PARANÁ MODERNO: RETRATO COMPLETO DA VIDA, COMÉRCIO, EDUCAÇÃO E CULTURA DE CURITIBA NO INÍCIO DO SÉCULO XX
PARANÁ MODERNO: RETRATO COMPLETO DA VIDA, COMÉRCIO, EDUCAÇÃO E CULTURA DE CURITIBA NO INÍCIO DO SÉCULO XX
APRESENTAÇÃO E CONTEXTO HISTÓRICO
O documento que temos em mãos — o semanário Paraná Moderno — é uma joia histórica. Não se trata apenas de anúncios antigos: é um inventário vivo e fiel de como Curitiba e o Paraná se apresentavam nas primeiras décadas do século XX, quando a capital paranaense deixava de ser uma vila provinciana e se transformava em uma cidade moderna, conectada à Europa e ao mundo. Cada nome, cada endereço, cada marca importada revela uma cidade em plena efervescência econômica e cultural, impulsionada sobretudo por imigrantes europeus — especialmente alemães, italianos e poloneses — que trouxeram técnicas, capital, cultura e trabalho. A publicação se define como "semanário de divulgação das condições vivas do Estado", com sede nas Oficinas Typográficas Apropriadas à Impressões de Luxo, na Rua 15 de Novembro, nº 58 — a artéria principal da cidade, que concentrava praticamente todo o comércio, ensino, lazer e instituições. A Rua 15 de Novembro (ou Rua XV), batizada em homenagem à Proclamação da República em 1889, era então o coração pulsante de Curitiba, e em suas páginas vemos ela repleta de lojas, escritórios, teatros e cinemas.
PÁGINA 1 — COMÉRCIO, MODA, SAÚDE E PRODUTOS DE DIVERSAS ORIGENS
GRANDE CHAPELARIA JACOB — JACOB WORISKI
- Importação direta de chapéus da Itália e da Inglaterra
- Marcas em destaque: BORSALINO (Itália), CHRISTYS (Inglaterra), além de Valenti, Chiri, Monte Christy, Chiavari e outros
- Afirma ter "grande depósito de chapéus" e anuncia GRANDE LIQUIDAÇÃO de chapéus e palhetas — variedades e modelos para todos os gostos
- Endereço implícito: Rua 15 de Novembro — via comercial por excelência
CHAPELARIA CURYTIBAÑA
- Endereço: Rua 15 de Novembro, nº 90
- Marcas: FIORDA e PALMA — também especializada em chapéus
RELOJOARIA ROBERTO RWDER
- Comércio e conserto de relógios; aparece com ilustração de relógio de parede estilo clássico
CASA DE BRINQUEDOS / AU CHAPEAU PARISIEN
- Rua 15 de Novembro, nº 90 — mesmo endereço da Chapelaria Curytibana
- Nome em francês revela o gosto por referências europeias e artigos de estilo importado
ELIXIR DE NOGUEIRA — JOÃO DA SILVA SILVEIRA
- Fabricado em PELOTAS, RIO GRANDE DO SUL
- Classificado como PRODUTO FARMACÊUTICO E QUÍMICO
- Evidencia a circulação comercial entre estados do Sul do Brasil
ANÚNCIO DE SAÚDE
- Produto indicado como DEPURATIVO DO SANGUE e contra a SÍFILIS
- Frases de efeito: "Milhares de curas! Milhares de atestados!" — linguagem comum na propaganda farmacêutica da época, sem regulamentação rígida
PÁGINA 2 — ENSINO, BEBIDAS, MÓVEIS E ARTIGOS DE LUXO
GYMNASIO CURYTIBANO
- Equiparado ao Ginásio Nacional — ou seja, reconhecido oficialmente pelo governo federal
- Regime: INTERNATO, SEMI-INTERNATO E EXTERNATO — alunos podiam morar ou frequentar apenas durante o dia
- Endereço: Rua Agilho Colares, nº 44 — nome de rua que remete a figura histórica local
- Telefone nº 289 — número baixo revela que a telefonia ainda era incipiente e exclusiva de estabelecimentos importantes
- Diretor: Dr. Marins Alves de Camargo — nome de prestígio à frente da instituição
- Afirma seguir os mesmos programas e normas dos ginásios nacionais; oferecia ensino secundário completo
CASA VILLAR — IMPORTAÇÃO
- Especializada em VINHOS, CONSERVAS, LICORES E CHAMPANHES
- Garrafas de champanhe ilustradas: evidência de importação de bebidas de prestígio europeu
- Afirma ser "o mais sortido e mais barato depósito da praça neste ramo" e "casa de confiança" — linguagem que buscava fidelizar pela reputação
OFFICINA DE MÓVEIS — ALBERTO DITTER
- Rua das Flores, nº 37 — antiga denominação da Rua XV de Novembro, antes de 1889
- Produzia móveis de estilo, esculturas, ornamentos e objetos de arte
- Destaque: "FEITO NO BRASIL" e "ESTILO BRASILEIRO" — ao lado de importações, valorizava-se também a produção local de qualidade
- A ilustração mostra um pavilhão fabril com detalhes arquitetônicos, sugerindo instalações próprias e porte considerável
