segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Benta Pereira: A Patriarca Matriarca e a Revolta Contra o Visconde de Asseca

 

Monumento com um retrato de Benta Pereira em Campos dos Goytacazes

Benta Pereira (1675 - 1760) nascida na vila de São Salvador, no Campo dos Goytacazes no Rio de Janeiro. Filha de Domingos da Cerveira e de Izabel de Souza, ela participou ativamente do Levante de 21 de maio de 1748 também conhecido como "Revolta de Benta Pereira", porém ainda há dúvidas se sua participação foi somente na liderança e na coordenação da revolta ou se de fato pegou em armas.[1]

Biografia

Benta Pereira nasceu em 1675 na vila de São Salvador, filha de Domingos Pereira da Cerveira e Izabel de Souza. Foi casada com Pedro Manhães Barreto até o dia da morte dele, em 1713, com quem teve seis filhos.[1]

Monumento a Benta Pereira em Campo dos Goytacazes

Após se tornar viúva Benta pereira se torna uma mulher muito influente e dona de terras. Ela construiu uma rede de influência casando suas filhas com figuras importantes da região.[1]

Seus filhos também participaram do levante contra o Visconde de Asseca, o 4° donatário da capitânia, que já estavam no poder por quatro gerações Manuel Manhães Barreto foi à Câmara Municipal com cartas expressando o descontentamento dos fazendeiros com a posse do 4º Donatário da capitânia, o Visconde de Asseca, porém foi expulso da Câmara municipal e suas cartas ignoradas. Em repercussão disto, fazendeiros se reuniram em frente a Câmara Municipal dispostos a pegar em armas, tendo como figura central dessa manifestação Mariana de Souza Barreto, outra filha de Benta Pereira.[1]

Benta Pereira participou da revolta articulando e coordenando seu grupo familiar que se opôs a família Asseca. Sua posição de influência devido às terras e os casamentos de suas filhas a auxiliaram na coordenação da revolta.[1]

A Revolta

O levante de 21 de maio de 1748 foi uma resposta de moradores e fazendeiros que se indignaram com a tirania do donatário da capitânia de Paranaíba do Sul, o Visconde de Asseca, da Família Correia de Sá. O visconde frequentemente acusava moradores de ocuparem áreas irregularmente, enviava suas tropas para atear fogo em suas propriedades.[1]

Em abril de 1748, surgiram boatos que o donatário iria à cidade, na câmara municipal, para empossar o novo donatário, o Quarto Visconde de Asseca. Ao saber disso, Manuel Manhães Barreto preparou um requerimento que visava barrar a posse do novo donatário. No entanto, a Câmara era favorável a família do visconde e o expulsou causando uma revolta na população que liderada por Mariana de Souza Barreto, invadiu a Câmara e conseguiu suspender a posse do donatário.[2]

No dia 21 de maio de 1748, o capitão-mor da vila de São Salvador, Antônio Teixera Nunes, planejou dar a força a posse ao Visconde de Asseca o que transforma a Vila de São Salvador em um campo de batalha. Benta Pereira passa comandar os rebeldes que atacam a casa do capitão-mor, o que resulta em sua prisão.[2]

O governador da capitânia do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, ao ficar sabendo dessa revolta, ordena que o general João Almeida e Souza reunisse cerca de 200 tropas para retomar a Vila de São Salvador. Os revoltados que não fugiram foram derrotados e presos e condenados a prisão e o degredo para a África, entre estes estavam Mariana de Souza Barreto, filha de Benta Pereira.[2]

Em 1752, para evitar uma nova revolta, o rei José I de Portugal concede perdão régio para os revoltosos. Em 1754, a capitânia foi incorporada pelo rei, deixando de ser privada e sendo empossada por Sebastião da cunha Coutinho Rangel.[2]

Referências

  1.  «Benta Pereira». Impressões Rebeldes. Consultado em 11 de dezembro de 2024
  2.  «Revolta de Benta Pereira». Impressões Rebeldes. Consultado em 11 de dezembro de 2024

Benta Pereira: A Patriarca Matriarca e a Revolta Contra o Visconde de Asseca

Benta Pereira (1675 — 1760) foi uma figura central, corajosa e de imensa influência na história colonial do norte do estado do Rio de Janeiro. Nascida na vila de São Salvador, no Campo dos Goytacazes, ela notabilizou-se por liderar a resistência política e familiar contra os abusos do poder donatário na célebre Revolta de 21 de maio de 1748 — um marco de contestação antinobiliárquica que ficou conhecido como a "Revolta de Benta Pereira".

🌳 Biografia e Ascensão Social

Benta Pereira nasceu em 1675 na vila de São Salvador, sendo filha de Domingos Pereira da Cerveira e de Izabel de Souza.

  • Viúvez e Poder Económico: Foi casada com Pedro Manhães Barreto até o falecimento deste em 1713, união da qual resultaram seis filhos. Após a morte do marido, Benta consolidou-se como uma mulher de negócios astuta, tornando-se proprietária de terras e construindo uma sólida rede de influência regional através de alianças matrimoniais estratégicas das suas filhas com figuras de destaque local.

  • O Clã em Ação: A oposição à tirania do donatário mobilizou toda a família. O seu filho, Manuel Manhães Barreto, e a sua filha, Mariana de Souza Barreto, destacaram-se na linha da frente da contestação política que abalaria a capitânia.

⚔️ O Contexto e a Revolta de 21 de Maio de 1748

A revolta nasceu da profunda indignação popular e dos fazendeiros contra o domínio opressor do Visconde de Asseca (da poderosa família Correia de Sá), o 4.º donatário da capitânia de Paraíba do Sul. Os donatários tiranizavam a região, acusando falsamente os moradores de ocupação irregular de terras e enviando tropas para incendiar propriedades.

A Cronologia do Levante

  1. Abril de 1748: Ao saber que o 4.º Visconde de Asseca pretendia tomar posse formal na Câmara Municipal, Manuel Manhães Barreto preparou um requerimento de repúdio. Contudo, a Câmara — alinhada aos interesses do donatário — expulsou-o. Em resposta, a população revoltou-se, liderada por Mariana de Souza Barreto, invadindo a Câmara e suspendendo temporariamente a posse.

