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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Praia do Rosa — Enseada, Tradição e Preservação em Santa Catarina

 


Praia do Rosa

Vista da Praia do Rosa em março de 2023

Descrição
Tipo de praiaPraia marítima de enseada
Banhada porOceano Atlântico
Funcionamento
Acesso públicoRodoviário até a localidade e a pé em diferentes trechos da orla

Praia do Rosa é uma praia e localidade costeira situada na região de Ibiraquera, no norte do município de Imbituba, em Santa Catarina, Brasil. Fica a cerca de 90 quilômetros ao sul de Florianópolis, por rodovia,[1] e é formada por uma enseada arenosa ladeada por promontórios rochosos, tradicionalmente dividida em Rosa Norte e Rosa Sul. Embora seja por vezes associada à vizinha Garopaba, estudos históricos e territoriais situam a praia no município de Imbituba e no conjunto de comunidades de Ibiraquera. [2]

O lugar integra a Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (APABF), unidade de conservação federal marinho-costeira criada em 2000.[3][4] A paisagem reúne praia oceânica, costões, vegetação costeira e pequenas lagoas, e a área é utilizada tanto pela pesca artesanal quanto pelo turismo e pelo surfe. A partir da década de 1970, a chegada de surfistas, viajantes e novos moradores acelerou a passagem de uma comunidade baseada principalmente na pesca e na agricultura familiar para uma localidade turística, processo acompanhado por urbanização, valorização imobiliária e conflitos socioambientais.[2][5]

Toponímia

Antes de se difundir a denominação atual, a praia era conhecida como Porto Novo — nome ainda empregado para a pequena enseada e o núcleo de pesca no canto sul — e também como Atrás do Morro.[2][6]

Relatos comunitários recolhidos em pesquisas e na imprensa regional relacionam o nome Rosa à família Rosa, antiga moradora da área. Uma versão difundida localmente destaca Dorvino Manoel da Rosa, pescador que dava passagem e hospedagem a viajantes e surfistas nas décadas de 1960 e 1970; por isso, a referência à família teria passado do acesso à própria praia.[7][6] Como se trata de memória oral, as fontes registram a explicação como tradição local, e não como ato oficial de nomeação.

Geografia e paisagem

Vista aérea de uma enseada arenosa cercada por morros verdes
Vista aérea da enseada; apesar de o nome do ficheiro mencionar Garopaba, a fotografia está georreferenciada na Praia do Rosa, em Imbituba.

A Praia do Rosa encontra-se no setor centro-sul do litoral catarinense. Nesse trecho, a linha de costa alterna planícies arenosas, costões e promontórios do embasamento cristalino, formando praias de enseada expostas às ondas do Atlântico.[8] Os dois extremos da faixa de areia são conhecidos como Rosa Norte e Rosa Sul; entre eles, a lagoa do Meio compõe a paisagem da porção central. Ao sul, Porto Novo conserva ranchos e casas ligados à pesca artesanal, enquanto trilhas costeiras conectam o Rosa às praias do Luz e Vermelha.[2][9]

O diagnóstico de lagoas costeiras do plano de manejo da APABF identifica dois pequenos corpos lagunares integralmente inseridos na unidade de conservação na área do Rosa:[10]

Lagoas costeiras na área da Praia do Rosa
Corpo lagunarRegime da barraÁrea aproximadaParcela dentro da APABF
Lagoa do MeioAbertura intermitente0,04 km²100%
Lagoa RosaFechada0,01 km²100%

Essas lagoas fazem parte de um sistema costeiro maior e prestam serviços ecológicos relacionados à retenção de água, à biodiversidade e à conexão entre ambientes terrestres e marinhos. O mesmo diagnóstico aponta que lagoas pequenas e suas margens são sensíveis à ocupação urbana, à alteração de barras e ao lançamento de efluentes.[10]

História

Comunidade tradicional

Pequena praia com barcos e casas de pescadores junto ao costão
Porto Novo, no canto sul, com casas e estruturas associadas à pesca artesanal.

