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sábado, 7 de fevereiro de 2026

Entre Pinheirais e Sonhos: A História do Grupo Escolar Cel. Rogério Borba e o Legado da Professora Helena Ronkoski Fioravante

 Denominação inicial: Grupo Escolar Cel. Rogério Borba

Denominação atual: Colégio Estadual Professora Helena Ronkoski Fioravante

Endereço: Av. Coronel Rogério Borba, 945

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Professora Helena Ronkoski Fioravante em 2017 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2018

Entre Pinheirais e Sonhos: A História do Grupo Escolar Cel. Rogério Borba e o Legado da Professora Helena Ronkoski Fioravante

Na curva suave da Avenida Coronel Rogério Borba, número 945, no coração de Reserva — cidade nascida entre pinheirais e lavouras no planalto paranaense —, ergue-se desde o final da década de 1940 um testemunho silencioso da fé que uma geração depositou no futuro: o edifício que abrigou o Grupo Escolar Cel. Rogério Borba e hoje carrega o nome de Colégio Estadual Professora Helena Ronkoski Fioravante. Suas paredes, marcadas pelo tempo e pelas alterações necessárias, guardam mais que tijolos e argamassa: guardam o eco de vozes infantis que aprenderam a soletrar "Brasil" entre mapas desbotados e o cheiro doce de giz novo.

Reserva: O Berço de Uma Esperança Coletiva

Fundada oficialmente em 1921 — ano trágico que também marcaria o fim da vida do próprio coronel Rogério Borba —, Reserva nasceu como fronteira de civilização no interior do Paraná.
pt.wikipedia.org
Suas ruas foram traçadas por mãos calejadas de imigrantes poloneses, ucranianos e italianos que, fugindo da miséria europeia, transformaram o cerrado em campos férteis de trigo, centeio e fé.
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Nas casas de madeira enxaimel, falava-se polonês à noite e português na escola — língua esta última que representava não apenas integração, mas dignidade, cidadania, pertencimento.
Mas para que uma colônia se torne cidade, é preciso mais que terra fértil: é preciso escola. E foi nesse vácuo — entre o sonho dos pioneiros e a realidade crua do isolamento — que nasceu a necessidade urgente de um grupo escolar que honrasse a memória de quem dera a vida pela região.

O Coronel que Morreu Pela Terra que Amava

Rogério Morosini Borba (1865–1921) não foi apenas um militar de patente elevada. Foi juiz distrital em Reserva, deputado estadual pelo Paraná e, acima de tudo, um homem que acreditou naquela terra antes que ela própria acreditasse em si mesma.
pt.wikipedia.org
Nascido em Jataizinho, filho de família tradicional da região, dedicou-se à causa republicana e ao desenvolvimento do planalto paranaense com uma paixão quase missionária.
Sua trajetória, porém, terminaria de forma trágica: assassinado em 1921 — justamente no ano da emancipação de Reserva —, antes mesmo de assumir o cargo de primeiro prefeito do município.
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Sua morte violenta transformou-o em mártir local, símbolo da luta pelo progresso numa região ainda selvagem. Homenageá-lo com o nome da primeira escola pública de ensino fundamental não era mero gesto protocolar: era afirmar que a educação seria a arma mais poderosa para continuar sua obra — não com fuzis, mas com cadernos; não com balas, mas com letras.

O Projeto que Uniu Tradição e Modernidade: 1948

Três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial — conflito que ceifara milhões de vidas na Europa, incluindo muitos parentes dos imigrantes poloneses de Reserva —, a Secretaria de Viação e Obras Públicas do Paraná desenhou para a cidade um presente de futuro: o projeto arquitetônico do Grupo Escolar Cel. Rogério Borba, datado de 1948.
A escolha da linguagem neocolonial não foi casual. Enquanto o modernismo concretista avançava nas capitais, o interior do Paraná abraçava um estilo que falava diretamente à alma dos colonos: telhados de quatro águas que lembravam as casas da Polônia e da Ucrânia; beirais generosos que protegiam do sol e da chuva; alvenaria robusta que prometia durar gerações.
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A tipologia "U" — padrão para grupos escolares da época — criava um pátio interno protegido, espaço sagrado onde as crianças brincariam sob o olhar atento das professoras, longe das estradas de terra e dos perigos do mundo exterior.
Cada detalhe do projeto padronizado carregava uma filosofia: janelas altas para iluminar as salas de aula com a luz generosa do planalto; corredores amplos para a circulação ordeira de centenas de alunos; sanitários separados com rigor quase monástico — sinal dos tempos. Não havia luxo, mas havia dignidade. E naquele momento histórico, para os filhos de agricultores que caminhavam quilômetros descalços até a escola, dignidade era revolução.

