches de pernil com verde.
Do outro lado, a livraria Gighnone ostentava uma bela placa e uma área imensa.

E a joalheria Kopp fechou.
E o Magazin Avenida, fechou.
E a Confeitaria das Famílias continua lá, no mesmo lugar, com o numero de lojas populares na Rua XV, aquela que era refinada e dava gosto de caminhar lentamente.

A Massom, a Slopper, a Tecelagem Imperial (de ontem), o M.Rosenmann Joalheiros, a pizza do Savoia, a loja de tecidos do pai do Caio, enfim cadê tudo isso?

Fechou, mudou, evoluiu, cresceu.
Só aí reparo que já estou com 50 anos. Mas mesmo assim, procuro algo para reavivar a memória e poder abrir um sorriso. Nada!

Não existe mais o q vi crescer e o que me fez crescer.
Até as janelas do Camões estão diferentes.
A Lancaster ainda está lá, assim como o Triângulo.

O árabe do primeiro andar fechou.
A foto Brasil se foi.
A Minerva voltou.
A confeitaria Colombo fechou.

Tudo muda.
Inclusive eu.

O Cine Ópera deu lugar à Mesbla, que deu lugar à Pernambucanas.
O Cine Avenida fechou, saiu o teatro HSBC, que substituiu o Bamerindus, na esquina toda.

A pérgola da Oliveira Belo sumiu.
A mulher que vendia loterias gritando para todos, continua lá.
E vai dar cobra.

O prédio Garcez, após tantas coisas, continua lá, escondendo em suas escadas e janelas, anos de histórias.
O melhor alfaiate de Curitiba, o Fernandes.
A loja do Lucilo.

O Inter com suas saídas de mulheres bonitas.
O Cine Palácio fechou.
A confeitaria Iguaçu está lá, mas não deu coragem de subir.
A Stier, que vendia som, se foi.
A Menilmontant, esta lá.
Volto para casa, lentamente.
E vou olhando, observando.
É outra cidade.

Até os rostos são outros.
Talvez um conhecido e outro, mas muita gente nova.
Gente que veio com a propaganda da capital do primeiro mundo.
Estamos indo.

Gente que veio em busca de paz. E encontrou.
Gente que veio atrás de cidade sorriso.
E achou.

Só o meu vai se perdendo pela caminhada.
É uma cidade virada, mas carinhosa, gostosa, charmosa.
Como não gostar da sua cidade?

Esta é Curitiba.
A nossa Curitiba. Querida e acolhedora.
Deixe pra lá a capital social, a cidade da gente, a capital ecológica.
Curitiba é nossa. Minha, sua, de quem aqui nasceu e se criou e de quem viu tudo mudar.

Quem chegou aqui faz tempo, quem não perdeu tempo e acompanhou tudo o que aconteceu.
Quando o calçadão chegou, tudo mudou.
Quando a cidade cresceu, o ladrão apareceu e as casas, antes sem grades, hoje são fortalezas que escondem a alegria dos curitibanos.

Esta é Curitiba.
Que hoje esta de aniversário. Mais um ano. Mais esperanças.
Ao menos, eu e tantos outros ainda moramos e vivemos aqui.
Ta ruim?
Tem pior.
Fiquemos aqui.
Felicidades, Curitiba."

(Texto de Constantino Kotzias)

Paulo Grani 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

CURITIBA, VOCAÇÃO PARA METRÓPOLE

 CURITIBA, VOCAÇÃO PARA METRÓPOLE



" [...] A Curitiba do final do século 19 e início do século 20 já era uma cidade em final de transição urbana. A pequena vila transformada em capital de província em 1854, passa a partir daí, e com maior intensidade a partir de 1870, por um acentuado processo de urbanização e crescimento populacional. Neste momento, a “velha vila enfezada” já é uma cidade de porte médio, com as complexidades peculiares a este tipo de urbe.

