quinta-feira, 16 de julho de 2026

Tondela: História, Identidade e Patrimônio no Coração da Beira Alta

 

Tondela
Cidade de Tondela
Brasão de TondelaBandeira de Tondela
Localização de Tondela
Gentílicotondelense
Área371,22 km²
População25 914 hab. (2021)
Densidade populacional
N.º de freguesias19
Presidente da
câmara municipal
Carla Borges[1] (PPD.PSD, 2025-2029)
Fundação do município
(ou foral)
1515
Região (NUTS II)Centro (Região das Beiras)
Sub-região (NUTS III)Viseu Dão-Lafões
DistritoViseu
ProvínciaBeira Alta
OragoSanta Eufémia
Feriado municipal16 de Setembro
Código postal3460 Tondela
Sítio oficialwww.cm-tondela.pt

Tondela é uma cidade portuguesa sede de município[2] do Distrito de Viseu, tendo pertencido à antiga província da Beira Alta e atualmente à Região das Beiras e sub-região Viseu Dão-Lafões, com cerca de 5 215 habitantes em (2021),[3] sendo a quarta maior cidade do distrito atrás de Viseu, Lamego e Mangualde.

A cidade é sede do Município de Tondela[4] que tem uma área de 371,22 km² [5] e 25 914 habitantes (2021),[6][7] subdividido em 19 freguesias.[8] O município é limitado a norte pelo município de Vouzela e pela porção sul de Oliveira de Frades, a nordeste por Viseu, a sueste por Carregal do Sal, a sul por Santa Comba Dão, a sudoeste por Mortágua e a oeste por Águeda.

O natural ou habitante de Tondela denomina-se tondelense.

A cidade de Tondela é geminada com a cidade francesa de Lannemezan.

Tondela é banhada pelo rio Dinha que nasce no lugar de Covas, no município de Vouzela, em plena Serra do Caramulo. Tem 35 quilómetros de extensão até desaguar no rio Dão.

Descrição geral

O Município de Tondela é recheado de atrativos e motivos de interesse, que tem na diversidade das suas paisagens, em especial da Serra do Caramulo, a sua jóia da coroa, assim como nos seus imensos espaços verdes, rios e as suas áreas de lazer.

A Ecopista do Dão, os seus percursos pedestres, também as aldeias de montanha recheadas de história e costumes, com um vasto património, aliado à gastronomia e ao inconfundível Vinho do Dão fazem deste um município com uma identidade inconfundível.

Os produtos endógenos, em especial, o cabrito, mel, a castanha, o milho e a laranja de Besteiros, bem como as gentes hospitaleiras, as coleções únicas dos Museus de Arte e Automóvel (Caramulo) e Terras de Besteiros, tornam imprescindível uma visita a esta região de bem-estar, de onde pode levar de recordação uma peça de barro negro de Molelos.

A par disto tudo, destaque ainda para a oferta cultural e de eventos, onde se destacam o desporto automóvel, com o Caramulo Motorfestival, a Queima e Rebentamento do Judas, o Tom de Festa ou a FICTON – Feira Industrial e Comercial de Tondela.

Tondela destaca-se pelo seu relevante potencial cultural, passando pelo património, turismo, saúde e ativo termal existente, com as águas termais de Sangemil, que fazem deste um município com um charme irresistível![9]

O Clube Desportivo de Tondela, instituição desportiva da cidade, é um dos maiores embaixadores nacionais desta localidade pelo mediatismo e reconhecimento desportivo pelas suas participações no campeonato nacional da primeira divisão portuguesa.

História

O actual município de Tondela compreende as freguesias que constituíam o antigo concelho de Besteiros, ao qual vieram a anexar-se, com o andar dos tempos e depois de múltiplas reformas administrativas, os antigos coutos, depois concelhos da Serra do Caramulo - S. João do Monte e Guardão. Também terra chã, os de Mouraz, Sabugosa, Canas de Santa Maria, S. Miguel de Outeiro e algumas freguesias que pertenciam ao termo de Viseu e a outros pequenos concelhos, Barreiro e Treixedo. Segundo documentos dos séculos X, XI e XII designava-se esta região por Terra de Balistariis. Esta designação tem por origem a palavra balista ou besta, máquina de guerra usada pelos besteiros na Idade Média.

Heráldica

De prata, com uma laranjeira de sua cor frutada de ouro, arrancada e com o tronco de negro acompanhada de duas bestas de vermelho. Coroa mural de prata de cinco torres. Bandeira de um metro quadrado oitavada de amarelo e verde. Listel branco com letras pretas, cordões e borlas de ouro e verde. Lança e hastes de ouro.

Indica-se o campo de armas de prata , porque este metal em heráldica denota humildade e riqueza, qualidades próprias da terra que na sua humildade produz o sustento para os seus naturais.

A laranjeira representa a grande importância que os frutos têm na região, é o símbolo do valor agrícola. Os frutos de ouro simbolizam a fidelidade, o poder e a liberdade, qualidades heráldicas deste metal e representam as condições locais, correspondendo os vinte e seis frutos a outras tantas freguesias que constituem o município. A laranjeira tem o tronco negro e é arrancada do mesmo esmalte, que significa a honestidade e representa terra em todo o seu valor.

As bestas, significando a índole guerreira dos antigos habitantes do Vale de Besteiros são representadas de vermelho, porque este esmalte representa, heraldicamente, ardis e vitórias.

