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domingo, 20 de setembro de 2026

Forte Orange: Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá — História, Arquitetura e Tesouro do Nordeste

 


Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá
(Forte Orange)
Forte Orange
Construção(1631)
ConservaçãoBom
Aberto ao públicoSim
Nome oficialForte Orange
ClassificaçãoEdificação
Processo0101-T-38
Livro do tomboHistórico e Belas Artes
Número do registro041 e 086
Data de registro24 de maio de 1938

A Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá, mais conhecida como Forte Orange, é uma fortificação localizada na ilha de Itamaracá, no litoral do estado brasileiro de Pernambuco, 34 km ao norte do Recife. Trata-se do maior forte em pedra do Nordeste do país.[1][2]

O local onde está situado o Forte Orange abrigou a Feitoria de Itamaracá, entreposto fortificado em que o lusitano Pero Capico — primeiro "Governador das Partes do Brasil" — construiu, no ano de 1516, o primeiro engenho de açúcar de que se tem notícia na América portuguesa.[3][4]

História

Antecedentes: o forte neerlandês

Foi iniciado, a partir de maio de 1631, como uma fortificação de campanha, por forças neerlandesas,[5] sob o comando de Steyn Callenfels, tendo recebido a denominação de Forte Orange, em homenagem à Casa de Orange-Nassau, que então governava os Países Baixos. O objetivo era a conquista da Vila da Conceição, atual Vila Velha, então defendida pelas forças de Salvador Pinheiro. No final da década de 1630, a primitiva fortaleza, em faxina e taipa, foi substituída por uma nova construção em alvenaria de pedra bruta.[6]

O forte primitivo ficou guarnecido por um destacamento de 366 homens sob o comando do capitão polonês Crestofle d'Artischau Arciszewski. Este efetivo resistiu ao ataque das forças portuguesas sob o comando do conde de Bagnoli que, afinal derrotado (1632), retirou-se abandonando a sua artilharia: quatro peças de bronze trazidas do Arraial Velho do Bom Jesus. Após essa conquista (1633), o forte foi reparado e ampliado, sob o comando de Sigismund van Schoppe.[7]

Parte externa da edificação.

Sobre esta estrutura, Maurício de Nassau reportou:

"(...) Dentro da barra [da ilha de Itamaracá] apresenta-se em primeiro lugar o forte Orange, situado sobre um baixo de areia separado de terra firme por uma angra, que é vadeável de baixa-mar. Este forte domina a entrada do porto, visto que como os navios que entram têm que passar por diante dele a tiro de arcabuz. É quadrado, com quatro baluartes [nos vértices], e ultimamente foi elevado e reparado, mas quase não tem fossos, nem estacada ou paliçada, o que é necessário que se faça, bem como convém aprofundar o fosso e cercar o lado exterior com uma contra-escarpa. Diante deste forte, do lado do Norte, por onde o inimigo pode se aproximar, há um hornaveque."[8]

Essa descrição é complementada pela de van der Dussen, que lhe atribui duas companhias, com um efetivo de 182 homens:

"(...) o forte Orange, na entrada sul do canal, que é o principal porto da Ilha [de Itamaracá]. É um forte quadrangular com 4 baluartes, elevado, tendo em certo trecho um fosso, mas pouco profundo e seco; está cercado por uma forte estacada. Aí estão 12 peças, a saber: 6 de bronze e 6 de ferro. As de bronze são: 1 de 26 libras, 1 de 18 lb, 3 de 12 lb e 1 de 6 lb; as de ferro são: 2 de 5 lb e 4 de 4 lb."[9]

BARLÉU (1974) transcreve a informação:

"(...) o [forte] de Orange, na boca meridional do porto. Tem quatro bastiões e é cercado de uma estacada, por falta de água nos fossos. Está armado de 12 canhões, 6 de bronze e 6 de ferro."[10] Atribui-lhe o mesmo efetivo de 182 homens.[11] Com relação à estacada, foi esta determinada por Nassau na iminência do ataque de uma frota espanhola ao nordeste holandês (c. 1639): "(...) Protegeu Maurício também o forte de Orange, na ilha de Itamaracá, cingindo-o de estacada (...)."[12]
Capela da Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá.

