terça-feira, 29 de novembro de 2022

— A Catedral de Curitiba e a direita, parte do Prédio do Depósito da Fábrica de Cerâmica Artística de Villa Colombo, construído em 1892, sito a Rua Barão do Serro Azul nº 71, esquina com a Travessa Júlio de Campos. Imagem da primeira década de 1900.

 — A Catedral de Curitiba e a direita, parte do Prédio do Depósito da Fábrica de Cerâmica Artística de Villa Colombo, construído em 1892, sito a Rua Barão do Serro Azul nº 71, esquina com a Travessa Júlio de Campos. Imagem da primeira década de 1900.


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***— Rua Engenheiros Rebouças, esquina com a 24 de Maio. Provável anos 50 — *** ***— *Acervo - Dado Lupion

 ***— Rua Engenheiros Rebouças, esquina com a 24 de Maio. Provável anos 50 — ***
***— *Acervo - Dado Lupion


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— Vista Aérea de Curitiba, em 1960. Em destaque a Avenida 7 de Setembro —

 — Vista Aérea de Curitiba, em 1960. Em destaque a Avenida 7 de Setembro —


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— Imagem da Rua XV de Novembro, com vista para os Bondes Nivelle, fabricados na Bélgica, foram os primeiros elétricos de Curitiba. — Foto de 1925 — Arquivo - Cid Destefani

 — Imagem da Rua XV de Novembro, com vista para os Bondes Nivelle, fabricados na Bélgica, foram os primeiros elétricos de Curitiba. — Foto de 1925 — Arquivo - Cid Destefani


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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O PRETO PODE SER UM DIGNO MEMBRO DA SOCIEDADE HUMANA

 

O PRETO PODE SER UM DIGNO MEMBRO DA SOCIEDADE HUMANA



Karl Von Koseritz  (1830-1890)

"Meus leitores já conhecem Antonina, e assim poderia ficar a bordo, uma vez que o meu dever de repórter não me chamava. No entanto, quando se está há alguns dias a bordo sente-se especial prazer em ir a terra de novo, e, como devíamos permanecer ali longas horas, desembarquei com o sr. Hauer e logo achamos o restaurante da sra. Rosskampf onde tomamos a excelente cerveja de Morretes, esta pura e verdadeira flor das cervejas nacionais. Fui em seguida ao telegrafo, mas como o telegrafista tinha saído para passear tive de esperar meia hora até que ele voltasse. Depois voltamos à casa da sra. Roskampf, onde tomamos um almoço frugal, que nos coube muito bem, depois de dias de comida de bordo. 
Visitei todas as ruas de Antonina, mas alem das coisas notáveis já observadas antes encontrei uma outra, isto é, uma velha ruína com as portas e janelas escancaradas, tudo aberto e destruído, arrebentado por toda parte, mas que trazia uma taboleta com a inscrição “Hospital da Santa Casa”.
Extraordinária idéia. Uma ruína não pode ser hospital; pode no máximo pretender sê-lo, depois de restaurada. Possivelmente puseram a taboleta para convidar os estrangeiros a auxiliarem na reconstrução da casa, que já se acha assim há 20 anos. As ruas de Antonina estavam desertas, a pesar do domingo, somente os urubus andavam gravemente e sacudiam a cabeça para os estranhos que perturbavam o seu dia santificado. 
Somente pela tarde se animou; havia corridas nas proximidades, e os jovens cavaleiros de Antonina vieram à casa da sra. Roskampf a fim de jantar e comentar os acontecimentos das carreiras. Causou-me curiosa impressão que um negro se tenha assentado na mesa junto com os rapazes, (na sua maioria de descendência alemã), e se tenha feito servir confiadamente por brancos. Isto parece natural aos costumes locais, e afinal o cidadão preto pode ser um digno membro da sociedade humana. 
À noite voltei para bordo e esperei com paciência até que o carregamento estivesse acabado e nos puséssemos a caminho. Já disse que desde Paranaguá até Antonina as alturas que cercam a baia são cobertas por espessas florestas, nas quais não se vê uma clareira. 
O sr. José Hauer me disse que a terra é excelente e muito fértil mas falta gente, e a incoerência dos governos desacreditou de tal forma o Paraná com os seus erros que não se pode pensar no reforço da imigração nos próximos tempos. Infelizmente é sempre a insensatez dos governos que cria impedimentos aonde a natureza oferece tudo o que é necessário para um bom desenvolvimento da imigração e da colonização. 
Naturalmente quando ocorrem desonestidades como aqui, onde potentados compram terras por 15 contos para vendê-las ao governo por 90, terras aonde não há absolutamente nada, então não se deve admirar que a colonização não progrida. Tenho ainda muita esperança nesta bela e rica província, aonde a cultura alemã, (pelo menos na capital e imediações), floresce tão fortemente. Possam os patrícios do Paraná prosseguir no caminho certo; também eles têm a construir uma parte da historia cultural, e um dia, conosco e com os alemães de Santa Catarina, seremos um fator nada desprezível na historia do Brasil meridional.
Amanhã, se correr bem, estaremos ao meio dia em Desterro, e de lá ainda escreverei. Quarta feira de manhã devemos atingir a nossa barra; se tal não se der, é outra questão, que fica aberta ao destino.

