Denominação inicial: Grupo Escolar General Ozório
Denominação atual: Colégio Estadual General Osório
Endereço: Av. General Carlos Cavalcanti, 1553 - Uvaranas
Cidade: Ponta Grossa
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica
Data: 1934
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 1934
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar General Osório - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração)
Entre Linhas Geométricas e Sonhos de Nação: O Grupo Escolar General Osório e a Modernidade que Despertou Uvaranas
Naquela esquina da Avenida General Carlos Cavalcanti, número 1553, onde hoje o movimento urbano de Ponta Grossa flui sem pressa, ergueu-se em 1934 algo que parecia impossível para um bairro ainda marcado pelos pés descalços dos imigrantes: um edifício escolar de linhas puras e ousadas, onde o Art Déco — linguagem da modernidade cosmopolita — encontrava-se com a terra vermelha dos Campos Gerais. Era o Grupo Escolar General Osório, templo laico erguido num momento em que o Brasil decidia, sob o comando de Getúlio Vargas, que educar era o ato mais revolucionário que um Estado poderia praticar.
O Patrono da Coragem: Manuel Luís Osório e o Sangue Derramado pela Pátria
Antes de ser nome de escola, "General Osório" era memória viva de coragem. Manuel Luís Osório, nascido em 10 de maio de 1808 na Vila de Nossa Senhora da Conceição do Arroio — hoje cidade de Osório, no Rio Grande do Sul —, ingressou no Exército aos 14 anos para lutar na Guerra da Independência do Brasil
. Filho de família modesta de estancieiros, ascendeu por mérito próprio todos os postos militares até tornar-se Marechal do Império, Marquês do Herval, e um dos maiores heróis da Guerra do Paraguai
.
Sua trajetória encarnava o ideal republicano que o Brasil da década de 1930 buscava cultivar: o homem simples que, pela dedicação e bravura, eleva-se ao mais alto patamar da pátria. Ao batizar uma escola com seu nome, o Estado não apenas prestava homenagem a um militar — afirmava que a coragem, o patriotismo e o sacrifício pelo bem comum deveriam ser valores ensinados desde o primeiro "a-b-c".
Uvaranas: O Solo Fértil onde a Escola Nasceu
O bairro de Uvaranas, onde a escola se instalou, carregava nas veias uma história de resistência silenciosa. Originalmente parte da Colônia Octávio, desenvolveu-se a partir da década de 1870 como núcleo de imigrantes — predominantemente alemães do Volga que chegaram ao Paraná fugindo da perseguição czarista
. Ali, entre plantações de batata e campos de erva-mate, famílias construíram suas casas de madeira enxaimel, mantiveram seus dialetos e costumes, mas também sonharam com um futuro brasileiro para seus filhos.
A Avenida General Carlos Cavalcanti — originalmente Estrada de Itaiacoca — era a artéria principal que ligava aquele mundo rural ao centro urbano de Ponta Grossa
. Quando, em 1934, o Departamento de Obras e Viação do Paraná decidiu erguer ali uma escola pública de padrão Art Déco, estava fazendo mais que construir um prédio: estava plantando uma semente de brasilidade num solo de múltiplas identidades. Era o Estado dizendo, sem palavras: vocês são brasileiros, e seus filhos aprenderão a ser cidadãos deste país.
A Arquitetura como Ideologia: Quando o Art Déco Falava ao Povo
O projeto de 1934, assinado pela Secção Técnica do Departamento de Obras e Viação, não era obra de arquiteto celebrado — era padrão estatal, repetido em dezenas de cidades brasileiras durante o Estado Novo
. Mas nessa padronização residia justamente sua força revolucionária: a certeza de que até as crianças mais humildes mereciam beleza, ordem e dignidade em seu ambiente de aprendizado.
A tipologia em "U" abraçava o pátio central como um colo protetor — espaço onde as crianças de Uvaranas, filhas de agricultores e operários, podiam correr livres sob o sol dos Campos Gerais. As linhas horizontais marcantes, os ornamentos geométricos abstratos, as janelas amplas que capturavam a luz do saber — tudo isso compunha uma linguagem arquitetônica que afirmava, sem palavras: o Brasil está entrando na modernidade, e vocês, crianças do povo, são parte desse futuro
.
Diferente do ecletismo ornamental do século XIX, o Art Déco era racional, otimista, voltado para o progresso. Cada detalhe transmitia a ideologia do Estado Novo: a escola não era apenas lugar de alfabetização — era fábrica de cidadãos, templo onde se forjava a identidade nacional brasileira
. Enquanto na Europa o estilo adornava cinemas e hotéis de luxo, no Brasil profundo ele erguia-se para abrigar os sonhos das crianças pobres — gesto de justiça estética raro na história da arquitetura mundial.
