segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Marcos Coelho Neto: O Legado Musical de Pai e Filho no Ouro de Vila Rica

 

Marcos Coelho Neto
Informações gerais
Nascimento1763 ou c. 1776
Vila Rica, Capitania de Minas Gerais, Brasil Colônia
Morte1823
Nacionalidadebrasileiro
OcupaçãoCompositor e regente
Instrumento(s)Trompa, clarim e trompete

Marcos Coelho Neto (nascido em 1763 ou por volta de 1776; morto em 1823), também grafado Marcos Coelho Netto e frequentemente chamado de Marcos Coelho Neto Filho para distingui-lo do pai homônimo, foi um compositor, regente e instrumentista brasileiro. Desenvolveu sua carreira em Vila Rica, capital da Capitania de Minas Gerais, onde tocou trompa, clarim e trompete.[1][2]

Coelho Neto e seu pai participaram das festividades reais de 1786 na Casa da Ópera. Em 1804, o filho era trompetista do Primeiro Regimento de Milícias, enquanto o pai servia como timpanista do regimento.[3][4][5] Pertenceu às irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês de Cima, tocando em suas cerimônias e dirigindo repetidas vezes a novena e a festa de São José. Em 1812, juntou-se a outros trinta músicos em uma petição para fundar uma irmandade de Santa Cecília e limitar as exigências de apresentações não remuneradas. Venceu os contratos municipais de música de Vila Rica em 1814 e 1815, dirigindo os cantores e instrumentistas contratados para as cerimônias públicas.[6]

Grande parte da música sacra que traz o nome Marcos Coelho Neto não pode ser atribuída com segurança ao pai ou ao filho. O repertório compreende o hino Maria Mater Gratiae, de 1787, versões da Ladainha Lauretana em dó, ré e fá, as antífonas Salve Regina e Crucem Tuam e responsórios para Santo Antônio. Essas obras empregam, em geral, quatro partes vocais, cordas, baixo e pares de instrumentos de sopro. Análises de peças específicas identificam elementos barrocos, galantes e clássicos em sua escrita vocal, harmonia e forma.[7][8] A análise da caligrafia favorece o filho como autor de grande parte do repertório, embora alguns estudiosos atribuam obras específicas ao pai ou deixem a questão em aberto.[9]

A música voltou a ser executada graças ao trabalho de Francisco Curt Lange em Minas Gerais entre 1944 e 1946. Entre os manuscritos que ele reuniu estava a partitura autógrafa de Maria Mater Gratiae, datada de 1787 e hoje conservada no Museu da Inconfidência.[10][11] Lange publicou o hino em 1951, ao que se seguiram apresentações na Argentina e no Brasil e uma gravação realizada no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, em 1958. Outras partituras, apresentações e gravações ampliaram o repertório disponível, sem resolver a divisão das obras entre pai e filho.[10][12]

Vida e carreira

Família e identidade

Marcos Coelho Neto nasceu em Vila Rica, então capital da Capitania de Minas Gerais, mas a data exata de seu nascimento é desconhecida. Francisco Curt Lange informou a existência de um registro de batismo de 1763 para o filho primogênito de Marcos Coelho Neto, data posteriormente adotada por catálogos e edições institucionais.[13][1] O recenseamento de Vila Rica de 1804, no entanto, registra o músico com 28 anos, o que indicaria um nascimento por volta de 1776.[2] A divergência permanece sem solução, e 1763–1823 continua sendo a cronologia convencionalmente mais utilizada.

A reconstrução de sua biografia é dificultada pela homonímia com o pai, também músico em Vila Rica e morto em 1806. O recenseamento de 1804 é um dos poucos documentos que os distingue claramente: nele, Coelho Neto aparece como trompetista do Primeiro Regimento de Milícias, aos 28 anos, enquanto seu pai, de 58, servia como timpanista.[5][2] Como ambos trabalharam para algumas das mesmas instituições, muitos documentos registram apenas o nome “Marcos Coelho Neto”. Por conveniência, a historiografia costuma diferenciá-los como pai e filho, embora “Marcos Coelho Neto Filho” não tenha sido uma forma usada de maneira constante em sua época. A variante Coelho Netto também é encontrada nas fontes.[14][15] Essa ambiguidade se estende aos manuscritos musicais, e a atribuição de algumas obras continua controvertida.[14][7][1]

Coelho Neto pertenceu, assim como o pai, às irmandades de São José dos Homens Pardos e de Nossa Senhora das Mercês de Cima. Lange baseou-se principalmente nessa associação para descrevê-los como mulatos, mas pesquisas mais recentes observam que a filiação a uma irmandade não basta, por si só, para determinar a ascendência de uma pessoa.[16] A documentação conhecida não permite definir com maior precisão a origem familiar de Coelho Neto nem sustenta a afirmação, reproduzida em algumas fontes modernas, de que seu pai teria sido escravizado.