Antonina, 24 de junho de 1883".

mais  um texto de Karl  von Koseritz, jornalista alemão   que  se radicou no Rio Grande do sul e foi um dos grandes propagandistas da imigração alemã para o Brasil nos tempos do Império  Esta  é  sua segunda passagem pela Deitada-a-beira-do-mar. (a primeira pode ser lida aqui). aqui ele narra o passeio pela cidade deserta, sabemos que em Morretes tinha uma cerveja boa. Koseritz narra a moda das corridas de cavalo em Antonina e se surpreende ao ver um negro sendo tratado como igual pelos outros rapazes brancos. Ao final, comenta sobre a corrupção que grassava no Paraná daquela época, onde os fazendeiros compravam terras de graça e as vendiam ao governo por fortunas. Nada que aconteça hoje, felizmente...

FOTO AÉREA DE 1952!!

 

FOTO AÉREA DE 1952!!


Assim era a Deitada-a-beira-do-mar em 1952, ou seja, há 61 anos atrás...
Por um lado, pode se ver a intensa atividade comercial, com navios no trapiche, no Matarazzo e diversos atracadouros ainda funcionando. por outro, vejam o canal que passa na frente da cidade e que tem uma cor mais escura. É muito diferente do canal que vemos hoje, com cores mais claras, mostrando uma quantidade maior de sedimento em suspensão, ou seja, mais material para assorear a baía mais bonita do mundo. Impactos da Capivari-Cachoeira, que foi inaugurada nos anos 70 como um inequívoco sinal de progresso para a terra de Tube e Valle Porto. 
Observe-se que o Batel ainda não estava formado direito, as casas estavam todas ao longo da avenida. O Tucunduva ainda menos, assim como o Portinho e as Graciosas. 
Como um bom contraponto ao dias atuais, o morro era mais devastado antes - veja-se o Bom Brinquedo e o Morro do Salgado, que tinham menos vegetação que hoje. Se o progresso tivesse continuado, a cidade hoje talvez teria muito menos verde e muito mais áreas de risco a escorregamentos. 

VOTE CERTO, VOTE DIREITO: ERMELINO PRA PREFEITO!!

 

VOTE CERTO, VOTE DIREITO: ERMELINO PRA PREFEITO!!


  (por um desses acasos da vida, topei com um pequeno livrinho em que o Dr Ermelino de Leão mostrava "Ao Patriótico Povo de Antonina" seu programa de governo. Ermelino foi candidato a prefeito pelo Partido Republicano Paranaense ao cargo de Prefeito Municipal em 1912. Vejam as diferenças e semelhanças com hoje, 101 anos depois. Conservei a ortografia original) 


Ermelino Agostinho de Leão
(1871 - 1932)
AO POVO ANTONINENSE

Indicado por meus amigos e correligionários para o cargo de Prefeito Municipal, não declinei da distincção de tão iniludível prova de confiança, unicamente pelo intenso desejo de prestar a terra em que resido e a qual me acho vinculado por inquebrantáveis elos, os serviços que de mim, os meus patrícios, tem o direito de exigir.

Assim procedendo, não me deixei inspirar nos sentimentos subalternos da ambição, nem seduzir pelos encantos enganadores do poder: obedeci a norma, que me tem norteado a vida publica, de jamais recusar o contributo de minha dedicação, em qualquer esfera que ella possa resultar de utilidade, ao Paraná.

