Denominação inicial: Grupo Escolar de Ortigueira
Denominação atual:
Endereço:
Cidade: Ortigueira
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1951-1955
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Edificações - Divisão de Projetos e Construções
Data:
Estrutura:
Tipologia: L
Linguagem: Modernista
Data de inauguracao:
Situação atual:
Uso atual:
Grupo Escolar de Ortigueira - s/d Fonte: http://cmortigueira.pr.gov.br/fotos-antigas-de-ortigueira
Entre Trilhos e Pinheirais: O Sonho do Grupo Escolar de Ortigueira na Aurora de uma Cidade
No coração do planalto paranaense, onde os pinheiros araucárias erguiam seus galhos majestosos como catedrais naturais e o apito do trem cortava o silêncio das madrugadas, ergueu-se entre 1951 e 1955 um monumento discreto mas revolucionário: o Grupo Escolar de Ortigueira. Não era apenas um prédio de tijolos e concreto — era a materialização de um pacto coletivo selado por madeireiros, colonos e sonhadores que, após décadas de extração insaciável da floresta, decidiram que era hora de plantar algo mais duradouro que madeira: conhecimento.
A Terra que Sangrou Pinho: Ortigueira Antes da Escola
A história de Ortigueira nasceu entrelaçada às raízes da araucária. Por volta de 1900, sertanejos começaram a se instalar num pequeno morro da região, atraídos pela abundância do "ouro verde" — o pinheiro do Paraná, cuja madeira nobre alimentava serrarias e construía cidades distantes.
Nas décadas seguintes, imigrantes poloneses, ucranianos e italianos chegaram com as mãos calejadas e o coração cheio de esperança, transformando a mata virgem em campos de cultivo e serrarias que nunca dormiam.
Mas havia um preço. Enquanto os troncos monumentais caíam sob o ranger das serras, levavam consigo não apenas árvores centenárias, mas um ecossistema inteiro — e, com ele, a inocência de uma terra ainda intocada. O trem da ferrovia, que ligava Ortigueira ao resto do Paraná, não transportava apenas toras: carregava também a ambivalência de um progresso que construía cidades à custa da floresta ancestral.
Nas casas de madeira enxaimel erguidas às pressas, crianças brincavam descalças entre serragem e sonhos, enquanto seus pais, exaustos do trabalho nas matas, sussurravam em polonês ou italiano que "os filhos teriam de estudar — nunca mais seriam lenhadores".
Era nesse cenário de contradições — entre a riqueza passageira da madeira e a pobreza cultural do isolamento — que nascia a necessidade urgente de uma escola digna. Não uma sala improvisada num barracão de serraria, mas um espaço projetado para formar cidadãos.
15 de Novembro de 1951: O Dia em que Ortigueira Nasceu Cidade
Coincidência ou destino? No exato dia da emancipação política de Ortigueira — 15 de novembro de 1951 —, a cidade assumia não apenas autonomia administrativa, mas também a responsabilidade de educar seus filhos.
A data marca um divisor de águas: de distrito dependente de Tibagi, Ortigueira tornava-se senhora de seu próprio destino. E nenhum destino se constrói sem escola.
Foi nesse contexto de afirmação identitária que o Departamento de Edificações do Paraná, através de sua Divisão de Projetos e Construções, desenhou para a jovem cidade um presente de futuro: o projeto do Grupo Escolar de Ortigueira. A tipologia "L" — característica dos grupos escolares padronizados da época — não era escolha casual. Formava um pátio interno protegido, espaço sagrado onde as crianças brincariam longe do perigo dos trilhos da ferrovia e da poeira das serrarias. A linguagem modernista, com suas linhas limpas e funcionalidade austera, afirmava que Ortigueira não olhava para trás com nostalgia rural, mas para frente com a confiança de quem acredita no progresso.
Nas plantas arquitetônicas, cada detalhe contava uma história silenciosa: janelas amplas para capturar a luz generosa do planalto; salas dispostas em sequência lógica para o fluxo ordenado de centenas de alunos; beirais projetados para proteger do sol forte do verão e das chuvas torrenciais da primavera. Não havia ornamentos supérfluos — apenas a beleza honesta do concreto armado e da alvenaria robusta, materiais que prometiam resistir não apenas às intempéries, mas ao tempo.
A Construção que Uniu Mãos e Esperanças
Fotografias do acervo de Memória Urbana registram o momento quase sagrado da construção: operários de camisa remendada erguendo paredes sob o sol inclemente, enquanto crianças curiosas observavam da cerca de madeira, imaginando o dia em que cruzariam aquela porta como alunas.
Muitos desses operários eram pais que nunca haviam pisado numa escola — homens que aprenderam a ler contas de madeira, não livros; que sabiam calcular o volume de um tronco, mas não resolver uma equação de primeiro grau. E ainda assim, com as mãos calejadas pelo machado e pela serra, erguiam com orgulho cada tijolo daquele templo laico.
Dizem que, nas noites de construção, alguns ficavam até depois do expediente, ajustando um batente ou nivelando um piso — não por obrigação, mas por promessa silenciosa feita a si mesmos: "Meu filho vai sentar numa carteira nova, não num tamborete de serraria." Era assim que se construía educação no interior do Paraná na década de 1950: não com discursos de ministros, mas com o suor anônimo de quem acreditava que o futuro começava ali, naquele canteiro de obras entre pinheirais e trilhos.
