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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

PARANÁ MODERNO: RETRATO COMPLETO DA VIDA, COMÉRCIO, EDUCAÇÃO E CULTURA DE CURITIBA NO INÍCIO DO SÉCULO XX

 

PARANÁ MODERNO: RETRATO COMPLETO DA VIDA, COMÉRCIO, EDUCAÇÃO E CULTURA DE CURITIBA NO INÍCIO DO SÉCULO XX



PARANÁ MODERNO: RETRATO COMPLETO DA VIDA, COMÉRCIO, EDUCAÇÃO E CULTURA DE CURITIBA NO INÍCIO DO SÉCULO XX

APRESENTAÇÃO E CONTEXTO HISTÓRICO

O documento que temos em mãos — o semanário Paraná Moderno — é uma joia histórica. Não se trata apenas de anúncios antigos: é um inventário vivo e fiel de como Curitiba e o Paraná se apresentavam nas primeiras décadas do século XX, quando a capital paranaense deixava de ser uma vila provinciana e se transformava em uma cidade moderna, conectada à Europa e ao mundo. Cada nome, cada endereço, cada marca importada revela uma cidade em plena efervescência econômica e cultural, impulsionada sobretudo por imigrantes europeus — especialmente alemães, italianos e poloneses — que trouxeram técnicas, capital, cultura e trabalho. A publicação se define como "semanário de divulgação das condições vivas do Estado", com sede nas Oficinas Typográficas Apropriadas à Impressões de Luxo, na Rua 15 de Novembro, nº 58 — a artéria principal da cidade, que concentrava praticamente todo o comércio, ensino, lazer e instituições. A Rua 15 de Novembro (ou Rua XV), batizada em homenagem à Proclamação da República em 1889, era então o coração pulsante de Curitiba, e em suas páginas vemos ela repleta de lojas, escritórios, teatros e cinemas.

PÁGINA 1 — COMÉRCIO, MODA, SAÚDE E PRODUTOS DE DIVERSAS ORIGENS

GRANDE CHAPELARIA JACOB — JACOB WORISKI

  • Importação direta de chapéus da Itália e da Inglaterra
  • Marcas em destaque: BORSALINO (Itália), CHRISTYS (Inglaterra), além de Valenti, Chiri, Monte Christy, Chiavari e outros
  • Afirma ter "grande depósito de chapéus" e anuncia GRANDE LIQUIDAÇÃO de chapéus e palhetas — variedades e modelos para todos os gostos
  • Endereço implícito: Rua 15 de Novembro — via comercial por excelência

CHAPELARIA CURYTIBAÑA

  • Endereço: Rua 15 de Novembro, nº 90
  • Marcas: FIORDA e PALMA — também especializada em chapéus

RELOJOARIA ROBERTO RWDER

  • Comércio e conserto de relógios; aparece com ilustração de relógio de parede estilo clássico

CASA DE BRINQUEDOS / AU CHAPEAU PARISIEN

  • Rua 15 de Novembro, nº 90 — mesmo endereço da Chapelaria Curytibana
  • Nome em francês revela o gosto por referências europeias e artigos de estilo importado

ELIXIR DE NOGUEIRA — JOÃO DA SILVA SILVEIRA

  • Fabricado em PELOTAS, RIO GRANDE DO SUL
  • Classificado como PRODUTO FARMACÊUTICO E QUÍMICO
  • Evidencia a circulação comercial entre estados do Sul do Brasil

ANÚNCIO DE SAÚDE

  • Produto indicado como DEPURATIVO DO SANGUE e contra a SÍFILIS
  • Frases de efeito: "Milhares de curas! Milhares de atestados!" — linguagem comum na propaganda farmacêutica da época, sem regulamentação rígida

PÁGINA 2 — ENSINO, BEBIDAS, MÓVEIS E ARTIGOS DE LUXO

GYMNASIO CURYTIBANO

  • Equiparado ao Ginásio Nacional — ou seja, reconhecido oficialmente pelo governo federal
  • Regime: INTERNATO, SEMI-INTERNATO E EXTERNATO — alunos podiam morar ou frequentar apenas durante o dia
  • Endereço: Rua Agilho Colares, nº 44 — nome de rua que remete a figura histórica local
  • Telefone nº 289 — número baixo revela que a telefonia ainda era incipiente e exclusiva de estabelecimentos importantes
  • Diretor: Dr. Marins Alves de Camargo — nome de prestígio à frente da instituição
  • Afirma seguir os mesmos programas e normas dos ginásios nacionais; oferecia ensino secundário completo