Não levarei para a administração municipal, caso o pronunciamento das urnas me invistam da função publica, outro programa que não synthetize a simples contextura desta sentença: o meu programa consiste no cumprimento do dever.
Cumprirei, pois, o meu dever, quando eleito, continuando a ser um advogado dos altos interesses do município, procurando impulsionar o seu progresso e contribui para o aproveitamento das riquezas que seu abençoado solo tem acumulado, sem outra preoccupação que não a não ser da utilidade publica e a do bem-estar da população.

Na ordem politica, cumprirei o meu dever conjugando a minha acção com a dos altos poderes do Estado, procurando fazer da Prefeitura um auxiliar eficaz ao patriótico governo do paraná, dentro do município, quer prestando todo apoio as medidas administrativas quer provendo, sem transgredir a esfera da autonomia a harmonia dos poderes, que considero uma das grandes virtudes de nosso regimen politico.  

Cumprindo o meu dever, prestarei ao Partido Republicano Paranaense desta localidade que levantou minha candidatura, os serviços compatíveis com a boa administração e que a lealdade politica me impõe.

Como exator do dever, eleito, empenhar-me-hei para implantar a tranquilidade e a harmonia tão necessárias ao desenvolvimento da nossa sociedade, tornando a justiça uma aliada da administracção.

Estas, as linhas do meu programa politico que visa a Concórdia, como elemento da ordem e para os fins do progresso.

Na ordem administrativa, não prometo o revolver de um vasto plano de reformas que exceda as possibilidades de nosso município: terei, quando eleito, a preocupação de conservar, melhorando, propugnando pelos legítimmos interesses das classes menos favorecidas, que são as que mais reclamam a intervenção e o auxilio dos governos.

Cumprirei meu dever, zelando pela boa aplicação das rendas municipaes, adoptando o regimen de larga publicidade dos actos da prefeitura, de modo a permitir a mais severa fiscalização do público a todas as suas resoluções.

Tentarei reduzir as despesas às proporções da receita, mantendo o equilíbrio financeiro que assegure credito e a boa fama que o município preza.

Cumprirei meu dever, cuidando das vias publicas e o calçamento gradual de parte da cidade, que está reclamando este urgente melhoramento.

Cumprirei meu dever, propugnando pela difusão do ensino, estabelecendo um combate pertinaz ao analfabetismo e estimulando o professorado municipal ou estadoal, por um conjunto de medidas que concorram para elevar a frequência das escolas deste município.

Em desempenho ao dever, sendo eleito, procurarei regularizar os serviços de assistência aos necessitados e de hygiene, impedindo que sejam creados focos de infecção, atendendo ao problema de alimentação publica e concorrendo para que as condições favoráveis de salubridade do município se tornem coletivas e sólidas.
Procurarei estudar o problema da habitação proletária, investigando os meios de proporcionar aos nossos operários casas hygienicas e baratas.

Não circunscreverei minha acção aos estreitos limites do quadro urbano: tratarei dos interesses da lavoura , procurando adoptar uma politica econômica que tenda a desenvolver os diversos ramos de cultura agrícola, lançando, em bases scientificas, a polycultura que, felizmente, é um dos característicos da agricultura antoninense. Com taes intuitos, pedirei, quando elevado a prefeitura, o apoio decisivo dos altos poderes do Estado e da República, de modo a banir a rotina e proporcionar aos lavradores novos processos que assegurem maior compensação ao trabalho.  


Si os votos livres do povo de Antonina me considerarem digno de gerir os destinos do município, não me descuidarei de impetrar do governo da união medidas que concorram para melhorar as condições de nosso porto, batalhando, com tenacidade, para que vejamos satisfeita essa legitima aspiração de que todos nutrimos; e, bem assim, continuando a pugnar pela justiça no regimen tarifário e pela reabertura da estrada da graciosa. Não só prometo aos patrícios mais que o cumprimento do dever: serei um simples intérprete dos desejos da população de Antonina, um sincero advogado de seus interesses, um fiel exator das leis municipaes.

[continua]

QUEM MATOU O PADRE PINTO?

 

QUEM MATOU O PADRE PINTO?