Esta posição integrava o sistema defensivo da ilha composto, a sul pela vila Schoppe, diversos redutos e por um grande alojamento, e a norte pelo Fortim da Ponta de Catuama.[7]

De acordo com BENTO (1971), quando da contra-ofensiva portuguesa à ilha da Itamaracá, em junho de 1646, pelas forças combinadas do Mestre-de-Campo André Vidal de Negreiros (1606-1680) e do Mestre-de-Campo João Fernandes Vieira (1602-1681), o Sargento-mor Antônio Dias Cardoso foi o encarregado de atacar e arrasar as fortificações holandesas, o que foi cumprido, apresando dezoito peças de artilharia, e organizando redutos fronteiros à ilha com algumas dessas peças.

Embora não esteja claro se este forte em particular foi conquistado ou não, na ocasião sofreu pesados estragos, tendo sido reconstruído a partir de 1649.

O forte português

Canhões na Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá.

Após a capitulação holandesa em Recife (1654), o forte foi abandonado e subsequentemente ocupado pelas forças portuguesas sob o comando do Coronel Francisco de Figueiroa.[13] Sobre a sua estrutura, a engenharia militar portuguesa ergueu o atual forte, sob a invocação da Santa Cruz: a Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá.

Apesar de sofrer reparos nos anos de 1696 - quando sua guarnição se compunha de um Sargento-mor, um Capitão, um Tenente, um Sargento, um Condestável, e duas companhias dos Terços do Recife, estando artilhado com vinte e cinco peças dos calibres de 20 a 12[13] -, e de 1777, em 1800, abandonado, encontrava-se em ruínas. Nova restauração foi providenciada em 1817, ano em que foi ocupado pelas forças do padre Tenório, no contexto da Revolução Pernambucana (1817). SOUZA (1885), à época (1885), atribuiu-lhe vinte e três peças, apontando-lhe a ruína.[14]

Os nossos dias

Tombado em 1938 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, pequenas intervenções de consolidação foram efetuadas em 1966 e em 1973, época em que a ilha começou a se projetar enquanto balneário turístico. Em 1971, o Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco procedeu-lhe prospecção parcial, identificando os espaços da Cozinha, da Capela, dos Quartéis e dos Paióis, e recuperando diversos objetos de uso pessoal, munições e canhões de vários calibres. O Ministério do Exército iniciou-lhe reformas no início da década de 1980, passando a sua administração para a Prefeitura Municipal de Itamaracá (1984). É deste período que data o envolvimento do ex-presidiário e artesão José Amaro de Souza Filho com a guarda e manutenção autônomas do monumento, mediante a receita gerada pela venda de artesanato local, situação que perdurou até 1992. A partir de 1991, com a criação, por José Amaro, da Fundação Forte Orange, esta entidade passou a se encarregar da administração do forte, até 1998. Nesta altura, o imóvel foi retomado da Prefeitura sendo passado para o Ministério da Cultura (1998), que por sua vez o repassou para a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco - FADE/UFPE.

Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá: vista do interior.

A FADE, empresa privada sem fins lucrativos, a partir de 2000 coordenou o projeto de pesquisa arqueológica da UFPE (Projeto Forte Orange), com recursos da MOWIC Foundation, do Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos, do Ministério da Cultura do Brasil - através do IPHAN, e do Governo do Estado de Pernambuco.

De janeiro a março de 2002, e de outubro de 2002 a junho de 2003 duas novas campanhas de prospecção arqueológica tiveram lugar. Os trabalhos compreenderam ainda a construção de defesas contra o mar, com recursos da Prefeitura Municipal, bem como intervenções de restauro e a instalação de um Museu com os testemunhos arqueológicos encontrados nas escavações, com recursos do Governo do Estado de Pernambuco e do IPHAN. Em 2010, uma nova campanha, também sob a responsabilidade do Laboratório de Arqueologia da UFPE, pesquisou o espaço da praça de armas, identificando o primitivo portão de armas e a casa de pólvora.[2]

O forte esteve fechado durante oito anos para reformas, que foram estimadas em 11 milhões de reais. No final de julho de 2018 foi reaberto para visitações.

Características

Letreiro na entrada do forte.

