quinta-feira, 16 de julho de 2026

Cardeal Arcoverde: O Primeiro Cardeal da América Latina

 

Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti
Cardeal da Santa Igreja Romana
Arcebispo do Rio de Janeiro
1º Cardeal do Brasil
Atividade eclesiástica
DioceseArquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Nomeação31 de agosto de 1897
Entrada solene24 de outubro de 1897
PredecessorJoão Fernando Tiago Esberard
SucessorSebastião Cardeal Leme da Silveira Cintra
Mandato18971930
Ordenação e nomeação
Ordenação presbiteral4 de abril de 1874
Arquibasílica de São João Latrão
por Costantino Cardeal Patrizi Naro
Nomeação episcopal26 de junho de 1890
Ordenação episcopal26 de outubro de 1890
Vaticano
por Mariano Cardeal Rampolla del Tindaro
Nomeado arcebispo24 de agosto de 1897
Cardinalato
Criação11 de dezembro de 1905
por Papa Pio X
OrdemCardeal-presbítero
TítuloSão Bonifácio e Santo Aleixo
Brasão
LemaDOMINI FORTITUDO NOSTRA
A nossa força é do Senhor
Dados pessoais
NascimentoCimbres
17 de janeiro de 1850
MorteRio de Janeiro
18 de abril de 1930 (80 anos)
Nacionalidadebrasileiro
ProgenitoresMãe: Marcelina Dorotéia de Albuquerque Cavalcanti
Pai: Antônio Francisco de Albuquerque Cavalcanti
Funções exercidas-Bispo de Goiás (1890-1891)
-Bispo coadjutor de São Paulo (1892-1894)
-Bispo de São Paulo (1894-1897)
Títulos anteriores-Bispo titular de Argos (1892-1894)
SepultadoCatedral de São Sebastião do Rio de Janeiro
dados em catholic-hierarchy.org
Cardeais
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, mais conhecido como Cardeal Arcoverde (Cimbres, 17 de janeiro de 1850Rio de Janeiro, 18 de abril de 1930), foi um sacerdote católico brasileiro, primeiro a ser elevado ao título e dignidade de cardeal na América Latina.[1]

Foi reitor do Seminário de Olinda; décimo bispo nomeado de Goiás; décimo bispo de São Paulo; e décimo-terceiro bispo e segundo arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro.[2]

Biografia

Nasceu em Cimbres, no sítio Olho D'água dos Bredos, atual município de Pesqueira, no estado de Pernambuco, e era filho de Antônio Francisco de Albuquerque Cavalcanti e de Marcelina Dorotéia de Albuquerque Cavalcanti.

Descendia de Filippo Cavalcanti, italiano de Florença, e Catarina de Albuquerque.[3] Catarina, por sua vez, era filha do português Jerônimo de Albuquerque, cunhado de Duarte Coelho (primeiro capitão-donatário de Pernambuco) com a nativa Muira Ubi da etnia tabajaras, também conhecida como Maria do Espírito Santo Arcoverde. Muira era a filha do chefe tupi Arcoverde.[4]

Aos 13 anos, entrou para o Seminário Menor de Cajazeiras, na Paraíba.[5] Aos 16 anos, em 1866, seguiu para Roma, onde cursou Ciências e Letras, Filosofia e Teologia, tendo concluído seus estudos no Pontifício Colégio Pio Latino Americano.[5]

Registro de batismo.

"Aos vinte de janeiro de mil oitocentos e sessenta e nove, de minha licença o Reverendíssimo Franciscano frei Claudino da Sacra Família, na Capela de Olho d'Água dos Bredos futura Pesqueira, filial d'esta freguesia, batizou e pôs os Santos óleos = á JOAQUIM = branco, com idade de dois dias, filho legitimo de Antonio Francisco de Albuquerque Budá e de sua mulher D. Marcolina Dodothéa de Albuquerque; padrinhos: Leonardo Pacheco Couto e Anna Antônia Cordeiro. E para constar fiz-se este assento em que assino. O vigário Firmino José de Figueiredo."[6]