  2. O Estopim de 21 de Maio de 1748: O capitão-mor da vila, Antônio Teixeira Nunes, tentou impor a força a posse do Visconde, transformando a Vila de São Salvador num verdadeiro campo de batalha. É neste momento que Benta Pereira assume o comando direto dos revoltosos, orquestrando o ataque à residência do capitão-mor e resultando na sua prisão. Embora persista o debate historiográfico sobre se Benta pegou diretamente em armas ou se exerceu uma brilhante liderança estratégica e de coordenação, o seu papel de comandante do grupo familiar e rebelde é inegável.

⚖️ A Repressão e o Desfecho Histórico

A reação do Estado colonial não tardou. Ao tomar conhecimento do levantamento, o governador da Capitânia do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, ordenou ao general João Almeida e Souza que marchasse sobre a Vila de São Salvador à frente de cerca de 200 soldados.

  • Derrota e Degredo: Os revoltosos que não conseguiram fugir foram capturados. Entre os presos encontrava-se Mariana de Souza Barreto, filha de Benta, que acabou condenada à prisão e ao degredo para a África.

  • A Amnistia Régia (1752): Temendo novos rastos de insurreição na zona campista, o rei D. José I de Portugal concedeu o perdão régio aos revoltosos em 1752.

  • Fim da Capitânia Privada (1754): A pressão exercida pela revolta surtiu efeito duradouro: em 1754, a capitânia foi finalmente incorporada à Coroa portuguesa, deixando de ser um domínio privado e sendo administrada por Sebastião da Cunha Coutinho Rangel.

Benta Pereira viria a falecer em 1760, aos 85 anos, deixando gravado o seu nome na história como símbolo de resistência feminina, tenacidade e defesa implacável da terra contra o arbítrio senhorial.


Manuel Arruda da Câmara: O Naturalista Ilustrado e Visionário do Nordeste Brasileiro

 

Manuel Arruda Câmara
Pintura de Manoel Arruda Câmara (Vultos da Paraíba, de Oscar de Oliveira Castro)
Nascimento
Morte
2 de outubro de 1810 (58 anos)

Alma materUniversidade de Coimbra
Carreira científica
Campo(s)botânica

Manuel Arruda da Câmara (Pombal, 1752Goiana, 2 de outubro de 1810) foi um cientista, médico e religioso brasileiro. Notabilizou-se como um dos grandes naturalistas do fim do século XVIII.[1]

Arruda Câmara foi um dos fundadores da primeira loja maçônica do Brasil: o Areópago, em Itambé (Pernambuco).[2][3]

Biografia

Filho de Francisco Arruda Câmara e de Maria Saraiva da Silva, Manuel Arruda da Câmara nasceu em Pombal, na então Capitania Geral de Pernambuco, em área que corresponde ao atual estado da Paraíba. Provinha de uma família de cristãos-novos - judeus convertidos ao cristianismo, a fim de evitar as perseguições da Inquisição.

Em 23 de novembro de 1783 professou a fé dos Carmelitas Calçados, no Convento de Goiana, em Pernambuco. Posteriormente, Arruda Câmara e seu irmão, Francisco Arruda da Câmara, viajaram à Europa, para fins de estudos. Lá formou-se em Filosofia Natural, pela Universidade de Coimbra. Mais tarde, recebeu o grau de doutor em Medicina pela Universidade de Montpellier, na França.

Retornou em 1793 a Pernambuco, estabeleceu-se em Goiana, tendo sido incumbido, pela Coroa portuguesa, de realizar diversos levantamentos naturais na região Nordeste do Brasil. Entre março de 1794 e setembro de 1795 empreendeu uma expedição mineralógica entre Pernambuco e Piauí, levantando a ocorrência de diversos minerais. Já entre dezembro de 1797 e julho de 1799 viajou entre a Paraíba e o Ceará. Também realizou viagens ao vale do rio São Francisco.

No conjunto dessas expedições científicas, realizou levantamentos mineralógicos, botânicos e zoológicos, por ele próprio sistematizados. Produziu escritos sobre agricultura e a flora de Pernambuco (Centúrias dos novos gêneros e espécies das plantas pernambucanas), os quais contêm desenhos feitos por ele e pelo Padre João Ribeiro.

Como maçom foi fundador do Areópago de Itambé, loja maçônica de tendência liberal, cujas ideias teriam influenciado a suposta Conspiração dos Suassunas (1801).[4]

Em sua homenagem há em João Pessoa, capital paraibana, um parque zoobotânico com seu nome, o Parque Arruda Câmara, popularmente conhecido como "Bica". Além disso, é também patrono de uma das cadeiras da Academia Paraibana de Letras.

Obras

  • Aviso aos lavradores sobre a suposta fermentação de qualquer qualidade de grãos ou pevides para aumento da colheita, Lisboa, 1792.
  • A memória sobre a cultura do algodoeiro, 1797.
  • Dissertação sobre as plantas do Brasil, que podem dar linhos próprios para muitos usos da sociedade e suprir a falta do cânhamo, 1817.
  • Discurso sobre a vitalidade da instituição de jardins nas principais províncias do país, 1810.
  • Memórias sobre o algodão de Pernambuco, Lisboa, 1810.
  • Memórias sobre as plantas de que se podem fazer baunilha no Brasil, (nas memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa, v.40, 1814).
  • Tratado de Agricultura.
  • Tratado da lógica.

Academia Paraibana de Letras

É patrono da cadeira de número 2 da Academia Paraibana de Letras, que tem como fundador o médico Eugênio Carvalho.

Referências

  1. Holanda, Sérgio Buarque de (1970). História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difusão Europeia do Livro. pp. 207–237|"A agitação republicana no nordeste"
  2. Lídia Besouchet. «José Maria Paranhos, Visconde do Rio Branco: ensaio histórico-biográfico». Google Livros. Consultado em 28 de abril de 2017
  3. Laurentino Gomes. «1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram dom Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado». Google Livros. Consultado em 28 de abril de 2017
  4. ANDRADE, B. G. "A carta de amor extraviada" ou "Sobre a conspiração epistolar desencontrada: indagações sobre a existência da suposta conspiração dos Suassuna ocorrida no memorável ano de 1801. Sæculum – Revista de História, n. 28, 30 jun. 2013.
  • «Biografia». redememoria.bn.br na Rede da Memória Virtual Brasileira

Manuel Arruda da Câmara: O Naturalista Ilustrado e Visionário do Nordeste Brasileiro

Manuel Arruda da Câmara (Pombal, 1752 — Goiana, 2 de outubro de 1810) foi um dos mais brilhantes cientistas, médicos, religiosos e naturalistas do final do século XVIII e início do século XIX no Brasil. Homem de vasta erudição iluminista, destacou-se tanto pelas suas inovações no campo das ciências naturais e da agricultura quanto pela sua participação ativa em movimentos de agitação política e liberal.