A história local integra a ocupação de Ibiraquera, constituída por famílias que combinaram pesca, agricultura e uso comunal de caminhos, lagoas e áreas costeiras. A pesquisa de Daniel Bampi Rosar identifica, entre os antigos grupos familiares da região, os Marques e os Rosa na área que viria a ser conhecida como Praia do Rosa, além de registrar conflitos posteriores em torno do acesso a Porto Novo e aos ranchos de pesca.[11]

Até meados do século XX, as atividades predominantes eram a pesca artesanal e o cultivo de mandioca, com a produção de farinha em engenhos familiares. Depoimentos reunidos por Rosiane Damazio descrevem Porto Novo/Atrás do Morro como um núcleo pequeno, sem eletricidade e com acesso difícil, no qual moradia, roça, pesca e relações de parentesco organizavam a vida cotidiana.[2] Os ranchos de pesca funcionavam não apenas como abrigo de embarcações e apetrechos, mas também como espaços de trabalho coletivo, transmissão de conhecimento e sociabilidade.[7]

Expansão do turismo e urbanização

Nas décadas de 1970 e 1980, surfistas, mochileiros e moradores vindos de centros urbanos passaram a frequentar a praia. O primeiro fluxo ocupava casas locais ou acampava, mas a procura crescente favoreceu a abertura de pousadas, estabelecimentos de alimentação e serviços voltados ao visitante.[2][5] A pavimentação e ampliação das conexões rodoviárias do litoral sul catarinense também inseriram a região em um processo mais amplo de urbanização turística.[5]

O crescimento transformou o uso da terra e a economia local. Agricultura e pesca perderam peso relativo, enquanto hospedagem, comércio, construção civil e serviços passaram a gerar renda e ocupação, sobretudo na alta temporada. Estudos sobre Ibiraquera descrevem, ao mesmo tempo, valorização imobiliária, empregos sazonais, aumento do tráfego, pressão sobre o saneamento e disputas pela manutenção de caminhos tradicionais e áreas de pesca.[2][11][7] Essa coexistência entre atividades tradicionais, turismo e mercado imobiliário tornou a Praia do Rosa um caso recorrente em pesquisas sobre gestão costeira e participação comunitária.

Economia, turismo e projeção internacional

Praia vista de uma trilha entre vegetação e costões
Rosa Norte vista da trilha proveniente da Praia Vermelha.

O turismo é uma das principais atividades econômicas da localidade. A procura concentra-se no verão, mas o surfe, as trilhas costeiras e a observação terrestre de baleias contribuem para visitas em outras épocas do ano.[5][9] A estrutura de hospedagem desenvolveu-se em grande parte por meio de pousadas e empreendimentos de pequena e média escala distribuídos nos morros e vias de acesso, em contraste com frentes marítimas contínuas de edifícios observadas em outros balneários catarinenses.[2][5]

Em 2003, a Praia do Rosa foi admitida na associação internacional Les Plus Belles Baies du Monde (em português, As Mais Belas Baías do Mundo). O diagnóstico turístico do ICMBio relaciona a admissão à paisagem, à inserção na APABF e a iniciativas locais de planejamento e preservação.[5] A entidade mantém a Praia do Rosa entre os seus membros brasileiros.[12] Trata-se de participação em uma associação não governamental de baías, e não de inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

A praia também recebeu cobertura de publicações internacionais de viagem. A revista Condé Nast Traveler dedicou-lhe textos em 2009 e 2014, destacando a paisagem, o surfe e o ambiente da localidade,[13][14] e o jornal britânico The Guardian incluiu o Rosa em uma seleção de praias pouco conhecidas internacionalmente em 2015.[15] Essas menções contribuíram para a projeção externa do destino, mas não constituem classificações oficiais de patrimônio ou qualidade ambiental.