Presbiterado

Foi ordenado sacerdote a 4 de abril de 1874, na Arquibasílica de São João Latrão.[5][7] Por dois anos permaneceu estudando em Paris, regressando ao Brasil, em 1876, quando o bispo de Olinda, Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, o incumbiu de estrutura o Seminário, no qual foi professor de Filosofia e reitor.[5] Foi também pároco nos bairros recifenses da Boa Vista e Corpo Santo, e em Cimbres, hoje distrito de Pesqueira, em Pernambuco, onde celebrou sua primeira missa. Foi professor de francês no Recife e diretor do Colégio Pernambucano. Em 1888, Dom Pedro II o indicou para bispo auxiliar da Bahia, nomeação que não aceitou.[5]

Episcopado

No dia 26 de junho de 1890, aos 40 anos, foi indicado bispo de Goiás,[5][7] pelo Papa Leão XIII.

Recepção no Palácio São Joaquim, Rio de Janeiro, comemorativo do aniversário de sagração do Cardeal Arcoverde em 1928.

Foi sagrado bispo, em Roma, no dia 26 de outubro de 1890, pelas mãos de S. Ema. Revma. Mariano Cardeal Rampolla del Tindaro, secretário de Estado da Santa Sé, sendo co-sagrantes: S. Ema. Revma: Domenico Cardeal Ferrata, secretário da extinta Congregação de Negócios Eclesiásticos Extraordinários; e Dom Antônio de Macedo Costa, então Arcebispo de Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Renunciou ao cargo, no dia seguinte à sua sagração.

Transferiu-se para Itu, em São Paulo, onde passou a lecionar no Colégio São Luís, de propriedade dos jesuítas, que haviam voltado ao Brasil.

Em 26 de agosto de 1892, foi designado bispo auxiliar de Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, arcebispo de São Paulo, que se encontrava doente. Recebeu a sé titular de Argos.[5][7] Nesta função, foi incumbido de ir pessoalmente à Europa para contatar as congregações religiosas que deveriam vir ao Brasil para ações missionárias e de educação, quais foram: redentoristas, lazaristas e premonstratenses. Aos últimos foi confiado o Santuário de Bom Jesus e o Seminário do clero secular, na cidade paulista de Pirapora do Bom Jesus.

Brasão de armas do Cardeal Arcoverde
Brasão de armas do Cardeal Arcoverde localizado no tímpano do Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro, obra do escultor e gravador italiano Aurelio Mistruzzi.

Em 19 de agosto de 1894, estando em Paris, recebe a notícia do falecimento de Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, e também é nomeado seu sucessor. A 30 de setembro do mesmo ano toma posse como décimo bispo de São Paulo.[5][7]

Foi responsável pela fundação da Federação das Associações Católicas e, durante seu governo, deu início à construção de várias igrejas em São Paulo, entre elas a Igreja do Bom Jesus, no bairro do Brás.[8] Ainda na Diocese de São Paulo, também foi o responsável pela fundação da Paróquia-Santuário Nossa Senhora da Assunção Aparecida, localizada em Aparecida de São Manuel.[8]

A 24 de agosto de 1897, é elevado, pelo Papa Leão XIII, a arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, tomando posse a 31 de agosto de 1897.[5][7]

Cardinalato

Dom Joaquim Arcoverde, 1929

No Consistório do dia 11 de dezembro de 1905, presidido pelo Papa São Pio X, na Basílica de São Pedro, o criou Cardeal-presbítero, do título de São Bonifácio e Santo Aleixo. Tornou-se, pois, o primeiro cardeal do Brasil e da América Latina.[5][7]

Em abril de 1906, regressou ao Rio de Janeiro, onde foi recebido com grandes homenagens e manifestações de apreço. Autor de importantes cartas pastorais, destacou-se também por sua produção intelectual, publicando as obras Síntese de Filosofia (1886) e Federação Católica (1896), que revelam sua profundidade teológica e compromisso com a formação cristã e cultural.[8]

Ordenações episcopais

O Cardeal Arcoverde foi o principal sagrante dos seguintes bispos:[7]

Foi co-sagrante episcopal de:[7]

Morte

O cardeal, no seu velório.
Bispos velam o corpo do Cardeal Arcoverde.
Visita do então presidente Washington Luís.