O Silêncio que Falava: A Inauguração sem Data

Curiosamente, os documentos oficiais não registram a data exata de inauguração do prédio. Entre 1948, ano do projeto, e 1951, período final de consolidação do grupo escolar, ergueu-se em Reserva não apenas um edifício, mas um pacto coletivo.
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Talvez a cerimônia tenha sido discreta — afinal, no interior do Paraná pós-guerra, não havia recursos para fanfarras. Talvez tenha ocorrido numa manhã de outubro, com o prefeito local cortando uma fita simples enquanto as primeiras crianças, de uniforme branco engomado pelas mães, entravam com olhos arregalados de espanto.
O que importa não é a data, mas o gesto: naquele momento, Reserva declarava que seus filhos mereciam o mesmo direito à educação que as crianças de Curitiba ou São Paulo. Que o filho do polonês que plantava batata tinha o mesmo potencial que o filho do industrial da capital. Que a escola pública era, acima de tudo, um ato de justiça.

A Mulher que Deu Alma ao Tijolo: Helena Ronkoski Fioravante

Décadas depois — provavelmente entre os anos 1970 e 1990, período em que o Paraná redescobriu seus educadores locais —, o grupo escolar recebeu nova denominação: Colégio Estadual Professora Helena Ronkoski Fioravante. O sobrenome Ronkoski, inequivocamente polonês, sugere que Helena era filha ou neta dos pioneiros que fundaram Reserva — uma daquelas mulheres que transformaram a dor da imigração em força para ensinar.
Imaginemos Helena: professora primária de mãos delicadas e voz firme, talvez filha de camponeses analfabetos que a enviaram à escola com o sonho de que ela "nunca mais precisasse catar batata".
institucional.unisecal.edu.br
Imaginemos suas aulas naquele prédio neocolonial: ensinando a tabuada com feijões secos, corrigindo cadernos à luz de lamparina quando a energia falhava, secando lágrimas de crianças que sentiam saudade dos avós que ficaram na Europa. Imaginemos sua dedicação silenciosa — a mesma dedicação de milhares de professoras anônimas que, sem nunca terem seus nomes nos livros de história, construíram o Brasil sala por sala, aluno por aluno.
Homenageá-la não foi apagar a memória do coronel Borba — foi completá-la. Se ele representava a força fundadora, a coragem política, o sacrifício pela terra; Helena representava a força educadora, a paciência diária, o sacrifício pela alma. Juntos, na memória do prédio, formam a dualidade essencial de toda comunidade: a coragem de construir e a sabedoria de cultivar.

O Presente que Honra o Passado: 2017 até Hoje

Em 2017, o Colégio Estadual Professora Helena Ronkoski Fioravante permanecia de pé na Avenida Coronel Rogério Borba — "edificação existente com alterações", como registram os técnicos.
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Janelas trocadas, revestimentos atualizados, instalações elétricas modernizadas. O tempo deixou suas marcas, como sempre deixa. Mas nas paredes que resistiram, ainda ecoam os passos de gerações:
— Os alunos dos anos 1950 que aprenderam a cantar o hino nacional com lágrimas nos olhos, enquanto seus pais ainda falavam polonês em casa;
— As meninas dos anos 1960 que sonhavam ser professoras como a Dona Helena, repetindo suas lições diante do espelho;
— Os adolescentes dos anos 1980 que descobriram Marx e Neruda nos corredores onde outrora se ensinava a rezar o Pai Nosso;
— E os estudantes de hoje, filhos de agricultores e netos de imigrantes, que digitam em tablets onde outrora se rabiscavam cadernos de pauta, mas que ainda buscam, no fundo, a mesma coisa: um lugar que os veja, que os forme, que os prepare para o mundo sem lhes roubar a alma.

Epílogo: A Escola como Território da Memória

O Colégio Estadual Professora Helena Ronkoski Fioravante não é um monumento musealizado. É um organismo vivo, pulsante, que respira o ar dos pinheirais que cercam Reserva. Suas portas se abrem todas as manhãs para novos rostos, novas histórias, novas esperanças. E talvez seja justamente essa continuidade — essa teimosia em existir mesmo diante das dificuldades do ensino público brasileiro — seu maior triunfo.
Na memória coletiva de Reserva, a escola é mais que tijolo e concreto. É o primeiro beijo escondido no pátio interno; o terror da prova de português; a euforia da formatura do primário; a professora que mudou um destino com uma palavra de incentivo. É o lugar onde filhos de agricultores se tornaram médicos, onde netos de imigrantes analfabetos se tornaram engenheiros, onde a promessa feita em 1948 — de que toda criança merece aprender — continua sendo cumprida, dia após dia.
E assim, sob o mesmo céu que viu nascer Reserva, o edifício neocolonial da Avenida Rogério Borba segue em pé — não como relíquia do passado, mas como farol silencioso que repete, a cada geração: Aqui, entre pinheirais e sonhos, o futuro começa hoje. Entre. Sente-se. Abra seu caderno. O mundo espera por você.