🧬 Origens, Família e Formação Académica

Nascido em Pombal (na então Capitania Geral de Pernambuco, área integrada no atual estado da Paraíba), Manuel Arruda da Câmara era filho de Francisco Arruda Câmara e de Maria Saraiva da Silva. A sua família provinha de uma estirpe de cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo para escapar às perseguições da Inquisição).

A sua trajetória religiosa e académica moldou-lhe o pensamento:

  • Vida Religiosa: A 23 de novembro de 1783, professou a fé dos Carmelitas Calçados no Convento de Goiana, em Pernambuco.

  • Estudos na Europa: Juntamente com o seu irmão, Francisco Arruda da Câmara, viajou para a Europa para aprofundar os seus conhecimentos. Licenciou-se em Filosofia Natural pela prestigiada Universidade de Coimbra e, posteriormente, obteve o grau de doutor em Medicina pela Universidade de Montpellier, em França, um dos grandes centros de saber científico da época.

🔬 As Grandes Expedições Científicas no Nordeste

De regresso ao Brasil em 1793, estabeleceu-se em Goiana. Devido ao seu enorme prestígio científico, foi incumbido pela Coroa portuguesa de realizar minuciosos levantamentos dos recursos naturais da região Nordeste.

Entre as suas expedições de destaque, contam-se:

  • Expedição Mineralógica (1794–1795): Viajou entre Pernambuco e o Piauí, catalogando ocorrências minerais.

  • Expedição Paraíba-Ceará (1797–1799): Realizou extensas pesquisas botânicas, zoológicas e geológicas.

  • Vale do São Francisco: Conduziu também missões de exploração científica a esta importante bacia hidrográfica.

Sistematizando pessoalmente os seus achados, produziu estudos fundamentais sobre a agricultura e a flora nordestina — com destaque para a obra Centúrias dos novos gêneros e espécies das plantas pernambucanas, ilustrada com desenhos executados pelo próprio e pelo Padre João Ribeiro.

🏛️ Ideias Liberais e a Maçonaria

Para além do seu labor científico, Arruda Câmara teve um papel pioneiro na política e no pensamento liberal brasileiro:

  • O Areópago de Itambé: Foi um dos fundadores da primeira loja maçônica do Brasil, o Areópago, situado em Itambé (Pernambuco).

  • Influência Política: As ideias liberais e reformistas debatidas no âmbito do Areópago exerceram forte influência intelectual sobre os movimentos de contestação da época, sendo apontadas como inspiradoras da suposta Conspiração dos Suassunas (1801).

📚 Legado Literário e Científico

Arruda Câmara deixou uma vasta produção escrita voltada para a melhoria económica, agrícola e sanitária da colónia. Entre as suas principais obras encontram-se:

  • Aviso aos lavradores sobre a suposta fermentação de qualquer qualidade de grãos ou pevides para aumento da colheita (Lisboa, 1792)

  • A memória sobre a cultura do algodoeiro (1797)

  • Memórias sobre o algodão de Pernambuco (Lisboa, 1810)

  • Discurso sobre a vitalidade da instituição de jardins nas principais províncias do país (1810)

  • Dissertação sobre as plantas do Brasil, que podem dar linhos próprios para muitos usos da sociedade e suprir a falta do cânhamo (1817, póstuma)

  • Memórias sobre as plantas de que se podem fazer baunilha no Brasil (publicado nas Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa, v.40, 1814)

  • Tratado de Agricultura e Tratado da lógica

🏅 Reconhecimento e Homenagens

Manuel Arruda da Câmara faleceu a 2 de outubro de 1810 em Goiana. O seu contributo para a cultura, as letras e a ciência continua vivamente recordado:

  • Academia Paraibana de Letras: É o patrono da cadeira de número 2 da instituição (cujo fundador foi o médico Eugênio Carvalho).

  • Parque Arruda Câmara ("A Bica"): Em João Pessoa, capital paraibana, dá o nome ao tradicional parque zoobotânico da cidade, carinhosamente conhecido pela população como "Bica".


Marcos Coelho Neto: O Legado Musical de Pai e Filho no Ouro de Vila Rica

 

Marcos Coelho Neto
Informações gerais
Nascimento1763 ou c. 1776
Vila Rica, Capitania de Minas Gerais, Brasil Colônia
Morte1823
Nacionalidadebrasileiro
OcupaçãoCompositor e regente
Instrumento(s)Trompa, clarim e trompete

Marcos Coelho Neto (nascido em 1763 ou por volta de 1776; morto em 1823), também grafado Marcos Coelho Netto e frequentemente chamado de Marcos Coelho Neto Filho para distingui-lo do pai homônimo, foi um compositor, regente e instrumentista brasileiro. Desenvolveu sua carreira em Vila Rica, capital da Capitania de Minas Gerais, onde tocou trompa, clarim e trompete.[1][2]

Coelho Neto e seu pai participaram das festividades reais de 1786 na Casa da Ópera. Em 1804, o filho era trompetista do Primeiro Regimento de Milícias, enquanto o pai servia como timpanista do regimento.[3][4][5] Pertenceu às irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês de Cima, tocando em suas cerimônias e dirigindo repetidas vezes a novena e a festa de São José. Em 1812, juntou-se a outros trinta músicos em uma petição para fundar uma irmandade de Santa Cecília e limitar as exigências de apresentações não remuneradas. Venceu os contratos municipais de música de Vila Rica em 1814 e 1815, dirigindo os cantores e instrumentistas contratados para as cerimônias públicas.[6]

Grande parte da música sacra que traz o nome Marcos Coelho Neto não pode ser atribuída com segurança ao pai ou ao filho. O repertório compreende o hino Maria Mater Gratiae, de 1787, versões da Ladainha Lauretana em dó, ré e fá, as antífonas Salve Regina e Crucem Tuam e responsórios para Santo Antônio. Essas obras empregam, em geral, quatro partes vocais, cordas, baixo e pares de instrumentos de sopro. Análises de peças específicas identificam elementos barrocos, galantes e clássicos em sua escrita vocal, harmonia e forma.[7][8] A análise da caligrafia favorece o filho como autor de grande parte do repertório, embora alguns estudiosos atribuam obras específicas ao pai ou deixem a questão em aberto.[9]