O Cardeal passou muitos anos afastado de suas funções prelatícias, em razão da saúde; quando morreu, na Sexta-feira Santa de 1930, era ainda o único cardeal da igreja latino-americana, e ainda enchia a imprensa brasileira de esperanças de que dentro dos próximos cinquenta anos o país, maior nação católica fora da Europa, fizesse um Papa, cabendo ao país o principado da igreja no continente.[3]

Recebeu as honras fúnebres que o cerimonial de governo reserva aos vice-presidentes da república, acompanhando o próprio presidente Washington Luís as homenagens póstumas então prestadas.[3]

Seu caixão, puxado em carro fúnebre por vários sacerdotes, percorreu as ruas do Rio de Janeiro tendo à frente do cortejo o arcebispo D. Sebastião Leme,[3] cujo principal sagrante fora Arcoverde e que viria em junho a ser ele próprio nomeado pelo Papa Pio XI para o cardinalato, o segundo do Brasil.[9]

Com a presença do corpo diplomático, autoridades e um grupo de bispos do país, D. Arcoverde foi sepultado na Catedral Metropolitana.[10]

Conclaves

Referências

  1. Joaquim Arcoverde, pag. 149 - Grande Enciclopédia Universal - edição de 1980 - ed. Amazonas
  2. «Cardeal Arcoverde: quem foi?». Estadão.com.br. Consultado em 18 de janeiro de 2014
  3.  Redação (29 de abril de 1930). Disponível em Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Brasil. «O Primeiro Cardeal da Igreja Brasileira». Rio de Janeiro. O Cruzeiro (nº 77, ano 2): pág. 4-6 (6-8)
  4. «Albuquerques». Projeto Áquila Griffo-UFRJ.
  5.  «The Cardinals of the Holy Roman Church» (em inglês)
  6. Livro de Batismos [1863-1870], Matriz de Cimbres – PE. Fls. 161, S/n.
  7.  «Joaquim Cardinal Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti» (em inglês). Consultado em 15 de novembro de 2023
  8.  Oliveira, Abrahão de (5 de fevereiro de 2015). «O Primeiro Cardeal Latino Americano - Joaquim Arcoverde de Albuquerque». SP In Foco. Consultado em 31 de outubro de 2025
  9. Redação (14 de junho de 1930). Disponível em Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Brasil. «O 2º Cardeal Brasileiro». Rio de Janeiro. O Cruzeiro (nº 84, ano 2): pág. 5
  10. Redação (3 de maio de 1930). Disponível em Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional do Brasil. «O enterro na catedral do cardeal Arcoverde». Rio de Janeiro. O Cruzeiro (nº 78, ano 2): pág. 4

Cardeal Arcoverde: O Primeiro Cardeal da América Latina

Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, mais conhecido como Cardeal Arcoverde (Cimbres, 17 de janeiro de 1850 — Rio de Janeiro, 18 de abril de 1930), foi uma das figuras mais importantes da Igreja Católica no Brasil e em toda a América Latina. É reconhecido historicamente como o primeiro prelado latino-americano a receber o título e a dignidade de cardeal, marca que o situou no cenário religioso mundial.
Ao longo de sua carreira, ocupou cargos de grande responsabilidade: reitor do Seminário de Olinda, décimo bispo de Goiás, décimo bispo de São Paulo e, por fim, décimo-terceiro bispo e segundo arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Origem e Formação

