sábado, 17 de abril de 2021

A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

 


A família imperial pelas fábricas de erva mate de Curitiba

A Mansão das Rosas, em 1880, propriedade do industrial do mate Francisco Fasce Fontana. Na foto, não está a Princesa Isabel. (Foto: Acervo Casa da Memória)

“Depois de visitada à chácara, dirigiram-se para uma das ilhas, a maior, onde tomaram Suas Altezas e comitiva matte sob differentes fórmas, em chá, em folha, queimado e por último à moda da terra, em cuia, havendo entre estas uma que conta mais de cincoenta annos.” A cena, narrada pela Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, passa-se em Curitiba, em 1º de dezembro de 1884: Princesa Isabel, Conde d'Eu e dois dos filhos do casal, em visita à cidade (leia mais), foram conhecer a fábrica de erva mate dos senhores Silva, Irmão & Fontana. Considerado o ciclo de “ouro” de Curitiba, o mate enriqueceu muitas famílias e trouxe progresso à capital – e era este o principal motivo de se construir a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá, que estava sendo concluída naquele final de ano, e por onde chegou a princesa a Curitiba na primeira viagem da ferrovia.

“Todos juntos, menos Antônio, partimos às 4 horas para a fábrica de mate do Fontana, oriental [como chamavam as pessoas vindas da Banda Oriental do Uruguai], filho de italianos e casado com uma filha do Dr. Ermelino. É bem inteligente, seu mate muito bem beneficiado. Tem convertido em verdadeiras plantações de flores e de bonitas árvores (muitas delas frutíferas) um verdadeiro brejo que rodeava a antiga fábrica de mate que Papai conheceu neste lugar”, assim contou a Redentora a seus pais, D. Pedro II e Tereza Cristina, em uma carta-diário.

A fábrica ficava onde hoje é a avenida João Gualberto. O local descrito no início do texto é bem próximo do Passeio Público, inaugurado e aberto ao público somente dois anos depois, em 1886 (Foto 2). Fontana aplicou uma técnica de redução de banhados em seu território e logo após fez o mesmo no terreno onde seria o parque, às suas próprias custas, por ser amigo do presidente da província, Visconde de Taunay (saiba mais). Da Mansão das Rosas, residência do industrial (Foto 1), sobrou somente o portal, que hoje é entrada de um conjunto de edifícios em frente ao Colégio Estadual do Paraná. A demolição da propriedade ocorreu em 1974¹.
 
A Gazeta do Rio de Janeiro descreveu com detalhes como era feito o processamento do mate. “Estes senhores possuem dous estabelecimentos juntos um do outro, organizados e construídos pelo laborioso industrial o Sr. Francisco Fasce Fontana, ha seguramente tres anos e meio. Um dos estabelecimentos é movido a vapor por um motor da força de 42 cavallos, e outro por motor hydraulico. E' grande o desenvolvimento do primeiro, que, trabalhando dez horas, prepara diariamente mais de mil arrobas de matte, prompto para a exportação. O segundo, em vista do motor, que, como já se sabe, é hidráulico, apenas póde beneficiar de 300 a 400 arrobas diarias, não sendo tão perfeito como o primeiro.” A máquina a vapor seria uma invenção do próprio Fontana.

Suas altezas percorreram a “esplendida chacara que rodeia as fabricas, cortadas por innumeros rios, divididos de proposito, alem de magnificos jardins nas ilhas pitorescas, que tornam agradavel e aprazivel aquella parte da cidade. N'esta chacara encontram-se flôres e arbustos rarissimos, e que só se conhecem na Europa e nas repúblicas do Prata, pela excellencia do clima. O do Paraná nada fica devendo áquelle”, relata o jornal.

Fontana teria oferecido licor de mate aos augustos viajantes, preparado na própria fábrica, “e que é excellente”, elogia o correspondente. “O Sr. conde d'Eu significou ao intelligente industrial o Sr. Fontana o contentamento e a satisfação com que se retirava, declarando que não esperava encontrar alli um tão importante estabelecimento”, continua. Após esta visita, com autorização de Dom Pedro II, o engenho foi batizado de Fábricas Imperiais Fontana.  