Como a laranjeira, representativa de valor agrícola local é de verde pintada de ouro, são estas as cores que têm de compor a bandeira, a coroa mural de cinco torres é o distintivo designado às cidades.

Lenda de Tondela

Ao Tom’Dela, estátua localizada na cidade

A célebre lenda que deu nome a Tondela versa que aqui havia uma mulher, durante as batalhas da Reconquista, que usava uma trompa quando, do cume de um morro, avistava o inimigo. E que ao tom della (cuja contracção forma Tondela) toda a povoação se juntava para afrontar as tropas adversárias.

Trata-se de uma lenda que poderá estar inspirada em factos reais baseada na história de uma heroína que com o seu bafo se fez ouvir por 'Terras de Besteiros' — sabe-se lá a quem. Na cidade de Tondela é tradição, quando lá chegados, procurar essa a Fonte da Sereia, cujo topo tem a mulher da trompa esculpida, tal e qual como do topo de um monte ela vigiava as suas fronteiras. A cidade de Tondela tem também a estátua Ao Tom’Dela alusiva a esta lenda.

Toponímia

No local há o Chafariz das Sereias, um belo trabalho em pedra que mostra uma mulher com uma trompa na mão. Trata-se de uma mulher que, segundo a lenda, vigiava os movimentos dos mouros do cimo dos montes. Ao avistar o perigo, tocava a trompa e ao'tom'dela se juntava o povo para enfrentar o inimigo.[carece de fontes]

Freguesias

Freguesias do Município de Tondela.

O Município de Tondela está subdividido em 20 freguesias:

No espaço do actual município existiu, até 1836, o antigo concelho de Besteiros, cujo nome está ainda hoje presente na toponímia local e nas armas municipais.

Evolução da população do município

★ Os Recenseamentos Gerais da população portuguesa tiveram lugar a partir de 1864, regendo-se pelas orientações do Congresso Internacional de Estatística de Bruxelas de 1853. Encontram-se disponíveis para consulta no site do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Número de habitantes que tinham a residência oficial neste município à data em que os censos se realizaram:

Número de habitantes * [10]
1864187818901900191119201930194019501960197019811991200120112021
27791299713034630622321553115734632381074059638917353503590632049311522894625910
Número de habitantes por grupo etário ** [11] [12]
1900191119201930194019501960197019811991200120112021
0-14 Anos9 94711 14010 39510 92112 72412 22311 54810 2459 0406 0704 4453 4432 596
15-24 Anos4 7454 8484 9085 9926 0986 9466 4245 3755 8894 8144 1362 9792 454
25-64 Anos12 62812 81612 83914 19615 99717 18617 07715 74015 64815 23915 48214 64812 586
= ou > 65 Anos2 0022 4002 2692 7763 0943 4853 8683 9905 3295 9267 0897 8768 274

De 1900 a 1950 os dados referem-se à população "de facto" (**), ou seja, que estava presente no município à data em que os censos se realizaram. Daí que se registem algumas diferenças relativamente à designada população residente (*)

Paisagem

Sendo a cidade banhada pelo rio Dinha, as terras do município apresentam uma diversidade de paisagens em que se conjugam os encantos da Serra do Caramulo, da zona planáltica do Vale de Besteiros, dos imensos espaços florestais, dos rios e praias fluviais.

São terras marcadas pelo clima rigoroso da Serra do Caramulo, com saberes e tradições ligados à pastorícia e aos trabalhos agrícolas, com interessantes aglomerados de casas em granito; terras cujo passado deixou um vastíssimo conjunto de monumentos de inquestionável valor; são também terras por onde passa o rio Dão, zonas de férteis planaltos verdejantes, ar puro, águas termais Sangemil enfim, sítios que se oferecem ao visitante como refúgios de beleza natural.

Cultura

Produtos locais

Tondela tem vários produtos desde o linho, ao barro negro, cestaria, tanoaria, latoaria e outros artigos artesanais, às capuchas da Serra do Caramulo, ao mel, aos doces de frutas ou os seus vinhos, produtos de excelência da Região Demarcada do Dão.[13] No Museu Municipal Terras de Besteiros, localizado no centro da cidade (em frente à Igreja Matriz), existe um espaço de exposição e venda de produtos locais.

Gastronomia

Tondela e a sua região possui uma gastronomia riquíssima, típica, temos realmente boa e variada comida: cabrito no forno, com batata assada e arroz de miúdos, chanfana na padela, vitela assada no forno, pratos todos eles confeccionados nas famosas assadeiras de Barro Negro de Molelos, que lhe conferem um paladar particular. Os enchidos, os fumados e os peixes do rio com molho de escabeche completam a afamada mesa da sua região.

Como complemento, uma doçaria regional espantosa: aletria, arroz doce, as mais variadas compotas, tortas, as laranjas de Besteiros, os licores, o mel do Caramulo “O Ouro da Montanha”, as nozes, as castanhas, produtos endógenos que se destacam não só pelo seu paladar, mas também pelas suas características intrínsecas. Todos estes sabores e delícias continuam a conferir vida ao património gastronómico da nossa região.[14]

Geminação: cidades de Tondela e Lannemezan

As condições de geminação entre Tondela e Lannemezan assentam principalmente, nas semelhanças estruturais e comportamentais entre as duas comunidades. Essas semelhanças remetem, fundamentalmente, para as montanhas envolventes, respetivamente o Caramulo e os Pirenéus, a exploração agrícola e pecuária, a produção vinícola, industrial, entre outras, mas principalmente, a vontade mútua de descobrir, cooperar, interagir e fazer das divergências um enriquecimento pessoal através da amizade criada.