Nasceu no sítio Olho D’água dos Bredos, em Cimbres — atual município de Pesqueira, no interior de Pernambuco —, filho de Antônio Francisco de Albuquerque Cavalcanti e Marcelina Dorotéia de Albuquerque Cavalcanti.
Sua linhagem é marcada por raízes diversas: descendia do italiano Filippo Cavalcanti, de Florença, e de Catarina de Albuquerque. Esta, por sua vez, era filha do português Jerônimo de Albuquerque e da indígena Muira Ubi, da etnia tabajara, também chamada de Maria do Espírito Santo Arcoverde, filha do chefe tupi Arcoverde — daí a origem do sobrenome que se tornaria célebre.
Aos 13 anos, ingressou no Seminário Menor de Cajazeiras, na Paraíba. Aos 16 anos, em 1866, seguiu para Roma, onde cursou Ciências e Letras, Filosofia e Teologia, concluindo seus estudos no Pontifício Colégio Pio Latino Americano.
Seu registro de batismo, datado de 20 de janeiro de 1869, confirma seus dados de nascimento e origem:
“Aos vinte de janeiro de mil oitocentos e sessenta e nove, de minha licença o Reverendíssimo Franciscano frei Claudino da Sacra Família, na Capela de Olho d’Água dos Bredos, batizou e pôs os Santos óleos a Joaquim, branco, com idade de dois dias, filho legítimo de Antônio Francisco de Albuquerque e de sua mulher D. Marcolina Dorotéia de Albuquerque…”

Início da Carreira Sacerdotal

Foi ordenado padre em 4 de abril de 1874, na Arquibasílica de São João Latrão, em Roma. Permaneceu mais dois anos estudando em Paris, retornando ao Brasil em 1876.
No Brasil, foi chamado por Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, bispo de Olinda, para organizar e assumir a direção do Seminário local, onde atuou como professor de Filosofia e reitor. Também exerceu o sacerdócio como pároco nos bairros do Recife — Boa Vista e Corpo Santo — e em sua terra natal, Cimbres, onde celebrou sua primeira missa. Além disso, lecionou francês e foi diretor do Colégio Pernambucano. Em 1888, recebeu indicação de Dom Pedro II para ser bispo auxiliar da Bahia, mas recusou o convite.

Trajetória no Episcopado

Em 26 de junho de 1890, aos 40 anos, foi nomeado bispo de Goiás pelo Papa Leão XIII. Recebeu a sagração episcopal em Roma, no dia 26 de outubro do mesmo ano, pelas mãos do cardeal Mariano Rampolla del Tindaro, secretário de Estado da Santa Sé. Curiosamente, renunciou ao cargo logo no dia seguinte à sua sagração.
Seguiu então para Itu, em São Paulo, onde passou a lecionar no Colégio São Luís, administrado pelos jesuítas, que haviam retornado ao Brasil.
Em 26 de agosto de 1892, foi designado bispo auxiliar do arcebispo de São Paulo, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, que estava doente, recebendo a sé titular de Argos. Nessa função, viajou à Europa para trazer ao Brasil congregações religiosas dedicadas à educação e à missão: os redentoristas, lazaristas e premonstratenses.
Com a morte de Dom Lino, em agosto de 1894, foi nomeado seu sucessor, assumindo o cargo de décimo bispo de São Paulo em 30 de setembro daquele ano. Durante seu governo, fundou a Federação das Associações Católicas, iniciou a construção de várias igrejas — entre elas a Igreja do Bom Jesus, no Brás — e instituiu a Paróquia-Santuário Nossa Senhora da Assunção Aparecida, em Aparecida de São Manuel.
Em 24 de agosto de 1897, foi elevado a arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, tomando posse no dia 31 do mesmo mês.

Primeiro Cardeal da América Latina

No Consistório de 11 de dezembro de 1905, presidido pelo Papa São Pio X, na Basílica de São Pedro, foi criado Cardeal-presbítero, com o título de São Bonifácio e Santo Aleixo. Essa nomeação fez dele o primeiro cardeal do Brasil e de toda a América Latina, um marco histórico para a Igreja no continente.
Retornou ao Rio de Janeiro em abril de 1906, recebendo grandes homenagens populares e oficiais. Além de sua atuação pastoral, deixou uma obra intelectual consistente: publicou Síntese de Filosofia (1886) e Federação Católica (1896), além de inúmeras cartas pastorais que refletiam sua visão sobre a doutrina, a educação e a presença da Igreja na sociedade.