A família também visitou os engenhos de Tibagi e Iguaçu (foto 3), no Batel, de propriedade de Ildefonso Pereira Correia – onde hoje está a pracinha do Batel. Ele ficaria mais conhecido posteriormente pelo nome de Barão do Serro Azul. Recebeu este título da própria princesa Isabel, em 1888.

O repórter carioca manifestou claramente sua preferência pela fábrica dos Fontana: “Também o Sr. commendador Ildefonso Corrêa tem uma bem montada fabrica de preparar herva matte; porém um pouco inferior á dos Srs. Silva, Irmão & Fontana, em aparelhos e modo de preparar a materia prima”.

Já a princesa Isabel, dias depois em seu diário, escreveria diferente aos pais. “Fábrica de beneficiar mate do Comendador Ildefonso Pereira Correia: Pareceu-me ainda melhor instalada do que a do Fontana. Esta fábrica está um pouco fora da cidade [o Batel era considerado rocio, lugar afastado do centro], e aí perto há um altozinho aonde fomos para gozar a vista. Não se podia ver nada de mais lindo e aprazível. Ao longe, S. José dos Pinhais, campos, copas de pinheiros. Mais perto, casinhas pitorescas, culturas, Curitiba.”

Por Michelle Stival da Rocha – Jornalista da Diretoria de Comunicação da Câmara Municipal de Curitiba
 
Leia as outras reportagens da série sobre a visita da princesa a Curitiba:
 
 
Notas:
1) As citações de atas e notícias, entre aspas, são reproduções fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original não foi modificada.

2) As informações encontradas sobre o local de hospedagem da família imperial em Curitiba são contraditórias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Memória, no livro "Ação empresarial do barão do Serro Azul", p. 54, da prof. Odah Regina Guimarães (UFPR), existe a afirmação de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Barão (do Serro Azul – O Solar do Barão, hoje um espaço cultural da prefeitura).

3) Ao utilizar ou se basear em textos históricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.

Referências:
Edição 351 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro – terça-feira, 16 de dezembro de 1884. pg. 2. (Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional)

Boletim Especial do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicentenário da Independência do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).
 
(1) Romanel, Maria Cecília; Scherner, Maria Luiza. Álbum de Memórias: A trajetória das indústrias do Paraná, Curitiba: Editora Univer Cidade, 2007.

https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/a-familia-imperial-pelas-fabricas-de-erva-mate-de-curitiba

Vila Nossa Senhora da Luz foi criada para “desfavelar” Curitiba

 


ESPECIAL: Vila Nossa Senhora da Luz foi criada para “desfavelar” Curitiba

A inauguração da Vila reuniu, além do prefeito Ivo Arzua e do governador Paulo Pimentel, o presidente Castelo Branco e uma comitiva de militares. (Foto: Acervo Casa da Memória)

“A presença de favelas em Curitiba torna transfigurada sua beleza natural. A remoção dará a nossa cidade o privilégio de ser a primeira completamente desfavelada em todo o país.” Com frases assim, a imprensa paranaense comemorava, em 1966, a implantação da Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, que levava o nome da padroeira da capital.

Primeiro conjunto habitacional da cidade e um dos pioneiros do Brasil, inaugurado em novembro daquele ano, pela Operação Desfavelamento Cohab-CT, ele pretendia realocar famílias das cerca de 25 ocupações irregulares da capital – de locais como o Rio Belém, o Santa Quitéria e a Favela do Ahú.


A movimentação começou um ano antes, com a desapropriação do terreno que receberia o empreendimento. A CIC, que atualmente ocupa 10% do território da cidade, naquela época era o Barigui do Portão, um vazio verde com algumas chácaras e colônias – o nome atual foi oficializado só em 1975. Durante a “lua de mel” da imprensa com o projeto, a Vila era definida como “fascinante experiência social”, “de inestimável valia, sob o ponto de vista social e urbano”, “grandiosa obra realizada pela atual administração em favor da reintegração na sociedade da população marginalizada”, “exemplo nacional”, “primeira desapropriação de área em Curitiba por interesse social”, “com dimensões de uma cidade” e “início da campanha de erradicação das favelas de Curitiba”.