Surfe e dinâmica praial

A exposição ao oceano e a presença de ondas em diferentes trechos da enseada fizeram do surfe um dos elementos centrais da imagem turística do Rosa. Rosa Norte e Rosa Sul são utilizados conforme a direção da ondulação, o vento e a configuração dos bancos de areia, condições que variam ao longo do ano.[2][8]

Um estudo publicado no International Journal of Tourism Cities analisou uma amostra de duzentos praticantes no local e empregou a Praia do Rosa como estudo de caso da formação da imagem de um destino de turismo de surfe. Os autores identificaram componentes cognitivos, afetivos e comportamentais na relação entre o visitante, a prática esportiva e a escolha do destino.[16]

Do ponto de vista morfodinâmico, a Praia do Rosa foi incluída em um levantamento comparativo de praias catarinenses dominadas por ondas. No recorte estudado, recebeu um dos graus mais altos de perigo potencial ao banhista dentro de uma escala de 1 a 5, associado a alturas de quebra superiores a 0,75 metro.[8] O resultado descreve o conjunto de dados e a metodologia daquele estudo, não uma condição diária ou uniforme de toda a praia.

Patrimônio cultural e pesca artesanal

Enseada do Rosa vista por uma trilha no morro
Vista da Praia do Rosa a partir de um caminho costeiro.

Os ranchos de pesca, engenhos de farinha, caminhos e pontos de reunião de Ibiraquera foram mapeados como patrimônio material e imaterial pela cartografia social realizada por Lara da Silva e Rodrigo Rodrigues de Freitas. O estudo registrou 92 ranchos de pesca no entorno da Lagoa de Ibiraquera, cada um ligado a uma família, e descreveu esses espaços como locais de guarda e reparo de embarcações, organização do trabalho e convivência comunitária.[7] A Praia do Rosa integra esse território cultural mais amplo, embora nem todos os elementos mapeados se encontrem na faixa de areia da praia.

Em Porto Novo, no canto sul, a presença de estruturas associadas à pesca mantém visível essa continuidade histórica. A pesca artesanal da tainha e de outras espécies utiliza conhecimentos sobre ventos, correntes, cardumes e divisão coletiva do trabalho, ao mesmo tempo que precisa negociar o espaço costeiro com banhistas, surfistas e empreendimentos turísticos.[11][17]

O trajeto conhecido localmente como Caminho do Rei liga áreas da Praia do Luz à Lagoa Doce, na Praia do Rosa, e aparece nos levantamentos comunitários como caminho tradicional. A expansão de cercas, loteamentos e propriedades privadas sobre rotas antigas é apontada como fonte de conflito, sobretudo quando restringe o acesso a ranchos, lagoas e pontos de pesca.[7][11]

Meio ambiente e conservação

Faixa de areia e vegetação costeira na Praia do Rosa
A Praia do Rosa dentro da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca.

A Praia do Rosa está no interior da APABF, unidade de conservação de uso sustentável com 154.867,40 hectares e abrangência marinho-costeira. Criada por decreto federal em 14 de setembro de 2000, a APA procura compatibilizar a conservação da biodiversidade, os usos tradicionais e as atividades econômicas ao longo do litoral sul de Santa Catarina.[4] Seu plano de manejo foi aprovado em 2018 e estabelece zoneamento e normas para ambientes terrestres, lagunares e marinhos.[17]

A própria Praia do Rosa participou da formação institucional da unidade: a primeira reunião oficial registrada para discutir a criação da APABF ocorreu ali em 22 de fevereiro de 1999, com representantes públicos e organizações ligadas à conservação da baleia-franca.[18]

Baleia-franca-austral saltando perto da costa
Baleia-franca-austral fotografada em Garopaba, na mesma região costeira protegida pela APABF.

O litoral sul brasileiro é área de concentração reprodutiva da baleia-franca-austral (Eubalaena australis) entre junho e novembro, com maior frequência de agosto a outubro. Fêmeas com filhotes tendem a permanecer em enseadas abrigadas e próximas da costa, o que possibilita avistamentos a partir de terra na Praia do Rosa e em praias vizinhas.[19] Registros recentes divulgados pela imprensa regional confirmam a continuidade dos avistamentos no Rosa durante a temporada reprodutiva.[20]

Entre os principais desafios ambientais registrados para a região estão a ocupação de encostas e áreas úmidas, o lançamento inadequado de esgoto, a alteração de margens lagunares, o tráfego sazonal e a perda ou privatização de acessos tradicionais.[10][2][7] A presença dentro de uma área de proteção ambiental não impede propriedades privadas ou atividades econômicas, mas submete o uso do território ao zoneamento, às normas de conservação e à participação do conselho gestor.[4][17]