A música voltou a ser executada graças ao trabalho de Francisco Curt Lange em Minas Gerais entre 1944 e 1946. Entre os manuscritos que ele reuniu estava a partitura autógrafa de Maria Mater Gratiae, datada de 1787 e hoje conservada no Museu da Inconfidência.[10][11] Lange publicou o hino em 1951, ao que se seguiram apresentações na Argentina e no Brasil e uma gravação realizada no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, em 1958. Outras partituras, apresentações e gravações ampliaram o repertório disponível, sem resolver a divisão das obras entre pai e filho.[10][12]

Vida e carreira

Família e identidade

Marcos Coelho Neto nasceu em Vila Rica, então capital da Capitania de Minas Gerais, mas a data exata de seu nascimento é desconhecida. Francisco Curt Lange informou a existência de um registro de batismo de 1763 para o filho primogênito de Marcos Coelho Neto, data posteriormente adotada por catálogos e edições institucionais.[13][1] O recenseamento de Vila Rica de 1804, no entanto, registra o músico com 28 anos, o que indicaria um nascimento por volta de 1776.[2] A divergência permanece sem solução, e 1763–1823 continua sendo a cronologia convencionalmente mais utilizada.

A reconstrução de sua biografia é dificultada pela homonímia com o pai, também músico em Vila Rica e morto em 1806. O recenseamento de 1804 é um dos poucos documentos que os distingue claramente: nele, Coelho Neto aparece como trompetista do Primeiro Regimento de Milícias, aos 28 anos, enquanto seu pai, de 58, servia como timpanista.[5][2] Como ambos trabalharam para algumas das mesmas instituições, muitos documentos registram apenas o nome “Marcos Coelho Neto”. Por conveniência, a historiografia costuma diferenciá-los como pai e filho, embora “Marcos Coelho Neto Filho” não tenha sido uma forma usada de maneira constante em sua época. A variante Coelho Netto também é encontrada nas fontes.[14][15] Essa ambiguidade se estende aos manuscritos musicais, e a atribuição de algumas obras continua controvertida.[14][7][1]

Coelho Neto pertenceu, assim como o pai, às irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês de Cima. Lange baseou-se principalmente nessa associação para descrevê-los como mulatos, mas pesquisas mais recentes observam que a filiação a uma irmandade não basta, por si só, para determinar a ascendência de uma pessoa.[16] A documentação conhecida não permite definir com maior precisão a origem familiar de Coelho Neto nem sustenta a afirmação, reproduzida em algumas fontes modernas, de que seu pai teria sido escravizado.

Atuação profissional em Vila Rica

Coelho Neto começa a aparecer com clareza nos registros municipais em 1785, quando uma relação de músicos o identifica como segunda trompa, ao lado do pai, que tocava a primeira. No ano seguinte, participou como segundo clarim das festividades reais de Vila Rica. Voltou a ser contratado como segunda trompa em 1789 e 1791 e como segundo clarim em um Te Deum de 1792. Outras duas relações, não datadas, também o registram entre os trompistas nos últimos anos do século XVIII. Esses documentos mostram que tocava trompa, clarim e trompete — instrumentos mencionados nas fontes da época como trompa, clarim e trombeta.[3]

Para as festas anuais e celebrações extraordinárias, o Senado da Câmara contratava a música por meio de arrematações públicas. O vencedor ficava responsável por reunir os cantores e instrumentistas e providenciar o repertório necessário. Antes de conquistar contratos em seu próprio nome, Coelho Neto participou de conjuntos organizados por outros mestres de música.[6]

Uma dessas ocasiões foram as festas de maio de 1786, realizadas para celebrar os casamentos entre as famílias reais de Portugal e Espanha.[17] A programação da Casa da Ópera incluía três óperas e dois dramas. Uma prestação de contas de 29 de dezembro registra despesas com a orquestra, a cópia e o ensino da música, os intérpretes, os figurinos, a iluminação, os cenários e os mecanismos de palco.[4] Marcos Coelho e o filho receberam conjuntamente cinco oitavas e doze vinténs de ouro, mas o documento não informa quanto coube a cada um nem qual foi a função desempenhada por Coelho Neto.[6] O registro comprova sua participação no conjunto do teatro, mas não indica que tenha ocupado um posto permanente na Casa da Ópera ou dirigido as produções.

Em 1804, Coelho Neto aparece no recenseamento de Vila Rica como trompetista do Primeiro Regimento de Milícias.[5] Em agosto de 1812, foi o segundo dos 31 “professores da arte da música” que assinaram uma petição para criar uma Irmandade de Santa Cecília na igreja matriz de Ouro Preto. O grupo pretendia se proteger das frequentes exigências de apresentações sem pagamento.[6] Sua posição profissional já estava consolidada quando venceu as arrematações municipais de música em 1814 e 1815. Recebeu 56$000 réis em cada ano e, como regente, encarregou-se de reunir e preparar os músicos para as festividades promovidas pelo Senado da Câmara.[6][3]

Sua trajetória como instrumentista e regente é mais fácil de acompanhar do que seu trabalho como compositor. Como os manuscritos trazem apenas o nome “Marcos Coelho Neto”, nem sempre é possível saber qual dos dois músicos os escreveu. Paulo Castagna atribui ao filho as composições sacras registradas sob esse nome, enquanto Harry Crowl as atribui ao pai e Sílvio Crespo Filho considera o Himno a 4, de 1787, uma obra do músico mais velho.[14][18][7]

Irmandades e música religiosa

Coelho Neto pertenceu à Irmandade de São José dos Homens Pardos e à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Cima. Tocou trompa e clarim para as duas associações.[14] Em São José, foi contratado oito vezes como regente da novena e da festa do padroeiro, o maior total entre os dezesseis regentes contratados de 1759 a 1815. Esses acordos normalmente eram feitos de forma oral nas reuniões da mesa administrativa, cujas atas frequentemente omitiam o nome do regente.[19]

A festa combinava uma novena com a exposição eucarística em 19 de março. Antes de a renda da irmandade diminuir, a partir de 1819, a música para a novena e a festa normalmente custava entre vinte e 35 oitavas de ouro, divididas entre o regente e seu conjunto. A capela também contratava músicos para a festa de Nossa Senhora do Parto, cuja imagem ficava em um altar lateral.[20]