CASA VILLAR — IMPORTAÇÃO

  • Especializada em VINHOS, CONSERVAS, LICORES E CHAMPANHES
  • Garrafas de champanhe ilustradas: evidência de importação de bebidas de prestígio europeu
  • Afirma ser "o mais sortido e mais barato depósito da praça neste ramo" e "casa de confiança" — linguagem que buscava fidelizar pela reputação

OFFICINA DE MÓVEIS — ALBERTO DITTER

  • Rua das Flores, nº 37 — antiga denominação da Rua XV de Novembro, antes de 1889
  • Produzia móveis de estilo, esculturas, ornamentos e objetos de arte
  • Destaque: "FEITO NO BRASIL" e "ESTILO BRASILEIRO" — ao lado de importações, valorizava-se também a produção local de qualidade
  • A ilustração mostra um pavilhão fabril com detalhes arquitetônicos, sugerindo instalações próprias e porte considerável

I. WEISS & COMP.

  • Seções: Joalheria, Relojoaria e Ourivesaria — trabalhos em ouro e prata
  • Nome de origem germânica: família que se dedicava ao comércio de joias e relógios

ALBERTO ONCKEN

  • Artigos de armarinho, papelaria, objetos de escritório, livros em branco e artigos para presentes — comércio variado de utilidades

PÁGINA 3 — MÁQUINAS, TECNOLOGIA E SORTEIOS

PAULO HAUER & COMP. — DEPÓSITO DE MÁQUINAS

  • Máquinas de Escrever "CONTINENTAL" — descritas como "as mais rápidas, silenciosas e duráveis"
  • Máquinas de Costura "ORIGINAL VICTÓRIA" — "as mais perfeitas e resistentes"
  • Seção de Ferragens
  • Endereço: Rua das Ferragens, nº 99, esquina com Rua Trinta e Um de Março, nºs 1 e 3
  • A família Hauer era uma das mais importantes de Curitiba: imigrantes alemães chegados em 1864, criaram comércio, indústria, energia elétrica, clubes e até times de futebol. Paulo Hauer era parte desse vasto clã.

QUADRO DE SORTEIOS — LÚCIO DAMAZO, INSPETOR GERAL

  • Em destaque: "DOZE NO PARANÁ E 337 NO BRASIL" — rede de agências em todo o país
  • Quatro sorteios anuais em dinheiro — modalidade de poupança/prêmios muito popular na época
  • Sucursal no Paraná: Rua 15 de Novembro, nº 54, Curytiba
  • Lúcio Damazo — Inspetor Geral — nome responsável pela fiscalização e operação no estado

PÁGINA 4 — FERRAGENS, LOUÇAS, CRISTAIS E COMÉRCIO ESPECIALIZADO

CASA METAL — HAUER JUNIOR & WEISER

  • Cutelarias em aço de Solingen — famosa cidade alemã reconhecida mundialmente pela qualidade do aço
  • Talheres de prata, ferro esmaltado, louças, vidros, cristais e artigos de luxo
  • Completo sortimento de ferragens
  • Endereço: Rua Quinze de Novembro, nº 42
  • Telefone nº 462
  • A ligação entre as famílias Hauer e Weiser não é mero acaso: José Hauer Júnior era filho de José Hauer Sênior e Therese Weiser — ou seja, Hauer Junior & Weiser era uma empresa familiar, fundada por descendentes de duas famílias de imigrantes alemães que se uniram em negócios e casamento. A Casa Metal era um dos negócios do grupo Hauer, que também controlava a Companhia de Eletricidade de Curitiba — responsável pela iluminação pública da cidade.

CASA BICHELS

  • Importação direta da Europa — miudezas, bijuterias, artigos para presentes e fantasias
  • Grande depósito — "Vende por atacado e a varejo" — atende tanto consumidor quanto revendedor

REPETIÇÕES

  • Officina de Móveis Alberto Ditter — reforça presença
  • Casa de Brinquedos / Au Chapeau Parisien — Rua 15 de Novembro, nº 90
  • Alberto Oncken — papelaria e presentes

PÁGINA 5 — EDUCAÇÃO, SAÚDE E PRESTÍGIO COMERCIAL

GYMNASIO CURYTIBANO — REPETIÇÃO

  • Mesmos dados: Rua Agilho Colares, nº 44 — Telefone 289 — Diretor Dr. Marins Alves de Camargo
  • Repetir o anúncio revela a importância da instituição e o investimento em divulgação