Galeria

Ver também

Referências

  1. «Praia do Rosa». Portal Praia do Rosa. Consultado em 11 de agosto de 2026
  2. DAMAZIO, Rosiane Marli Antonio (2011). «Turismo, urbanização e preservação ambiental: conflitos produzidos a partir do processo de implantação de uma reserva extrativista (RESEX) entre os municípios de Garopaba e Imbituba (SC)» (PDF). Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 10 de maio de 2024
  3. «Praia do Rosa - Seu paraíso no litoral de Santa Catarina!». SC - Brasil. Consultado em 11 de agosto de 2026
  4. «Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca». Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 8 de maio de 2025
  5. CARDOSO, Wagner Elias (2018). «Caracterização do turismo no território da APA da Baleia Franca» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 19 de dezembro de 2022
  6. «Como era a praia isolada em SC que virou a queridinha do Brasil». NSC Total. 15 de março de 2025. Consultado em 11 de agosto de 2026
  7. Silva, Lara da; Freitas, Rodrigo Rodrigues de (2025). «Territorialidade e Patrimônio em Ibiraquera: cartografia social de uma comunidade açoriana». Sociedade & Natureza. 37: e77410. doi:10.14393/SN-v37-2025-77410. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 28 de setembro de 2025
  8. RIBEIRO, Raphael Souza (2014). «Caracterização morfodinâmica de praias do Estado de Santa Catarina com vistas à avaliação de perigo ao banhista» (PDF). Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 3 de junho de 2025
  9. SPERB, Matias Poli (2018). «Caracterização do ecoturismo: turismos comunitário, cultural, de aventura e de natureza no território da APA da Baleia Franca e imediações» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 19 de dezembro de 2022
  10. NETTO, Sérgio Antônio (2018). «Lagoas costeiras da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 29 de setembro de 2025
  11. ROSAR, Daniel Bampi (2007). «Gestão participativa e política substantiva: duas formas de ação política coexistentes em Ibiraquera (Imbituba/Garopaba – SC)» (PDF). Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas da Universidade Federal de Santa Catarina. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 19 de julho de 2024
  12. «The Most Beautiful Bays in the World in motion for the planet» (em inglês). Les Plus Belles Baies du Monde. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 13 de setembro de 2025
  13. «The Great South American Beach Finder» (em inglês). Condé Nast Traveler. 2 de março de 2009. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 13 de agosto de 2022
  14. NEWELL-HANSON, Alice; YOGA FOR BAD PEOPLE (4 de novembro de 2014). «Praia do Rosa: One of the Best Brazilian Beaches» (em inglês). Condé Nast Traveler. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 16 de outubro de 2025
  15. COLDWELL, Will (27 de abril de 2015). «10 of the best beaches … that you've probably never heard of» (em inglês). The Guardian. Consultado em 11 de agosto de 2026
  16. Rosa, Sabrina da; Anjos, Francisco Antonio dos; Pereira, Melise de Lima; Arnhold Junior, Marcos (2020). «Image perception of surf tourism destination in Brazil». International Journal of Tourism Cities (em inglês). 6 (4): 1111–1127. doi:10.1108/IJTC-11-2018-0090. Consultado em 11 de agosto de 2026
  17. «Plano de manejo da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 2018. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 13 de agosto de 2024
  18. BEHR, Miguel von (2018). «Histórico de criação da Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 8 de outubro de 2024
  19. GROCH, Karina Rejane (2018). «Baleia franca austral na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca: informações preliminares» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 11 de agosto de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 19 de dezembro de 2022
  20. «A praia isolada no Sul de SC que vira observatório de gigantes na temporada de baleias-francas». NSC Total. 12 de julho de 2025. Consultado em 11 de agosto de 2026