Por outro lado, esta geminação é uma porta aberta para outro país, um pouco através de França e das 70 famílias portuguesas em Lannemezan. O processo de geminação é um fortalecimento da Europa, com a preocupação de unificar cada nação através do desenvolvimento e da segurança num espaço de liberdade.

A cidade de Lannemezan fica situada a sudoeste de França, a 550 metros de altitude nos Pirenéus Centrais. Encontra-se no fuso de três cidades, Bayonne, Toulouse e Perpignan e a cerca de 50 km da cidade de Lourdes.

Por se situar nos Pirenéus, Lannemezan dispõe de uma natureza sem igual. A floresta, os rios, as cascatas que marcam a paisagem de forma singular, transmitem um único e maravilhoso bem-estar, podendo desfrutar de actividades ao ar livre.

Em junho de 1995, uma delegação de Tondela visita Lannemezan e é assinado o Protocolo de Geminação entre as duas cidades.

Tondela e Lannemezan, mais de vinte e cinco anos de amizade e de iniciativas objectivando a união e a amizade de cidadania entre dois países diferentes pela sua cultura, pelos seus usos e costumes, pelas limitações patentes entre as comunidades, mas ultrapassada pela “ fonte de saber e de amizade”.

Esta união entre Tondela e Lannemezan, tem-se verificado cada vez mais estreita, onde os cidadãos e autarcas de ambas as cidades e os seus intervenientes, através das associações que intervêm no intercâmbio, têm vindo a dar um contributo importante para a construção europeia e para reforçar os laços de amizade que cada vez mais se demonstram fortalecidos.

Na génese das relações entre as duas cidades, encontram-se actividades que perduram desde o primeiro intercâmbio.[15]

Clubes desportivos

Estádio João Cardoso, em Tondela

Fundado a 6 de junho de 1933, o Clube Desportivo de Tondela (CDT) é o clube da cidade de Tondela, o principal do concelho e o segundo mais representativo do distrito de Viseu, tendo chegado à final da Taça de Portugal contra o Futebol Clube do Porto. É um clube eclético e multi-desportivo de expressão nacional que desde 2015 compete na Primeira Liga, o maior escalão do futebol português, destacando-se como o maior embaixador da cidade. O CDT realiza os seus jogos no Estádio João Cardoso.

O município de Tondela tem também outros clubes históricos de expressão mais regional como CA Molelos, SC Nandufe, Besteiros FC, GD Ferreirós do Dão, GD Canas de Santa Maria, ADRC Parada de Gonta, CCM Lobanense, CR Tonda, entre outros.

O Escola Futebol Clube de Molelinhos (futebol feminino) foi até ao momento o único clube do município de Tondela e do distrito de Viseu a conquistar uma Taça de Portugal. Este feito inédito foi conquistado na época 2008/2009.

Figuras ilustres

Património

Em diversas localidades encontram-se belas igrejas e capelas de estilos arquitectónicos, também pinturas, magníficas custódias em prata dourada e ainda a cruz processional da Igreja Paroquial de S. João do Monte. Por todo o município, encontram-se também casas solarengas, quase todas datadas do século XVIII.

A Fonte da Sereia é um dos atrativos da cidade

Tondela:

  • Monumento aos Mortos da Grande Guerra
  • Estátua 'Ao Tom'Dela'
  • Chafariz da Sereia
  • Monumento aos Combatentes do Ultramar
  • Estátua do Emigrante
  • Capela de Santa Eufémia
  • Pelourinhos (largo 1º de maio e largo da República)
  • Solar de Sant'Ana
  • Igreja Matriz
  • Fonte do Outeiro
  • Igreja de Nossa Srª do Carmo
  • Capela do Senhor do Calvário
  • MartGt
  • Pelourinho do Senhor do Calvário
  • Tabuleiro da Praça Besteiros
  • Busto ao Mestre da Língua Portuguesa Cândido de Figueiredo
  • MEMORIAR - Ciclista agigantado 'Caramulo' (Expo 98)
  • Estádio João Cardoso
  • Escultura 'Xandinha da Praça'
  • Ponte Romana de Nandufe
  • Mural 'Memória de Nandufe'

Município de Tondela:

Jornais locais

  • Jornal 'Folha de Tondela' - Semanário (mais antigo do distrito de Viseu)
  • 'Jornal de Tondela' - Semanário
  • ' O Beirão Online' - Diário (de atualidades de Tondela e da Região das Beiras)

Política

Eleições autárquicas [16]

Data%V%V%V%V%VParticipação
CDS-PPPPD/PSDPSFEPU/APU/CDUCH
197641,85333,61317,1912,30-
63,79 / 100,00
197943,06336,71312,0514,24-
65,92 / 100,00
198238,50335,55317,4613,74-
69,31 / 100,00
198528,05245,94419,4212,40-
66,52 / 100,00
198924,47247,75419,9513,17-
64,84 / 100,00
199318,57149,13424,5023,34-
66,23 / 100,00
19978,99-54,32528,5222,94-
63,33 / 100,00
200173,06620,0612,88-
66,49 / 100,00
20053,48-66,52523,4922,23-
65,60 / 100,00
20094,47-70,15617,9713,33-
59,11 / 100,00
20139,64-53,48525,6923,67-
56,01 / 100,00
201710,86-57,49523,2523,56-
61,52 / 100,00
202144,92443,3833,04-3,71-
63,43 / 100,00
20252,42-44,49438,5631,63-8,72-
66,37 / 100,00