Ordenações Episcopais

Durante sua carreira, foi responsável pela sagração de vários bispos que se tornaram figuras importantes da Igreja brasileira, entre eles:
  • Luís Raimundo da Silva Brito (1901)
  • Francisco de Paula e Silva (1907)
  • Antônio Augusto de Assis (1907)
  • Agostinho Francisco Benassi (1908)
  • Sebastião Leme da Silveira Cintra (1911) — que viria a sucedê-lo no Rio de Janeiro e também receber o cardinalato

Participação em Conclaves

Como cardeal, teve direito a participar das eleições papais:
  • Conclave de 1914: esteve presente e votou na eleição do Papa Bento XV;
  • Conclave de 1922: não chegou a tempo de participar da eleição do Papa Pio XI, em razão de problemas de saúde e distância.

Morte e Legado

O Cardeal Arcoverde passou seus últimos anos com a saúde debilitada, afastando-se gradualmente das funções ativas. Faleceu no Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1930, numa Sexta-feira Santa, aos 80 anos. Na ocasião, ainda era o único cardeal da América Latina.
Seu funeral contou com grandes honras: recebeu as mesmas homenagens reservadas pela República aos vice-presidentes, e o então presidente Washington Luís acompanhou as cerimônias. O cortejo percorreu as ruas da cidade, com o caixão sendo conduzido por sacerdotes e liderado por Dom Sebastião Leme. Foi sepultado na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro.
O Cardeal Arcoverde permanece como um símbolo da presença e da maturidade da Igreja Católica no Brasil. Sua trajetória representa a passagem do país de uma condição de colônia e província para uma posição de destaque no cenário religioso mundial, abrindo caminho para outras nomeações de prelados brasileiros para os mais altos cargos da hierarquia eclesiástica.

João Severiano de Araújo: Propriedade, Comércio e Serviço Público no Sertão da Paraíba

 

João Severiano de Araújo
Fotografia de João Severiano de Araújo, em 7 de julho de 1900.
Agente Fiscal dos Impostos e Consumos do Interior do Estado da Paraíba
Período1900-1929
Dados pessoais
Nascimentoc. 1848
Santa Luzia, Paraíba, Império do Brasil
Morte24 de junho de 1938
São José de Espinharas, Paraíba, Brasil
ProgenitoresMãe: Gertrudes Maria de Jesus
Pai: Anastácio José Dias de Araújo
CônjugeMaria Rosa Figueiredo de Araújo Costa
OcupaçãoComerciante; proprietário rural

João Severiano de Araújo (Santa Luzia, Paraíba, c. 1848 – São José de Espinharas, Paraíba, 24 de junho de 1938) foi um proprietário rural, comerciante e agente fiscal dos Impostos e Consumos no estado da Paraíba.

Origem familiar


João Severiano de Araújo nasceu por volta de 1848, no município de Santa Luzia, na então província da Paraíba. Era filho de Anastácio José Dias de Araújo e Gertrudes Maria de Jesus. Entre seus irmãos estava José Peregrino de Araújo, que posteriormente exerceu o cargo de governador da Paraíba.

Casamento

Em 29 de julho de 1868, casou-se com Maria Rosa Figueiredo de Araújo Costa, no Sítio Verduras, localizado no município de São Mamede, na Paraíba.[1] O casal teve numerosa descendência, com cerca de dezoito filhos: João Florentino de Araújo; Estefânia Amélia de Araújo; Maria de Araújo; Manoel Severiano de Araújo; Maria Severiana de Araújo; Fenelon Augusto de Araújo; Izidro Severiano de Araújo; Ozório Severiano de Araújo; Rosa Severiana de Araújo; Gertrudes Severiana de Araújo; Eugênia Severiana de Araújo; Severino de Araújo Costa; Severina Severiana de Araújo; Francisco Severiano de Araújo; José Severiano de Araújo; Ernestina Severiana de Araújo; Cícero Severiano de Araújo; e Miguel Severiano de Araújo.

A família residia no Sítio Cajazeiras, situado no município de São José de Espinharas, onde João Severiano de Araújo desenvolveu principalmente atividades ligadas à propriedade rural e ao comércio.