Atuação profissional em Vila Rica

Coelho Neto começa a aparecer com clareza nos registros municipais em 1785, quando uma relação de músicos o identifica como segunda trompa, ao lado do pai, que tocava a primeira. No ano seguinte, participou como segundo clarim das festividades reais de Vila Rica. Voltou a ser contratado como segunda trompa em 1789 e 1791 e como segundo clarim em um Te Deum de 1792. Outras duas relações, não datadas, também o registram entre os trompistas nos últimos anos do século XVIII. Esses documentos mostram que tocava trompa, clarim e trompete — instrumentos mencionados nas fontes da época como trompa, clarim e trombeta.[3]

Para as festas anuais e celebrações extraordinárias, o Senado da Câmara contratava a música por meio de arrematações públicas. O vencedor ficava responsável por reunir os cantores e instrumentistas e providenciar o repertório necessário. Antes de conquistar contratos em seu próprio nome, Coelho Neto participou de conjuntos organizados por outros mestres de música.[6]

Uma dessas ocasiões foram as festas de maio de 1786, realizadas para celebrar os casamentos entre as famílias reais de Portugal e Espanha.[17] A programação da Casa da Ópera incluía três óperas e dois dramas. Uma prestação de contas de 29 de dezembro registra despesas com a orquestra, a cópia e o ensino da música, os intérpretes, os figurinos, a iluminação, os cenários e os mecanismos de palco.[4] Marcos Coelho e o filho receberam conjuntamente cinco oitavas e doze vinténs de ouro, mas o documento não informa quanto coube a cada um nem qual foi a função desempenhada por Coelho Neto.[6] O registro comprova sua participação no conjunto do teatro, mas não indica que tenha ocupado um posto permanente na Casa da Ópera ou dirigido as produções.

Em 1804, Coelho Neto aparece no recenseamento de Vila Rica como trompetista do Primeiro Regimento de Milícias.[5] Em agosto de 1812, foi o segundo dos 31 “professores da arte da música” que assinaram uma petição para criar uma Irmandade de Santa Cecília na igreja matriz de Ouro Preto. O grupo pretendia se proteger das frequentes exigências de apresentações sem pagamento.[6] Sua posição profissional já estava consolidada quando venceu as arrematações municipais de música em 1814 e 1815. Recebeu 56$000 réis em cada ano e, como regente, encarregou-se de reunir e preparar os músicos para as festividades promovidas pelo Senado da Câmara.[6][3]

Sua trajetória como instrumentista e regente é mais fácil de acompanhar do que seu trabalho como compositor. Como os manuscritos trazem apenas o nome “Marcos Coelho Neto”, nem sempre é possível saber qual dos dois músicos os escreveu. Paulo Castagna atribui ao filho as composições sacras registradas sob esse nome, enquanto Harry Crowl as atribui ao pai e Sílvio Crespo Filho considera o Himno a 4, de 1787, uma obra do músico mais velho.[14][18][7]

Irmandades e música religiosa

Coelho Neto pertenceu à Irmandade de São José dos Homens Pardos e à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Cima. Tocou trompa e clarim para as duas associações.[14] Em São José, foi contratado oito vezes como regente da novena e da festa do padroeiro, o maior total entre os dezesseis regentes contratados de 1759 a 1815. Esses acordos normalmente eram feitos de forma oral nas reuniões da mesa administrativa, cujas atas frequentemente omitiam o nome do regente.[19]

A festa combinava uma novena com a exposição eucarística em 19 de março. Antes de a renda da irmandade diminuir, a partir de 1819, a música para a novena e a festa normalmente custava entre vinte e 35 oitavas de ouro, divididas entre o regente e seu conjunto. A capela também contratava músicos para a festa de Nossa Senhora do Parto, cuja imagem ficava em um altar lateral.[20]