Eleições legislativas

Data%
CDSPSDPSPCPUDPADAPU/

CDU

FRSPRDPSNBEPANPSD
CDS
LCHIL
197638,8028,2720,391,690,65
1979ADAD18,86APU1,0970,084,17
1980FRS0,3971,683,6918,82
198325,8236,2228,260,412,98
198523,1840,8719,700,393,377,09
19877,8963,0016,41CDU0,242,271,02
19917,2167,2718,791,620,301,51
199513,7548,2232,400,311,580,26
199911,4948,7932,961,880,321,10
200211,9456,8525,561,561,20
20059,5146,6133,252,063,17
200913,1441,6030,372,955,93
201111,9052,6321,923,162,570,72
2015PSDCDS23,853,356,480,6956,550,35
20196,0337,1732,652,298,712,040,570,880,45
2022[17]2,1837,3140,681,793,040,830,697,552,63
2024[18]ADAD26,1937,301,563,041,211,6918,442,85
2025[19]PSDCDS21,181,411,3243,602,0821,273,18

Ver também

O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Tondela

Referências

  1. Carla Borges assume presidência da Câmara de Tondela, Jornal do Centro 15.01.2022
  2. Diário da República, 2.ª série, 6 de março de 2020, Pág. 221
  3. http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0005889&contexto=pi&selTab=tab0
  4. Portal Geográfico
  5. Instituto Geográfico Português (2013). «Áreas das freguesias, municípios e distritos/ilhas da CAOP 2013». Carta Administrativa Oficial de Portugal (CAOP), versão 2013. Direção-Geral do Território. Consultado em 28 de novembro de 2013. Arquivado do original (XLS-ZIP) em 13 de novembro de 2017
  6. INE (2012). Censos 2011 Resultados Definitivos – Região Centro. Lisboa: Instituto Nacional de Estatística. p. 106. ISBN 978-989-25-0184-0. ISSN 0872-6493. Consultado em 27 de julho de 2013
  7. INE (2012). «Quadros de apuramento por freguesia» (XLSX-ZIP). Censos 2011 (resultados definitivos). Tabelas anexas à publicação oficial; informação no separador "Q101_CENTRO". Instituto Nacional de Estatística. Consultado em 27 de julho de 2013
  8. Lei n.º 11-A/2013, de 28 de janeiro: Reorganização administrativa do território das freguesias. Anexo I. Diário da República, 1.ª Série, n.º 19, Suplemento, de 28/01/2013.
  9. «Tondela». Turismo Centro Portugal. Consultado em 20 de junho de 2021
  10. Instituto Nacional de Estatística (Recenseamentos Gerais da População) - https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes
  11. INE - http://censos.ine.pt/xportal/xmain?xpid=CENSOS&xpgid=censos_quadros
  12. INE - https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0011166&contexto=bd&selTab=tab2
  13. Gazeta Rural n.º 272 (15 de junho de 2016), pág. 17.
  14. User, Super. «Gastronomia». Câmara Municipal de Tondela. Consultado em 21 de junho de 2021
  15. Tondela, Município de. «Geminação». Câmara Municipal de Tondela. Consultado em 21 de junho de 2021
  16. «Concelho de Tondela: Autárquicas Resultados 2021 : Dossier : Grupo Marktest - Grupo Marktest - Estudos de Mercado, Audiências, Marketing Research, Media». www.marktest.com. Consultado em 18 de dezembro de 2021
  17. «Eleições Legislativas 2022 - Tondela». legislativas2022.mai.gov.pt. Consultado em 31 de dezembro de 2023
  18. «Eleições Legislativas 2024 - Tondela». legislativas2024.mai.gov.pt. Consultado em 31 de dezembro de 2024
  19. «Eleições Legislativas 2025 - Tondela». legislativas2025.mai.gov.pt. Consultado em 15 de dezembro de 2025

Tondela: História, Identidade e Patrimônio no Coração da Beira Alta

Apresentação Geral

Tondela é uma cidade portuguesa, sede de município no Distrito de Viseu. Pertenceu à antiga província da Beira Alta e, atualmente, integra a Região das Beiras e a sub-região de Viseu Dão-Lafões. Segundo dados de 2021, a cidade conta com cerca de 5 215 habitantes, sendo a quarta maior do distrito, atrás apenas de Viseu, Lamego e Mangualde.
O município que leva o seu nome tem uma área total de 371,22 km² e uma população de 25 914 habitantes (também referente a 2021), dividida administrativamente em 19 freguesias. Geograficamente, é limitado:
  • Ao norte: por Vouzela e pela parte sul de Oliveira de Frades
  • A nordeste: por Viseu
  • A sudeste: por Carregal do Sal
  • Ao sul: por Santa Comba Dão
  • A sudoeste: por Mortágua
  • A oeste: por Águeda
A quem nasce ou reside na região, dá-se o nome de tondelense. A cidade mantém ainda laços de amizade institucional através da geminação com a localidade francesa de Lannemezan.
Tondela é percorrida pelo rio Dinha, que nasce na freguesia de Covas, no município de Vouzela, no coração da Serra do Caramulo. Com cerca de 35 km de extensão, percorre vales e planaltos até desaguar no rio Dão.