Comércio

Além da atividade agrícola, João Severiano de Araújo exerceu comércio no interior da Paraíba, negociando diferentes produtos de uso cotidiano. Entre os itens comercializados estava o fumo, produto amplamente consumido na região durante o período. Localmente, esse tipo de fumo era conhecido pela denominação popular “boró”, termo utilizado em algumas áreas do Nordeste para designar determinadas variedades ou formas de comercialização do tabaco.

Segundo relatos preservados na tradição oral regional, a frequente associação entre o comerciante e a venda desse produto teria contribuído para que a palavra “boró” passasse a ser utilizada como um apelido jocoso relacionado à sua figura. Com o passar do tempo, essa designação teria sido incorporada no âmbito familiar e comunitário, sendo empregada para identificar sua descendência.

Em contextos locais, membros dessa linhagem são ocasionalmente referidos como pertencentes à chamada “família Boró”, denominação de caráter popular que se consolidou na memória regional e permanece associada à descendência de João Severiano de Araújo.

Atuação pública

Em 29 de agosto de 1900, foi nomeado para a função de agente fiscal dos Impostos e Consumos, vinculada à repartição federal responsável pela fiscalização tributária no interior da Paraíba.[2] Exercia suas funções na 11ª circunscrição[nota 1] fiscal do estado, sendo responsável pela cobrança e fiscalização de tributos incidentes sobre atividades comerciais em diferentes localidades do interior.

Permaneceu no serviço público por várias décadas, aposentando-se por meio de decreto assinado em 10 de julho de 1929 pelo então presidente da República, Washington Luís.[3]

O encontro com mascates

Relatos de tradição oral associados à sua atuação como agente fiscal mencionam episódios ocorridos durante suas atividades de fiscalização no interior do estado. Segundo essas narrativas, comerciantes ambulantes conhecidos como mascate— que comercializavam produtos variados, como roupas, utensílios domésticos e gêneros diversos — também estavam sujeitos à cobrança de impostos. Em determinado episódio, ao tomarem conhecimento de que o fiscal se encontrava nas proximidades de uma localidade onde pretendiam negociar seus produtos, os comerciantes teriam optado por seguir por uma estrada de terra menos frequentada, com o objetivo de evitar um eventual encontro com o responsável pela fiscalização.

João Severiano teria seguido pelo mesmo caminho e acabou encontrando o grupo durante o percurso. Ao observar a presença dos comerciantes naquela via pouco utilizada, teria perguntado o motivo de utilizarem aquela estrada. Os mascates responderam que procuravam evitar o encontro com o agente responsável pela cobrança de impostos na região. Sem revelar imediatamente sua identidade, João Severiano teria apenas esboçado um sorriso e respondido de forma breve:

“Então, se perguntarem, digam que não me viram”.

Morte

João Severiano de Araújo faleceu em 24 de junho de 1938, aos 90 anos de idade, em decorrência de febre, no Sítio Cajazeiras, localizado no município de São José de Espinharas, no estado da Paraíba.

João Severiano de Araújo: Propriedade, Comércio e Serviço Público no Sertão da Paraíba

João Severiano de Araújo (Santa Luzia, Paraíba, c. 1848 – São José de Espinharas, Paraíba, 24 de junho de 1938) foi uma figura de destaque na vida econômica e administrativa do interior paraibano no final do século XIX e início do XX. Exerceu atividades como proprietário rural, comerciante e agente fiscal dos Impostos e Consumos, deixando marca tanto na estrutura econômica local quanto na memória e tradições da região.

Origem Familiar

Nasceu por volta de 1848, no município de Santa Luzia, então parte da província da Paraíba. Era filho de Anastácio José Dias de Araújo e Gertrudes Maria de Jesus. Pertencia a uma família com forte presença na política e na vida pública do estado: um de seus irmãos, José Peregrino de Araújo, viria a ocupar o cargo de governador da Paraíba, ampliando a influência do clã em todo o território estadual.