São José unia o patrocínio religioso a vínculos profissionais e sociais. Os músicos constituíam cerca de um quinto dos membros cujas ocupações são conhecidas, e 55 músicos exerceram cargos ou integraram a mesa administrativa entre 1727 e 1822.[21] O próprio círculo de Coelho Neto pode ser identificado na aprovação do testamento do compositor Francisco Gomes da Rocha, em 1809. Coelho Neto e Caetano Rodrigues da Silva, o moço, serviram como testemunhas. O testamenteiro e a terceira testemunha também eram membros de São José.[22]

Em agosto de 1812, Coelho Neto juntou-se a Florêncio José Ferreira Coutinho, João de Deus de Castro Lobo e outros músicos profissionais em uma petição para criar uma irmandade dedicada a Santa Cecília na igreja matriz de Nossa Senhora do Pilar. A petição pretendia limitar as apresentações não remuneradas em oratórios particulares, igrejas, funerais e outras cerimônias com música.[6] Os estatutos da irmandade, de 1815, repetiram essa restrição, mas o príncipe regente João suprimiu a cláusula que teria proibido serviços gratuitos em cerimônias particulares. A Irmandade de Santa Cecília transferiu-se para um altar lateral de São José em 1823, depois de seus membros declararem que a maioria deles também pertencia a São José.[23]

Últimos anos e morte

Coelho Neto foi casado com Joana Teixeira da Silva e ensinou música ao filho dela, João Antônio Teixeira Rijo. Mais tarde, Rijo obteve renda como músico. Em 1823, Coelho Neto havia se tornado mentalmente incapaz, e naquele ano foi publicado um aviso que exigia a realização do inventário de seus bens. Morreu em 1823.[24][1]

Música

Repertório sacro e função litúrgica

As composições relacionadas ao nome Marcos Coelho Neto formam um repertório sacro sobre textos em latim. Incluem o hino mariano Maria Mater Gratiae, as antífonas Salve Regina e Crucem Tuam, ladainhas em dó, ré e fá e responsórios para Santo Antônio.[25][26][27]

Maria Mater Gratiae, datado de 29 de novembro de 1787, foi escrito para quatro partes vocais, violinos, viola, trompas e baixo. Suas duas estrofes pedem a Maria que proteja os fiéis do inimigo e os receba na hora da morte, e em seguida oferecem uma doxologia a Cristo, ao Pai e ao Espírito Santo.[7] As ladainhas musicam a Ladainha Lauretana. Tais composições faziam parte das novenas, práticas paralitúrgicas realizadas durante nove dias em preparação para a festa de um santo. A ladainha em dó maior requer quatro partes vocais, dois oboés, duas trompas, dois violinos, viola e baixo.[1] A ladainha em ré maior emprega quatro partes vocais, duas trompas, dois violinos, viola e contrabaixo.[28]

Salve Regina pertence ao repertório de antífonas marianas. Crucem Tuam musica um texto para a adoração da Cruz na Sexta-feira Santa, enquanto os responsórios datados de 1799 se relacionam à devoção a Santo Antônio.[26][29][27]

Essa música era executada por pequenos grupos profissionais, e não por orquestras permanentes no sentido moderno. Nas Minas Gerais do século XVIII, uma companhia de música ou um partido de música habitual reunia quatro partes vocais, por vezes dobradas, a cordas, baixo e pares de flautas, oboés ou trompas. Irmandades e senados municipais contratavam mestres de música para organizar esses grupos, compor para festas religiosas e fornecer música para cerimônias ligadas à corte portuguesa.[8] As próprias obras em latim mantinham uma função religiosa, ainda que seus intérpretes também atuassem em cerimônias teatrais, militares e municipais.