Na Câmara Municipal, os vereadores destacavam que o nome da Vila “por virtuosa inspiração do senhor prefeito municipal [Ivo Arzua]” era “louvável”. “Oxalá Nossa Senhora da Luz dos Pinhais asperja suas luzes e bênçãos sobre os governantes e governados de nossa capital, minorado o sofrimento de todos”, cita o parecer da Comissão de Legislação e Justiça, em 1965, à mensagem do Executivo para denominar o empreendimento popular. “Esperamos que seja um modelo de urbanização e de amparo assistencial aos menos favorecidos”, acrescentou o colegiado de Viação, Obras e Serviços Públicos, dentre outros pareceres antes da análise da matéria em plenário.

A construção das primeiras 2.150 casas financiadas da Vila – 1.750 do “tipo A” e 400 do “tipo E” - foi iniciada em dezembro 1965. A ideia era que o local fosse uma “cidade autônoma”: antes das administrações regionais, espécie de subprefeituras criadas na década de 1980, a Nossa Senhora da Luz contou com uma superintendência. Denominada Suviluz, a autarquia foi aprovada pela Câmara de Curitiba e criada pela lei municipal 2922/1966, mas acabou extinta três anos depois. Na mensagem aos vereadores, Arzua destacava a “fascinante experiência social” no campo da habitação popular. Justificava, também, que essa estrutura administrativa era necessária, “sob pena de regressão ao estágio infra-humano de vida para seus habitantes”.

Na inauguração oficial, dia 11 de novembro de 1966, o palanque reuniu, além do prefeito Ivo Arzua e do governador Paulo Pimentel, o presidente Castelo Branco e uma comitiva de militares. Arzua, no final de seu discurso, saudou as “milhares de famílias de nossos irmãos, brasileiros, que viviam em condições subumanas”. Castelo Branco finalizou: “A grande obra mais pertence à Revolução que a qualquer governo”.

Triagem
A “Gazeta do Povo” noticiou, na edição de 10 de novembro de 1966: “Famílias faveladas ganham alegres casas no Barigui”. As primeiras delas, relatou o jornal, haviam sido transferidas dois dias antes, de “barracos” da cidade. “Alguns acham que a casa é pequena, mas admitem francamente que é melhor do que o lugar onde viviam. […] As possibilidades de ampliação [dos imóveis] são boas, porque há área de terreno e inclusive base para um modesto primeiro andar.”

Segundo a reportagem, a mercearia em funcionamento, à época a única em quilômetros, “não fornece bebida alguma, para ninguém”, por orientação oficial. “E o mais curioso é que apesar de serem favelados, em sua maioria, os que ali vão residir, ninguém reclamou contra isso”, completou. A “Gazeta” ainda relatou que os moradores foram “escolhidos a dedo” e “passaram por diversos programas de orientação de curto prazo. A maioria deles é religiosa (católica), não são dados a vícios e têm princípios de higiene naturais ou adquiridos”.

Em janeiro de 1967, antes da remoção de mais pessoas para o local, o “Diário do Paraná” estampou a reportagem: “Educar para depois desfavelar”. Segundo a publicação, a prefeitura havia anunciado que as 500 famílias que seriam transferidas para a Vila, após um estudo de assistentes sociais detectar que elas não apresentavam “condições de hábitos para formar a nova comunidade”, precisariam passar por um “estágio de educação para posterior remoção”. A recomendação, inclusive, seria do Banco Nacional de Habitação (BNH), financiador do projeto. “Essas quinhentas famílias seriam removidas para um Centro de Triagem, a ser instalado nas proximidades da Vila”, acrescentou o jornal. A Suviluz coordenaria a atividade, com a ajuda da Fundação de Recuperação do Indigente.

Segundo o arquiteto Alfred Willer, um dos autores do projeto da Vila Nossa Senhora da Luz e o primeiro diretor-técnico da Cohab-CT, de 1965 a 1968, “a triagem existia”, sob a responsabilidade de assistentes sociais do órgão público, criado anos antes. “O levantamento, realizado a partir de 1966, serviu para estimar a população favelada de Curitiba e os questionários forneceram valioso material de pesquisa. O número de casas decorreu desse levantamento”, conta. Mas para poder financiar uma casa na Vila, ele lembra que o BNH “somente aceitou famílias com carteira assinada, o que resultou na eliminação de algumas delas”.