Descrição Geral e Atrações

O município de Tondela reúne uma riqueza natural e cultural que faz dele um destino de grande valor. A sua principal riqueza é a diversidade da paisagem, com destaque para a Serra do Caramulo — considerada a sua jóia da coroa —, além de extensos espaços verdes, cursos de água, praias fluviais e áreas de lazer bem conservadas.
Entre os pontos de interesse, destacam-se:
  • A Ecopista do Dão, um percurso adaptado para caminhadas e ciclismo que segue o traçado de uma antiga linha ferroviária;
  • Percursos pedestres que atravessam aldeias de montanha, onde se preservam costumes, arquitetura tradicional e uma história centenária;
  • O patrimônio cultural, aliado à gastronomia e ao Vinho do Dão, produto de renome nacional que confere identidade à região.
Os produtos locais são outro ponto forte: o cabrito, o mel, a castanha, o milho e a famosa laranja de Besteiros são referências de qualidade. Ainda se destaca a arte do barro negro de Molelos, uma peça artesanal única e tradicional que serve de lembrança a quem visita a região.
A oferta cultural e de eventos também é ampla:
  • Caramulo Motorfestival: evento de renome dedicado ao desporto automóvel e à história do automóvel;
  • Queima e Rebentamento do Judas: manifestação popular com raízes antigas;
  • Tom de Festa: celebração que evoca a lenda da origem do nome da cidade;
  • FICTON: Feira Industrial e Comercial de Tondela, que impulsiona a economia local.
Completando o leque de atrações, as águas termais de Sangemil oferecem benefícios para a saúde e bem-estar, reforçando o perfil de Tondela como destino de turismo de qualidade.
No âmbito desportivo, o Clube Desportivo de Tondela é um dos maiores embaixadores da região, tendo participado por várias temporadas na Primeira Liga, o principal campeonato de futebol de Portugal.

História

A atual configuração do município resulta de um longo processo de reorganização administrativa. Originalmente, compreendia as freguesias que formavam o antigo concelho de Besteiros, ao qual foram sendo anexados, ao longo dos séculos, territórios vizinhos: os coutos e depois concelhos da Serra do Caramulo — São João do Monte e Guardão —, bem como as terras planas de Mouraz, Sabugosa, Canas de Santa Maria, São Miguel de Outeiro, além de áreas que pertenciam ao termo de Viseu e aos pequenos concelhos de Barreiro e Treixedo.
Documentos dos séculos X, XI e XII referem-se a esta região como Terra de Balistariis, expressão que deriva de balista ou besta — máquina de guerra usada pelos chamados “besteiros” durante a Idade Média, refletindo a importância estratégica e militar da região naquela época.

Heráldica

O brasão de armas de Tondela é rico em simbolismo:
  • Campo de prata: representa a humildade e a riqueza da terra, que produz os recursos necessários ao sustento do seu povo;
  • Laranjeira frutada: símbolo da agricultura e da fertilidade local. Os frutos de ouro significam fidelidade, poder e liberdade; o tronco de negro remete à honestidade e à solidez da terra;
  • Duas bestas de vermelho: lembram a índole guerreira dos antigos habitantes e as vitórias conquistadas;
  • Coroa mural de prata com cinco torres: distinção heráldica reservada às cidades;
  • Bandeira: oitavada de amarelo e verde, cores que correspondem aos elementos principais do brasão.

Lenda e Toponímia

O nome da cidade está ligado a uma das lendas mais conhecidas da região. Conta-se que, durante as lutas da Reconquista Cristã, vivia na zona uma mulher que, do cimo de um morro, vigiava o movimento de tropas inimigas. Ao avistar perigo, tocava uma trompa para alertar a população. Ao som do seu sinal — “ao tom dela” —, todos se reuniam para defender as terras, e a expressão acabou por se contrair e dar origem ao nome Tondela.
Esta história está representada em monumentos locais, como o Chafariz das Sereias, uma obra em pedra que mostra a figura da mulher com a trompa, e a estátua Ao Tom’Dela, erguida em homenagem à tradição.

Freguesias

O município de Tondela encontra-se atualmente dividido em 20 freguesias:
  • Barreiro de Besteiros e Tourigo
  • Campo de Besteiros
  • Canas de Santa Maria
  • Caparrosa e Silvares
  • Castelões
  • Dardavaz
  • Ferreirós do Dão
  • Guardão
  • Lajeosa do Dão
  • Lobão da Beira
  • Molelos
  • Mouraz e Vila Nova da Rainha
  • Parada de Gonta
  • Sabugosa
  • Santiago de Besteiros
  • São João do Monte e Mosteirinho
  • São Miguel do Outeiro
  • Tonda
  • Tondela e Nandufe
  • Vilar de Besteiros e Mosteiro de Fráguas
Até 1836, existia o antigo concelho de Besteiros, cuja designação permanece presente em ruas, nomes de lugares e até no próprio brasão municipal.

Paisagem, Artesanato e Gastronomia

A geografia de Tondela combina a altitude e o clima da Serra do Caramulo com vales férteis, florestas densas e margens de rios que formam praias fluviais muito procuradas. A arquitetura tradicional, com casas de granito, reflete os saberes de gerações ligadas à agricultura e à pastorícia.
No artesanato, destacam-se o linho, a cestaria, a tanoaria, a latoaria e as famosas capuchas da Serra do Caramulo, além do já mencionado barro negro de Molelos. No Museu Municipal Terras de Besteiros, no centro da cidade, é possível conhecer e adquirir estas peças.
A gastronomia é uma das maiores marcas da região:
  • Pratos principais: cabrito assado no forno, chanfana, vitela assada, enchidos fumados e peixes de rio em molho de escabeche;
  • Doçaria: aletria, arroz doce, compotas, tortas, laranjas de Besteiros, licores e mel do Caramulo — conhecido como “O Ouro da Montanha”.
Muitos destes pratos são confeccionados em panelas e assadeiras de barro negro, que conferem um sabor único às refeições.