Estilo musical e prática de execução

A introdução orquestral de Maria Mater Gratiae apresenta os principais motivos da obra. Eles retornam nos violinos, ligam as frases vocais e ajudam a dar unidade à breve composição. O contralto inicia a primeira passagem coral em diálogo concertante com as outras vozes, seguido por uma escrita predominantemente homofônica. O plano tonal parte de si menor, passa a seu relativo maior, ré maior, e por sol maior antes de retornar a si menor. Sílvio Crespo Filho caracterizou como barrocos a expressão, as sequências harmônicas e a escrita temática orquestral da obra, ao mesmo tempo que identificou traços clássicos em suas frases equilibradas, no plano tonal simétrico e no desenvolvimento temático.[7]

A Ladainha de Nossa Senhora a quatro, em dó maior, atribuída provisoriamente ao Coelho Neto mais jovem, também utiliza escrita concertante. Passagens corais completas alternam-se com solos e duetos. Uma introdução instrumental e interlúdios conduzem as transições tonais, enquanto os motivos recorrentes variam de uma escrita diatônica a outra mais cromática. O percurso tonal alcança si bemol maior e dó menor a partir do centro principal de dó maior. As trompas soam durante grande parte da peça, o que lhe rendeu o título informal de Ladainha das trompas.[1]

A ladainha em ré maior tem 196 compassos divididos em quatro movimentos: um Allegro, um Largo molto de seis compassos, um extenso Andante levado e um Allegro final. A divisão acompanha a estrutura da oração. O primeiro movimento musica o Kyrie e as invocações à Trindade; o segundo introduz “Sancta Maria”; o terceiro contém os títulos marianos; e o quarto musica o Agnus Dei. No terceiro movimento, as invocações e o “ora pro nobis” repetido passam por solos seccionais, duetos, escrita coral homorrítmica, passagens em uníssono, ostinatos e cadências. Em certos momentos, linhas vocais diferentes cantam simultaneamente a invocação e a resposta, flexibilizando o padrão literário da oração.[28]

Nenhuma designação única de período descreve adequadamente esse repertório. Musicólogos identificaram traços do barroco tardio, do rococó, do estilo galante e do classicismo na música sacra de Minas Gerais. Escrita de baixo contínuo, sequências e exibição solística podem coexistir com coros homofônicos, estruturas frasais equilibradas e planejamento tonal clássico.[8] Nas obras aqui estudadas, contrastes concertantes e motivos orquestrais recorrentes convivem com formas compactas e uma organização tonal clara. Suas forças vocais e instrumentais também correspondem às pequenas companhias documentadas em outras vilas mineradoras.[8]

Manuscritos, transmissão e autoria

O autógrafo de Maria Mater Gratiae está catalogado como MI-FCLange 036 no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Traz o nome do compositor e a data de 1787.[30][7] Grande parte da música das Minas coloniais circulou em partes vocais e instrumentais separadas, e não em partituras completas.[8] Uma assinatura nesse tipo de material pode indicar propriedade, em vez de autoria. Copistas podiam alterar a instrumentação para adaptá-la aos músicos disponíveis, abreviar trechos litúrgicos ou acrescentar introduções e finais instrumentais. Uma inscrição na folha de rosto não basta para determinar a autoria sem a comparação da caligrafia, do papel e da música.[11]

A ladainha em dó maior possui uma história de transmissão excepcionalmente detalhada. A fonte utilizada em sua primeira partitura moderna pertencia à coleção particular de Aluizio José Viegas e baseava-se em cópias de Presciliano Silva e outros músicos. Partes conservadas no arquivo do Pão de Santo Antônio, em Diamantina, foram copiadas por Francisco Bazílio da Silva Ribeiro em 1872, por um copista não identificado em 1874, por Modesto Antônio Ferreira em 1891 e por Josephino Ribeiro Pistom em 1896. A folha de rosto de Ribeiro indica Marcos Coelho Neto e relaciona quatro vozes, dois violinos, oboés, trompas e baixos. Aluizio José Viegas e Geraldo Barbosa prepararam a partitura moderna original.[1]

A partitura da Funarte de 2020 é uma edição prática, e não crítica. Foi preparada a partir de arquivos eletrônicos produzidos por José Staneck em 1997 e de edições anteriores. Os editores não tiveram acesso direto aos manuscritos e descrevem sua reconstrução como conjectural e desprovida de aparato crítico.[1] Curt Lange havia publicado Maria Mater Gratiae no primeiro volume de seu Archivo de Música Religiosa de la Capitania Geral das Minas Gerais, em 1951.[7] A Edusp publicou, em 1994, a ladainha em ré maior da coleção do Museu da Inconfidência, seguida, em 1999, por partituras restauradas de Salve Regina e Crucem Tuam.[25][26]