O sacerdote antoninense Francisco da Costa Pinto (1865 - 1900)
Foi no dia 19 de abril de 1900 na cidade da Lapa. Lá pelas nove horas da noite daquele dia, o vigário da cidade, o padre Francisco da Costa Pinto, saiu da farmácia do Sr. Olympio Westphalen em direção a sua casa. Era escuro, fazia certo frio, mas a noite era agradável. Ao atravessar a Rua da Boa Vista na diagonal, o Padre Pinto ouviu alguém chamando: “Seu Padre, faça o favor”. Ao se voltar na direção da voz e se dirigir em direção ao homem, Padre Pinto ouviu um forte barulho e imediatamente sentiu um calor no peito. O homem que havia descarregado a arma contra ele era agora um vulto correndo para a escuridão do beco. Atraídos pelo barulho e pelo grito que o Padre soltou, os homens que ainda estavam dentro da farmácia saíram correndo e encontraram-no banhado em sangue, mas ainda vivo e em pé. “O que aconteceu?”, perguntou um.“Quem foi?”, perguntou outro a sua frente. O padre mal teve tempo de dizer que não sabia ao certo: era um mulato baixo e encorpado, vestindo um pala.  
Na confusão que se segue, o padre é levado para sua casa, e são chamados às pressas os doutores Mendes Ribeiro e João José de Carvalho.  Padre Pinto, no meio de toda confusão, ainda teve momentos de lucidez. Sem perder os sentidos, ainda disse perdoar seus inimigos, além de pediu perdão para si mesmo, pelo mal que houvesse cometido a alguém. O ferimento havia sido muito grande, além de grande a decorrente perda de sangue. Logo perdeu os sentidos e veio ser dado como morto, em laudo do Dr Evangelista, na madrugada do dia 20 de abril. Tinha 35 anos de idade.
A morte do Padre Pinto foi motivo de grande alvoroço. Sua forte atuação na Lapa, onde fez cerrada campanha contra a Maçonaria, foi motivo de grande polemica nos jornais da época. Politicamente, o padre estava contra o Coronel Joaquim Lacerda, um dos baluartes do partido Republicano Federal na Lapa e no Paraná. O Cel. Lacerda foi, junto com o General Carneiro, um dos chefes do contingente florianista que se bateu contra os maragatos de Gumercindo Saraiva na tomada da Lapa, na revolução federalista de 1893-94. A Lapa ainda vivia, naqueles tempos, o sabor amargo de uma cidade dividida numa guerra Civil. Contra tantos inimigos poderosos, não é de se estranhar a violência de sua morte.
Nascido em Antonina em 1865, o Padre Pinto foi desde cedo um brilhante aluno no Seminário Diocesano de São Paulo. O Seminário Diocesano, na segunda metade do século XIX, era um ativo centro de formação de quadros para o clero brasileiro.  Poeta inspirado, bom escritor, Padre Pinto era um espirito que adorava a discussão das idéias e a luta política. Escreveu muito para o jornal católico A Estrella, no qual combateu com vigor a Maçonaria. Orador vibrante, suas missas eram famosas em Curitiba, onde permaneceu logo após ter vindo do seminário, e na Lapa, onde foi nomeado vigário em 1898. Participou de algumas festas religiosas em Antonina e foi um dos oradores na inauguração do mercado municipal de Antonina, ao lado de Ermelino de Leão.

O assassinato do Padre Pinto nunca foi esclarecido. Seria muito esperar no Paraná daquela época a condenação dos assassinos de um inimigo político das forças situacionistas. No Paraná, a cicatrização das feridas da Revolução Federalista foi vital para a formação da classe politica até hoje dominante. A vida do Padre Pinto, suas lutas e sua morte, por outro lado, abrem uma interessante janela para se compreender aspectos interessantes da vida politica no Paraná e no Brasil daquele início de século.

FESTA DE N.S. DO PILAR (DE 1929!)

 

FESTA DE N.S. DO PILAR (DE 1929!)