COLLEGIO SANTA JULIA

  • Apresentado como "o mais antigo estabelecimento de instrução" de Curitiba
  • Regime: INTERNATO, SEMI-INTERNATO E EXTERNATO
  • Aceita alunos de ambos os sexos — raro para a época, revela postura avançada
  • Oferecia ensino primário e secundário, com corpo docente detalhado (nomes e qualificações)
  • Pelo perfil, era uma instituição de ensino privado, voltada à elite curitibana

ELIXIR DE NOGUEIRA — REPETIÇÃO

  • João da Silva Silveira — Pelotas, RS — produto farmacêutico e químico
  • Repetido em páginas distintas: produto de grande circulação e investimento publicitário

RELOJOARIA ROBERTO RWDER E I. WEISS & COMP.

  • Reaparecem, reforçando prestígio e localização central
  • Anúncio de depurativo de sangue com as mesmas promessas de cura

PÁGINA 6 — CULTURA, LAZER E O NASCIMENTO DO CINEMA

"OS NOSSOS CARTAZES" — GUIA DE ESPETÁCULOS

Esta seção é extraordinária: lista as primeiras casas de espetáculos de Curitiba, quando o cinema — o cinematógrafo — chegava como novidade revolucionária. Dados históricos confirmam que o Cine Mignon, em 1910, foi o primeiro cinema registrado de Curitiba.
Tabela
EspaçoEndereço / DestaqueProgramação
SMARTRua 15 de Novembro, esquina com Gabriel de MoraesCinematógrafo, salão elegante, sessões variadas
MIGNON THÉATRERua 15 de Novembro, nº 58Cinematógrafo, variedades, elenco artístico
POLYTHIEMAAvenida Luiz XavierEstréias, variedades, cinematógrafo
  • O Mignon Theatre ficava na Rua XV de Novembro, nº 58 — mesmo endereço da sede do próprio jornal Paraná Moderno! Coincidência ou não, reforça que a imprensa e o entretenimento cresciam juntos no mesmo coração da cidade.
  • O Mignon era considerado "o cinema da elite curitibana" — possuía sala de espera, café e botequim, padrão superior às salas improvisadas.
  • A Avenida Luiz Xavier já era um eixo cultural: ali existiu o Palácio Theatre e outros espaços de espetáculos.

QUADRO DE SORTEIOS — REPETIÇÃO

  • "Doze no Paraná e 337 no Brasil" — Rua 15 de Novembro, nº 54 — Lúcio Damazo, Inspetor Geral
  • Quatro sorteios anuais em dinheiro — programa de alcance nacional

PÁGINA 7 — MAPA COMPLETO DA VIDA CULTURAL CURITIBANA

"OS NOSSOS CARTAZES" — LISTA AMPLIADA

Seis espaços de cultura e lazer, revelando uma cidade que já vivia intensamente o entretenimento e a arte:
Tabela
EspaçoEndereçoAtração
SMARTRua 15 de Novembro, esquina com Gabriel de MoraesCinematógrafo, salão elegante
MIGNON THÉATRERua 15 de Novembro, nº 58Cinematógrafo, variedades, elenco artístico
POLYTHIEMAAvenida Luiz XavierEstréias, variedades, cinematógrafo
EDENRua 15 de Novembro, nº 60Filmes escolhidos, variedades, preços populares, todas as noites
CAFÉ PARAISOEstabelecimento de 1ª ordem, soirées musicais
THEATRO GOYAZÁRua Dr. MuricyEspetáculos diversos — Gerência: Ildefonso & Comp.
  • Café Paraiso — evidência de que Curitiba já possuía vida boêmia, cafés com música e encontros
  • Theatro Goyazá — teatro tradicional, em via diferente do centro comercial, gerido por empresa local
  • Éden — Rua XV, nº 60: cinema com "preços populares", democratização do entretenimento

APRESENTAÇÃO DO PRÓPRIO JORNAL

PARANÁ MODERNO — semanário de divulgação das condições vivas do Estado
Oficinas Typográficas Apropriadas à Impressões de Luxo — Rua 15 de Novembro, nº 58
Ou seja: o jornal se definia como instituição a serviço do progresso do Paraná, e suas oficinas tinham capacidade gráfica de alto padrão — "impressões de luxo" — equipamentos modernos para a época.