A autoria do músico mais jovem não pode ser afirmada com o mesmo grau de segurança para todas as composições. O Música Brasilis atribui à pesquisa caligráfica de Carlos Alberto Baltazar a identificação dos manuscritos autógrafos sobreviventes, e possivelmente da maior parte do repertório, como obras do filho.[27] Outras publicações mantêm ressalvas. A Funarte identifica a ladainha em dó maior apenas como uma obra que se acredita ser do filho, enquanto o estudo da UFSJ deixa sem solução a autoria da ladainha em ré maior entre os dois homens.[1][28] A análise de Maria Mater Gratiae publicada por Crespo Filho em 1990 tratou seu compositor como o músico morto em 1806, mostrando como a obra foi anteriormente atribuída ao pai.[7]

O responsório fúnebre antes incluído entre as obras de Coelho Neto tem atribuição ainda menos segura. Seu manuscrito, na coleção Vespasiano Gregório dos Santos, traz apenas o título Responsório de Marcos. Márcio Miranda Pontes o catalogou em nome de Coelho Neto, mas seu estilo difere das outras músicas ligadas a esse nome, e Marcelo Hazan propôs uma data em torno de meados do século XIX. Sua incomum parte de trompete solo levou à sugestão de que o Coelho Neto mais jovem, trompetista, poderia tê-lo composto, mas nenhuma composição ou documento corroborante foi identificado. A obra permanece sem atribuição.[27]

Obras

Pai e filho assinavam o mesmo nome; portanto, um manuscrito que indique “Marcos Coelho Neto” não pode, por si só, ser atribuído ao músico mais jovem. A coluna final distingue material autógrafo, cópias manuscritas, edições modernas e obras cuja autoria continua sem solução.

ObraGênero ou uso litúrgicoInstrumentaçãoFonte e situação da autoria
Maria Mater Gratiae (1787)Hino marianoQuatro partes vocais, dois violinos, viola, duas trompas e baixo[7]O autógrafo é conservado pelo Museu da Inconfidência sob a cota MI-FCLange 036.[30] Francisco Curt Lange atribuiu a obra ao pai. Carlos Alberto Baltazar e Régis Duprat sustentaram que o filho seria o compositor mais provável. A questão permanece sem solução.[9]
Ladainha de Nossa Senhora a quatro, em dó maior, também chamada Ladainha das trompasLadainha Lauretana, destinada ao uso durante uma novenaQuatro partes vocais, dois oboés, duas trompas, dois violinos, viola e baixoA edição da Funarte atribui provisoriamente a obra ao filho. Seu texto musical foi preparado a partir de cópias do século XIX, entre elas manuscritos datados de 1872, 1874, 1891 e 1896.[1]
Ladainha em RéLadainha LauretanaQuatro partes vocais, duas trompas, dois violinos, viola e contrabaixoO manuscrito pertence à coleção do Museu da Inconfidência e foi publicado no primeiro volume da Edusp, em 1994. Carlos Alberto Baltazar coordenou o volume, Régis Duprat o organizou, e as transcrições são creditadas conjuntamente a Baltazar e Conceição Resende; a editora não identifica o transcritor da obra individual.[25] A fonte musical não permite determinar se ela foi composta pelo pai ou pelo filho.[28]
Salve ReginaAntífona marianaUma gravação de 1997 emprega conjunto vocal, duas flautas e cordas.[31]Uma partitura restaurada da coleção do Museu da Inconfidência foi publicada pela Edusp em 1999. O volume credita suas transcrições coletivamente a Carlos Alberto Baltazar, Maria Alice Volpe, Mary Angela Biason e Régis Duprat, sem atribuir esta peça a um transcritor específico. Emprega o nome compartilhado sem optar entre pai e filho.[26]
Crucem TuamAntífona para a Adoração da Cruz na Sexta-feira Santa[29]Uma gravação de 1997 emprega dois oboés, dois violinos e contínuo.[31]Uma partitura restaurada da coleção do Museu da Inconfidência foi publicada pela Edusp em 1999. O volume credita suas transcrições coletivamente a Carlos Alberto Baltazar, Maria Alice Volpe, Mary Angela Biason e Régis Duprat, sem atribuir esta peça a um transcritor específico. Emprega o nome compartilhado sem optar entre pai e filho.[26]
Domine hyssopo, também catalogada como Asperges meAntífonaNão informada no catálogoRegistrada sem data sob o nome compartilhado; o catálogo não determina se foi composta pelo pai ou pelo filho.[27]
Ladainha em FáLadainha LauretanaNão informada no catálogoRegistrada sem data sob o nome compartilhado; o catálogo não determina se foi composta pelo pai ou pelo filho.[27]
Responsórios de Santo Antônio (1799 e conjunto não datado)Responsórios para Santo AntônioNão informada no catálogoO catálogo relaciona um conjunto datado de 1799 e outro sem data. Nenhum deles foi atribuído com segurança ao pai ou ao filho.[27]
Responsório fúnebre, também catalogado como Responsório para encomendação de defuntosResponsório para os ritos dos mortosQuatro partes vocais, flauta, clarinete, saxofone, trompete, duas trompas, oficleide e cordasO manuscrito da coleção Vespasiano Gregório dos Santos traz apenas o cabeçalho “De Marcos”. Seu conjunto de partes inclui saxofone e oficleide.[32] Marcelo Hazan propôs uma data de meados do século XIX, e a autoria da obra continua duvidosa.[27]