São José unia o patrocínio religioso a vínculos profissionais e sociais. Os músicos constituíam cerca de um quinto dos membros cujas ocupações são conhecidas, e 55 músicos exerceram cargos ou integraram a mesa administrativa entre 1727 e 1822.[21] O próprio círculo de Coelho Neto pode ser identificado na aprovação do testamento do compositor Francisco Gomes da Rocha, em 1809. Coelho Neto e Caetano Rodrigues da Silva, o moço, serviram como testemunhas. O testamenteiro e a terceira testemunha também eram membros de São José.[22]

Em agosto de 1812, Coelho Neto juntou-se a Florêncio José Ferreira Coutinho, João de Deus de Castro Lobo e outros músicos profissionais em uma petição para criar uma irmandade dedicada a Santa Cecília na igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar. A petição pretendia limitar as apresentações não remuneradas em oratórios particulares, igrejas, funerais e outras cerimônias com música.[6] Os estatutos da irmandade, de 1815, repetiram essa restrição, mas o príncipe regente João suprimiu a cláusula que teria proibido serviços gratuitos em cerimônias particulares. A Irmandade de Santa Cecília transferiu-se para um altar lateral de São José em 1823, depois de seus membros declararem que a maioria deles também pertencia a São José.[23]

Últimos anos e morte

Coelho Neto foi casado com Joana Teixeira da Silva e ensinou música ao filho dela, João Antônio Teixeira Rijo. Mais tarde, Rijo obteve renda como músico. Em 1823, Coelho Neto havia se tornado mentalmente incapaz, e naquele ano foi publicado um aviso que exigia a realização do inventário de seus bens. Morreu em 1823.[24][1]

Música

Repertório sacro e função litúrgica

As composições relacionadas ao nome Marcos Coelho Neto formam um repertório sacro sobre textos em latim. Incluem o hino mariano Maria Mater Gratiae, as antífonas Salve Regina e Crucem Tuam, ladainhas em dó, ré e fá e responsórios para Santo Antônio.[25][26][27]

Maria Mater Gratiae, datado de 29 de novembro de 1787, foi escrito para quatro partes vocais, violinos, viola, trompas e baixo. Suas duas estrofes pedem a Maria que proteja os fiéis do inimigo e os receba na hora da morte, e em seguida oferecem uma doxologia a Cristo, ao Pai e ao Espírito Santo.[7] As ladainhas musicam a Ladainha Lauretana. Tais composições faziam parte das novenas, práticas paralitúrgicas realizadas durante nove dias em preparação para a festa de um santo. A ladainha em dó maior requer quatro partes vocais, dois oboés, duas trompas, dois violinos, viola e baixo.[1] A ladainha em ré maior emprega quatro partes vocais, duas trompas, dois violinos, viola e contrabaixo.[28]

Salve Regina pertence ao repertório de antífonas marianas. Crucem Tuam musica um texto para a adoração da Cruz na Sexta-feira Santa, enquanto os responsórios datados de 1799 se relacionam à devoção a Santo Antônio.[26][29][27]

Essa música era executada por pequenos grupos profissionais, e não por orquestras permanentes no sentido moderno. Nas Minas Gerais do século XVIII, uma companhia de música ou um partido de música habitual reunia quatro partes vocais, por vezes dobradas, a cordas, baixo e pares de flautas, oboés ou trompas. Irmandades e senados municipais contratavam mestres de música para organizar esses grupos, compor para festas religiosas e fornecer música para cerimônias ligadas à corte portuguesa.[8] As próprias obras em latim mantinham uma função religiosa, ainda que seus intérpretes também atuassem em cerimônias teatrais, militares e municipais.

Estilo musical e prática de execução

A introdução orquestral de Maria Mater Gratiae apresenta os principais motivos da obra. Eles retornam nos violinos, ligam as frases vocais e ajudam a dar unidade à breve composição. O contralto inicia a primeira passagem coral em diálogo concertante com as outras vozes, seguido por uma escrita predominantemente homofônica. O plano tonal parte de si menor, passa a seu relativo maior, ré maior, e por sol maior antes de retornar a si menor. Sílvio Crespo Filho caracterizou como barrocos a expressão, as sequências harmônicas e a escrita temática orquestral da obra, ao mesmo tempo que identificou traços clássicos em suas frases equilibradas, no plano tonal simétrico e no desenvolvimento temático.[7]

A Ladainha de Nossa Senhora a quatro, em dó maior, atribuída provisoriamente ao Coelho Neto mais jovem, também utiliza escrita concertante. Passagens corais completas alternam-se com solos e duetos. Uma introdução instrumental e interlúdios conduzem as transições tonais, enquanto os motivos recorrentes variam de uma escrita diatônica a outra mais cromática. O percurso tonal alcança si bemol maior e dó menor a partir do centro principal de dó maior. As trompas soam durante grande parte da peça, o que lhe rendeu o título informal de Ladainha das trompas.[1]

A ladainha em ré maior tem 196 compassos divididos em quatro movimentos: um Allegro, um Largo molto de seis compassos, um extenso Andante levado e um Allegro final. A divisão acompanha a estrutura da oração. O primeiro movimento musica o Kyrie e as invocações à Trindade; o segundo introduz “Sancta Maria”; o terceiro contém os títulos marianos; e o quarto musica o Agnus Dei. No terceiro movimento, as invocações e o “ora pro nobis” repetido passam por solos seccionais, duetos, escrita coral homorrítmica, passagens em uníssono, ostinatos e cadências. Em certos momentos, linhas vocais diferentes cantam simultaneamente a invocação e a resposta, flexibilizando o padrão literário da oração.[28]

Nenhuma designação única de período descreve adequadamente esse repertório. Musicólogos identificaram traços do barroco tardio, do rococó, do estilo galante e do classicismo na música sacra de Minas Gerais. Escrita de baixo contínuo, sequências e exibição solística podem coexistir com coros homofônicos, estruturas frasais equilibradas e planejamento tonal clássico.[8] Nas obras aqui estudadas, contrastes concertantes e motivos orquestrais recorrentes convivem com formas compactas e uma organização tonal clara. Suas forças vocais e instrumentais também correspondem às pequenas companhias documentadas em outras vilas mineradoras.[8]