FESTA DE NOSSA SENHORA DO PILAR

POR OCTAVIO SECUNDINO

Quando Antonina está no reinado da Virgem do Pilar, ricos e pobres se confraternizam.
O mercado tonar-se repleto de “iguarias do mar”.
Lembra-se do tempo dos Rosas, dos Quarteis, dos Nunes, dos Pires, dos Mellos, dos Ribeiros, abastados donos de sítios de fartura.
Ao tempo do prefeito, o eminente chefe republicano Coronel Theóphilo Soares e do saudoso cidadão patrício Coronel Libero Guimarães, era estabelecido o preço fixo para a venda de peixes, mariscos, fructas e outros “saborosos da praia”, para que não houvesse excesso de zelo..., especialmente para quem aparecesse no caes com ares de “curitybano”.
Era o tempo do  3 por 2; do “5 por um tostão”, do “um por um vintém”.
Constitue um dos encantos do visitante a ida ao mercado e assistir, da rampa, o espetáculo grandioso que oferece os portos de mar, em dia de bom tempo, ceo azul, mar esverdeado, ora  calmo, em plácido marulhar, ora agitado, nervoso, erguendo ondas que se perdem ao longo do horizonte, lá, muito lá fora; a bahia sulta de embarcações, os morros que a circundam, limpos de neblina, e tudo isso , esse desenrolar de belezas deve-se ao mar, o misterioso mar:

Vejo-te às vezes calmo, serenado,
E de repente crespo, revoltado,
Em montanhas de enormes galahões,
Por ti ó mar vivo enamorado,
Vendo surtos, em te seio esverdeado,
Os bergantins de nossos corações...(OS)



O tempo, no decurso da festa se conservou firme, belíssimo, ceo azulado, temperatura agradável.
O povo teve como milagre o fato de ter soprado, 5 dias, forte noroeste, sem agua.
A chuva só veio no dia 16, depois de encerrada a festa.
Lembram os romeiros que, no ano passado , por ocasião da festa, choveu 9 dias seguidos, até o dia 14, e no dia 15, festa do Pilar, amanheceu branda a temperatura, dia lindo, ceu optimo.
O povo, nestes dias claros do 8º mez do anno, acorre ao recinto sagrado, cheio desse clarão imortal da fé e da crença, dessa bemdicta fé que com luz explendente ilumina o infortúnio com seu piedoso e meigo sorriso; dessa bemdicta crença que avassala os corações, para entoar hymnos da paz, preces de amor a virgem Cheia de Graças, numa vibração sonora e de mysticos encantos aflorando com a nobreza de sentimentos, que são o sacerdócio do culto dos bons religiosos.
E o tempo da virgem, com Tropheos de milagres, orgulhoso das galas da santa, literalmente engalanado, parece querer alargar-se para dar logar aquelles que pedem lado para provar a sinceridade de sua veneração, num profundo silencio, num verdadeiro sentimento religioso, o fervor de sua fé, a santa, que em seu templo, branco com ao paz, acena aos navegantes, divinas promessas que a fé infunde nos corações dos que, entre o ceo e o mar, nos dias e nas noites de tempestades, volvem a lembrança para o orago milagroso.
Quando a virgem do pilar, em procissão, sahiu a rua, durante todo o santo passeio, os sinos da matriz, do s. Benedito e do Bom jesus do Saivá repicavam alegremente, esturgiam foguetes, tocavam as bandas musicaes da Policia, Lyra Infantil, e as dos Menores Marinheiros de Paranaguá e salvavam os morteiros, até se recolher o cortejo, após se percorrer as ruas marcadas da cidade e, que, ao entrar, em seu santuário, a virgem do Pilar, abençoa a terra e o povo antoninense, a todos os seus fieis e romeiros.