I. WEISS & COMP.
- Seções: Joalheria, Relojoaria e Ourivesaria — trabalhos em ouro e prata
- Nome de origem germânica: família que se dedicava ao comércio de joias e relógios
ALBERTO ONCKEN
- Artigos de armarinho, papelaria, objetos de escritório, livros em branco e artigos para presentes — comércio variado de utilidades
PÁGINA 3 — MÁQUINAS, TECNOLOGIA E SORTEIOS
PAULO HAUER & COMP. — DEPÓSITO DE MÁQUINAS
- Máquinas de Escrever "CONTINENTAL" — descritas como "as mais rápidas, silenciosas e duráveis"
- Máquinas de Costura "ORIGINAL VICTÓRIA" — "as mais perfeitas e resistentes"
- Seção de Ferragens
- Endereço: Rua das Ferragens, nº 99, esquina com Rua Trinta e Um de Março, nºs 1 e 3
- A família Hauer era uma das mais importantes de Curitiba: imigrantes alemães chegados em 1864, criaram comércio, indústria, energia elétrica, clubes e até times de futebol. Paulo Hauer era parte desse vasto clã.
QUADRO DE SORTEIOS — LÚCIO DAMAZO, INSPETOR GERAL
- Em destaque: "DOZE NO PARANÁ E 337 NO BRASIL" — rede de agências em todo o país
- Quatro sorteios anuais em dinheiro — modalidade de poupança/prêmios muito popular na época
- Sucursal no Paraná: Rua 15 de Novembro, nº 54, Curytiba
- Lúcio Damazo — Inspetor Geral — nome responsável pela fiscalização e operação no estado
PÁGINA 4 — FERRAGENS, LOUÇAS, CRISTAIS E COMÉRCIO ESPECIALIZADO
CASA METAL — HAUER JUNIOR & WEISER
- Cutelarias em aço de Solingen — famosa cidade alemã reconhecida mundialmente pela qualidade do aço
- Talheres de prata, ferro esmaltado, louças, vidros, cristais e artigos de luxo
- Completo sortimento de ferragens
- Endereço: Rua Quinze de Novembro, nº 42
- Telefone nº 462
- A ligação entre as famílias Hauer e Weiser não é mero acaso: José Hauer Júnior era filho de José Hauer Sênior e Therese Weiser — ou seja, Hauer Junior & Weiser era uma empresa familiar, fundada por descendentes de duas famílias de imigrantes alemães que se uniram em negócios e casamento. A Casa Metal era um dos negócios do grupo Hauer, que também controlava a Companhia de Eletricidade de Curitiba — responsável pela iluminação pública da cidade.
CASA BICHELS
- Importação direta da Europa — miudezas, bijuterias, artigos para presentes e fantasias
- Grande depósito — "Vende por atacado e a varejo" — atende tanto consumidor quanto revendedor
REPETIÇÕES
- Officina de Móveis Alberto Ditter — reforça presença
- Casa de Brinquedos / Au Chapeau Parisien — Rua 15 de Novembro, nº 90
- Alberto Oncken — papelaria e presentes
PÁGINA 5 — EDUCAÇÃO, SAÚDE E PRESTÍGIO COMERCIAL
GYMNASIO CURYTIBANO — REPETIÇÃO
- Mesmos dados: Rua Agilho Colares, nº 44 — Telefone 289 — Diretor Dr. Marins Alves de Camargo
- Repetir o anúncio revela a importância da instituição e o investimento em divulgação
COLLEGIO SANTA JULIA
- Apresentado como "o mais antigo estabelecimento de instrução" de Curitiba
- Regime: INTERNATO, SEMI-INTERNATO E EXTERNATO
- Aceita alunos de ambos os sexos — raro para a época, revela postura avançada
- Oferecia ensino primário e secundário, com corpo docente detalhado (nomes e qualificações)
- Pelo perfil, era uma instituição de ensino privado, voltada à elite curitibana
ELIXIR DE NOGUEIRA — REPETIÇÃO
- João da Silva Silveira — Pelotas, RS — produto farmacêutico e químico
- Repetido em páginas distintas: produto de grande circulação e investimento publicitário
RELOJOARIA ROBERTO RWDER E I. WEISS & COMP.