Manuscritos, transmissão e autoria

O autógrafo de Maria Mater Gratiae está catalogado como MI-FCLange 036 no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Traz o nome do compositor e a data de 1787.[30][7] Grande parte da música das Minas coloniais circulou em partes vocais e instrumentais separadas, e não em partituras completas.[8] Uma assinatura nesse tipo de material pode indicar propriedade, em vez de autoria. Copistas podiam alterar a instrumentação para adaptá-la aos músicos disponíveis, abreviar trechos litúrgicos ou acrescentar introduções e finais instrumentais. Uma inscrição na folha de rosto não basta para determinar a autoria sem a comparação da caligrafia, do papel e da música.[11]

A ladainha em dó maior possui uma história de transmissão excepcionalmente detalhada. A fonte utilizada em sua primeira partitura moderna pertencia à coleção particular de Aluizio José Viegas e baseava-se em cópias de Presciliano Silva e outros músicos. Partes conservadas no arquivo do Pão de Santo Antônio, em Diamantina, foram copiadas por Francisco Bazílio da Silva Ribeiro em 1872, por um copista não identificado em 1874, por Modesto Antônio Ferreira em 1891 e por Josephino Ribeiro Pistom em 1896. A folha de rosto de Ribeiro indica Marcos Coelho Neto e relaciona quatro vozes, dois violinos, oboés, trompas e baixos. Aluizio José Viegas e Geraldo Barbosa prepararam a partitura moderna original.[1]

A partitura da Funarte de 2020 é uma edição prática, e não crítica. Foi preparada a partir de arquivos eletrônicos produzidos por José Staneck em 1997 e de edições anteriores. Os editores não tiveram acesso direto aos manuscritos e descrevem sua reconstrução como conjectural e desprovida de aparato crítico.[1] Curt Lange havia publicado Maria Mater Gratiae no primeiro volume de seu Archivo de Música Religiosa de la Capitania Geral das Minas Gerais, em 1951.[7] A Edusp publicou, em 1994, a ladainha em ré maior da coleção do Museu da Inconfidência, seguida, em 1999, por partituras restauradas de Salve Regina e Crucem Tuam.[25][26]

A autoria do músico mais jovem não pode ser afirmada com o mesmo grau de segurança para todas as composições. O Música Brasilis atribui à pesquisa caligráfica de Carlos Alberto Baltazar a identificação dos manuscritos autógrafos sobreviventes, e possivelmente da maior parte do repertório, como obras do filho.[27] Outras publicações mantêm ressalvas. A Funarte identifica a ladainha em dó maior apenas como uma obra que se acredita ser do filho, enquanto o estudo da UFSJ deixa sem solução a autoria da ladainha em ré maior entre os dois homens.[1][28] A análise de Maria Mater Gratiae publicada por Crespo Filho em 1990 tratou seu compositor como o músico morto em 1806, mostrando como a obra foi anteriormente atribuída ao pai.[7]

O responsório fúnebre antes incluído entre as obras de Coelho Neto tem atribuição ainda menos segura. Seu manuscrito, na coleção Vespasiano Gregório dos Santos, traz apenas o título Responsório de Marcos. Márcio Miranda Pontes o catalogou em nome de Coelho Neto, mas seu estilo difere das outras músicas ligadas a esse nome, e Marcelo Hazan propôs uma data em torno de meados do século XIX. Sua incomum parte de trompete solo levou à sugestão de que o Coelho Neto mais jovem, trompetista, poderia tê-lo composto, mas nenhuma composição ou documento corroborante foi identificado. A obra permanece sem atribuição.[27]

Obras

Pai e filho assinavam o mesmo nome; portanto, um manuscrito que indique “Marcos Coelho Neto” não pode, por si só, ser atribuído ao músico mais jovem. A coluna final distingue material autógrafo, cópias manuscritas, edições modernas e obras cuja autoria continua sem solução.

ObraGênero ou uso litúrgicoInstrumentaçãoFonte e situação da autoria
Maria Mater Gratiae (1787)Hino marianoQuatro partes vocais, dois violinos, viola, duas trompas e baixo[7]O autógrafo é conservado pelo Museu da Inconfidência sob a cota MI-FCLange 036.[30] Francisco Curt Lange atribuiu a obra ao pai. Carlos Alberto Baltazar e Régis Duprat sustentaram que o filho seria o compositor mais provável. A questão permanece sem solução.[9]
Ladainha de Nossa Senhora a quatro, em dó maior, também chamada Ladainha das trompasLadainha Lauretana, destinada ao uso durante uma novenaQuatro partes vocais, dois oboés, duas trompas, dois violinos, viola e baixoA edição da Funarte atribui provisoriamente a obra ao filho. Seu texto musical foi preparado a partir de cópias do século XIX, entre elas manuscritos datados de 1872, 1874, 1891 e 1896.[1]
Ladainha em RéLadainha LauretanaQuatro partes vocais, duas trompas, dois violinos, viola e contrabaixoO manuscrito pertence à coleção do Museu da Inconfidência e foi publicado no primeiro volume da Edusp, em 1994. Carlos Alberto Baltazar coordenou o volume, Régis Duprat o organizou, e as transcrições são creditadas conjuntamente a Baltazar e Conceição Resende; a editora não identifica o transcritor da obra individual.[25] A fonte musical não permite determinar se ela foi composta pelo pai ou pelo filho.[28]
Salve ReginaAntífona marianaUma gravação de 1997 emprega conjunto vocal, duas flautas e cordas.[31]Uma partitura restaurada da coleção do Museu da Inconfidência foi publicada pela Edusp em 1999. O volume credita suas transcrições coletivamente a Carlos Alberto Baltazar, Maria Alice Volpe, Mary Angela Biason e Régis Duprat, sem atribuir esta peça a um transcritor específico. Emprega o nome compartilhado sem optar entre pai e filho.[26]
Crucem TuamAntífona para a Adoração da Cruz na Sexta-feira Santa[29]Uma gravação de 1997 emprega dois oboés, dois violinos e contínuo.[31]Uma partitura restaurada da coleção do Museu da Inconfidência foi publicada pela Edusp em 1999. O volume credita suas transcrições coletivamente a Carlos Alberto Baltazar, Maria Alice Volpe, Mary Angela Biason e Régis Duprat, sem atribuir esta peça a um transcritor específico. Emprega o nome compartilhado sem optar entre pai e filho.[26]
Domine hyssopo, também catalogada como Asperges meAntífonaNão informada no catálogoRegistrada sem data sob o nome compartilhado; o catálogo não determina se foi composta pelo pai ou pelo filho.[27]
Ladainha em FáLadainha LauretanaNão informada no catálogoRegistrada sem data sob o nome compartilhado; o catálogo não determina se foi composta pelo pai ou pelo filho.[27]
Responsórios de Santo Antônio (1799 e conjunto não datado)Responsórios para Santo AntônioNão informada no catálogoO catálogo relaciona um conjunto datado de 1799 e outro sem data. Nenhum deles foi atribuído com segurança ao pai ou ao filho.[27]
Responsório fúnebre, também catalogado como Responsório para encomendação de defuntosResponsório para os ritos dos mortosQuatro partes vocais, flauta, clarinete, saxofone, trompete, duas trompas, oficleide e cordasO manuscrito da coleção Vespasiano Gregório dos Santos traz apenas o cabeçalho “De Marcos”. Seu conjunto de partes inclui saxofone e oficleide.[32] Marcelo Hazan propôs uma data de meados do século XIX, e a autoria da obra continua duvidosa.[27]