Redescoberta e recepção

Redescoberta no século XX

A redescoberta moderna de Coelho Neto começou com o trabalho de Francisco Curt Lange em Minas Gerais, de 1944 a 1946. Lange reuniu papéis de música em Ouro Preto e outras cidades para a coleção que leva seu nome.[10] A coleção contém a partitura autógrafa de Maria Mater Gratiae, datada de 1787 e catalogada como MI-FCLange 036.[30] Seu primeiro estudo extenso sobre a música da região, “La música en Minas Gerais: un informe preliminar”, foi publicado no sexto volume do Boletín Latino-Americano de Música, em 1946.[33]

Em 1951, Lange editou Maria Mater Gratiae para a primeira antologia impressa dedicada à música setecentista de Minas Gerais, Archivo de música religiosa de la "Capitania Geral das Minas Gerais". Publicado pela Universidade Nacional de Cuyo, em Mendoza, o volume reuniu o hino de Coelho Neto a obras de Francisco Gomes da Rocha e José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita.[34][35] Lange preparou o hino para quatro vozes, violinos, viola, trompa e baixo e forneceu notas biográficas em seu prefácio, “La música en Minas Gerais en el siglo XVIII”.[10] Voltou aos dois músicos homônimos na continuação de “La música en Villa Rica”, de 1968. Uma relação municipal ali reproduzida identifica os trompistas como “Marcos Coelho Pay ou Freire” e “Marcos Coelho Filho”, mantendo pai e filho separados.[3]

Os concertos de 1958 provocaram críticas à guarda dos documentos por Lange e às alterações feitas em suas “restaurações”. A controvérsia, conhecida como caso Curt Lange, estendeu-se pelos jornais brasileiros e pela produção musicológica até 1983.[10] A coleção de manuscritos ingressou no Museu da Inconfidência em 1983, quando o museu criou sua seção de musicologia sob a direção de Régis Duprat.[36] Duprat e Carlos Alberto Baltazar catalogaram seus compositores mineiros em 1991.[37] Carlos Alberto Figueiredo classifica a partitura de Lange de 1951 como uma edição prática para execução: ela acrescenta dinâmica, articulação e outras indicações, mas não identifica sua fonte manuscrita nem fornece aparato crítico.[35] Lange atribuiu Maria Mater Gratiae ao Marcos Coelho Neto mais velho. O estudo caligráfico de Baltazar e Duprat favoreceu o filho, enquanto Suzel Ana Reily adverte que o nome compartilhado ainda impede uma atribuição conclusiva.[9]

Edições, apresentações e gravações

As apresentações seguiram-se à publicação de 1951. As três obras da antologia de Lange foram executadas em San Miguel de Tucumán em 29 de abril de 1952. Concertos em Porto Alegre, Novo Hamburgo e São Leopoldo ocorreram de 21 a 23 de setembro. Outras apresentações aconteceram em Mendoza e Karlsruhe, em 1955, e na Argentina, em 28 de setembro de 1957.[10] Em 14 de junho de 1958, a Orquestra Sinfônica Brasileira e a Associação de Canto Coral apresentaram Maria Mater Gratiae no Theatro Municipal, no Rio de Janeiro. Cleofe Person de Mattos preparou o coro e Edoardo de Guarnieri regeu. O selo Festa lançou o concerto ao vivo em dois volumes de LP. Maria Mater Gratiae foi incluído em Mestres do Barroco Mineiro (Século XVIII), Vol. II, número de catálogo LDR 5006. Uma reedição em CD utilizou a fita original de 1958.[10][12]