SÍNTESE GERAL — O QUE AS PÁGINAS REVELAM EM CONJUNTO

📍 A RUA 15 DE NOVEMBRO — O CORAÇÃO DE TODA CURITIBA

Praticamente todos os endereços comerciais importantes estavam ali: nº 42, 54, 58, 60, 90... Era a via que concentrava comércio, educação, cultura, imprensa e serviços. De 1889 em diante, batizada em homenagem à República, sucedeu à antiga Rua das Flores, nome que até hoje identifica seu trecho mais famoso e que se tornou o primeiro calçadão de pedestres do Brasil, em 1972. Nas páginas do Paraná Moderno, vemos a Rua XV em sua primeira era de ouro: quando deixou de ser caminho de carros de bois e se transformou na vitrine comercial e cultural de uma capital que crescia a cada dia.

👨‍👩‍👧‍👦 AS FAMÍLIAS QUE CONSTRUÍRAM A CIDADE

  • Hauer — imigrantes alemães chegados em 1864: comércio, ferragens, energia elétrica, clubes, indústria. A ligação Hauer & Weiser era familiar e comercial. José Hauer Júnior foi pioneiro da eletricidade do Paraná, construiu a Usina Termoelétrica de Curitiba e iluminou a cidade.
  • Ditter, Oncken, Weiss, Rwder, Woriski — nomes germânicos e eslavos: cada um dono de comércio especializado, tecido, mobiliário, joias, chapéus, máquinas. O capital imigrante foi o motor do progresso curitibano.

📚 EDUCAÇÃO — BASE DO PROGRESSO

  • Ginásio Curytibano — ensino secundário oficializado, com internato e diretor médico (Dr. Marins Alves de Camargo)
  • Colégio Santa Julia — o mais antigo da cidade, coeducacional, ensino completo
  • A educação era considerada fundamental para a modernidade: famílias imigrantes valorizavam instrução e os estabelecimentos repetiam anúncios para firmar prestígio

🎭 CULTURA — O CINEMA CHEGA A CURITIBA

  • 1910: o Cine Mignon abre as portas — primeiro cinema registrado de Curitiba, na própria sede do jornal, Rua XV nº 58
  • Em poucos anos, já havia seis casas de espetáculos: salões de cinema, teatros, cafés com música. A cidade passava a ter vida noturna e lazer coletivo
  • O cinematógrafo era novidade: aparelho moderno que trazia imagens em movimento da Europa e do mundo — Curitiba já estava conectada

🛒 COMÉRCIO IMPORTADO — A CIDADE SE ABRIA AO MUNDO

  • Chapéus: Itália (Borsalino), Inglaterra (Christys)
  • Aço: Solingen, Alemanha
  • Máquinas: Continental, Victória — tecnologias europeias
  • Vinhos e champanhes: França e Europa
  • Produtos nacionais: Elixir do Rio Grande do Sul, móveis "Estilo Brasileiro"
  • A cidade importava o que havia de melhor e já produzia com qualidade própria

💰 ECONOMIA E INFRAESTRUTURA

  • Telefones: números de 2 a 3 dígitos — tecnologia nova, restrita a comércio e instituições
  • Sorteios: rede com 12 agências no Paraná e 337 no Brasil — sistema de poupança/prêmios de capilaridade nacional
  • Imprensa moderna: oficinas tipográficas de luxo, publicação semanal, distribuição estadual
  • Farmácia e saúde: produtos de outros estados, propaganda ousada — mercado em formação

CONCLUSÃO

Cada página, cada linha, cada nome e cada endereço do Paraná Moderno forma um quebra-cabeça impressionante: Curitiba, no início do século XX, já era uma cidade moderna, europeizada, dinâmica e ambiciosa. Os imigrantes trouxeram não apenas seus nomes e técnicas, mas uma visão de progresso: ensino de qualidade, comércio especializado, tecnologia importada, lazer e cultura. A Rua 15 de Novembro era o símbolo dessa vontade — ali se concentravam tudo o que a cidade tinha de melhor. O jornal, ao retratar comércio, escolas, cinemas e serviços, registrava não apenas o que se vendia, mas o que se sonhava: um Paraná desenvolvido, civilizado e conectado ao mundo. Muitos dos nomes desses pioneiros — Hauer, Ditter, Oncken — permanecem vivos em ruas, instituições e na memória de Curitiba. Eles não apenas fizeram comércio: construíram a cidade.