Redescoberta e recepção

Redescoberta no século XX

A redescoberta moderna de Coelho Neto começou com o trabalho de Francisco Curt Lange em Minas Gerais, de 1944 a 1946. Lange reuniu papéis de música em Ouro Preto e outras cidades para a coleção que leva seu nome.[10] A coleção contém a partitura autógrafa de Maria Mater Gratiae, datada de 1787 e catalogada como MI-FCLange 036.[30] Seu primeiro estudo extenso sobre a música da região, “La música en Minas Gerais: un informe preliminar”, foi publicado no sexto volume do Boletín Latino-Americano de Música, em 1946.[33]

Em 1951, Lange editou Maria Mater Gratiae para a primeira antologia impressa dedicada à música setecentista de Minas Gerais, Archivo de música religiosa de la "Capitania Geral das Minas Gerais". Publicado pela Universidade Nacional de Cuyo, em Mendoza, o volume reuniu o hino de Coelho Neto a obras de Francisco Gomes da Rocha e José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita.[34][35] Lange preparou o hino para quatro vozes, violinos, viola, trompa e baixo e forneceu notas biográficas em seu prefácio, “La música en Minas Gerais en el siglo XVIII”.[10] Voltou aos dois músicos homônimos na continuação de “La música en Villa Rica”, de 1968. Uma relação municipal ali reproduzida identifica os trompistas como “Marcos Coelho Pay ou Freire” e “Marcos Coelho Filho”, mantendo pai e filho separados.[3]

Os concertos de 1958 provocaram críticas à guarda dos documentos por Lange e às alterações feitas em suas “restaurações”. A controvérsia, conhecida como caso Curt Lange, estendeu-se pelos jornais brasileiros e pela produção musicológica até 1983.[10] A coleção de manuscritos ingressou no Museu da Inconfidência em 1983, quando o museu criou sua seção de musicologia sob a direção de Régis Duprat.[36] Duprat e Carlos Alberto Baltazar catalogaram seus compositores mineiros em 1991.[37] Carlos Alberto Figueiredo classifica a partitura de Lange de 1951 como uma edição prática para execução: ela acrescenta dinâmica, articulação e outras indicações, mas não identifica sua fonte manuscrita nem fornece aparato crítico.[35] Lange atribuiu Maria Mater Gratiae ao Marcos Coelho Neto mais velho. O estudo caligráfico de Baltazar e Duprat favoreceu o filho, enquanto Suzel Ana Reily adverte que o nome compartilhado ainda impede uma atribuição conclusiva.[9]

Edições, apresentações e gravações

As apresentações seguiram-se à publicação de 1951. As três obras da antologia de Lange foram executadas em San Miguel de Tucumán em 29 de abril de 1952. Concertos em Porto Alegre, Novo Hamburgo e São Leopoldo ocorreram de 21 a 23 de setembro. Outras apresentações aconteceram em Mendoza e Karlsruhe, em 1955, e na Argentina, em 28 de setembro de 1957.[10] Em 14 de junho de 1958, a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Associação de Canto Coral apresentaram Maria Mater Gratiae no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro. Cleofe Person de Mattos preparou o coro e Edoardo de Guarnieri regeu. O selo Festa lançou o concerto ao vivo em dois volumes de LP. Maria Mater Gratiae foi incluído em Mestres do Barroco Mineiro (Século XVIII), Vol. II, número de catálogo LDR 5006. Uma reedição em CD utilizou a fita original de 1958.[10][12]

Novas gravações ampliaram gradualmente a seleção para além desse hino. A orquestra sinfônica e o coro da Escola de Música da UFMG gravaram a ladainha em ré maior sob a direção de Ângela Pinto Coelho para o LP de 1990 A Música das Minas Gerais do Século XVIII. O Ensemble Turicum, sediado na Suíça e dirigido por Luiz Alves da Silva, incluiu Maria Mater Gratiae no álbum da Claves Sacred Music from 18th Century Brazil, de 1995.[38][39] O Ars Nova, coro da UFMG regido por Carlos Alberto Pinto Fonseca, gravou o hino em 1996. Em 1997, o Brasilessentia Grupo Vocal e Orquestra, regido por Vítor Gabriel de Araújo, gravou Salve Regina e Crucem Tuam para o álbum da Paulus Música do Brasil Colonial: Compositores Mineiros.[12]

As edições impressas também ampliaram o repertório disponível aos intérpretes. O primeiro volume de Música do Brasil Colonial, da Edusp, publicado em 1994, contém a ladainha em ré maior. Carlos Alberto Baltazar coordenou o volume, Régis Duprat o organizou, e Baltazar e Conceição Resende são creditados conjuntamente pelas transcrições.[25] O segundo volume, publicado em 1999, contém Salve Regina e Crucem Tuam, transcritos de manuscritos do Museu da Inconfidência. O volume credita as transcrições coletivamente a Baltazar, Maria Alice Volpe, Mary Angela Biason e Régis Duprat.[26] Em 2020, a Funarte lançou uma edição para download da Ladainha de Nossa Senhora a 4 no primeiro volume de sua Coleção Música Sacra Mineira, editado por Figueiredo.

Marcos Coelho Neto: O Legado Musical de Pai e Filho no Ouro de Vila Rica

Marcos Coelho Neto (cujo nascimento oscila entre 1763 e 1776, falecendo em 1823) refere-se, na verdade, a uma dupla de músicos cruciais — pai e filho — que moldaram a paisagem sonora, sacra e festiva de Vila Rica (atual Ouro Preto), capital da Capitania de Minas Gerais, entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX.