- Reaparecem, reforçando prestígio e localização central
- Anúncio de depurativo de sangue com as mesmas promessas de cura
PÁGINA 6 — CULTURA, LAZER E O NASCIMENTO DO CINEMA
"OS NOSSOS CARTAZES" — GUIA DE ESPETÁCULOS
Esta seção é extraordinária: lista as primeiras casas de espetáculos de Curitiba, quando o cinema — o cinematógrafo — chegava como novidade revolucionária. Dados históricos confirmam que o Cine Mignon, em 1910, foi o primeiro cinema registrado de Curitiba.
Tabela
| Espaço | Endereço / Destaque | Programação |
|---|---|---|
| SMART | Rua 15 de Novembro, esquina com Gabriel de Moraes | Cinematógrafo, salão elegante, sessões variadas |
| MIGNON THÉATRE | Rua 15 de Novembro, nº 58 | Cinematógrafo, variedades, elenco artístico |
| POLYTHIEMA | Avenida Luiz Xavier | Estréias, variedades, cinematógrafo |
- O Mignon Theatre ficava na Rua XV de Novembro, nº 58 — mesmo endereço da sede do próprio jornal Paraná Moderno! Coincidência ou não, reforça que a imprensa e o entretenimento cresciam juntos no mesmo coração da cidade.
- O Mignon era considerado "o cinema da elite curitibana" — possuía sala de espera, café e botequim, padrão superior às salas improvisadas.
- A Avenida Luiz Xavier já era um eixo cultural: ali existiu o Palácio Theatre e outros espaços de espetáculos.
QUADRO DE SORTEIOS — REPETIÇÃO
- "Doze no Paraná e 337 no Brasil" — Rua 15 de Novembro, nº 54 — Lúcio Damazo, Inspetor Geral
- Quatro sorteios anuais em dinheiro — programa de alcance nacional
PÁGINA 7 — MAPA COMPLETO DA VIDA CULTURAL CURITIBANA
"OS NOSSOS CARTAZES" — LISTA AMPLIADA
Seis espaços de cultura e lazer, revelando uma cidade que já vivia intensamente o entretenimento e a arte:
Tabela
| Espaço | Endereço | Atração |
|---|---|---|
| SMART | Rua 15 de Novembro, esquina com Gabriel de Moraes | Cinematógrafo, salão elegante |
| MIGNON THÉATRE | Rua 15 de Novembro, nº 58 | Cinematógrafo, variedades, elenco artístico |
| POLYTHIEMA | Avenida Luiz Xavier | Estréias, variedades, cinematógrafo |
| EDEN | Rua 15 de Novembro, nº 60 | Filmes escolhidos, variedades, preços populares, todas as noites |
| CAFÉ PARAISO | — | Estabelecimento de 1ª ordem, soirées musicais |
| THEATRO GOYAZÁ | Rua Dr. Muricy | Espetáculos diversos — Gerência: Ildefonso & Comp. |
- Café Paraiso — evidência de que Curitiba já possuía vida boêmia, cafés com música e encontros
- Theatro Goyazá — teatro tradicional, em via diferente do centro comercial, gerido por empresa local
- Éden — Rua XV, nº 60: cinema com "preços populares", democratização do entretenimento
APRESENTAÇÃO DO PRÓPRIO JORNAL
PARANÁ MODERNO — semanário de divulgação das condições vivas do Estado Oficinas Typográficas Apropriadas à Impressões de Luxo — Rua 15 de Novembro, nº 58
Ou seja: o jornal se definia como instituição a serviço do progresso do Paraná, e suas oficinas tinham capacidade gráfica de alto padrão — "impressões de luxo" — equipamentos modernos para a época.