No livro “Cidade Industrial”, da coleção “Bairros de Curitiba”, o jornalista e urbenauta Eduardo Fenianos afirma que a Vila foi formada ali já com a intenção de prover mão de obra às indústrias que seriam instaladas. Em agosto de 1967, reportagem do “Diário do Paraná” celebrava a desapropriação de terreno para a instalação do Distrito Industrial, próximo à Vila. Lá havia “farta disponibilização de mão de obra”, e não haveria os “distúrbios” causados por indústrias em zonas residenciais, apontava o jornal.

Já Willer diz que a área foi escolhida pelas “condições favoráveis do terreno, firme e seco”, “declive suave para facilitar o escoamento de água pluvial, dispensando terraplanagem”, pela “proximidade de indústrias madeireiras, local de trabalho [para os futuros moradores]” e “fácil acesso por rodovia, ônibus e trem”.

“Uma Vila com sede”
Só que para os habitantes da Vila Nossa Senhora da Luz irem à cidade, no início, o jeito era apelar para o trem, já que a primeira linha de ônibus, até a praça Rui Barbosa, foi implantada em fevereiro de 1967. A população, mesmo assim, queixava-se que os veículos eram insuficientes. De acordo com uma carta do morador Deusdet Palmeira Silva, publicada no dia 29 de março pelo “Diário do Paraná”, apenas três ônibus serviam uma população de 3 mil pessoas. “Além disso os veículos são velhos e há falta de higiene em seu interior”, acrescentou.

Em março, foram abertas as matrículas para a escola da Vila - conhecida como “Grupão” e premiada, depois, pelo projeto arquitetônico. As obras estariam na fase final, mas as primeiras turmas só começaram a funcionar em 1º de junho de 1967. Segundo Willer, que nega ter faltado infraestrutura para a transferência das famílias, as crianças estudavam em um estabelecimento do bairro Fazendinha.

Cinco meses depois da pomposa inauguração, os problemas que afligiam os moradores, principalmente a falta de água, estamparam a capa da edição de 15 de abril de 1967 do “Diário do Paraná”: “Uma Vila com sede”. De acordo com a matéria, faltava luz e a água havia acabado. A matéria enumerava outros problemas denunciados pelos moradores: dois meses depois do início do ano letivo, o grupo escolar da vila não estava em atividades. As crianças haviam sido matriculadas, um dos três pavilhões estava pronto e havia professores mas, de acordo com a publicação, faltavam as carteiras. “E a gurizada fica o dia inteiro na rua.” Quanto aos ônibus, a população também questionava a parada dos veículos na entrada da comunidade, sem que trafegassem por suas ruas. Havia casas cuja energia elétrica não havia sido ligada à rede. Sobre as ruas sem pavimentação, o comentário era: “Quando chove há lama, quando não chove pó”.

No dia seguinte, o jornal publicou o editorial “Vila em crise”: “Construíram-se as casas e lá foram jogadas, despreparadas para a vivência comunitária, famílias de favelados, famílias de pequenos servidores do município e de trabalhadores de baixo nível de ingressos”. A comunidade foi chamada de “empreendimento político”. E a imprensa continuou noticiando os problemas na Vila, com destaque à falta de água: “Os moradores, principalmente as crianças, vão e voltam carregando baldes e latões”.

“Antes de ser atendida pela Sanepar, a Vila foi equipada com uma estação de tratamento”, explica Willer. Mas a falta de água, em agosto de 1968, virou caso de polícia. “Um caminhão foi impedido de distribuir água na Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais pela administração da Suviluz, sob a alegação de que o líquido estava contaminado.” A acusação era que um candidato à Câmara Municipal de Curitiba pretendia trocar a água por votos.

Os moradores reclamavam, ainda, que o posto policial não tinha viatura, da falta de empregos nos arredores, da distância do Centro, de preços superiores aos praticados no restante do comércio da cidade e da ausência da coleta de lixo. Em agosto de 1968, a rede de esgoto apresentou problemas: “As manilhas foram rompidas, formando-se um banhado negro e fétido, que é uma ameaça constante de epidemia a preocupar os moradores da região”.