Geminação com Lannemezan

A parceria entre Tondela e a cidade francesa de Lannemezan foi formalizada em junho de 1995, com base em semelhanças entre as duas regiões: ambas rodeadas por montanhas — o Caramulo e os Pirenéus —, com atividades agrícolas, pecuárias e vitivinícolas.
A geminação serve como ponte cultural, económica e humana, contando também com a presença de cerca de 70 famílias portuguesas residentes em Lannemezan. Ao longo de mais de 25 anos, promove intercâmbios, reforça a amizade entre os povos e contribui para a construção de laços europeus.

Desporto

O Clube Desportivo de Tondela foi fundado em 6 de junho de 1933. É a instituição desportiva mais importante do município, tendo chegado à final da Taça de Portugal e disputado a Primeira Liga, o principal escalão do futebol nacional. Os seus jogos são realizados no Estádio João Cardoso.
Outras equipas regionais mantêm viva a prática desportiva: CA Molelos, SC Nandufe, Besteiros FC, GD Ferreirós do Dão, entre outras. Um destaque histórico vai para a Escola Futebol Clube de Molelinhos, que em 2008/2009 conquistou a Taça de Portugal de futebol feminino — feito inédito para o distrito de Viseu.

Figuras Ilustres

Ao longo da sua história, Tondela deu origem a personalidades que se destacaram em diversas áreas:
  • Tomás Ribeiro (1831–1901): poeta, escritor e político de referência do Romantismo português;
  • Cândido de Figueiredo (1846–1925): filólogo e autor de obras importantes sobre a língua portuguesa;
  • José Manuel de Carvalho (1844–1904): bispo, que exerceu funções em Macau e nos Açores;
  • Paula Horta Costa Pereira: juíza e Procuradora-Geral Adjunta;
  • Américo Raposo (1932–2021): ciclista e gravador medalhista;
  • Nuno Claro: ex-guarda-redes profissional, com passagens por campeonatos europeus;
  • António Leitão Amaro: jurista e político, ex-Secretário de Estado da Administração Local.

O Menino, o Cachorro e a Fotografia de 1901

 