As Primeiras Carteiras: O Cheiro de Giz e Esperança
Quando finalmente as portas se abriram — provavelmente entre 1953 e 1955, embora a data exata permaneça envolta na névoa da memória oral —, algo mágico aconteceu em Ortigueira. Pela primeira vez, crianças de famílias diferentes compartilhavam o mesmo espaço: filhos de madeireiros poloneses sentavam ao lado de netos de tropeiros brasileiros; meninas de imigrantes italianos aprendiam a soletrar "Brasil" com a mesma professora que ensinava geografia aos filhos dos administradores da serraria.
Nas paredes recém-caiadas, mapas do Paraná mostravam uma terra ainda desconhecida para muitos — afinal, poucos haviam viajado além do rio Ivaí. No quadro-negro, o giz rangia com a autoridade suave da professora estadual recém-chegada de Curitiba, trazendo consigo não apenas o currículo oficial, mas também histórias de uma capital distante onde havia cinemas, bondes elétricos e universidades.
Era ali, naquele prédio modernista de tipologia "L", que Ortigueira tecia sua identidade como cidade. Não pela quantidade de madeira exportada, nem pelo tamanho da serraria, mas pela coragem de investir no que não se media em metros cúbicos: na alma de suas crianças.
O Silêncio que Fala: O Legado sem Nome
Curiosamente — ou talvez poeticamente —, os registros não indicam qual denominação atual carrega o edifício. Talvez tenha recebido o nome de um professor local, de um político regional, de uma heroína anônima da educação. Ou talvez, na simplicidade característica do interior paranaense, continue sendo chamado apenas de "a escola da vila" — nome que, para quem ali estudou, carrega mais significado que qualquer homenagem oficial.
O que importa não é o nome na placa, mas o que aconteceu entre suas paredes: o menino que aprendeu a ler e um dia escreveu poemas sobre pinheirais; a menina que dominou a tabuada e tornou-se contadora da própria serraria; o adolescente que descobriu nos livros de história que existia um mundo além dos trilhos do trem — e partiu para conhecê-lo, levando consigo a memória afetiva daquelas salas de aula onde tudo começou.
Epílogo: Entre o Que Foi e o Que Resta
Hoje, décadas depois, o Grupo Escolar de Ortigueira provavelmente existe "com alterações" — como registram os documentos técnicos. Janelas trocadas, revestimentos atualizados, talvez até ampliações necessárias para atender a uma população que cresceu. A floresta de araucárias que cercava a escola na década de 1950 hoje é rara, protegida por leis que chegaram tarde demais para salvar a maioria dos pinheirais.
A ferrovia ainda passa, mas transporta celulose da Klabin, não toras brutas de pinheiro.
Mas nas paredes que resistiram ao tempo, ainda ecoam os passos de gerações:
— Os alunos dos anos 1950 que aprenderam a cantar o hino nacional com a voz trêmula de emoção, enquanto lá fora o trem apitava rumo a Paranaguá;
— As crianças dos anos 1960 que brincavam de roda no pátio em forma de "L", ignorando que aquele espaço fora projetado com precisão matemática para protegê-las;
— Os adolescentes dos anos 1980 que descobriram a política nos debates acalorados do grêmio estudantil, enquanto seus avós ainda contavam histórias de quando a escola era "só um sonho";
— E os estudantes de hoje, filhos de trabalhadores rurais e netos de madeireiros, que digitam em tablets onde outrora se rabiscavam cadernos de pauta, mas que ainda buscam, no fundo, a mesma coisa: um lugar que os veja, que os forme, que os prepare para o mundo sem lhes roubar a alma.
— As crianças dos anos 1960 que brincavam de roda no pátio em forma de "L", ignorando que aquele espaço fora projetado com precisão matemática para protegê-las;
— Os adolescentes dos anos 1980 que descobriram a política nos debates acalorados do grêmio estudantil, enquanto seus avós ainda contavam histórias de quando a escola era "só um sonho";
— E os estudantes de hoje, filhos de trabalhadores rurais e netos de madeireiros, que digitam em tablets onde outrora se rabiscavam cadernos de pauta, mas que ainda buscam, no fundo, a mesma coisa: um lugar que os veja, que os forme, que os prepare para o mundo sem lhes roubar a alma.
O Grupo Escolar de Ortigueira nunca foi monumento histórico tombado. Nunca teve seu nome gravado em placas de bronze ou sua história contada em livros acadêmicos. Mas para quem ali estudou — para quem aprendeu a primeira letra, a primeira continha, o primeiro verso de poesia entre aquelas paredes modernistas —, ele é mais que edifício: é o lugar onde o futuro começou.
E assim, sob o mesmo céu que viu cair os últimos pinheiros centenários, o prédio em forma de "L" segue em pé — não como relíquia do passado, mas como testemunha silenciosa de que, mesmo numa terra que sangrou madeira por décadas, houve quem tivesse a coragem de plantar sonhos. E os sonhos, ao contrário das árvores, nunca são derrubados — apenas crescem, geração após geração, raiz após raiz, até transformarem uma cidade inteira.