Essas situações chamavam a atenção dos vereadores. Vinham deles demandas para a instalação de colégio de ensino médio, centro profissionalizante e a coleta regular do lixo, por exemplo. Em outubro de 1968, a Cohab-CT respondeu denúncias publicadas sobre a Vila. Segundo um funcionário do jurídico da companhia, haveria “intrusos” no local: “Além de não pagarem qualquer taxa, recusaram-se a aceitar todas as propostas feitas para a regularização da ocupação ilícita das moradias. Essas famílias simplesmente instalaram-se nas casas”.

Em janeiro de 1969, moradores denunciaram à imprensa que a desidratação estaria causando “elevado número de vítimas” na Vila. “Adiantaram que a causa da grande incidência é a promiscuidade em que vivem as crianças, já que quando atacadas pela doença as mães não possuem o esclarecimento devido, além da falta de recursos para combater a desidratação.” Para resolver o problema das torneiras secas e, consequentemente, dos riscos à saúde gerados pelo consumo de água inadequada, a prefeitura anunciou, em abril de 1969, que “em breve” começaria as obras para a implantação de uma estação de captação e tratamento das águas do rio Barigui.

https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/especial-vila-nossa-senhora-da-luz-foi-criada-para-201cdesfavelar201d-curitiba

Carroceiros da estação ferroviária em meados de 1940. (Foto: Acervo Cid Destefani)

 


Conflitos do transporte II: a pau e pedras, a revolta dos carroceiros

Espanhola: A pandemia das pandemias que atingiu Curitiba

 


Espanhola: A pandemia das pandemias que atingiu Curitiba

Ao mesmo tempo em que Curitiba comemorava o final da Primeira Guerra Mundial, noticiava os primeiros casos da gripe espanhola no Brasil. Jornal . (Reprodução do jornal Diário da Tarde, Hemeroteca Digital)

“Deus queira que esse caso de ‘grippe hespanhola’ seja como o ruído do tambor, vazio por dentro.” A frase, pinçada de uma notícia do jornal curitibano A República, de 28 de setembro de 1918, delatava o começo dos casos de gripe espanhola em Curitiba. A “mãe de todas as pandemias” – como foi batizada mais tarde – tem características parecidas com as da atual pandemia de covid-19, causada pelo novo coronavírus, mas a humanidade perdeu muito naquele momento por não procurar o isolamento social, contabilizando 20, 30, 100 milhões de mortos, não se sabe ao certo.

Em setembro de 1918, a gripe espanhola estava apenas começando na capital paranaense, trazida num rastro fúnebre do Rio de Janeiro, considerado o epicentro da moléstia no Brasil. Lá, chegou-se a registrar mil mortos num só dia, e os cadáveres se amontoavam em frente às casas. Notícia de outro jornal curitibano, o Diário da Tarde, de 19 de outubro daquele ano, com a manchete “A Gripe Hespanhola por toda parte”, detalhou a situação que se alastrava naquele momento por todo Brasil, especialmente na capital carioca: “a molestia se manifestou com uma intensidade nunca verificada em outras epidemias. 500 mil pessoas no Rio sentem o mesmo mal. O commercio fechou, paralysou se o trânsito...”. Relatou ainda casos inciais em Curitiba: “Em Coritiba ha influenza hespanhola”, citanto “pessoas recemvindas do Rio de Janeiro” que “enfermaram e guardam o leito”.

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Decreto do prefeito João Antônio Xavier suspendendo o funcionamento dos “cinemas e outras casas de diversões desta capital”. (Reprodução do livro Leis, Decretos e Actos da Câmara Municipal de Coritiba de 1915 a 1916)

A epidemia se espalhou no país por causa de um navio inglês chamado Demerara, vindo de Portugal, que parou em Recife, Salvador e Rio de Janeiro em setembro, com marinheiros que desembarcaram doentes. O nome de batismo não delata a verdadeira origem da doença – a informação mais divulgada hoje é de que surgiu em campos de treinamento militar no Kansas,  Estados Unidos. O mundo enfrentava a 1ª Guerra Mundial e a Espanha, por não estar entre os combatentes, foi o único país a noticiar inicialmente os casos (embora já estivessem espalhados por vários países), enquanto os jornais das nações em guerra foram proibidos de dissipar a notícia da doença para não causar pânico nas tropas.