O Menino, o Cachorro e a Fotografia de 1901

O Menino, o Cachorro e a Fotografia de 1901

Esta fotografia foi feita em 1901, numa rua pequena que desembocava na Praça XV, bem perto do mar e do cheiro de peixe velho que vinha do cais do Rio de Janeiro. Na borda inferior do papel, quase apagado pelo tempo e pela umidade, ainda é possível decifrar o nome de um antigo estúdio: “Photo Souza & Irmãos”. Mas ninguém sabe ao certo se foi realmente deles o trabalho — naquela época, muitas assinaturas eram colocadas apenas para dar aparência de valor, sem compromisso com a autoria real.
O menino da imagem se chamava Ari, ou Aristeu, dependendo de quem contava a história. Tinha por volta de sete ou oito anos: era baixo, muito magro, com os joelhos sempre esfolados pelas quedas e pelas pedras, e as unhas permanentemente pretas de terra e poeira. Andava descalço, e dizia a quem quisesse ouvir que o sapato “amolecia o pé e tirava a força”, mas a verdade era mais simples e dura: ele nunca tinha tido um par que durasse mais do que duas semanas.
Ao seu lado estava o cachorro, chamado de Fumaça. O nome não vinha da cor do pelo — ele não era preto, mas sim malhado, com manchas claras e escuras espalhadas pelo corpo. O apelido surgiu porque ele parecia surgir do nada, aparecer de repente vindo de alguma esquina ou sombra, como se tivesse escapado de uma fumaça densa. Tinha o corpo um pouco torto da coluna, focinho comprido e orelhas grandes demais para o seu tamanho, mas olhos sempre atentos, prontos para correr ou se defender. Era um cachorro feito de rua, daqueles que conhecem a cidade não por mapas, mas pelo cheiro, pelo som e pelo perigo.
A fotografia foi tirada no final de uma tarde de céu limpo. Dá para perceber pela luz suave que batia nas pedras do chão e fazia as poças de água brilharem como se ainda guardassem o calor do sol. O fotógrafo, um homem já de idade avançada, ficou parado por um longo tempo, ajustando sua máquina grande e pesada apoiada sobre o tripé. Cobria a cabeça e o aparelho com um pano escuro, observando o enquadramento com calma, antes mesmo de pedir qualquer coisa às figuras da rua.
Naquele tempo, não era nada comum fotografar meninos de rua. Para a maioria das pessoas da cidade, eles eram apenas parte da paisagem incômoda: barulho, sujeira, algo que se devia ignorar para não estragar o passeio ou a boa aparência do bairro. Mas aquele velho fotógrafo olhou com outros olhos: ele não viu miséria nem incômodo, viu uma cena rara, tranquila, que parecia ter o calor de uma família.
Ari estava sentado no meio-fio, com a coluna quase reta, enrijecida pelo hábito de nunca relaxar por completo. Quem dorme em cantos de armazéns, atrás de caixotes ou em portas de igreja aprende cedo a manter o corpo pronto para levantar e correr a qualquer sinal de perigo. Ao seu lado, Fumaça estava deitado, encostado firme na canela do menino, como se ali fosse o lugar mais seguro e acolhedor do mundo inteiro.
Ari não tinha uma casa, não tinha um endereço onde pudesse voltar. Morava em lugares, conforme a sorte e a necessidade. Algumas noites, quando o dono do botequim, Seu Euzébio, ficava com pena, ele entrava pela porta dos fundos e dormia encolhido embaixo do balcão. Em outras, procurava abrigo no pátio de uma igreja, atrás das velas já apagadas. Nos dias de maior movimento, escondia-se entre as pilhas de caixotes do mercado, esperando o movimento cessar para descansar.
Não sabia ler as letras nem os números, mas tinha uma sabedoria muito maior: sabia ler as pessoas. Reconhecia logo quem ia cuspir nele, quem ia mandá-lo sair com gritos, quem ia oferecer restos de comida com desgosto estampado no rosto. E, mais que tudo, sabia identificar aqueles que fingiam não ver, passando ao largo como se ele não existisse.
Fumaça havia aparecido um dia de chuva forte, não com aparência de belo animal, mas sim acabado, cansado e ferido. Tinha marcas antigas pelo corpo, cortes já cicatrizados de brigas, e faltava a ponta de uma das orelhas — como se alguém tivesse arrancado por maldade ou por brincadeira cruel. Mancava de leve, sem exagerar para não despertar pena, mas com o suficiente para contar que já tinha levado muitas pancadas da vida.
Ari o viu de longe, farejando a calçada, procurando migalhas no lixo deixado por outros. Fez um chamado baixo, sem assobio alto, sem voz forte — aquele som que só quem vive na rua conhece, mistura de cuidado e desconfiança. O cachorro veio devagar, com o rabo entre as pernas, sem pressa. O menino estendeu um pedaço de mandioca cozida que tinha ganhado como resto no fundo de um restaurante. Fumaça cheirou devagar, pegou com a boca e comeu sem tirar os olhos de Ari, atento a qualquer movimento.
Naquele instante, se entenderam sem nenhuma palavra. Desde então, eram dois: dois que comiam apenas quando havia algo para comer, dois que corriam quando precisavam fugir, dois que se esquentavam no frio da madrugada, pois o frio é sempre mais suportável quando há outro corpo para dividir o calor.
Certa semana, Ari ficou gravemente doente. Uma tosse funda, seca e dolorosa, que vinha acompanhada de dor no peito e calafrios que faziam o corpo tremer. Quem já sofre de bronquite sem atendimento médico sabe que não é só uma doença: é também medo, o medo de não acordar mais. O menino tentou manter a postura, fingir que tinha forças, mas de madrugada, deitado atrás de um armazém, sem coberta e com febre alta, sentiu o focinho de Fumaça encostar suavemente no seu rosto. O cachorro lambia-o devagar, insistente, como se repetisse sem voz: “Não desmaia, não dorme para sempre, não some”. Ari sobreviveu porque acordou, e acordou porque Fumaça não saiu de perto um só minuto.
Quando o fotógrafo avistou a dupla, pediu para fazer a fotografia. Ari sorriu com desconfiança, daquele jeito de quem nunca acreditou em coisa boa que chega de graça.
— Vai demorar muito? — perguntou ele.
— Só um pouco — respondeu o homem, com voz calma.
Mas demorou sim. Naquela época, fotografar era um trabalho demorado, nada parecido com o de hoje, onde basta piscar e a imagem está pronta. Era preciso pedir ao tempo que parasse, que ficasse imóvel por alguns segundos, para que a luz marcasse o papel.
Ari ficou quieto, com a mão pequena e suja pousada sobre o lombo do cachorro. E Fumaça, por um motivo que ninguém pode explicar, permaneceu calmo, imóvel, como se entendesse que aquele instante era importante, que ali estava sendo guardada uma parte da sua história.
O clique da máquina soou baixo. Ninguém bateu palmas, ninguém parou para comentar. A cidade seguiu seu ritmo, como se nada de especial tivesse acontecido. O velho fotógrafo prometeu que voltaria para entregar uma cópia da imagem, mas nunca mais apareceu.
Quem guardou essa lembrança foi Dona Zuleica, uma mulher que vendia broa e café num carrinho de mão ali por perto. Ela viu a cena, viu a fotografia e pagou por uma cópia com moedas contadas, uma por uma, pois disse que aquilo era “coisa que não se pode perder”. Colou a imagem sobre um papelão grosso, protegeu com uma folha de plástico amarrada nas pontas, e levou-a consigo. Por muitos anos, o seu carrinho rodou pelas ruas com aquela fotografia pregada de lado, como um aviso silencioso de uma vida.
E sempre havia alguém que parava e perguntava:
— Quem é esse menino com o cachorro?
E ela respondia com voz suave:
— É só um menino e o cachorro dele. Dois que não tinham nada do que o mundo considera riqueza… e mesmo assim tinham tudo o que precisavam.
Depois daquele dia, Ari desaparece dos relatos e das lembranças. Há quem diga que ele conseguiu emprego como ajudante num navio de carga e partiu para longe. Outros contam que foi levado numa batida policial e nunca mais voltou a ser visto. Há ainda quem jure que, muitos anos depois, viu um homem crescido, com barba e mãos calejadas, trabalhando no cais e assobiando da mesma forma que aquele menino da rua.
E Fumaça? O cachorro continuou sendo o que sempre foi: leal, persistente, da forma mais simples e pura que existe. Durante algum tempo, ele voltava todos os finais de tarde para o mesmo lugar da rua, sentava-se no meio-fio, olhava ao redor, farejava o vento e esperava. Esperava o passo leve de Ari, o som do seu chamado, o calor da sua presença. Até que um dia não apareceu mais.
E talvez seja essa a parte que mais aperta o peito: não saber se ele morreu de velhice, se foi levado por alguém, ou se simplesmente pegou o caminho, seguindo atrás do único ser humano que, pela primeira vez na sua vida, não o tratou como resto ou sobra.