Frequentemente distinguidos pela historiografia como Marcos Coelho Neto Pai (morto em 1806) e Marcos Coelho Neto Filho, ambos deixaram uma marca indelével como instrumentistas (trompa, clarim e trompete), regentes e compositores de um repertório sacro que funde elementos barrocos, galantes e clássicos.

👨‍👩‍👦 Família, Identidade e Ambiguidade Historiográfica

A reconstrução biográfica e musicológica destes artistas é profundamente desafiada pela homonímia. Pai e filho partilhavam o mesmo nome, trabalhavam nas mesmas instituições e integravam as mesmas irmandades, o que faz com que a maioria dos documentos da época mencione apenas o nome "Marcos Coelho Neto" (ou a variante Coelho Netto).

A Divergência das Datas de Nascimento

  • O Filho: A data exata do nascimento do filho é incerta. O musicólogo Francisco Curt Lange apontou um registro de batismo de 1763 para o filho primogênito, data amplamente adotada por catálogos. No entanto, o Recenseamento de Vila Rica de 1804 regista o músico com 28 anos, apontando para um nascimento por volta de 1776.

  • O Pai: No mesmo recenseamento de 1804, o pai surge com 58 anos (nascido por volta de 1746), atuando como timpanista do regimento, enquanto o filho servia como trompetista. O pai viria a falecer em 1806.

Origens Sociais e Irmandades

Ambos pertenceram a importantes irmandades de Vila Rica:

  • Irmandade de São José dos Homens Pardos

  • Irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Cima

Embora Curt Lange os tenha associado a uma ascendência mulata com base nestas filiações, pesquisas recentes apontam que a pertença a uma irmandade não determina por si só a origem étnica ou familiar, não existindo documentação conclusiva que comprove a tese de que o pai teria sido escravizado.

🎺 Atuação Profissional e Vida Musical em Vila Rica

A vida artística em Vila Rica girava em torno de capelas, festividades religiosas e compromissos oficiais contratados pelo Senado da Câmara através de arrematações públicas.

  • Instrumentistas Polivalentes: Os registros mostram que tocavam primorosamente instrumentos de sopro demetal — identificados nas fontes como trompa, clarim e trompete. Participaram conjuntamente em festividades reais (como as de 1786 na Casa da Ópera) e em Te Deums solenes.

  • Liderança em São José: O filho destacou-se particularmente na Irmandade de São José dos Homens Pardos, onde foi contratado por oito vezes como regente da novena e da festa do padroeiro, consolidando um papel de liderança musical de destaque.

  • A Defesa dos Músicos (1812): Em agosto de 1812, o filho foi o segundo signatário de uma petição subscrita por 31 "professores da arte da música" para fundar uma Irmandade de Santa Cecília na matriz de Ouro Preto, visando proteger a classe das constantes exigências de atuações não remuneradas.

  • Apogeu e Declínio: O filho alcançou o topo da carreira profissional ao vencer os contratos municipais de música de Vila Rica em 1814 e 1815, encarregando-se de liderar os conjuntos nas cerimónias públicas. Nos seus últimos anos, enfrentou incapacidade mental, vindo a falecer em 1823.

🎶 O Repertório Sacro: Entre o Pai e o Filho

A música atribuída ao nome Marcos Coelho Neto compreende um valioso acervo de obras sacras em latim, escritas tipicamente para pequenos agrupamentos profissionais (quatro partes vocais, cordas, baixo e pares de sopros, como oboés ou trompas).

Principais Obras do Acervo

  1. Maria Mater Gratiae (1787): Hino mariano datado de 29 de novembro de 1787, considerado uma das joias do repertório mineiro setecentista. Apresenta uma introdução orquestral coesa e escrita concertante.

  2. Ladainhas Lauretanas: Destacando-se a Ladainha em Dó Maior (informalmente conhecida como a "Ladainha das trompas", devido ao uso proeminente destes instrumentos) e a Ladainha em Ré Maior (estruturada em quatro movimentos minuciosamente adaptados ao texto litúrgico).

  3. Antífonas e Responsórios: Inclui o hino Salve Regina, a antífona Crucem Tuam (para a Adoração da Cruz na Sexta-feira Santa), além de ladainhas em Fá e responsórios dedicados a Santo Antônio.

Estilo Musical

A crítica musicológica aponta que este repertório desafia uma única rotulação estilística, coexistindo elementos do barroco tardio (baixo contínuo, sequências harmónicas, escrita concertante) com traços do estilo galante e do classicismo (frases equilibradas, estruturas tonais simétricas e texturas homofônicas claras).

O Dilema da Autoria

Devido à homonímia, determinar com precisão absoluta qual das obras pertence ao pai ou ao filho permanece um desafio científico. Enquanto análises caligráficas recentes (lideradas por investigadores como Carlos Alberto Baltazar e Régis Duprat) inclinam-se a atribuir grande parte do repertório ao filho, outros especialistas mantêm reservas, persistindo atribuições divididas ou em aberto na literatura musicológica.

🔄 Redescoberta e Recepção Moderna

A música de Marcos Coelho Neto esteve esquecida durante gerações até ser resgatada e devolvida aos palcos no século XX:

  • O Pioneirismo de Francisco Curt Lange (1944–1946): O musicólogo recolheu manuscritos em Minas Gerais, incluindo o autógrafo original de Maria Mater Gratiae (hoje guardado no Museu da Inconfidência sob a cota MI-FCLange 036). Lange publicou a obra em 1951 no primeiro volume do seu Archivo de Música Religiosa de la Capitania Geral das Minas Gerais.

  • Circulação Internacional e Gravações: A partir de 1952, as obras começaram a ser executadas na Argentina, Alemanha e em palcos emblemáticos do Brasil — como a célebre interpretação da Orquestra Sinfônica Brasileira e da Associação de Canto Coral no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1958.

  • Edições Académicas (Edusp e Funarte): Nas décadas de 1990 e 2020, editoras universitárias e institucionais (como a Edusp com a coleção Música do Brasil Colonial e a Funarte com a Coleção Música Sacra Mineira) editaram e gravaram em CD novas partituras restauradas, garantindo que a genialidade musical nascida em Vila Rica continue viva e acessível aos intérpretes e ao público contemporâneo.