Preocupou o espirito dos crentes, o facto de, quando a santa passava pela rua 15, quase cahira a sua coroa, porem tal fato não merece aprehensões , porque foi, tão somente, por ter estado a cidade com suas ruas embandeiradas em arcos e ao passar por um deles, os que levavam o andor não o baixaram suficientemente, de modo que a coroa bateu-se nos arcos.
Não foi um mal. Foi a coroa da Rainha do que quis tocar as palmas, as bandeiras e as flores, com que a glorificavam os que a adoravam. .
No pateo da matriz haviam lindas barriquinhas que iluminadas a noite ofereceram lindo aspecto. Appareceram de fora, uns pavilhonetes com jogos – um dos detestáveis e nojentos vícios que putrificam a humanidade – mas que, o zelo precioso do dr. Prefeito e a aplaudida e sensata acção do Tenente delegado, fizeram desaparecer.
A noite, uma rica noite de prata, os clubs abriram, sorridentes, os seus vastos salões.
O Club Antoninense, tradicional de meio século, creado em agosto de 1873 por Hipólito Joaquim Theodoro de Oliveira, presidente; Manoel Pacheco de Carvalho, vice –presidente; João Álvaro de Aguiar, 1º secretario; Antônio José da Luz, 2º secretario; Joaquim Barnabé de Linhares, Thezoureiro, e João Manoel Ribeiro da Fonseca, procurador; deu brilhantíssima nota.
Nesse veterano club não há muito tempo, encantaram com a sua proveitosa acção; Coronel Theófilo, Coronel  Líbero, Coronel Marçallo, Dr Quincas Mendes, José f de O. Marques, João Vianna, Lourenço da Veiga, Polycarpo Pinheiro, Joaquim Muniz, Dr. Cunha Bueno, José Leandro, Alves dos Reis, Joaquim Loyola, Praxedes Pereira, Antônio Soares Gomes, Lauro Loyola, Theófilo Marques, e outros.
No Club 14 de julho, foi um baile a altura de grandes festas. O sympático club, de vibrações de Salvador Picanço, Erasmo Vianna, Sebastião Damaso de Souza (o sempre lembrado Nho-nhô Libanio), Cel. Benigno Lima, Cel. Leopoldino de Abreu, Agostinho Marconi, Coronel Antônio Macedo, Cel. Joaquim Linhares, João Luiz, Arthur de Sá, Alfredo Neves, Carlos Withers, instalado a 14 de julho de 1908, relembra as victórias da sociedade antoninense.
O Club dos Operários primou pela alegria.
Nos três representativos da elite capelista, o enthusiasmo, a cordialidade, a satisfação e o bom tato imperaram.
As bandas da policia, a banda Lyra Infantil, do incansável Maestro Urquiza e a banda dos Aprendizes Marinheiros, constituíram nota chic da festa.
O batalhão da Marinha, com seu garbo, ordem e disciplina, vindo de Paranaguá, e comandado por apreciável oficial, realçou grandemente os festejos.
Em tudo o que participou da festa, que do logar, quer de fora, houve um conjunto harmonioso.
Os festeiros: Exmo Dr. Affonso Alves de  Camargo, presidente do estado; Egberto de leão; Madame general Carlos Cavalcanti. Madame general Adalberto Menezes, e outros dignos cavalheiros e distinctas damas, concorreram sobremodo para a pompa, realce e brilho da festa.
Terminando nossa pálida descripção, terminamos entre saudades e amor do berço – ninho, em apagadas ruinas, cantando:

Há 42 annos – bela sina!
Foi que tive a ventura de nascer
Numa saudosa casa pequenina
Que imprimiu a ternura de meu Ser.
Foi na rua da fonte, em Antonina
19 de outubro. Que praser!
Foi um dia como este. E que divina
Primavera de amor a florescer!
Minha terra natal, risonha e bela,
Onde cantam os marujos, ó Capella
Que eu amo e exalto neste meu cantar.
Bemdicta sejas por teu sonho e brilho
Pela saudade e amor deste teu filho
Pela bençam da Virgem do Pilar!

Octávio Secundino
Curitiba, agosto - 1929



(essa pequena pérola achei no Jornal "A Republica", um dos mais importantes jornais do Paraná na época (clique aqui); é uma descrição, do ponto de vista das "zelites", como era a festa de NS do Pilar. Eram os tempos mais ricos da cidade, que nunca ais teria essa importância nem econômica nem social. )

A GAZETA ANTONINENSE!!

 

A GAZETA ANTONINENSE!!



O jornal a Gazeta Antoninense, de 1884, deliciosa recordação do passado da Deitada-a-beira-do-mar
Neste dia em que a deitada-a-beira-do-mar faz seu aniversário de 217 anos – mas com um corpinho de 216!– apresento uma singela recordação de um importante documento para o povo capelista disponível aqui na internet (ver aqui). Trata-se de uma cópia do jornal “gazeta antoninense”, numero 3, de 16 de novembro de 1884, publicado pelo site da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. A hemeroteca digital é uma imensa e amigável plataforma, onde se podem encontrar muitas outras preciosidades...
A princípio, sabemos pouco da referida “Gazeta”: no subtítulo ela se intitula como “órgão imparcial”, com publicação semanal. Seu diretor era Joaquim S da silva, que já colocamos aqui como um dos pioneiros da imprensa capelista, ao lado de tantos outros que vieram depois, já no século XX, como João Leite e sua filha Armandina, Admaro Santos e outros, numa lista bem extensa.  Neste único exemplar, que somente foi preservado porque foi enviado ao Coronel José d´Almeida, residente na corte (Rio de janeiro), temos algumas noticias interessantes.
No editorial, um texto falando sobre a potencialidade do município, pedindo a união dos “esforços  particulares, com o auxilio protecionista dos poderes provinciais”, para cuidar do incremento da produção de cachaça em Antonina. Convoca os agricultores e capitalistas para a indústria da cana, que então estava sendo importada para nossa região, em notável prejuízo para os agricultores. O texto conclama para uma união de capitalistas e agricultores, junto com uma politica fiscal adequada para reverter este quadro. 
Ainda na primeira pagina, na seção de noticias, é reproduzida uma representação conduzida pelo coronel Teóphilo Soares Gomes, pedindo a construção do ramal ferroviário para antonina. A representação é citada por diversos homens públicos e comerciantes da cidade. Trata-se de uma importante reivindicação, pois com a construção da ferrovia, antonina perdia a primazia em termos de transporte de mercadorias para o porto, encarecendo o produto e prejudicando os comerciantes da cidade. Este ramal viria a ficar pronto em 1890, seis anos depois desta representação.
Na pagina 2, há uma noticia policial: a liberta Maria, conhecida pelo apelido de “Sacandé”, teria amanhecido morta na estrada do Itapema. A notícia informa que, tendo o habito de se embriagar, a vítima estava ferida por “instrumento cortante”. Como há pouco s dias a vitima havia entrado numa briga com o cigarreiro Luiz Fernandes, quando este espancava uma mulher,havia forte indicio de crime, e o texto diz esperar do Sr. Delegado os devidos esclarecimentos.
Outra noticia criminal é de um homem que foi preso ao desembarcar do paquete “Aymoré”, que entrara na nossa formosa baía vindo de Santos no  dia  10 de novembro último.  De uma verificação no seu quarto, no hotel Camacho, foram encontradas jóias e cerca de 702$000 em dinheiro. Ao que tudo indicava tratava-se de um fugitivo que vinha de Santos, onde havia cometido um terrível crime. Aguardava-se a requisição das autoridades paulistas para que o criminoso fosse encaminhado àquela praça.
Nesta pagina há também uma poesia satírica de Alberto Corte Real, dedicada a seu amigo Teóphilo Soares Gomes. Nela, o eu da poesia relata um sonho em que seria herdeiro de Rotschild, célebre banqueiro judeu. Mesmo sendo bom cristão, o “ouro cegou-lhe os olhos da alma”, e, de maneira demoníaca, entregou-se aos prazeres da riqueza e da luxuria sem freios. No entanto, quando o sono acabou, o único alívio que sentiu foi ter acordado tão somente “um bom cristão”.
Nos anúncios figurava com especial desenvoltura o senhor Manoel Miranda, vendendo desde bules e açucareiros de ferro até camas de ferro. Há também uma extensa propagando do sulfato de quina Marca Flexa, tendo ainda um parecer do doutor Joaquim Câmara, do Rio de Janeiro, que atesta as faculdades e a pureza da medicação.
Por último, mas não menos importante, Antonina recebia por aqueles dias o magico Jules F Bosco, um artista internacional mostrando seus talentos para os bagrinhos. O anuncio do espetáculo era um primor de horror, ao menos para a época. Um homem (seria o próprio Jules F Bosco?) segurando uma cabeça ensanguentada. Queria pegar uma maquina do tempo e ir lá ver.

Enfim, um singelo presente para meus queridos conterrâneos, hoje envoltos em tantos escândalos e confusões  e que merecem olhar com carinho e curiosidade para esta interessante documento que nos mostra a capela de outras eras...
Anuncio do espetáculo do magico internacional Jules F Bosco na Antonina de nossos trisavós!!