Hoje, mais de um século depois, essa fotografia deve estar guardada em alguma gaveta de arquivo, amarelada pelo tempo, com bordas manchadas, cheirando a papel antigo e a esquecimento. Mas se você olhar com calma, com atenção, bem no centro da imagem, vai ver o que ela tem de mais forte: a mão pequena de uma criança segurando o seu cachorro como quem segura o mundo inteiro, e o olhar atento e tranquilo de um bicho que encontrou, ali, o único lugar onde não existia medo.

A Punição da Traição na Inglaterra Medieval: O Castigo de Enforcar, Arrastar e Esquartejar

 

A Punição da Traição na Inglaterra Medieval: O Castigo de Enforcar, Arrastar e Esquartejar


A Punição da Traição na Inglaterra Medieval: O Castigo de Enforcar, Arrastar e Esquartejar

Na Inglaterra medieval, a traição era considerada o crime mais abominável de todos. Não se tratava apenas de uma ofensa jurídica ou política: implicava uma quebra total da lealdade devida ao monarca, que, na visão da época, ocupava um lugar sagrado na sociedade. Como o rei era visto como um governante escolhido diretamente por Deus, atacá-lo ou conspirar contra ele equivalia a um atentado contra a própria ordem divina estabelecida. Desse modo, a traição era um duplo delito: contra o Estado e contra a vontade celestial, exigindo uma punição à altura da sua gravidade — tão rigorosa que servisse de aviso irrefutável a todos os súditos.
Foi nesse contexto que surgiu o castigo conhecido oficialmente como “ser enforcado, arrastado e esquartejado”, uma sequência de tormentos meticulosamente planejada para causar dor extrema, desonra completa e um medo coletivo capaz de desestimular qualquer tentativa de rebelião ou conspiração. Mais do que uma pena de morte, era um ritual de destruição da identidade e da dignidade do condenado, transformado em espetáculo público.
A execução começava muito antes do momento final. O réu era retirado da prisão e amarrado a uma trave ou tábua, sendo arrastado por cavalos ao longo das ruas, do local de detenção até o cadafalso. Percorria o caminho pela poeira, pela lama e pelas pedras, exposto aos olhares, gritos e até agressões da multidão que se reunia para assistir. Esse trajeto já tinha um significado simbólico: ao ser arrastado pelo chão, o traidor era tratado como algo impuro, como se o seu corpo já não tivesse direito de se manter ereto e passasse a pertencer ao lixo e à terra.
Ao chegar ao cadafalso, vinha a segunda etapa: o enforcamento. Mas não era feito para causar morte rápida ou imediata. Usava-se um nó curto, que comprimia a garganta e cortava a respiração, mas sem quebrar o pescoço. O condenado ficava pendurado, sufocando, perdendo a consciência e voltando a si, sentindo a angústia da morte que chegava devagar — muitas vezes era retirado da corda ainda com vida, antes que o coração parasse de bater.
Então começava a parte mais cruel e longa da punição. O carrasco despia o corpo e abria o abdômen com uma faca, expondo lentamente as vísceras. A ordem era deliberada: começava-se pela remoção dos órgãos genitais, seguidos do intestino, do fígado e do coração. Cada parte retirada era levada e queimada numa fogueira acesa ao lado, diante dos olhos do condenado, que ainda respirava e sentia a dor, até que o sangramento e o choque fossem gradualmente levando-o à agonia final.
Só depois desse processo vinha a decapitação: a cabeça era cortada e reservada para ser exibida. Em seguida, o restante do corpo era serrado ou cortado em quatro partes, os chamados “quarteirões”. Todas as partes eram espalhadas e colocadas em locais públicos estratégicos — pontes, portas da cidade, torres ou praças movimentadas —, onde ficavam expostas ao tempo, aos pássaros e ao olhar de todos, durante semanas ou meses. A cabeça, por sua vez, costumava ser espetada em uma lança ou poste, sobre as muralhas da cidade, como o símbolo mais visível da consequência da traição.
Toda a cerimônia era organizada para ser vista: as autoridades garantiam espaço para a multidão, e o ato ganhava contornos de ritual público. A mensagem que se queria deixar era clara e inconfundível: quem traía o rei, traía a Deus e, portanto, perdia todo o direito de ser tratado como um ser humano digno. A sua destruição física e simbólica servia para reafirmar a autoridade real, a ordem religiosa e o poder do Estado, sustentados pelo medo.

Séculos depois, essa prática permanece como um dos exemplos mais extremos de como o poder, ao buscar consolidar-se, chegou a usar a crueldade máxima como instrumento de controle. Ela nos lembra até onde a humanidade pode ir quando a justiça se confunde com a vingança e a ordem é mantida não por consenso, mas pelo terror.

A XV de Curitiba cortada pelos trilhos do bonde. Década de 1920.

 A XV de Curitiba cortada pelos trilhos do bonde. Década de 1920.


Descendo a Ernesto Vilela em direção à Nova Rússia de Ponta Grossa.

 Descendo a Ernesto Vilela em direção à Nova Rússia de Ponta Grossa.