Novas gravações ampliaram gradualmente a seleção para além desse hino. A orquestra sinfônica e o coro da Escola de Música da UFMG gravaram a ladainha em ré maior sob a direção de Ângela Pinto Coelho para o LP de 1990 A Música das Minas Gerais do Século XVIII. O Ensemble Turicum, sediado na Suíça e dirigido por Luiz Alves da Silva, incluiu Maria Mater Gratiae no álbum da Claves Sacred Music from 18th Century Brazil, de 1995.[38][39] O Ars Nova, coro da UFMG regido por Carlos Alberto Pinto Fonseca, gravou o hino em 1996. Em 1997, o Brasilessentia Grupo Vocal e Orquestra, regido por Vítor Gabriel de Araújo, gravou Salve Regina e Crucem Tuam para o álbum da Paulus Música do Brasil Colonial: Compositores Mineiros.[12]

As edições impressas também ampliaram o repertório disponível aos intérpretes. O primeiro volume de Música do Brasil Colonial, da Edusp, publicado em 1994, contém a ladainha em ré maior. Carlos Alberto Baltazar coordenou o volume, Régis Duprat o organizou, e Baltazar e Conceição Resende são creditados conjuntamente pelas transcrições.[25] O segundo volume, publicado em 1999, contém Salve Regina e Crucem Tuam, transcritos de manuscritos do Museu da Inconfidência. O volume credita as transcrições coletivamente a Baltazar, Maria Alice Volpe, Mary Angela Biason e Régis Duprat.[26] Em 2020, a Funarte lançou uma edição para download da Ladainha de Nossa Senhora a 4 no primeiro volume de sua Coleção Música Sacra Mineira, editado por Figueiredo.

Marcos Coelho Neto: O Legado Musical de Pai e Filho no Ouro de Vila Rica

Marcos Coelho Neto (cujo nascimento oscila entre 1763 e 1776, falecendo em 1823) refere-se, na verdade, a uma dupla de músicos cruciais — pai e filho — que moldaram a paisagem sonora, sacra e festiva de Vila Rica (atual Ouro Preto), capital da Capitania de Minas Gerais, entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX.

Frequentemente distinguidos pela historiografia como Marcos Coelho Neto Pai (morto em 1806) e Marcos Coelho Neto Filho, ambos deixaram uma marca indelével como instrumentistas (trompa, clarim e trompete), regentes e compositores de um repertório sacro que funde elementos barrocos, galantes e clássicos.

👨‍👩‍👦 Família, Identidade e Ambiguidade Historiográfica

A reconstrução biográfica e musicológica destes artistas é profundamente desafiada pela homonímia. Pai e filho partilhavam o mesmo nome, trabalhavam nas mesmas instituições e integravam as mesmas irmandades, o que faz com que a maioria dos documentos da época mencione apenas o nome "Marcos Coelho Neto" (ou a variante Coelho Netto).

A Divergência das Datas de Nascimento

  • O Filho: A data exata do nascimento do filho é incerta. O musicólogo Francisco Curt Lange apontou um registro de batismo de 1763 para o filho primogênito, data amplamente adotada por catálogos. No entanto, o Recenseamento de Vila Rica de 1804 regista o músico com 28 anos, apontando para um nascimento por volta de 1776.

  • O Pai: No mesmo recenseamento de 1804, o pai surge com 58 anos (nascido por volta de 1746), atuando como timpanista do regimento, enquanto o filho servia como trompetista. O pai viria a falecer em 1806.

Origens Sociais e Irmandades

Ambos pertenceram a importantes irmandades de Vila Rica:

  • Irmandade de São José dos Homens Pardos

  • Irmandade de Nossa Senhora das Mercês de Cima

Embora Curt Lange os tenha associado a uma ascendência mulata com base nestas filiações, pesquisas recentes apontam que a pertença a uma irmandade não determina por si só a origem étnica ou familiar, não existindo documentação conclusiva que comprove a tese de que o pai teria sido escravizado.

🎺 Atuação Profissional e Vida Musical em Vila Rica

A vida artística em Vila Rica girava em torno de capelas, festividades religiosas e compromissos oficiais contratados pelo Senado da Câmara através de arrematações públicas.