Casamento e Descendência

Em 29 de julho de 1868, contraiu matrimônio com Maria Rosa Figueiredo de Araújo Costa, na localidade de Sítio Verduras, no município de São Mamede. A união deu origem a uma numerosa prole, composta por cerca de dezoito filhos:
  • João Florentino de Araújo
  • Estefânia Amélia de Araújo
  • Maria de Araújo
  • Manoel Severiano de Araújo
  • Maria Severiana de Araújo
  • Fenelon Augusto de Araújo
  • Izidro Severiano de Araújo
  • Ozório Severiano de Araújo
  • Rosa Severiana de Araújo
  • Gertrudes Severiana de Araújo
  • Eugênia Severiana de Araújo
  • Severino de Araújo Costa
  • Severina Severiana de Araújo
  • Francisco Severiano de Araújo
  • José Severiano de Araújo
  • Ernestina Severiana de Araújo
  • Cícero Severiano de Araújo
  • Miguel Severiano de Araújo
A família estabeleceu residência no Sítio Cajazeiras, no município de São José de Espinharas, onde João Severiano desenvolveu a maior parte de suas atividades econômicas e onde permaneceu até o fim de sua vida.

Atividades no Comércio e a Origem do Apelido

Além da exploração de suas terras, onde praticava a agricultura e a criação de gado, João Severiano atuou intensamente no comércio do interior. Negociava uma ampla variedade de produtos de uso cotidiano, com destaque para o fumo, mercadoria muito procurada e consumida em toda a região do sertão.
O tipo de tabaco que comercializava era conhecido popularmente na época como “boró” — termo usado no Nordeste para designar certas variedades ou formas de apresentação do produto. A constante associação entre o comerciante e essa mercadoria fez com que, com o tempo, a palavra “boró” se tornasse um apelido jocoso e carinhoso atribuído a ele. A designação acabou se consolidando e, até hoje, os descendentes de João Severiano de Araújo são frequentemente referidos na região como membros da “família Boró”, uma marca identitária preservada na memória coletiva local.

Atuação no Serviço Público

Em 29 de agosto de 1900, João Severiano foi nomeado para o cargo de agente fiscal dos Impostos e Consumos, função vinculada à administração tributária federal. Exerceu suas atribuições na 11ª circunscrição fiscal da Paraíba, sendo responsável pela fiscalização e cobrança de tributos sobre atividades comerciais e produtivas em diversas localidades do interior do estado.
Permaneceu no serviço público por quase três décadas, mantendo-se no cargo até se aposentar oficialmente em 10 de julho de 1929, por meio de decreto assinado pelo então presidente da República, Washington Luís.

Episódio com os Mascates

A tradição oral da região guarda um relato curioso sobre sua atuação como fiscal. Na época, os mascates — comerciantes ambulantes que percorriam o sertão vendendo roupas, utensílios e gêneros alimentícios — também estavam sujeitos à cobrança de impostos.
Em certa ocasião, ao saberem que o agente fiscal estava nas proximidades, um grupo de mascates decidiu desviar de sua rota habitual e seguir por uma estrada de terra pouco movimentada, na tentativa de evitar o encontro e a cobrança. Por coincidência, João Severiano também tomou o mesmo caminho e acabou cruzando com eles.
Ao perguntar o motivo de usarem aquela via, os comerciantes responderam francamente que queriam evitar o fiscal da região. Sem revelar de imediato quem era, ele apenas sorriu e respondeu com uma frase que ficou famosa:
“Então, se perguntarem, digam que não me viram.”
O episódio revela a perspicácia e o senso de humor que lhe eram atribuídos, características que ajudaram a compor a imagem que a comunidade guardou dele ao longo dos anos.

Morte

João Severiano de Araújo faleceu em 24 de junho de 1938, no Sítio Cajazeiras, em São José de Espinharas, aos 90 anos de idade. A causa da morte foi registrada como febre, enfermidade comum no interior nordestino da época.
Sua trajetória representa a figura do homem de negócios e servidor público que, ao longo de quase um século, participou ativamente da organização econômica e social do sertão paraibano, deixando uma linhagem e uma identidade familiar que perduram até os dias atuais.