A cidade cresce, em área e população, de maneira quase vertiginosa. Nesta época existe um grande incremento populacional para Curitiba, tendo seu ápice na década de 1890-1900, e passando por uma relativa estabilização no período seguinte. A virada do século encontra uma Curitiba já com modos de cidade grande, “mais solene”. Curitiba finalmente se torna uma cidade acabada, pronta. A urbe de 1912 tem muito pouco a ver com a bucólica vila de sua convivência anterior. A afirmação da urbanidade de Curitiba é visível por vários enfoques, notadamente pela arquitetura e urbanização; desenvolvimento comercial e industrial; incremento da vida cultural e intelectual; ampliação do sistema educacional; ampliação e desenvolvimento dos bairros, arrabaldes e colônias da cidade. [...]

A legitimação da cidade se evidencia de maneira clara nos critérios de construção da cidade como espaço privilegiado para a criação, legitimação e irradiação das instituições fundamentais para a ordem burguesa. Curitiba passa a se tornar com o passar do tempo na metrópole do Paraná, e a inevitabilidade deste processo, propiciado quer pelas extremamente favoráveis condições naturais, quer pelo caráter ordeiro e empreendedor de sua população. Civilização e progresso são as constantes desta matriz discursiva, não apenas como referencial futuro, mas também como enunciadoras de práticas e intenções no presente.

A cidade progride nos campos mais diversos, como a educação e a cultura. A população imigrante, a cujas colônias cabem uma parte notável no desenvolvimento do
Paraná, recebe crédito destacado nesta construção da Curitiba metrópole, por sua operosidade, inteligência, solidariedade e fraternidade com a população local.

Este progresso se dá, em seus diversos aspectos, “à européia”. A cidade cresce, se desenvolve e estabelece relações sociais e culturais com esta matriz. São constantes as referências a Europa em diversos aspectos da vida da urbe, aspectos estes que vão desde os comportamentos demográficos até a composição e o caráter de sua população. Curitiba surge, portanto, como uma urbe cosmopolita, de hábitos europeus (civilizados), com uma estrutura física, urbana, econômica e cultural para seu destino já pré-determinado de metrópole do Paraná. Esta “europeização” lhe concede foros de civilização, acima da média brasileira, e suas noções de civilização e progresso se fundamentam em matrizes discursivas próprias, baseadas em aspectos da cidade.

A ocupação urbana empreendida pelos imigrantes europeus teria sido saudável, pois teria propiciado, “um desenvolvimento relativamente contínuo, centrífugo e homogêneo”; e teria, ainda, limitado a especulação terrenista, o parcelamento em lotes e os loteamentos clandestinos, resultado de uma recente migração de nacionais. Uma ocupação urbana racional por uma população saudável teria feito de Curitiba, até pouco tempo, uma cidade orgânica. O planejamento deveria pautar-se pela recuperação dessa condição de equilíbrio propiciada pelos colonizadores portugueses e imigrantes estrangeiros.

O discurso elaborado sobre Curitiba tem como uma de suas matrizes privilegiadas o aspecto urbanístico e arquitetônico da cidade. As estratégias de construção do quadro urbano possibilitam a expressão mais visível e concreta da realização do ideário de progresso e civilização. Este quadro urbano é preenchido materialmente por construções e vias de trânsito e lazer, e fornece o ambiente para a produção das relações urbanas e sua regulamentação. As construções, os grandes prédios, majestosos e sublimes, apontam de maneira inequívoca para o progresso e o poder da burguesia que os constrói. São prédios públicos, de instituições bancárias e comerciais, colégios e palacetes residenciais que têm seu surgimento e proliferação em Curitiba. Prédios que caracterizam a construção do espaço urbano enquanto palco suntuoso e privilegiado das relações burguesas de produção e dominação.

Mas a urbanização da cidade não se dá apenas sobre a construção de edifícios magníficos. O espaço urbano é arranjado convenientemente para alojá-los. Curitiba passa por um reordenamento claro de seu traçado viário e paisagístico. Constroem-se as grandes avenidas e boulevards, as suas amplas ruas alegres, as suas praças, os seus jardins, que são indicativos de uma cidade ordenada e saneada. [...]

Esta nova Curitiba, saneada e com uma nova configuração na distribuição do solo urbano, é palco, de uma intensa vida econômica, industrial e comercial, para a qual, de maneira similar e conforme ao seu destino de metrópole, ela já estava predestinada pela própria natureza.