  • Instrumentistas Polivalentes: Os registros mostram que tocavam primorosamente instrumentos de sopro demetal — identificados nas fontes como trompa, clarim e trompete. Participaram conjuntamente em festividades reais (como as de 1786 na Casa da Ópera) e em Te Deums solenes.

  • Liderança em São José: O filho destacou-se particularmente na Irmandade de São José dos Homens Pardos, onde foi contratado por oito vezes como regente da novena e da festa do padroeiro, consolidando um papel de liderança musical de destaque.

  • A Defesa dos Músicos (1812): Em agosto de 1812, o filho foi o segundo signatário de uma petição subscrita por 31 "professores da arte da música" para fundar uma Irmandade de Santa Cecília na matriz de Ouro Preto, visando proteger a classe das constantes exigências de atuações não remuneradas.

  • Apogeu e Declínio: O filho alcançou o topo da carreira profissional ao vencer os contratos municipais de música de Vila Rica em 1814 e 1815, encarregando-se de liderar os conjuntos nas cerimónias públicas. Nos seus últimos anos, enfrentou incapacidade mental, vindo a falecer em 1823.

🎶 O Repertório Sacro: Entre o Pai e o Filho

A música atribuída ao nome Marcos Coelho Neto compreende um valioso acervo de obras sacras em latim, escritas tipicamente para pequenos agrupamentos profissionais (quatro partes vocais, cordas, baixo e pares de sopros, como oboés ou trompas).

Principais Obras do Acervo

  1. Maria Mater Gratiae (1787): Hino mariano datado de 29 de novembro de 1787, considerado uma das joias do repertório mineiro setecentista. Apresenta uma introdução orquestral coesa e escrita concertante.

  2. Ladainhas Lauretanas: Destacando-se a Ladainha em Dó Maior (informalmente conhecida como a "Ladainha das trompas", devido ao uso proeminente destes instrumentos) e a Ladainha em Ré Maior (estruturada em quatro movimentos minuciosamente adaptados ao texto litúrgico).

  3. Antífonas e Responsórios: Inclui o hino Salve Regina, a antífona Crucem Tuam (para a Adoração da Cruz na Sexta-feira Santa), além de ladainhas em Fá e responsórios dedicados a Santo Antônio.

Estilo Musical

A crítica musicológica aponta que este repertório desafia uma única rotulação estilística, coexistindo elementos do barroco tardio (baixo contínuo, sequências harmónicas, escrita concertante) com traços do estilo galante e do classicismo (frases equilibradas, estruturas tonais simétricas e texturas homofônicas claras).

O Dilema da Autoria

Devido à homonímia, determinar com precisão absoluta qual das obras pertence ao pai ou ao filho permanece um desafio científico. Enquanto análises caligráficas recentes (lideradas por investigadores como Carlos Alberto Baltazar e Régis Duprat) inclinam-se a atribuir grande parte do repertório ao filho, outros especialistas mantêm reservas, persistindo atribuições divididas ou em aberto na literatura musicológica.

🔄 Redescoberta e Recepção Moderna

A música de Marcos Coelho Neto esteve esquecida durante gerações até ser resgatada e devolvida aos palcos no século XX:

  • O Pioneirismo de Francisco Curt Lange (1944–1946): O musicólogo recolheu manuscritos em Minas Gerais, incluindo o autógrafo original de Maria Mater Gratiae (hoje guardado no Museu da Inconfidência sob a cota MI-FCLange 036). Lange publicou a obra em 1951 no primeiro volume do seu Archivo de Música Religiosa de la Capitania Geral das Minas Gerais.

  • Circulação Internacional e Gravações: A partir de 1952, as obras começaram a ser executadas na Argentina, Alemanha e em palcos emblemáticos do Brasil — como a célebre interpretação da Orquestra Sinfônica Brasileira e da Associação de Canto Coral no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1958.

  • Edições Académicas (Edusp e Funarte): Nas décadas de 1990 e 2020, editoras universitárias e institucionais (como a Edusp com a coleção Música do Brasil Colonial e a Funarte com a Coleção Música Sacra Mineira) editaram e gravaram em CD novas partituras restauradas, garantindo que a genialidade musical nascida em Vila Rica continue viva e acessível aos intérpretes e ao público contemporâneo.


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