Localização

A Praia do Rosa é uma praia e localidade costeira situada na região de Ibiraquera, no norte do município de Imbituba, Santa Catarina — aproximadamente 90 km ao sul de Florianópolis. Forma uma enseada arenosa ladeada por promontórios rochosos, dividida tradicionalmente em Rosa Norte e Rosa Sul. Embora muitas vezes associada à vizinha Garopaba, estudos históricos e territoriais confirmam sua localização no município de Imbituba, integrando a comunidade de Ibiraquera.
A praia insere-se na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (APABF), unidade de conservação federal criada em 2000. A paisagem combina praia oceânica, costões rochosos, vegetação de restinga e lagoas costeiras, sendo palco de atividades que vão da pesca artesanal ao turismo e ao surfe. A partir da década de 1970, a chegada de surfistas e visitantes transformou uma comunidade baseada na pesca e agricultura familiar em um destino turístico de projeção internacional, processo acompanhado de urbanização, valorização imobiliária e novos desafios socioambientais.

Toponímia

Antes de receber o nome atual, a praia era conhecida como Porto Novo — denominação ainda usada para a pequena enseada e núcleo de pesca no canto sul — e também como Atrás do Morro.
Segundo a tradição local, o nome "Rosa" vem da família Rosa, antiga moradora da região. Destaca-se a figura de Dorvino Manoel da Rosa, pescador que nas décadas de 1960 e 1970 dava passagem e acolhimento a viajantes e surfistas; com o tempo, o nome da família passou a designar o próprio acesso e a praia. Trata-se de memória oral transmitida de geração em geração, não de um ato oficial de nomeação.

Geografia e Paisagem

A Praia do Rosa situa-se no setor centro-sul do litoral catarinense, onde a costa alterna planícies arenosas, costões e promontórios de rocha cristalina, formando enseadas expostas às ondas do Atlântico.
Tabela
TrechoCaracterística
Rosa NorteAcesso pela trilha da Praia Vermelha; faixa de areia ampla, ondas favoráveis ao surfe
Rosa Sul / Porto NovoNúcleo tradicional de pescadores; ranchos de pesca e enseada abrigada
CentroLagoa do Meio separa o areal da vegetação de restinga
Duas lagoas costeiras integram a paisagem:
Tabela
LagoaRegime da barraÁrea aproximada
Lagoa do MeioAbertura intermitente para o mar0,04 km²
Lagoa RosaFechada0,01 km²
Esses ambientes prestam serviços ecológicos essenciais — retenção hídrica, refúgio de fauna e conexão entre terra e mar — sendo sensíveis à ocupação urbana, à alteração das margens e ao lançamento de efluentes. Trilhas costeiras conectam a Praia do Rosa às praias do Luz e Vermelha, formando um corredor natural contínuo.

História

Comunidade Tradicional

A história da Praia do Rosa está entrelaçada com a ocupação de Ibiraquera, território formado por famílias que combinavam pesca, agricultura de mandioca e farinha, e uso comum de caminhos, lagoas e áreas de pesca. Os ranchos de pesca não serviam apenas como depósito de embarcações e apetrechos: eram espaços de trabalho coletivo, transmissão de saberes e convivência. Até meados do século XX, o núcleo de Porto Novo/Atrás do Morro era isolado, sem eletricidade e com acesso difícil, onde moradia, roça, pesca e laços de parentesco organizavam a vida cotidiana.

Expansão do Turismo

A partir do início da década de 1970, surfistas, mochileiros e novos moradores passaram a chegar. Inicialmente acampavam ou hospedavam-se em casas locais; com o tempo, a demanda impulsionou a abertura de pousadas, restaurantes e serviços. A pavimentação e melhoria das rodovias de acesso aceleraram o processo de urbanização turística.
A economia local transformou-se: agricultura e pesca perderam participação relativa, enquanto hospedagem, comércio, construção civil e serviços passaram a gerar renda, sobretudo na alta temporada. Transformações positivas vieram acompanhadas de valorização imobiliária, pressão sobre o saneamento, aumento do tráfego e disputas por caminhos tradicionais e áreas de pesca — temas recorrentes em estudos sobre gestão costeira e participação comunitária na região.