Curitiba, porém, embora enquadrada no modelo exportador, possuía uma estrutura de manufaturas e serviços desenvolvida para os padrões da época. A visão sobre a atividade econômica da cidade é uma projeção futurista embasada nas condições naturais e de população da cidade. A atividade industrial em Curitiba é o coroamento natural e predeterminado da vocação da cidade para o progresso, colocando-a na vanguarda da industrialização brasileira. É o fruto da adequação lógica do aparato econômico aos recursos naturais e às possibilidades de produção da cidade.

A atividade industrial tem no mate o seu principal expoente. Esta pluralidade de atividades industriais, mesmo com o caráter manufatureiro de algumas delas, delineia um quadro econômico com infra-estrutura já complexa. É um indicador seguro de que a inserção de Curitiba no modelo exportador era relativa; que a erva-mate, apesar de sua grande importância, não capitalizava toda a atividade industrial da cidade, possuindo a capital, no período, uma gama de atividades industriais bastante diversificadas, também voltadas ao mercado interno, local e estadual, que a caracterizam como um pólo de irradiação industrial no Estado.

Estes indicadores comerciais e de serviços, aliados aos industriais vistos acima, apontam para uma cidade de infra-estrutura econômica complexa e diversificada. Esta complexidade e diversificação indicam uma atividade econômica plural e de caráter de irradiação interna. Curitiba se apresenta aqui como pólo econômico do Estado, como uma cidade que tem sua atividade econômica centrada no mercado interno, em que pese à importância da exportação do mate para sua economia. Sua infra-estrutura de comércio e serviços e a abrangência dos serviços públicos nela sediados fazem de Curitiba, neste discurso, uma cidade geradora de atividade econômica interna, a nível estadual e municipal, que ultrapassa as limitações monocultoras do modelo exportador. O discurso já constrói uma cidade de atividade diversificada, complexa e múltipla, que extrapola e avança adiante da “civilização do mate”.

A população curitibana é vista, no tocante a seu caráter, como ordeira, disciplinada, empreendedora e, principalmente, civilizada. Com ênfase em aspectos diferentes deste quadro, constroem-se discursos que se consubstanciam no quadro final de uma população mitificada, portadora natural dos requisitos para habitar a urbe mítica do discurso burguês.

É o povo perfeito para habitar a cidade perfeita. E esta população, sã física e mentalmente, empreendedora e, principalmente, de um “ar cosmopolita”, vem num crescer constante, realizando a vocação de Curitiba para metrópole.

O elemento imigrante é privilegiado na elaboração do discurso como fator de progresso e civilização da cidade. O imigrante é posto como elemento de capital importância para a construção do progresso e da civilização de Curitiba. Esta matriz discursiva não aponta contradições nem conflitos de adaptação e de integração dos contingentes imigrantes à cidade. Ele é visto através de uma ótica fraternal, cujo enfoque central é a sua rápida integração à sua nova pátria e a fraternidade que impera nas relações entre os brasileiros natos e os grupos imigrantes. A população imigrante é vista, enfim, como elemento integrado e fraterno da cidade, como construtora da nova urbe, seu progresso e civilização.

Curitiba recebe cada vez mais visitantes em função de sua excelente infra-estrutura.
Atualmente, com aproximadamente 1,6 milhões de habitantes, possui a quarta maior rede hoteleira do país, gastronomia rica e intensa atividade cultural, modernos centros de convenções. Localizado no centro da região mais industrializada da América Latina, está apenas a 90 km do Porto de Paranaguá.

O Aeroporto Internacional Afonso Pena, distante 18 km da área central, é um dos mais modernos do Brasil e possui vôos diretos para toda a América Latina e sul dos Estados Unidos, está ligada a São Paulo pela BR–116 e a Santa Catarina pela BR– 101 e 376.
(Adaptado de: diaadiaeducacao.pr.gov.br)

Foto: Curitiba, em 1.902. Rua XV de Novembro, a arquitetura da época seguia o modelo europeizado, entremeio às carruagens e bondes puxados por mulas.

Foto: Autor desconhecido / Acervo Paulo José Costa.

Paulo Grani.