Em Curitiba, o Diário da Tarde de 29 de outubro destacou comunicado do Ministério da Justiça e Negócios Interiores: “É impossível evitar a propagação da epidemia de grippe por não existir um preventivo seguro capaz de evitar a infecção.” No entanto, pedia “tranquilidade”, “não fazer visitas”, além de “evitar toda fadiga” e “tomar um laxante a cada 4 dias afim de trazer o tubo digestivo sempre desembaraçado.”

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O Dr. Trajano Reis, da Diretoria Geral do Serviço Sanitário publicava quase que diariamente recomendações aos curitibanos sobre como cuidar da saúde na pandemia. (Reprodução do jornal A República, Hemeroteca Digital)  

“Não frequentem locais onde haja aglomeração de pessoas. Mantenham o mais escrupuloso asseio pessoal, lavem a boca, garganta e fossas nasais com um desinfetante, diversas vezes ao dia e principalmente antes das refeições, que nunca devem fazê-las nos ambientes infectados. Lavem frequentemente as mãos, sobretudo antes de usar qualquer alimento”, aconselhou o Dr. Trajano Reis, da Diretoria Geral do Serviço Sanitário, no jornal A República de 21 de outubro – seus comunicados nos jornais eram quase que diários e ele ficou famoso pelo trabalho de combate e prevenção na capital.

No livro Leis, Decretos e Actos da Câmara Municipal de Coritiba de 1915 a 1923 constam três decretos de 1918 assinados pelo prefeito da época, João Antonio Xavier, sobre as restrições impostas na cidade. O primeiro foi no dia 24 de outubro, suspendendo o funcionamento dos “cinemas e outras casas de diversões desta capital”. Também aconselhava “insistentemente” que se evitasse aglomerações, principalmente à noite.

O decreto seguinte, de 9 de novembro, autorizou, aos domingos e feriados, o comércio de “seccos e molhados e pharmacias a permanecerem com seus estabelecimentos abertos enquanto perdurar a epidemia de grippe ora reinante”. Um ato do prefeito, de 11 de novembro daquele mesmo ano reforçava a determinação do fechamento das casas de diversões até o dia 30 do mesmo mês, a despeito de “petições apresentadas pelos proprietários” dos referidos estabelecimentos.

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Anúncios prometiam soluções milagrosas: “Para evitar efficazmente as fataes recahidas de grippe recomenda-se aos convalescentes as afamadas bolachas Lucinda.” (Reprodução do jornal Diário da Tarde, Hemeroteca Digital).

Em novembro, ao mesmo em tempo que o Mundo comemorava o fim da Primeira Guerra Mundial, também chorava seus mortos da pandemia. “A cessação da guerra com a Alemanha foi firmada. O regozijo pela terminação da guerra é enorme em todas as grandes cidades do mundo”, noticiou o Diário da Tarde numa sexta-feira, 8 de novembro, assim como relatou casos de gripe espanhola por todo o estado do Paraná e o que estava sendo feito para combatê-la.

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No dia 7 de abril deste ano, no meio da pandemia do novo coronavírus, o prefeito Rafael Greca publicou em seu perfil pessoal do Instagram esta foto: “Não é a primeira vez que nossa amada Cidade enfrenta um virus. Em 1918 lutamos contra a Gripe Espanhola. Perdemos 384 pessoas.”

No dia 19 do mesmo mês,  trazia “uma estatística desconsoladora”, comparando o número de mortos com o número de nascimentos: “de 22 a 29 de setembro nasceram 31 pessoas e morreram 22;  de 30 de setembro a 6 de outubro, nasceram 36 e morreram 21”; “… de 4 a 10 do mez corrente já temos 86 nascimentos e 62 óbitos”. Mas os dados misturavam os falecimentos por outras razões. Em 18 de dezembro, denunciou: “A Colonia Umbará, distante três léguas da capital, está assolada pela terrível peste hespanhola. Esta, de dia para dia vae dizimando uma grante parte dos colonos e caboclos dessa cidade.”