O Cotidiano Sagrado: Vozes que Transformaram Uvaranas
Imagine as manhãs daquela escola nos anos 1930 e 1940: o ranger das portas de madeira maciça ao amanhecer; o cheiro de cera de assoalho misturado ao aroma da terra molhada pela chuva da madrugada; o tilintar dos sinos de metal marcando o início das aulas. Crianças descalças ou com sapatos remendados cruzavam o portão carregando cadernos de capa dura, lápis apontados com cuidado, o orgulho silencioso de serem as primeiras de suas famílias a frequentar uma escola de verdade.
Dentro das salas de aula, professores — muitos vindos das Escolas Normais de Ponta Grossa ou Curitiba — ensinavam com rigor e ternura. A cartilha de Leitura de Monteiro Lobato abria portas para mundos imaginários; a tabuada era recitada em coro como um mantra de progresso; o Hino Nacional ecoava todas as manhãs, ensinando que cada criança ali era parte de uma nação em construção
.
Mas a escola era mais que alfabetização. Era centro comunitário, ponto de encontro, espaço de sociabilidade. Nas tardes de sábado, o pátio interno do "U" transformava-se em palco para festas juninas, apresentações de teatro escolar, reuniões de pais que discutiam não apenas notas, mas o futuro de seus filhos. Ali, filhos de imigrantes alemães, de tropeiros descendentes de portugueses, de pequenos agricultores italianos aprendiam lado a lado — numa utopia republicana onde a sala de aula nivelava, ainda que temporariamente, as desigualdades do mundo exterior
.
A Resistência do Concreto: Quando o Tempo Respeita a Memória
Diferentemente de tantos patrimônios educacionais brasileiros demolidos em nome de um "progresso" cego, o edifício do antigo Grupo Escolar General Osório resistiu. Hoje, com alterações inevitáveis — pinturas renovadas, adaptações técnicas, modificações funcionais —, ainda ergue suas paredes na Avenida General Carlos Cavalcanti como testemunha viva de uma era
.
Passar diante dele é cruzar um portal temporal. É possível quase ouvir o murmúrio das crianças recitando o Hino à Bandeira, o ranger dos giz sobre as lousas negras, o riso contido durante a aula de desenho. O edifício não é apenas estrutura física — é memória materializada, monumento silencioso àqueles que acreditaram que educar era o ato mais revolucionário que um país pobre podia praticar.
Legado Vivo: A Semente que Não Morreu
Hoje denominado Colégio Estadual General Osório, o edifício continua funcionando — não como museu nostálgico, mas como instituição viva que adapta sua missão às demandas do século XXI enquanto preserva no DNA a vocação original: formar cidadãos com dignidade, oferecer esperança através do saber, transformar realidades através da educação.
Quantas crianças de Uvaranas aprenderam a ler naquelas salas? Quantos professores ali descobriram sua vocação? Quantos médicos, engenheiros, artistas devem seu primeiro passo rumo ao conhecimento à dedicação de um professor que um dia cruzou aquele portão Art Déco com a pasta cheia de sonhos?
Esses números jamais serão totalmente conhecidos — mas sua existência é inegável. A escola de Uvaranas foi, e continua sendo, uma fábrica de esperança. Enquanto o Brasil construía rodovias para ligar estados, aquela escola construía pontes invisíveis — entre ignorância e conhecimento, entre imigração e pertencimento, entre campo e cidade, entre pobreza e possibilidade.
Epílogo: O Direito à Beleza como Direito Humano
Hoje, quando debates sobre educação reduzem-se a números de orçamento e índices de desempenho, é urgente lembrar lições como a do Grupo Escolar General Osório. Ela nos ensina que educar nunca foi — e nunca será — mero ato técnico. É gesto estético. É afirmação política. É ato de fé na humanidade.
Construir uma escola Art Déco num bairro de imigrantes nos anos 1930 era dizer, sem palavras: vocês, crianças do povo, merecem beleza. Num país que ainda tratava a pobreza como destino inevitável, aquela arquitetura afirmava que a dignidade não era privilégio de classe — era direito humano.
O edifício na Avenida General Carlos Cavalcanti ainda existe. Mas seu verdadeiro monumento não é de concreto e reboco — é feito das milhares de vidas transformadas por quem ali estudou. É feito de alfabetizações realizadas, de consciências despertadas, de dignidade conquistada através do saber. Enquanto houver alguém ensinando com amor em Uvaranas — e enquanto houver alguém que lembre — o General Osório continuará vivo. Não como nome esquecido numa placa, mas como semente eterna: porque toda criança que aprende a ler num ambiente digno carrega consigo, mesmo sem saber, o sonho daqueles que um dia decidiram que o futuro do Brasil começaria nas salas de aula dos Campos Gerais — onde a terra vermelha encontrou a geometria pura do Art Déco, e onde sonhos simples se transformaram em pátria.