SÍNTESE GERAL — O QUE AS PÁGINAS REVELAM EM CONJUNTO
📍 A RUA 15 DE NOVEMBRO — O CORAÇÃO DE TODA CURITIBA
Praticamente todos os endereços comerciais importantes estavam ali: nº 42, 54, 58, 60, 90... Era a via que concentrava comércio, educação, cultura, imprensa e serviços. De 1889 em diante, batizada em homenagem à República, sucedeu à antiga Rua das Flores, nome que até hoje identifica seu trecho mais famoso e que se tornou o primeiro calçadão de pedestres do Brasil, em 1972. Nas páginas do Paraná Moderno, vemos a Rua XV em sua primeira era de ouro: quando deixou de ser caminho de carros de bois e se transformou na vitrine comercial e cultural de uma capital que crescia a cada dia.
👨👩👧👦 AS FAMÍLIAS QUE CONSTRUÍRAM A CIDADE
- Hauer — imigrantes alemães chegados em 1864: comércio, ferragens, energia elétrica, clubes, indústria. A ligação Hauer & Weiser era familiar e comercial. José Hauer Júnior foi pioneiro da eletricidade do Paraná, construiu a Usina Termoelétrica de Curitiba e iluminou a cidade.
- Ditter, Oncken, Weiss, Rwder, Woriski — nomes germânicos e eslavos: cada um dono de comércio especializado, tecido, mobiliário, joias, chapéus, máquinas. O capital imigrante foi o motor do progresso curitibano.
📚 EDUCAÇÃO — BASE DO PROGRESSO
- Ginásio Curytibano — ensino secundário oficializado, com internato e diretor médico (Dr. Marins Alves de Camargo)
- Colégio Santa Julia — o mais antigo da cidade, coeducacional, ensino completo
- A educação era considerada fundamental para a modernidade: famílias imigrantes valorizavam instrução e os estabelecimentos repetiam anúncios para firmar prestígio
🎭 CULTURA — O CINEMA CHEGA A CURITIBA
- 1910: o Cine Mignon abre as portas — primeiro cinema registrado de Curitiba, na própria sede do jornal, Rua XV nº 58
- Em poucos anos, já havia seis casas de espetáculos: salões de cinema, teatros, cafés com música. A cidade passava a ter vida noturna e lazer coletivo
- O cinematógrafo era novidade: aparelho moderno que trazia imagens em movimento da Europa e do mundo — Curitiba já estava conectada
🛒 COMÉRCIO IMPORTADO — A CIDADE SE ABRIA AO MUNDO
- Chapéus: Itália (Borsalino), Inglaterra (Christys)
- Aço: Solingen, Alemanha
- Máquinas: Continental, Victória — tecnologias europeias
- Vinhos e champanhes: França e Europa
- Produtos nacionais: Elixir do Rio Grande do Sul, móveis "Estilo Brasileiro"
- A cidade importava o que havia de melhor e já produzia com qualidade própria
💰 ECONOMIA E INFRAESTRUTURA
- Telefones: números de 2 a 3 dígitos — tecnologia nova, restrita a comércio e instituições
- Sorteios: rede com 12 agências no Paraná e 337 no Brasil — sistema de poupança/prêmios de capilaridade nacional
- Imprensa moderna: oficinas tipográficas de luxo, publicação semanal, distribuição estadual
- Farmácia e saúde: produtos de outros estados, propaganda ousada — mercado em formação
CONCLUSÃO
Cada página, cada linha, cada nome e cada endereço do Paraná Moderno forma um quebra-cabeça impressionante: Curitiba, no início do século XX, já era uma cidade moderna, europeizada, dinâmica e ambiciosa. Os imigrantes trouxeram não apenas seus nomes e técnicas, mas uma visão de progresso: ensino de qualidade, comércio especializado, tecnologia importada, lazer e cultura. A Rua 15 de Novembro era o símbolo dessa vontade — ali se concentravam tudo o que a cidade tinha de melhor. O jornal, ao retratar comércio, escolas, cinemas e serviços, registrava não apenas o que se vendia, mas o que se sonhava: um Paraná desenvolvido, civilizado e conectado ao mundo. Muitos dos nomes desses pioneiros — Hauer, Ditter, Oncken — permanecem vivos em ruas, instituições e na memória de Curitiba. Eles não apenas fizeram comércio: construíram a cidade.