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Curitiba da década de 1910. Na foto, a Praça Osório em 1916, dois anos antes da pior pandemia que o mundo já conheceu. (Foto: Acervo Casa da Memória)

Remédios milagrosos
“Não há remédio específico. Todos são bons e nenhum presta. Sobretudo nos casos leves. Quer dizer que a grippe é como um tufão. Passa logo, quando não mata, o que tem se verificado nas epidemias brasileiras, em geral benignas”, escreveu Dr. Espindola em um artigo publicado no A República de 18 de outubro de 1918.

Não havia remédio específico? Logo apareceram no comércio fórmulas milagrosas apresentando soluções: “Cuidado com a Hespanhola! Use o poderoso ‘antiputrido’ Balsamo Santa Helena, desinfectante analgésico, inimigo do máu cheiro!”. “Influenza Hespanhola. É indispensável lavar-se seguidamente as fossas nasaes com espuma de sabonete de Creol.”

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“A Colonia Umbará, distante três léguas da capital, está assolada pela terrível peste hespanhola. (Diário da Tarde, 18 de dezembro de 1918/acervo Hemeroteca Digital)

Que tal os comprimidos Oxyform: “oxygenio solidificado, o melhor medicamento profilatico e curativo, contra todas as moléstias infecciosas adquiríveis por via boccal, taes como Ilfluenza hespanhola, grippe, coqueluche, peste pulmonar e cholera. Experimente, exclusivo no Paraná.”

Parece brincadeira, mas houve também uma fábrica de bolachas prometendo cura: “Para evitar efficazmente as fataes recahidas de grippe recomenda-se aos convalescentes as afamadas bolachas Lucinda.” Propaganda publicada no jornal Diário da Tarde de 20 de novembro de 1918.

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No Rio de Janeiro, epicentro da epidemia no Brasil, o povo foi às ruas e, aglomerado aos milhares, comemorou o fim da 1ª Guerra Mundial e a vitória dos Aliados. (Revista Careta, Rio de Janeiro n.544, 23 de novembro de 1918 / acervo Hemeroteca Digital)

Depois de dezembro, as notícias e propagandas nos jornais curitibanos a respeito passaram a ser cada vez mais escassas, dando a entender que, em Curitiba, teria voltado ao normal. Conta-se que na cidade foi 384 o número de vítimas fatais da gripe espanhola. Como afirmou Dr. Espindola, foi mesmo “como um tufão”.

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A mesma edição da revista carioca que publicou fotos dos festejos do final da guerra, publicou também fotos de doentes sendo tratados da influenza espanhola no hospital carioca do Méier. (Revista Careta, Rio de Janeiro n.544, 23 de novembro de 1918 / acervo Hemeroteca Digital)

Referências Bibliográficas:
A República, 28 de setembro de 1918, 18 de outubro de 1918, 21 de outubro de 1918, Hemeroteca Digital.

Diário da Tarde, 18 de outubro de 1918, 29 de outubro de 1918, 8 de novembro de 1918, 19 de novembro de 1918, 20 de novembro de 1918, 21 de novembro de 1918, 18 de dezembro de 1918. Hemeroteca Digital.

Histórias da Gente Brasileira, volume 3, Mary Del Priore.

Leis, Decretos e Actos da Câmara Municipal de Coritiba de 1915 a 1923. Acervo digital da Câmara Municipal de Curitiba, seção Nossa Memória.
https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/espanhola-a-pandemia-das-pandemias-que-atingiu-curitiba

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Cartão postal com a estação de Curitiba da estrada de ferro do Paraná, por volta de 1900. (Fonte: chimbica91.wordpress.com)

 


A despedida da princesa e o caso da ferrovia não terminada

Curitiba - Paranaguá - Temática Ferrovias - Trem de Carga próximo à Estação

 

1964 Curitiba, Praça Tiradentes - Cartão Postal

 

Curitiba, Estação Rodoviaria, Onibus do Expresso São Bento

 

Curitiba, Rua 15 de Novembro, à direita, o prédio da Sul América Seguros - Cartão Postal

 

Curitiba, Faculdade de Filosofia, Vista Parcial - Cartão Postal