Turismo e Projeção Internacional

O turismo é hoje a principal atividade econômica, com visitação ao longo de todo o ano — não apenas no verão, mas também para prática de surfe, trilhas e observação de baleias. O tecido hoteleiro é formado predominantemente por pousadas de pequeno e médio porte, distribuídas sobre os morros e vias de acesso, diferente de frentes marítimas densamente edificadas.
Em 2003, a Praia do Rosa foi admitida na associação internacional As Mais Belas Baías do Mundo (Les Plus Belles Baies du Monde), reconhecimento ligado à sua paisagem, inserção na APABF e iniciativas locais de proteção. Importante destacar: trata-se de adesão a uma associação não governamental, não constituindo inscrição no Patrimônio Mundial da UNESCO.
A praia recebeu também destaque em veículos internacionais como a revista Condé Nast Traveler (2009 e 2014) e o jornal britânico The Guardian (2015), que a incluiu entre praias pouco conhecidas internacionalmente. Essas menções ampliaram sua projeção, sem equivalerem a selos oficializados de qualidade ambiental ou patrimonial.

Surfe e Dinâmica Praial

A exposição ao oceano e a variedade de bancos de areia fazem do surfe um dos símbolos da Praia do Rosa. Rosa Norte e Rosa Sul oferecem condições distintas conforme a direção da ondulação e dos ventos, com ondas que atraem praticantes de todo o Brasil e do exterior.
Um estudo científico com 200 surfistas no local utilizou a Praia do Rosa como modelo de formação de imagem de destino turístico, identificando fatores emocionais, cognitivos e comportamentais na escolha do local. Do ponto de vista de segurança, em levantamento comparativo de praias catarinenses, a Praia do Rosa registrou um dos índices mais elevados de perigo potencial ao banhista (escala de 1 a 5), associado a ondas com altura de quebra superior a 0,75 m — dado que descreve condição do estudo, não risco constante ou uniforme ao longo de toda a extensão.

Patrimônio Cultural e Pesca Artesanal

A pesca artesanal, especialmente da tainha, e a produção de farinha de mandioca formam a base imaterial da comunidade. Estudos de cartografia social registraram 92 ranchos de pesca no entorno da Lagoa de Ibiraquera, cada um ligado a uma família, funcionando como guarda de embarcações, ponto de encontro e transmissão de saberes sobre maré, vento e cardumes.
O Caminho do Rei, rota tradicional que liga a Praia do Luz à Lagoa Doce, é símbolo desse patrimônio vivo. A apropriação e cercamento de trechos por propriedades privadas têm restringido acessos a ranchos, lagoas e pontos de pesca — gerando conflitos que envolvem moradores antigos, novos empreendimentos e poder público.

Meio Ambiente e Conservação

A Praia do Rosa está totalmente inserida na Área de Proteção Ambiental da Baleia Franca (APABF), criada em 2000 com 154.867 hectares de abrangência marinho-costeira. A primeira reunião oficial para debater a criação da APA ocorreu na própria Praia do Rosa, em 22 de fevereiro de 1999, demonstrando o papel da comunidade local na sua fundação. O plano de manejo foi aprovado em 2018, definindo regras de uso do solo, das águas e do mar.
A região é área reprodutiva da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), que frequenta a costa entre junho e novembro, com maior concentração de agosto a outubro. Fêmeas com filhotes preferem enseadas abrigadas, permitindo avistamentos a partir da orla — um dos atrativos turísticos da estação.
Entre os principais desafios ambientais:
  • Ocupação de encostas e áreas úmidas;
  • Lançamento de esgoto sem tratamento adequado;
  • Alteração das margens das lagoas por construção e aterro;
  • Tráfego intenso na alta temporada;
  • Restrição e privatização de acessos tradicionais.
A proteção ambiental não impede a presença de moradias ou atividades econômicas, mas submete o uso do território a regras de zoneamento e à gestão participativa do conselho da APA.

Fontes principais: ICMBio (Plano de Manejo APABF, 2018); Damazio, R. M. A. (2011); Rosar, D. B. (2007); Silva, L. & Freitas, R. R. (2025); Ribeiro, R. S. (2014); Rosa, S. et al. (2020).