Embora historiograficamente se considere que a engenharia militar portuguesa apenas realizou trabalhos de reforma e ampliação da praça neerlandesa, como por exemplo revestindo com alvenaria de pedra a primitiva muralha de terra, a pesquisa arqueológica constatou que efetivamente se trata de duas estruturas diferentes. Embora com estrutura similar, o atual forte apresenta maiores dimensões, com as dependências internas justapostas à contramuralha (a parede interna da fortificação), ao contrário da primitiva estrutura, onde se encontravam separadas. O portão de armas neerlandês, erguido em alvenaria de tijolos trazidos dos Países Baixos, era voltado para o canal de Santa Cruz, sendo entaipado por um muro de pedra pelos portugueses que, entretanto, rasgaram o atual voltado para terra.[2] Em alvenaria de pedra de calcário e cal, o atual forte apresenta planta na forma de um polígono quadrangular regular com baluartes pentagonais nos vértices no sistema Vauban, guaritas de cantaria, portão armoriado, além de quartéis para a tropa, Casa de Comando e paióis ao abrigo das muralhas, envolvendo o terrapleno.

Forte Orange: Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá — História, Arquitetura e Tesouro do Nordeste

Forte Orange, oficialmente conhecido como Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá, é uma das mais importantes e bem-preservadas fortificações do Nordeste do Brasil. Erguida na Ilha de Itamaracá, litoral norte de Pernambuco, a apenas 34 km do Recife, é reconhecida como o maior forte em pedra da região Nordeste e um marco vivo da história colonial brasileira, reunindo heranças portuguesa, holandesa e brasileira ao longo de mais de cinco séculos.

📍 Localização e Destaque

Situada na entrada do canal que separa a Ilha de Itamaracá do continente, a fortaleza domina a passagem marítima, controlando o acesso ao antigo porto da ilha. Suas muralhas de pedra calcária e cal, baluartes pentagonais e canhões apontados para o mar compõem um cenário histórico de rara beleza, atraindo visitantes, pesquisadores e amantes de história de todo o mundo.

🏛️ Origens: Antes do Forte — O Primeiro Engenho da América Portuguesa

O solo onde hoje se ergue o Forte Orange guarda uma marca ainda mais antiga: ali, em 1516, o fidalgo e primeiro "Governador das Partes do Brasil", Pero Capico, construiu o primeiro engenho de açúcar de que se tem notícia na América Portuguesa. O local já funcionava como feitoria fortificada, ponto estratégico de comércio e defesa da costa pernambucana, muito antes das grandes invasões estrangeiras.

🇳🇱 A Construção Holandesa: Nascimento do Forte Orange (1631–1654)

Em maio de 1631, durante a ocupação neerlandesa de Pernambuco, forças holandesas sob o comando de Steyn Callenfels iniciaram a construção de uma fortificação provisória em taipa e madeira, batizada de Forte Orange em homenagem à Casa de Orange-Nassau, família real dos Países Baixos. O objetivo era controlar a entrada do canal e impedir o avanço das tropas portuguesas que resistiam à ocupação.

Evolução da Estrutura

  • Final da década de 1630: A construção de taipa foi substituída por edifício sólido em alvenaria de pedra bruta, com planta quadrada e quatro baluartes nos vértices.
  • Relatos históricos: O conde Maurício de Nassau, administrador-geral da Nova Holanda, descreveu o forte como posição-chave: navios que entravam no porto passavam a tiro de arcabuz de suas muralhas. Possuía doze peças de artilharia — seis de bronze e seis de ferro — e guarnição de aproximadamente 182 homens.
  • Defesas reforçadas: Diante de ameaças de ataque espanhol, Nassau ordenou a instalação de estacada defensiva ao redor do forte, complementando o fosso ainda raso e seco.

Resistência e Conquista

Em 1632, forças portuguesas tentaram retomar a ilha, foram derrotadas e deixaram para trás quatro peças de bronze. Após a reconquista, o forte foi reparado e ampliado sob a direção de Sigismund van Schoppe. Em junho de 1646, durante a contra-ofensiva portuguesa, as fortificações sofreram pesados danos; a reconstrução começou em 1649. Com a capitulação holandesa em Recife, em 1654, o forte foi abandonado e ocupado pelas tropas portuguesas.

🇵🇹 A Fortaleza Portuguesa: Santa Cruz de Itamaracá (1654–1889)

As forças portuguesas, sob comando do Coronel Francisco de Figueiroa, não apenas retomaram, mas rebatizaram e reconstruíram o monumento: nasceu a Fortaleza de Santa Cruz de Itamaracá. A engenharia militar portuguesa revestiu as muralhas com pedra calcária de maior qualidade, ampliou dimensões e redesenhou o sistema de defesa segundo os princípios do sistema Vauban, referência mundial em fortificação.

Fases de Reforma e Declínio

Tabela
AnoIntervenção
1696Guarnição completa: sargento-mor, capitão, tenente, sargento, condestável e duas companhias; 25 peças de artilharia de 12 a 20 libras
1777–1800Abandono e estado de ruína
1817Restauração; ocupação pelas forças do Padre Tenório durante a Revolução Pernambucana
188523 peças ainda presentes; monumento em avançada deterioração
Pesquisas arqueológicas confirmaram que a estrutura portuguesa não apenas reformou, mas construiu novo forte sobre as ruínas holandesas: planta maior, espessura de muralhas aumentada, portão de armas redirecionado e construções internas realinhadas. O portão original holandês, feito de tijolos trazidos da Europa, foi fechado com muro de pedra pelos portugueses.

🇧🇷 Preservação, Pesquisa e Reabertura (1938–2018)

  • 1938: Tombamento pelo IPHAN, reconhecendo valor histórico e arquitetônico.
  • 1966–1973: Primeiras intervenções de consolidação; a ilha começa a despontar como destino turístico.
  • 1971: Laboratório de Arqueologia da UFPE realiza escavações parciais, identificando cozinha, capela, quartéis e paióis, além de recuperar munições, objetos pessoais e canhões.
  • Anos 1980: Ministério do Exército inicia reformas; administração passa à Prefeitura de Itamaracá (1984). O artesão José Amaro de Souza Filho assume guarda e manutenção, sustentado por venda de artesanato local — exemplo vivo de cultura e patrimônio entrelaçados — até 1992.
  • 1991–1998: Criação da Fundação Forte Orange, que geriu o monumento; em 1998, a gestão passa ao Ministério da Cultura e à FADE/UFPE.
  • 2000–2010: Pesquisas arqueológicas financiadas por fundações holandesas, Ministério da Cultura e Governo de Pernambuco escavam praça de armas, portão de armas original e casa de pólvora; instalação de museu com achados das escavações.
  • 2010–2018: O forte permanece fechado por oito anos para reformas no valor de R$ 11 milhões. Em julho de 2018, é reaberto ao público, totalmente restaurado e pronto para receber visitantes.

🏗️ Arquitetura e Características Atuais

A fortaleza atual apresenta:
  • Planta: Polígono quadrangular regular com quatro baluartes pentagonais nos vértices, no estilo Vauban.
  • Construção: Alvenaria de pedra calcária e cal; muralhas com mais de 3 metros de espessura em trechos originais.
  • Dependências: Quartéis para tropa, Casa de Comando, paióis de pólvora, capela e praça de armas.
  • Defesas: Guaritas em cantaria, portão armoriado, fosso parcialmente recuperado e canhões apontados para o mar.
  • Museu: Exposição permanente com objetos arqueológicos, cerâmica, munições, ferramentas e relíquias dos períodos holandês e português.

🎯 Por Que Visitar o Forte Orange?

✅ Maior forte em pedra do Nordeste — único em porte e preservação
✅ Cinco séculos de história — engenho, feitoria, fortaleza holandesa e portuguesa
✅ Museu vivo com achados arqueológicos originais
✅ Paisagem deslumbrante — vista para o mar e canal de Santa Cruz
✅ Fácil acesso — 34 km do Recife, em rota turística consolidada
✅ Patrimônio nacional tombado pelo IPHAN
✅ Conexão com comunidade local — história de José Amaro e artesanato da ilha

📌 Informações Práticas

Tabela
ItemDetalhe
Nome oficialFortaleza de Santa Cruz de Itamaracá (Forte Orange)
LocalizaçãoIlha de Itamaracá, Pernambuco — 34 km do Recife
Ano de início1631 (estrutura holandesa); atual formato desde 1654
TombamentoIPHAN — 1938
ReaberturaJulho de 2018
Gestão atualPrefeitura de Itamaracá / Governo de Pernambuco
Melhor épocaMaio a setembro (temperaturas amenas, menos chuva)
AcessoDe carro ou ônibus a partir de Recife; estacionamento próximo ao sítio
Duração da visita1 a 2 horas